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Bananeirismo

Uma nova modalidade esportiva

Gabriela Caesar
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2015

Sob o calor de 39 graus de uma tarde de janeiro, munido de sua mochila, Flávio Lacerda descia a ladeira da casa onde mora com a mãe, em São Lourenço, no sul de Minas Gerais. O autônomo de 40 anos, de óculos escuros e boné, segurava um cartaz enrolado. A camiseta branca já trazia uma inscrição que dava bandeira de sua militância: Bananeirismo.

Popularmente conhecido como “correr com as mãos”, o bananeirismo, segundo seu defensor, seria “o primeiro esporte olímpico do Brasil”. Revelada a natureza da prática, a etimologia do neologismo fica evidente: consiste na atividade física de plantar bananeira, também chamada de parada de mão – o sujeito apoia as duas mãos no chão e ergue o corpo, deixando a cabeça para baixo e os pés suspensos. Mas, à diferença da prática imóvel que se vê em qualquer parque ou praia, o bananeirismo implica um deslocamento corporal semelhante à caminhada.

Em cinco minutos Lacerda chegava à praça Duque de Caxias, perto da prefeitura e da Câmara Municipal da cidade de 44 mil habitantes. Desenrolou o cartaz, no qual se lia: CORRIDA DE BANANEIRA 25, 50 E 100M RASOS. INVERSE RUN. 100% OLÍMPICO. DESDE 08/08/08. DE SÃO LOURENÇO PARA O MUNDO. Pendurou-o numa placa diante do primeiro “bananeiródromo” do globo, uma pista de cimento de 1 metro de largura por 25 metros de comprimento. Da mochila, Lacerda tirou um aparelho de som e um dos troféus dos campeonatos que organizou e de que participou. “Pensei em traduzir o nome para o inglês. Senão, como é que eu vou explicar para o Barack Obama? Inverse run. Corrida invertida. Em vez de correr com os pés, corre-se com as mãos”, disse. Em inglês, “plantar bananeira” costuma ser referido como handstanding, fazer uma parada de mão. Talvez Obama entendesse melhor se a modalidade lhe fosse apresentada como handstand race.

Ao som da música-tema do filme Carruagens de Fogo, o pioneiro procurava recrutar novos atletas. “Foram sete anos batalhando em cima disso e todo mundo zoando. Mas chega uma hora que é justamente o descrédito das pessoas que me serve de combustível para não parar.” O engenheiro e vereador Carlinhos Sanches, autor do projeto e financiador da obra, é um dos patrocinadores do esporte. “Conheço o Flávio há muito tempo, e ele acabou me seduzindo. Ele estava todo dia na Câmara. A pista, construída em dois dias, ficou numa posição boa, não atrapalha a área ambiental”, disse Sanches, por telefone.

 

Lacerda começou a plantar bananeira desde criança – disse ter fotos que o mostram, aos 3 anos, já de pernas para o ar. Na juventude, quando frequentava a Praia Grande, no litoral paulista, teve o estalo: por que não transformar essa modalidade num esporte olímpico? À época, empregado, foi desencorajado por amigos e familiares e deixou a ideia de lado. Só abraçou a causa mais de dez anos depois.

Antes de iniciar os exercícios, Lacerda esperou a amiga Olga Chaib, de 42 anos, grande incentivadora. “O que é plantar bananeira? Nada mais do que fazer um cafuné na terra. É sentir a terra, pedir a paz para todos os esportistas do mundo, pedir o amor, a vontade de um planeta melhor”, explicou.

Ajeitou a camisa e, animado, olhando para a câmera de Olga, falou algumas palavras à guisa de introdução ao vídeo que gravavam para divulgação na internet. Já posicionado na linha de largada, abriu as palmas das mãos, esticando ao máximo os dedos, e as aproximou da pista. Simultaneamente apoiou as mãos no cimento e deu um impulso com as pernas, que subiram 180 graus. A camisa saiu de dentro da calça e deixou descoberta metade da barriga. Flexionou os joelhos, de modo que as panturrilhas ficassem à frente do corpo, permitindo o equilíbrio do peso. Na pista, as palmas das mãos permaneceram abertas, enquanto os dedos apontavam para fora. Já os pulsos ficaram para dentro, ao contrário do posicionamento durante as flexões, quando as mãos ficam alinhadas com o corpo. Lacerda teve boa atuação, caindo apenas quando faltavam 5 metros para a linha de chegada.

“Quero ver se invento o tênis para as mãos. Uma luva que permita aumentar a velocidade, é para bater recorde mesmo”, disse. O atleta, com 68 quilos distribuídos em 1,72 metro de altura, credita principalmente à alimentação seu sucesso nos campeonatos da inverse run. Lacerda não come carne vermelha há quinze anos e em geral ingere alimentos já triturados no liquidificador. Naquele dia, comera apenas uma banana e um pote de açaí.

Seguiu-se uma sessão de fotos: Lacerda fazendo parada de mão, à sua frente o troféu do último campeonato de bananeirismo, realizado em 1º de abril de 2014, no aniversário da cidade, quando se inaugurou a pista. Coube ao atleta não só elaborar o distintivo – para o qual criou a logomarca do esporte, similar à dos Jogos Olímpicos – como encomendar as medalhas para o evento.

“Um ponto de Ibope em rede nacional atinge 1 milhão de pessoas. Juntando todos os programas em que apareci, dá uns 55 pontos de Ibope. Acho que deve ter uns 40 milhões de brasileiros que já ouviram falar da bananeira como competição. Mais ou menos um quinto do Brasil ficou me conhecendo nos últimos sete anos”, especulou, orgulhoso. Na verdade, a partir do ano passado, cada ponto de audiência do Ibope na TV aberta passou a corresponder a cerca de 650 mil indivíduos.

 

Oatleta colocou uns óculos amarelos, sintonizou o som na música dos Jogos Olímpicos, arrumou a camiseta para dentro da calça e voltou para a pista. Prometeu percorrer os 25 metros. Passados 17 metros, arriou.

Lacerda então avistou dois adolescentes. O servente Jorge Eduardo dos Santos Raimundo, de 18 anos, os cabelos levemente clareados na região do topete, aproximou-se da pista. De brinco, regata roxa e rosa, jeans e tênis, o jovem conseguiu percorrer 5 metros. O campeão e Olga ficaram animados. “Faz três, quatro anos que eu não planto, e hoje estou meio que de ressaca”, desculpou-se o rapaz. Imediatamente Olga anotou seu nome e número de telefone. Quando Raimundo seguia seu rumo, Lacerda correu atrás dele para lhe entregar uma medalha do último campeonato.

O pioneiro ainda não estava satisfeito. Sonha com um monumento mais grandioso. “Sem um obelisco, um bananeiródromo é como uma macarronada sem molho. Vamos erguer o primeiro obelisco plantante”, anunciou.

Gabriela Caesar

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