A iraniana Maryam Mirzakhani, vencedora da Medalha Fields, que morreu no dia 14 de julho
Ver dados da foto A iraniana Maryam Mirzakhani, vencedora da Medalha Fields, que morreu no dia 14 de julho FOTO: MARIANA COOK_2008

Artista dos números

Uma matemática movida pela imaginação
Alexandre Rodrigues
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A iraniana Maryam Mirzakhani, vencedora da Medalha Fields, que morreu no dia 14 de julho FOTO: MARIANA COOK_2008

Durante a infância, Maryam Mirzakhani achava que viraria escritora quando crescesse. Gostava de contar a si mesma histórias sobre uma menina que viajava pelo mundo e vivia aventuras. Seu talento para os números só se revelou no ensino médio. Antes disso, quando tinha 13 anos, um professor desestimulou que ela seguisse carreira na matemática, pois não levava jeito para fazer contas. Deve ter se espantado quando, em 2014, a aluna que lhe parecia irremediável se tornou a primeira mulher no mundo – e a primeira pessoa nascida no Irã – a ganhar a Medalha Fields, considerada o Prêmio Nobel da matemática.

Em julho passado a iraniana voltou a ganhar as páginas dos jornais de todo o mundo quando morreu em decorrência de um câncer de mama aos 40 anos. Já lutava contra a doença quando foi premiada, mas só as pessoas mais próximas tinham conhecimento da situação. Sua morte precoce foi sentida como uma onda de choque em seu país natal e na comunidade matemática.

Numa entrevista por e-mail em 2015, Mirzakhani me disse que sua escola ficava próxima de várias livrarias em Teerã, e que ela costumava frequentá-las e comprar livros ao acaso. “Eu lia tudo que caía na minha mão”, escreveu. “Ser escritora parecia então um caminho natural, só depois os números começaram a ocupar esse lugar.”

Mirzakhani enxergava paralelismos entre o ofício que acabou escolhendo e o de escritora. Para a iraniana, os objetos matemáticos que ela estudava – como as chamadas superfícies hiperbólicas ou os sistemas dinâmicos complexos que se transformam com o tempo, muitas vezes de maneira caótica – se comportavam como os protagonistas dos livros. “São como personagens que um dia você passa a conhecer melhor”, declarou à revista Quanta em 2014. “Depois que as coisas evoluem, você olha para aquele personagem e ele se tornou diferente de como era antes.”

Não por acaso, a criatividade foi a dimensão que o matemático Curtis McMullen, orientador de Mirzakhani em seu doutorado na Universidade Harvard, destacou na obra da pupila numa entrevista por e-mail. “Uma das coisas que distinguiu Maryam como estudante foi a profusão de questões imaginativas que ela formulou e perseguiu”, escreveu McMullen, ele próprio medalhista Fields em 1998. “Sua pesquisa combinou uma grande variedade de campos, indo dos formatos das superfícies no bilhar à teoria das cordas, numa única e rica imagem com notáveis consequências.”

 

Em alguns de seus trabalhos, Mirzakhani investigou como as bolas ricocheteiam numa mesa de sinuca – só que, no caso, tratava-se de considerar as medidas e ângulos de mesas hipotéticas de todos os formatos possíveis. Um dos resultados matemáticos mais relevantes que ela obteve nessa frente foi a demonstração, no início desta década, de um teorema em parceria com o americano Alex Eskin, da Universidade de Chicago. O problema em questão era um dos mais desafiadores de sua área e vinha sendo atacado havia décadas por pesos pesados da matemática, incluindo Curtis McMullen, o orientador da iraniana.

O brasileiro Artur Avila, pesquisador do Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada (Impa), no Rio de Janeiro, e do Centro Nacional de Pesquisa Científica (CNRS), na França, se surpreendeu com a demonstração. “Não achava que esse resultado estivesse acessível”, o brasileiro disse à piauí. “Parecia que faltava muita coisa e não sabíamos o suficiente sobre a teoria para chegar lá.” Com a demonstração, Avila viu distanciar a chance de ele próprio ganhar a Medalha Fields, para a qual era considerado um candidato forte. “Como havia interseção entre os nossos trabalhos” – o brasileiro também trabalha com sistemas dinâmicos –, “pareceu-me óbvio que eu e ela não seríamos selecionados ao mesmo tempo.”

A história é conhecida: os dois acabaram ganhando a medalha em 2014, junto com Manjul Bhargava e Martin Hairer. Receberam a láurea no Congresso Internacional dos Matemáticos, realizado em Seul (por engano da organização, a iraniana acabou recebendo inicialmente a medalha que tinha o nome de Avila gravado). O brasileiro ficou satisfeito de encontrar a colega em boa forma – já sabia de sua doença. “Ela estava o tempo todo com a filha e estava feliz”, relembrou.

Mirzakhani e Avila haviam se conhecido quase duas décadas antes, quando, ainda estudantes secundaristas, participaram da Olimpíada Internacional de Matemática em Toronto, em 1995 (ambos ganharam uma medalha de ouro na ocasião). “Sentei-me ao lado dela na cerimônia de premiação e trocamos algumas palavras”, contou Avila. “Ela usava um véu cobrindo o cabelo, mas não o rosto.”

O caminho de ambos voltou a se cruzar mais adiante quando se tornaram matemáticos profissionais – foi McMullen quem chamou a atenção de Avila para o trabalho de sua aluna iraniana. Acostumaram a se encontrar em congressos pelo mundo afora. Quando o brasileiro foi em 2010 à Universidade Stanford, onde Mirzakhani trabalhava havia dois anos, foi ciceroneado numa visita a San Francisco por ela e o marido, o cientista da computação tcheco Jan Vondrák, também de Stanford.

 

A iraniana é a única mulher dentre os 56 matemáticos já escolhidos para receber uma Medalha Fields-. Para se tornar uma pesquisadora de ponta, precisou superar os obstáculos típicos para as iranianas que se dedicam à carreira científica. Quando a Revolução Islâmica tomou o poder no país, em 1979 – a futura medalhista tinha então 2 anos –, a educação básica no Irã passou a ser separada por gênero, e as escolas para meninas não davam uma formação tão sólida quanto a oferecida aos meninos.

Depois que ganhou a medalha, Mirzakhani passou a ser vista como uma embaixadora informal das mulheres na matemática – um papel no qual se sentia pouco à vontade. Num meio dominado por homens, sua perda foi duramente sentida. “Estamos enviando e-mails umas para as outras para nos confortar”, disse à piauí Ingrid Daubechies, ex-presidente da União Internacional de Matemática. “Minha caixa de mensagens está cheia de e-mails de outras matemáticas expressando luto.”

No Irã, as homenagens proporcionaram um raro momento: em algumas fotos publicadas na mídia, Maryam Mirzakhani apareceu com a cabeça descoberta, quebrando o tabu da imprensa de não mostrar mulheres sem o hijab, o véu obrigatório na República Islâmica. Quando ganhou a Medalha Fields, os jornais preferiram mostrá-la apenas em imagens antigas, com os cabelos cobertos, ou mesmo desenhar uma cobertura nas fotos, deixando só o rosto à mostra. Desta vez, o próprio presidente Hassan Rouhani publicou no Instagram uma foto recente de Mirzakhani sem o véu. Havia sido curtida 379 mil vezes até o fim de julho.

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