O Jockey Club nos anos 50, quando o traje passeio completo ainda imperava na tribuna social
Ver dados da foto O Jockey Club nos anos 50, quando o traje passeio completo ainda imperava na tribuna social FOTO: JOSÉ MEDEIROS_ ACERVO INSTITUTO MOREIRA SALLES

Au revoir, glamour

Sem gravata no Grande Prêmio Brasil de Turfe
Tiago Coelho
Tamanho da letra
A- A+ A
O Jockey Club nos anos 50, quando o traje passeio completo ainda imperava na tribuna social FOTO: JOSÉ MEDEIROS_ ACERVO INSTITUTO MOREIRA SALLES

Caiu – não o presidente Michel Temer, como se sabe, mas uma regra que vigorava havia mais de oito décadas no Jockey Club do Rio de Janeiro. Desde 1933, quando o Grande Prêmio Brasil de Turfe estreou, nenhum varão poderia acompanhá-lo da tribuna social sem estar de terno, preferencialmente escuro, e gravata. A obrigatoriedade do traje passeio completo acabou virando uma das evidências de que a corrida equestre mais célebre do país permanecia glamorosa, mesmo com a flexibilização dos costumes imposta pelo tempo. No último dia 11 de junho, porém, o Hipódromo da Gávea – à beira da Lagoa Rodrigo de Freitas – presenciou o fim da tradição. Foram os próprios organizadores do GP que baixaram a guarda e permitiram a quebra de decoro, embora nutrissem a esperança de botar alguma ordem na casa que ruía. “Dá para ser elegante com traje esporte”, frisou Luiz Alfredo Taunay, presidente do Jockey e bisneto do Visconde de Taunay, logo após comunicar a mudança.

Ocorre que, em se tratando de dress code, o carioca é antes de tudo um insubordinado. Naquele domingo de junho, Oscar de Matos levou às últimas consequências a queda da Bastilha hípica e adentrou a tribuna social de tênis e moletom. “Estou protestando”, avisou, num misto de revolta e sarcasmo. Pôs-se, então, a reclamar dos novos tempos. “Gostava do visual antigo. Mulheres bonitas de chapéu. Homens alinhados. Tem coisa melhor?” O moletom do professor de 73 anos realmente destoava. No recinto, predominavam os óculos de sol estilo Ray-Ban, as calças jeans e as camisas polo ou de mangas compridas, mas com o punho dobrado. Os poucos espectadores que decidiram ir de gravata exibiam laços frouxos e colarinhos mal-ajambrados.

 

Bem mais à vontade que Matos, o apostador inveterado Wagner Nunes de Oliveira usava chinelo, bermuda e camiseta. Ele ocupava a tribuna vizinha à social. Pouco concorrida, a área nada VIP abrigava principalmente aposentados, todos vestidos tão informalmente quanto Oliveira. “Não é desdém”, esclareceu o cinquentão ao se confessar desinteressado pelo que acontecia na tribuna mais nobre. Sentado, com as pernas apoiadas sobre a cadeira da frente, observava a topografia montanhosa que emoldura a grama verdinha da pista de corrida e não hesitava em compartilhar “segredos do turfe”. O morador de Mauá, distrito pobre do Grande Rio, afirmava saber tudo do esporte, que acompanha religiosamente, duas vezes por semana, desde os 11 anos. “Os cavalos treinados na Região Serrana levam vantagem. Água boa, temperatura boa e bom fôlego por causa da altitude”, ensinou.

O apostador também revelou seu favorito para a disputa daquela tarde. “Kilimanjaro! Um alazão criado na serra e adquirido pelo atacante Paolo Guerrero, do Flamengo, num leilão.” Como joga só por prazer, Oliveira disse não se importar em dar dicas. “Uma vez, cheguei a ganhar 10 mil reais. Ótimo! Mas o que me agrada realmente é a emoção de apostar. Tenho um ditado: quem joga por necessidade perde por obrigação.”

Hierárquica e literalmente acima da tribuna social, encontrava-se a de honra, decorada com móveis antigos, cristaleiras e lustres enormes. Lá, nenhum homem entrava sem o traje passeio completo. “Obrigado! Não me considero vaidoso, mas admito que fiquei elegante. Você notou o laço estilo diplomata?”, agradeceu José Augusto Cavalcanti Cisneiros quando elogiei sua gravata vermelha. O acessório combinava perfeitamente com o terno risca de giz azul-marinho que o senhor de 85 anos envergava.

Habitué do Grande Prêmio desde a juventude, já não conseguia identificar boa parte dos grã-finos que o rodeavam. Eram sócios do Jockey e proprietários de cavalos ou haras. “Conheço alguns de outros carnavais. Mas a maioria não faço ideia de quem seja. Ignoro a procedência de suas fortunas. Por isso, não posso chamá-los de new rich. Digo apenas que as tradicionais famílias cariocas debandaram daqui. Há séculos não vejo os Paula Machado, os Peixoto de Castro, os Guignard, os Seabra e os Marinho.” A ausência deles, entretanto, não tira de Cisneiros o gosto pelas corridas. “Os cavalos são a minha cachaça. Ou melhor, o meu uísque”, sentenciou antes de cair na gargalhada. Em seguida, enfatizou que não pertence à “casta dos abastados”, apesar de viver no Leblon. “Sou um professor aposentado. Tire as suas conclusões.”

 

O Jockey Club atravessa uma fase de reestruturação, que teve início em 2015. Na época, a instituição quase nonagenária transferiu a gestão de todas as apostas para a francesa PMU. Sediada em Paris, a empresa deseja atrair um número cada vez maior de rapazes e moças às provas. Daí a abolição das roupas formais na tribuna social. “Precisamos nos adaptar à modernidade. Quem ainda usa terno e gravata no Rio?”, costuma explicar Taunay.

Levando em conta o público do dia 11, a tarefa da PMU soa hercúlea. Havia raríssimos jovens no Hipódromo da Gávea – e uma parcela considerável deles não demonstrava muito interesse nas competições. Preferia conversar, fazer selfies ou encher a barriga. Junto do pai, um adolescente gorducho se empanturrava de queijos finos e outras delícias servidas na tribuna de honra. Também ali, um garoto magricela devorava churros recheados com doce de leite, enquanto limpava os dedos numa cadeira estofada.

Aquela tarde de sol ameno testemunhou doze páreos, como são denominadas as corridas. Para desgosto dos que confiaram em Kilimanjaro, o cavalo Voador Magee ganhou a prova mais cobiçada – justamente o GP Brasil – e faturou 897 600 reais. Kris Five venceu outro páreo importante, o GP Presidente da República, herança de um período em que Getúlio Vargas e João Figueiredo prestigiavam as disputas.

Tão logo as competições terminaram, Taunay confessou que esperava a visita do prefeito carioca Marcelo Crivella. O político, no entanto, não deu as caras. O governador fluminense Luiz Fernando Pezão tampouco apareceu. Somente o vice, Francisco Dornelles, marcou presença. “Vice?! Quando a principal autoridade não pode comparecer, melhor não mandar ninguém”, protestou Cisneiros. “Já o Temer, eu não imaginava mesmo que viesse. Ele deve estar preocupado com outros assuntos no momento…”

ASSINANTE PIAUÍ

Use o mesmo e-mail e senha cadastrados no site da Ed. Abril no ato da assinatura. Esqueceu a senha ou o e-mail ?