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Baforadas nos Andes

Um fumante em Machu Picchu
Paulo Raviere
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ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2016

“Não estou me sentindo muito legal”, lamentou o vendedor argentino Javier Miranda pouco antes de saltar da cama. A escuridão ainda imperava lá fora, em plena madrugada, quando o despertador de seu celular tocou. No quarto da rústica pousada, o chuveiro insistia em não funcionar direito. Sete horas depois do último banho, continuava a pingar copiosamente, mesmo com a torneira fechada. Em contrapartida, na pia do banheiro e no vaso sanitário não saía sequer uma gota. Eram três e meia de uma gélida manhã de junho, em Aguas Calientes. O povoado peruano ganhou fama não só em razão das diversas fontes termais, mas também por ser a última parada antes de Machu Picchu, a “cidade perdida dos incas”, localizada nos Andes, a 2 350 metros de altitude. “Na hora de dormir, resolvi dar uma volta para fumar e acabei tomando um vinho que não me caiu bem”, explicou o jovem de 29 anos enquanto juntava suas coisas no quarto.

É árduo o caminho que leva a Machu Picchu. Na manhã anterior, Miranda partira de Cusco numa van e passara igualmente mal, desta vez por causa da sinuosa e nauseante estradinha de terra. No percurso, conheceu os chilenos Flávio Pino, de 38 anos, e Yuri Soto, de 35, aos quais se juntou. Quando a via já não dava mais acesso a veículos de quatro rodas, o trio seguiu a pé por 11 quilômetros até Aguas Calientes. À noite, recebeu a recomendação de acordar cedo para enfrentar o trecho derradeiro da viagem. Era preciso chegar à mítica cidadezinha a tempo de fazer a visita guiada, que começaria às sete e meia.

Pela frente, havia os 1 310 metros de altitude que separam Aguas Calientes de Machu Picchu. A parte mais difícil da trilha soma 1,7 quilômetro de escadas, construídas com grandes rochas cinzentas, que ziguezagueiam encosta acima e exigem dos andarilhos algumas horas de esforço. Apesar da baixa temperatura e do escuro, uma multidão de diferentes nacionalidades fazia fila para iniciar o íngreme trajeto. “Vamos fumar um pouco antes de subir?”, sugeriu Miranda, tão logo avistou os primeiros degraus.

 

Erguida no século XV sob as ordens do imperador Pachacútec, Machu Picchu – cujo nome em quéchua significa “velha montanha” – virou um dos sítios arqueológicos mais visitados do mundo. Foi descoberto apenas em 1911 por Hiram Bingham, durante uma expedição financiada pela Universidade Yale e pela National Geographic Society. Entretanto, os indícios de que existira uma cidade pré-colombiana naquela região remontam ao século XIX.

A Machu Picchu que o arqueólogo e historiador norte-americano encontrou não possuía as mesmas feições harmônicas de hoje. Em vez de lhamas e grama aparada, ostentava artefatos indígenas, animais peçonhentos e uma densa vegetação, que crescia sem empecilhos e tomava conta de tudo.

A cidade tinha importância especial para os incas, povo afeito a observações astronômicas, por oferecer uma visão privilegiada do céu. Muitas das construções de pedra que a compõem eram, na verdade, gigantescos calendários. Ali também se espalhavam diversos templos, usados para rituais fúnebres e sacrifícios humanos.

 

À medida que avançava pelas escadarias irregulares, a massa de andarilhos ia se tornando menos compacta. Munido de uma lanterna, Yuri Soto liderava seu grupo. A rigor, ninguém é obrigado a encarar tantos degraus. Pode-se vencer a provecta montanha seguindo-se pela carretera Hiram Bingham, rodovia tão tortuosa quanto as linhas traçadas por um medidor de batimentos cardíacos. Geralmente, os ônibus turísticos a percorrem em alta velocidade e inundam de pressa uma paisagem que, paradoxalmente, exala mansidão. “Estou morrendo”, reclamou Flávio Pino, enquanto enxugava o suor da testa e da barba espessa. “Seria o caso de irmos pela carretera?”, indagou, apoiando o corpo num pedregulho, quando as escadas de pedra cruzaram a rodovia pela primeira vez. Ao longe, o céu adquiria uma coloração azul-escura, que prenunciava a luz da manhã.

Assim que o sol finalmente se levantou, os três sul-americanos já haviam superado metade do caminho. O fluxo de ônibus que passava por eles, nos demais entroncamentos da trilha com a carretera, se revelava cada vez maior. Grupos mais atléticos impunham à caminhada um ritmo constante. Aparentavam a mesma disposição que exibiam no início da jornada. Javier Miranda e seus parceiros mascavam folhas de coca para facilitar a respiração no ar rarefeito.

Quase três horas após o começo da escalada, os viajantes pisaram o último dos 1 643 degraus. No alto da montanha, idiomas se misturavam em busca das bandeirinhas que identificavam os guias, cada um à espera do seu rebanho. Embriagado pela chance de desbravar a cidade sagrada, Miranda já não sofria de enjoo ou dor de cabeça.

Por todo lado, via-se uma espantosa sequência de paredões rochosos. Sob a névoa fria, o cinza das pedras contrastava com o verde dos gramados. Os turistas que chegavam de ônibus tinham as pernas intactas e o sono em dia, bens escassos e invejáveis para o enxame de andarilhos com a língua de fora. Ainda que exausto, Miranda mantinha um ar sobranceiro. Apontou para a escadaria e o sopé da montanha, lá embaixo, antes de dizer: “Desfrutamos bem mais por ter sido assim.” Depois, satisfeito, acendeu um cigarro.

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