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Batalha herbácea

Joaninhas contra pulgões em Paris
Ana Laura Malmaceda
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ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2017

Durante os meses de maio e junho deste ano, a Prefeitura de Paris financiou a vinda de 40 mil novos habitantes à cidade. Da população migrante não foi pedido documento, nem cobrado o custo de transporte e alojamento no saturado mercado imobiliário. Como contrapartida pelo acolhimento, esperou-se apenas que travasse – e vencesse – uma guerra silenciosa contra pulgões nos jardins, parques e hortas da capital francesa.

“Os pulgões representam hoje um risco ao meio ambiente. É preciso ter muita paciência e não entrar em pânico”, aconselhou o instrutor de jardinagem Jean-Emmanuel Michaut a uma dezena de jardineiros amadores que o escutavam dentro de uma estufa do Parque de Bercy, localizado no sudeste de Paris, à beira do rio Sena. Michaut estava acompanhado de cinco ajudantes, que orientavam o público sobre como derrotar o inimigo com uma arma de destruição em massa – no caso, larvas de joaninhas-de-dois-pontos, acondicionadas dentro de pequenos recipientes de acrílico.

“É importante que vocês só coloquem as joaninhas em ambientes infectados”, advertiu em tom grave o instrutor, prevendo que alguns dos jardineiros poderiam estar interessados apenas em adornar suas plantas com o simpático inseto de asas vermelhas. Segurando frascos etiquetados com nomes científicos, mostrou exoesqueletos da dupla de algozes: Macrolophus caliginosus, uma espécie de pulgão capaz de destruir plantações e deformar flores com manchas enegrecidas; e Pseudococcidae, a cochonilha-farinhenta, praga de jardim de cor branca que imprime um rastro de pó pelas folhas em que passa. No que dependesse de Michaut – e de seu exército de joaninhas –, tais espécies estariam com os dias contados nos jardins parisienses.

A joaninha-de-dois-pontos, de nome técnico Adalia bipunctata, é uma espécie de besouro que se alimenta em grande parte de pulgões. Na fase larval – a pré-adolescência dos insetos –, ela é capaz de devorar até oitenta deles por dia. É nessa etapa da vida, que dura poucas semanas, que ela é usada para combater os pulgões. Uma vez adulta, ela come em quantidades menores, mas consegue pegar sua presa com as duas patas dianteiras, devorando cada pulgão como quem traça um hambúrguer.

A Prefeitura de Paris decidiu mobilizar as joaninhas inspirada no exemplo de Caen, cidade no noroeste da França onde esses insetos são distribuídos há mais de trinta anos para duelar com os pulgões. A iniciativa ajuda a evitar o uso de pesticidas químicos e prepara a população para a entrada em vigor de uma lei que proibirá a venda dessas substâncias para jardineiros amadores a partir de 2019.

Há a previsão, claro, de que esse exército vermelho se reproduza, mas Pénélope Komitès, funcionária da prefeitura responsável pela implantação do programa, garante não haver risco de uma superpopulação: “Temos 110 jardins compartilhados e 2 mil particulares, então não estamos falando de um aumento muito significativo”, disse ela à piauí. “Além disso, elas já fazem parte das 29 espécies de joaninha recenseadas na cidade.”

 

Terminada a peroração sobre a dupla de insetos, Jean-Emmanuel Michaut convidou o público a conhecer de perto as combatentes, que circulavam dentro de cilindros de acrílico, entre grãos de pipoca que garantiam a nutrição das larvas e evitavam que elas se alimentassem umas das outras. Explicou que, por ainda não estarem na fase adulta, as joaninhas não tinham a aparência dos insetos vermelhos que em breve se tornariam. Curiosa, uma menina que usava um tênis decorado com personagens da Disney aproximou o dedo indicador, levantando uma larva minúscula, negra e longilínea. “Tão, tão pequeninha!”, exclamou uma senhora que observava.

Quando Michaut abriu espaço para perguntas, um homem de cabelos brancos e óculos de fundo de garrafa manifestou sua preocupação com as formigas que frequentavam a árvore onde pretendia soltar as larvas. Seu comentário antecipou a chegada de um terceiro elemento desestabilizador no campo de batalha herbáceo. “As formigas, de fato, serão um obstáculo ao sucesso das joaninhas”, ponderou o instrutor. “Elas farão de tudo para que as larvas saiam de lá.” Aos desavisados, Michaut explicou que as formigas protegem os pulgões como um pastor que cuida de um rebanho. Em troca, se alimentam de uma substância açucarada secretada pelas pragas.

“O que podemos fazer?”, replicou o homem. “Elas sobem nas árvores na época em que as folhas acabaram de crescer e comem tudo.” Para se livrar das formigas, o instrutor aconselhou que o jardineiro construísse uma rota alternativa açucarada (e venenosa), contendo inseticida biológico. As formigas seriam assim atraídas para longe da árvore – e as que sobrassem voltariam ao local apenas para assistir aos destroços das antigas colônias.

Terminada a apresentação de vinte minutos, os jardineiros deixaram a estufa, carregando suas joaninhas – que passariam uma noite na gaveta de verduras da geladeira, antes da recomendável soltura matinal. No dia seguinte, seriam colocadas próximas aos pulgões com a ajuda de um pincel ou de um cone de papel e, qual soldados em guerra, partiriam à caça.

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