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Arte & pachorra

Pintar a Capela Sistina é coisa de principiante

Bruno Moreschi

Cadu não hesitou. Ao receber o convite para participar da 7a Bienal do Mercosul, pensou grande. Mais precisamente, imenso. O evento, que aconteceu em Porto Alegre entre outubro e novembro do ano passado, receberia o maior projeto que o artista plástico de 32 anos já concebera.

Assim foi. Os espectadores que encerravam a visita – maravilhados ou furiosos com a curadora Laura Lima, cujas convicções sobre o fato artístico autorizavam-na a despejar um caminhão de areia nos galpões da Bienal – iam para o estacionamento, ligavam o carro e partiam em plena meditação estética, sopesando os destinos da arte contemporânea. Mal sabiam que a arte continuava com eles, bem embaixo dos pneus. Estavam prestes a atropelar a obra de 70 metros matutada por Cadu.

Não estivessem eles tão absortos no encantamento ou na indignação com o que acabavam de ver, perceberiam que ao sair do estacionamento, logo ali no início da pista, teriam de se haver com 800 redutores de velocidade, daqueles que brilham no escuro e fazem o automóvel tremer. Os mais distraídos certamente encararam esse exagero de obstáculos como uma afronta ao balanceamento do carro. Entretanto, a ouvidos mais afinados com as estratégias da arte contemporânea, o efeito se impunha rápido – e sublime. Os 800 obstáculos produziam bem mais do que solavancos e tremeliques. A cada sete redutores vencidos, formava-se nos ares uma bela frase musical: Pã-pã-pã-pã-pã… Tã-tã!

Deu trabalho produzir Flat Sounds. Dois engenheiros de trânsito foram contratados pela Bienal para desenvolver um programa de computador que ajudasse Cadu a calcular a velocidade média de um veículo naquele trecho, e indicar a posição exata de cada obstáculo no asfalto. Os carros fizeram o resto. Não raro, estetas mais empolgados deram marcha à ré para fruir a obra uma segunda vez. Cadu, orgulhoso, expande seu sentimentos: “Foram seis meses de muito esforço. Tudo para uma obra que dura segundos!”

Ele começou a virar artista ao se inscrever num curso de artes do Parque Lage, escola do Rio Janeiro onde hoje é professor. Tinha então 14 anos. Desde cedo dispensou o “Carlos Eduardo” do prenome e mesmo o “Costa” do sobrenome. Quando assina uma obra, é Cadu e pronto. “O motivo é simples”, explica. “Eu sou apenas mais uma peça das minhas obras. Não gosto dessa coisa de artista cheio de ego que se acha essencial para o mundo.”

As invenções artísticas de Cadu são pouco convencionais e costumam custar caro para virem à luz. Foi em 2001 que ele começou a chamar a atenção da crítica, ao produzir desenhos com canetas esferográficas fixadas em carrinhos movidos a pilha. Em outra ocasião, contratou uma transportadora para despachar caixas de madeira da sua casa até o local onde elas seriam expostas. Dentro de cada caixa ia um sismógrafo com grafite. Cada solavanco da estrada virava um rabisco numa folha de papel. Ao chegar a seus diferentes destinos – museus e galerias de Paris, Londres e São Paulo –, a obra estava pronta: um desenho feito ao sabor do acaso.

Em outubro do ano passado, Cadu construiu uma máquina sonora e a expôs na galeria Vermelho, em São Paulo. Primeiro, reuniu todos os números premiados em dez anos de Mega-Sena, cerca de mil jogos ao todo. Então picotou os números vencedores e colou umas às outras as cartelas furadas, criando uma longa bobina que passou a ser lida por uma caixinha de música artesanal, à moda das antigas pianolas. A composição se chama Hino dos Vencedores.

 

Nada, porém, representou tanta dedicação à arte quanto a obra 12 Meses. A ideia veio da observação detalhada de contas de luz, as do próprio Cadu. Como Michelangelo olhando para o bloco de mármore, ele intuiu que ali havia mais do que o olho enxergava. E não era o David. Durante um ano, de abril de 2004 a abril de 2005, na maior surdina, Cadu controlou o consumo de energia elétrica de sua casa. Nem a namorada soube. Sua intenção era desenhar com os riscos do gráfico de consumo que vem nas contas. Cadu se propôs fazer um V – forma exatamente oposta à curva de seu próprio consumo médio ao longo de um ano, ele que não usa ar-condicionado no verão mas abusa do chuveiro elétrico durante o inverno.

Cadu pediu ajuda a um funcionário da Light, cuja incumbência era lhe dizer como andava o consumo no mês. Se estava baixo para os seus propósitos gráficos, ele voava para o chuveiro e deixava a água quente correr pelo tempo indicado por cálculos meticulosos. Se o consumo estava alto demais, a solução era banho gelado, cerveja quente e ventilador desligado. No fim das contas – literalmente, no caso –, a ponta do V tomou a forma de um vale, não de uma escarpa, mas isso não impediu que a obra fosse recebida com louvor em museus e galerias de São Paulo e do Rio e – misteriosos são os desígnios da arte – num centro cultural na cidade inglesa de Plymouth.

Agora, em pleno uso das luzes de sua casa, bem como das delícias da geladeira e do ventilador, Cadu vai dar adeus a tudo isso para elaborar sua obra mais radical. “Quero me isolar do mundo. Será por seis meses ou um ano, ainda não sei.” A inspiração vem do grande Henry Thoreau, poeta americano que, aos 28 anos de idade, construiu com as próprias mãos uma cabana em que residiu por exatos dois anos, dois meses e dois dias – segundo ele, “para sugar o tutano da vida”.

Cadu, ao longo de seu isolamento, também pretende sugar o que estiver à mão e produzir arte em abundância. Não tem noção de como construirá a cabana, mas sabe ao menos para onde se retirará: o matagal da chácara de um amigo em Friburgo, na serra fluminense. Ele explica: “Quero experimentar o tempo de outra forma” – ótima ideia cujos frutos não resultarão menos que excelentes. Torçamos apenas para que seja tolerante com a natureza e não sequestre o canto dos passarinhos para melhorar seus gorjeios.

Bruno Moreschi

Bruno Moreschi, jornalista e artista plástico, é coautor de 501 Grandes Artistas, da Sextante.

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