esquina

As três mosqueteiras

Uma aventura teatral

Armando Antenore
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2017

O espetáculo no pequeno teatro parisiense mal terminou e uma senhora refinada, que não desgrudara os olhos do palco durante oitenta minutos, sussurrou para si mesma, em bom português: “Que maravilha!” Logo depois, enquanto as luzes da plateia acendiam, subiu um pouco o tom de voz e anunciou: “Quero comprar, Rosa.” A amiga que a acompanhava não entendeu: “Comprar o quê?” “A peça”, respondeu a senhora, sem interromper os aplausos inflamados. Erguendo-se da poltrona, Rosa esboçou um sorrisinho irônico e disparou: “Você enlouqueceu, Bia?”

Era janeiro de 2015. Embora visitem Paris com regularidade, as cariocas Maria Beatriz Bley Martins Costa e Rosina Villemor Cordeiro Guerra ainda não conheciam o acolhedor Ciné 13 Théâtre, onde Jacques Mougenot acabara de encenar o monólogo L’Affaire Dussaert, que ele próprio escreveu. Foram parar ali por indicação de uma francesa. “Sério, Rosa! A gente compra a peça e dá um jeito de montá-la no Brasil”, reiterou Bia. Nenhuma das duas, porém, havia feito algo parecido antes. Não tinham nem sequer pisado numa coxia ou num camarim. “E como se compra uma peça?”, indagou Rosa. O protagonista do espetáculo certamente saberia. Decidiram aguardá-lo na porta do teatro.

“Qual o telefone de vocês?”, pediu o ator, um tanto ressabiado, quando Bia e Rosa o abordaram. “Não se preocupem. Amanhã vou procurá-las”, garantiu. Em cartaz com L’Affaire Dussaert há quase uma década, Mougenot já a apresentou mais de 600 vezes. “Pronto! O homem arranjou um modo gentil de nos dispensar”, deduziram as amigas à medida que se afastavam do teatro. “Duvideodó que alguém irá nos procurar.”

Enganaram-se. O ator não só ligou como as encaminhou à sua agente. Saíram do escritório dela com o negócio praticamente selado. Os direitos para a tradução e adaptação da peça custavam 3 mil euros ou cerca de 9,5 mil reais à época. “Vamos mesmo comprar?”, hesitou Rosa. “Claro! E ainda botaremos a Marilu na jogada”, retrucou Bia.

 

Diplomata aposentada, Marilu de Seixas Corrêa nasceu em Roma, mas tem raízes franco-brasileiras. Como já rodou o mundo, fala cinco idiomas fluentemente: português, espanhol, italiano, francês e inglês. Hoje mora em Copacabana, na Zona Sul do Rio, à semelhança de Rosa. Bia vive perto delas, no bairro de Ipanema. Com idades entre 64 e 71 anos, constituíram famílias numerosas, que somam nove filhos e dezesseis netos. Inseparáveis, gostam de conversar pelo WhatsApp, num grupo batizado de As Três Mosqueteiras.

O trio, de início, era uma dupla. Rosa e Bia se tornaram sócias há muito tempo numa empresa que organiza eventos relacionados à sustentabilidade – ou à “economia verde”, como preferem dizer. Mais tarde, a parceria se ampliou e as duas inauguraram uma galeria de arte, a CorMovimento, especializada em obras modernistas. Um dia, vinte anos atrás, resolveram emagrecer e viajaram para o litoral fluminense. Trancafiaram-se num spa de Búzios, onde conheceram Marilu. Logo viraram cúmplices. Costumavam fugir da “prisão” com o intuito de “comer um peixinho” na cidade.

Desde então, perambulam pelo circuito cultural do Rio, de Paris e de Nova York. Tentam ver um pouco de tudo: exposições, filmes, peças, musicais, óperas e concertos. Marilu, que toca violoncelo, é quem cuida da programação erudita. Ela também recebeu a incumbência de verter para o português o monólogo que as amigas cismaram de adquirir. “Quando trabalhava no Ministério das Relações Exteriores, traduzi livros de ciência política e economia. Mas jamais ousei me arriscar pelo campo literário ou teatral. Foi a primeira vez que encarei uma tradução do gênero.” L’Affaire Dussaert se converteu, assim, em O Escândalo Philippe Dussaert.

Com um quê de comédia, o espetáculo se desenrola à maneira de uma conferência. No palco, está um palestrante que discorre sobre a trajetória de um respeitado pintor, capaz de se dividir entre o figurativismo e a arte conceitual. O escândalo mencionado no título se dá quando, em 1991, o governo da França propõe pagar 8 milhões de francos por uma polêmica criação do artista.

A trama despertou o interesse das Três Mosqueteiras principalmente pelo fato de expor e questionar os preceitos muito peculiares que norteiam a arte contemporânea. “Certa ocasião, em Paris, me deparei com um baldinho no meio de uma galeria. Um baldinho e nada mais. Toda vez que me aproximava, o baldinho andava. Pensei: ‘Que troço ridículo, meu Deus! Por que um artista produz uma bobagem dessas?’”, conta Rosa. “São coisas que não nos comovem. Mesmo assim, nos esforçamos para compreendê-las, porque não temos uma opinião fechada sobre o assunto”, prossegue Bia. “Nossa cabeça é aberta, mas nossa emoção permanece conservadora”, resume Marilu.

 

Semanas depois de importarem a peça, as amigas ainda não sabiam quem convidar para interpretá-la. Eis que, almoçando num restaurante por quilo do Leblon, Bia e Rosa avistaram Marcos Caruso. “Taí! Ele é o cara!”, intuíram de imediato. O ator se encontrava na fila do caixa. “Prazer, Marcos! Você se incomodaria de bater um papo em nossa mesa?” Iniciou-se, então, uma nova etapa da aventura orquestrada pelas Três Mosqueteiras. Caruso – que, em 44 anos de carreira, nunca protagonizara um monólogo – abraçou o projeto e se dispôs a concretizá-lo. Escolheu o diretor, Fernando Philbert, montou uma equipe técnica e, via patrocínio, arrumou os 400 mil reais necessários para bancar os custos.

Em agosto de 2016, O Escândalo Philippe Dussaert estreou no Rio. Fez tanto sucesso que cumpriu uma temporada de sete meses. Agora está em turnê nacional. Cerca de 40 mil pessoas já prestigiaram o espetáculo, que abocanhou seis prêmios, incluindo o Shell de melhor ator. “No fim das contas, Bia, Rosa e Marilu me deram um presentão”, reconhece Caruso. “Jamais imaginei que anjos pudessem aparecer num restaurante por quilo…”

Armando Antenore

Armando Antenore, jornalista, é editor da piauí

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