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As tretas do juiz

Marcelo Bretas estreia nas redes sociais

Malu Gaspar
IMAGEM: ANDRÉS SANDOVAL

 “Não fale abobrinhas”, disparou o juiz Marcelo Bretas. O destinatário não era um de seus réus na operação Lava Jato, como o ex-governador Sérgio Cabral. Bretas tampouco estava em audiência. A ordem, via Twitter, era resposta a um internauta desconhecido que acabara de questionar a influência da religião em suas decisões (o magistrado é evangélico).

Desde que passou a julgar os casos da Lava Jato, o juiz se tornou uma celebridade, como seu colega Sérgio Moro. Mas, ao contrário do paranaense, que calcula bem suas declarações e evita responder às críticas, o fluminense não resiste a uma provocação. “Não gosto de deixar nada sem resposta”, admitiu ele em meados de dezembro, numa conversa em sua sala na 7a Vara Federal Criminal, no Centro do Rio de Janeiro.

Antes de o juiz entrar no Twitter, porém, essa era uma característica conhecida apenas dos mais próximos. Com a estreia recente na rede social, todos passaram a saber que Bretas não foge de tretas – um termo que se popularizou na internet como sinônimo de briga ou polêmica (originalmente quer dizer “astúcia” ou “ardil”).

Mas, se para a maior parte dos usuários uma treta nas redes sociais rende no máximo uma leve chateação, para Bretas trouxe ônus adicionais. Outros magistrados e investigadores da Lava Jato pediram que ele parasse com as discussões e a Corregedoria da Justiça já o avisou de que ele não será mais juiz exclusivo da Lava Jato. Vai passar a receber também processos de outros casos.

Nas primeiras semanas no Twitter, o juiz se envolveu em polêmicas variadas. Além do episódio das abobrinhas, debateu com blogueiros de esquerda, como Luis Nassif e o editor do site O Cafezinho, o jornalista Miguel do Rosário, que publicara um post intitulado “Bretas, o monstro que a Lava Jato pariu no Rio”. Em resposta, o magistrado postou emojis de monstrinhos e gargalhadas.

Mas a coisa ficou séria quando, nos primeiros dias de dezembro, Bretas publicou uma foto em que aparecia segurando um fuzil após um treinamento de segurança (o juiz só anda escoltado). Na legenda, agradeceu à Polícia Civil pelo exercício, à Polícia Militar pela escolta e a um desembargador do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro pelo apoio. “Estamos juntos!”, escreveu. Para o juiz, era uma postagem inocente. “Eu não estava a trabalho, era uma coisa pessoal”, justificou-se. “Mas causou mesmo certo incômodo.”

Incômodo é eufemismo: a postagem deixou de cabelo em pé investigadores da Lava Jato, outros juízes e ministros do STJ, que ligaram para a Corregedoria da Justiça reclamando da postura de Bretas. Contrariou até as funcionárias de seu gabinete. “Elas se reuniram e fizeram um complô contra mim”, contou o juiz. “Disseram que, se eu não tirasse a foto, pediriam demissão coletiva.”

De início, Bretas achou tudo um exagero. Depois, cedeu. “Demorei a entender que era impossível desvincular a minha função de juiz do perfil do Twitter. Mas reavaliei e entendi que estavam certos.” Dali em diante o juiz mudou de postura na rede social. Passou a apagar quase todas as postagens que publica. Trocou o retrato à paisana que ilustrava seu perfil por uma imagem em que aparece usando toga (e depois já trocou por outra foto, de terno). Fixou no alto de sua página um tuíte com dois versículos tirados do livro de Provérbios: “‘Quem dá uma resposta séria a uma pergunta tola é tão tolo como quem a fez’; ‘Responda ao tolo de acordo com a tolice dele, para que ele não fique pensando que é sábio.’ Um ótimo final de semana.”

 

Pouca gente notou quando o usuário @mcbretas se inscreveu no Twitter em outubro passado. Mais de um mês depois, ainda tinha pouco mais de 100 seguidores. Foi quando um amigo promotor lhe deu um toque. “Ele me disse que só valia a pena estar no Twitter se fosse para ter muitos seguidores, pelo menos uns 20 mil”, disse o magistrado. “Do contrário, o que eu dissesse não faria diferença.”

Bretas, então, fez saber a uma jornalista de O Globo que ele havia aderido à rede. A repórter publicou a informação e seu perfil deslanchou. Em poucos dias, ganhou milhares de seguidores, que atraíram muitos outros quando as polêmicas esquentaram.

O tuiteiro estreante passou um dia inteiro vidrado na tela do celular, acompanhando a enxurrada de avisos de novos seguidores. Ficou tão absorto que tomou uma bronca da mulher, a também juíza Simone Bretas. Hoje diz que tenta limitar a uma hora por dia seu tempo de uso da rede.

Comparado a outras celebridades jurídicas que estão no Twitter, o magistrado tem desempenho apenas mediano. Com seus 22 mil seguidores, ele é menos popular que o procurador Deltan Dallagnol (282 mil seguidores) ou o ministro do STF Gilmar Mendes (30 mil) – que, por duas vezes, revogou a decisão de Bretas de prender o dono de empresas de ônibus Jacob Barata. Mas o juiz faz mais sucesso que o também ministro do STF Alexandre de Moraes ou que o ministro do STJ Og Fernandes, ambos com 9 mil seguidores. Segundo um relatório feito pela consultoria Bites Digital, Bretas foi citado quase 25 mil vezes no Twitter nos últimos doze meses. Seu colega Sérgio Moro – que não tem perfil nas redes sociais – foi mencionado 1,1 milhão de vezes no mesmo período.

Bretas encara sua atividade na rede como uma espécie de missão – algo que, desta vez, admite ter tirado de sua experiência religiosa. “Acredito que devemos dar nosso testemunho, ser exemplo para os outros.” E não considera que sua participação vá atrapalhar seu desempenho como juiz. “Não tenho que ficar quieto”, ponderou. “Só não posso falar sobre os casos que julgo.”

Enquanto isso, vê com satisfação a crescente afluência de seguidores e afirma que está tentando ser mais “maduro” em suas interações. Uma vez ou outra, porém, não resiste a entrar numa discussão. Quando um tuiteiro afirmou que “juiz não deve ter conta em rede social, e tão pouco expressar sua opinião publicamente”, o juiz não se conteve. “Essa é a sua opinião, da qual discordo”, respondeu.

Falta-lhe ainda assimilar o vocabulário dos habitués. “O que é trollagem?”, perguntou quando recebeu piauí para uma entrevista, ignorando o termo que designa uma pegadinha na internet. Tampouco sabia o que quer dizer “treta”, apesar do apetite pelas brigas virtuais. E, observando que 872 pessoas haviam gostado de um tuíte e outras 273 o haviam replicado, perguntou: “Isso é bom?”

Malu Gaspar

Malu Gaspar, repórter da piauí, é autora do livro Tudo ou Nada: Eike Batista e a Verdadeira História do Grupo X, da Editora Record

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