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Atlas político

O abrasileiramento de um romeno

Gabriela Caesar
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2014

Faltava uma hora para o começo da reunião com a cúpula da Fundação Getulio Vargas do Rio quando o cientista político Andrei Roman, doutorando na Universidade Harvard, pegou um mototáxi no alto da favela do Vidigal. Tinha ido visitar um amigo e estava surpreso com o sol daquela tarde, uma segunda-feira de setembro que havia amanhecido nublada. De jeans, sapato e camisa social verde, Roman subiu na traseira da moto que o conduziu até o pé do morro, na avenida Niemeyer.

“Você conseguiu contar quantas placas do Pezão tinha no caminho?”, perguntou-me depois de saltar do veículo, referindo-se ao agora reeleito – na época candidato – governador do Rio, Luiz Fernando Pezão, do PMDB. Pagou 5 reais, o dobro do preço da passagem, e recusou o troco.

Já dentro do táxi que o levaria à sede da FGV, na praia de Botafogo, Roman, de 29 anos, contou que sempre quis conhecer o Brasil. Cursava a faculdade no pequeno Colby College, no estado americano do Maine, e escolheu o país quando teve a chance de fazer um intercâmbio. Em 2006, morou cinco meses com uma família em Fortaleza. Antes de retornar aos Estados Unidos, passou um mês numa comunidade quilombola em Garanhuns, Pernambuco.

“Descobri uma simplicidade no pensamento, um jeito de lidar com a vida que mudou minha perspectiva”, disse. “São pessoas muito pobres, mas muito abertas. Quando eu falava que era da Romênia, eles não entendiam que era um lugar fora do Brasil. Achavam que era Rondônia ou algo assim.”

Roman então decidiu que voltaria ao Brasil. Em 2010, fez estágio na empresa APPM – Análise, Pesquisa e Planejamento de Mercado –, que à época assessorava a candidatura de José Serra, do PSDB, à Presidência. “Foi a pior campanha para presidente que eu já vi. Com base em pesquisas, fiz modelos para mostrar como você podia atrair o voto dos indecisos, mas a campanha nunca mudou de rumo. A decisão era do marqueteiro, e o marqueteiro não estava prestando atenção nas pesquisas”, criticou Roman, que estudou em detalhes as candidaturas presidenciais brasileiras desde a redemocratização.

 

O encontro daquele fim de tarde na FGV foi organizado por Daniel Vargas, colega de Roman em Harvard que, em 2009, durante o governo Lula, ocupou como interino a Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência. O romeno apresentaria a vinte convidados o site atlaspolitico.com.br – criado por ele e pelo matemático brasileiro Thiago Costa, também doutorando na universidade americana. O site é uma espécie de quem é quem do Congresso nacional. Foi pensado como um serviço para o acompanhamento da atuação dos políticos e traz, entre outras informações, perfis e um ranking dos parlamentares, com base em critérios como fidelidade partidária, número de discursos, gastos de campanha e votos recebidos.

Uma das ideias da dupla era transformar dados brutos disponíveis nos sites da Câmara, do Senado, do Tribunal Superior Eleitoral, do Congresso em Foco e da Transparência Brasil em uma base de informações de fácil compreensão pelo cidadão comum. Costa criou uma ferramenta com a linguagem de programação Python que repete a ação de fazer downloads das declarações de bens e das prestações de contas de campanha apresentadas pelos parlamentares ao TSE. A operação seria muito mais trabalhosa se realizada manualmente.

Roman vive hoje entre São Paulo, Bucareste, onde mora seu pai, e Cambridge, nos Estados Unidos. Em São Paulo, trabalha no Escritório de Harvard, no 17º andar de um prédio na avenida Paulista, um dos principais palcos dos protestos de junho de 2013. Se, num primeiro momento, sua ideia era escrever sobre clientelismo no Brasil, as manifestações o instigaram a mudar o foco de sua pesquisa.

Desde então ele se dedica a uma análise comparativa entre as manifestações no Brasil e na Turquia, que estouraram na mesma época. Em ambos os casos, identifica movimentos localizados que acabaram detonando manifestações massivas: aqui, contra o aumento das passagens de ônibus; lá, contra a demolição de um dos menores parques públicos de Istambul.

O cientista político contou ter detectado outra característica comum aos dois países: a crise de representatividade. Na Turquia, ela ocorreria devido à perda de espaço dos partidos seculares, tradicionalmente os mais votados pela classe média urbana tradicional, em favor dos islamistas do Partido Justiça e Desenvolvimento. “No Brasil”, comparou, “você não tem grupos ideológicos bem definidos. Como os partidos foram construídos de cima para baixo, não fica muito claro quem de fato eles representam, quem é de esquerda ou de direita. Resta esse sentimento de que todos os partidos são mais ou menos a mesma coisa.”

Roman ainda observa certa relutância dos brasileiros em se identificar como de direita, em razão da ditadura civil-militar de 1964 a 1985. Na Romênia, que passou por uma ditadura comunista, acontece o oposto. “Lá, ser de direita na política é a melhor coisa. Todo mundo respeita. No Brasil, é o maior pecado.”

 

Os criadores do Atlas Político desenvolveram uma metodologia que, partindo dos votos dos parlamentares no Congresso, localiza sua posição no espectro ideológico e em relação ao governo. O resultado confirmou o que Roman já suspeitava: pelo menos na atual legislatura, que se encerra em janeiro, deputados e senadores se aglomeram no centro, em contraste com a polarização que se viu nas ruas e nas redes sociais durante a campanha presidencial.

Animado e trocando algumas sílabas tônicas do português, o romeno disse esperar que o Atlas permita aproximar políticos e cidadãos. Ele cogita transformar o site numa “plataforma mais democrática” de doações para campanhas. “Os internautas poderiam entrar no perfil do político e fazer a doação. Isso ajudaria os candidatos que não têm muita visibilidade, estrutura de campanha nem recursos para fazer o próprio site. Construir uma ferramenta de doação online é muito complicado”, afirmou, sempre sorrindo, e já cogitando a mudança definitiva para o Brasil.

Gabriela Caesar

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