O narcisismo é um dos temas centrais de Minha Luta. Em vez de enfeitar ou esconder o desejo de singularidade e distinção, Knausgård faz o contrário: lida com a própria vaidade submetendo-a a um escrutínio exaustivo, expondo e problematizando os seus instintos inconfessáveis
Ver dados da foto O narcisismo é um dos temas centrais de Minha Luta. Em vez de enfeitar ou esconder o desejo de singularidade e distinção, Knausgård faz o contrário: lida com a própria vaidade submetendo-a a um escrutínio exaustivo, expondo e problematizando os seus instintos inconfessáveis IMAGEM: JOACHIM LADEFOGED_VII_REDUX_LATINSTOCK

Bloco do eu sozinho

As contradições do narcisismo de Knausgård
Alejandro Chacoff
Tamanho da letra
A- A+ A
O narcisismo é um dos temas centrais de Minha Luta. Em vez de enfeitar ou esconder o desejo de singularidade e distinção, Knausgård faz o contrário: lida com a própria vaidade submetendo-a a um escrutínio exaustivo, expondo e problematizando os seus instintos inconfessáveis IMAGEM: JOACHIM LADEFOGED_VII_REDUX_LATINSTOCK

Exclusivo para assinantes

No segundo volume da série Minha Luta, Geir, um romancista sueco, diz ao seu amigo Karl Ove, autor, narrador e protagonista do livro: “Você pode passar vinte páginas descrevendo uma ida ao banheiro e ainda assim manter seus leitores hipnotizados.” A frase é precisa não apenas porque remete ao poder sedutor da prosa de Knausgård, mas sobretudo porque uma ida ao banheiro é justamente o tipo de cena que ele narraria. Enquanto outros escritores mais contidos diriam apenas “fui ao banheiro” – ou sequer mencionariam a visita –, Knausgård descreveria as luzinhas, a pasta de dente, a escova, o espelho umedecido, a textura de suas fezes e talvez até a proveniência alimentícia delas. Após ler cinco volumes de sua saga familiar, é possível compor uma leve paródia:

Entrei no banheiro e me fechei, sentei na privada, acendi um cigarro. Liguei o chuveiro quente e uma neblina logo se ergueu, dispersou-se pelo cubículo, misturando-se com a fumaça. Logo Linda viria bater na porta. Três batidas fortes, era assim que ela me chamava sempre – por alguma razão ela nunca dizia nada. E ela me chamaria com razão, claro, pois nós dois sabíamos que ao longo dos anos eu passava mais e mais tempo no banheiro. Eu buscava distância das coisas, de tudo, era um instinto irrefreável. A escrita sempre havia dependido dessa distância, e era patético, mas o banheiro tinha se tornado um refúgio que eu usava cada vez mais. Como eu amava ficar sozinho lá! Os aromas, a pungência da pasta de dente e do refrescante bucal destampado, as flores perto do espelho, o jornal que eu folheava mas nunca lia – essa mistura de correção burguesa convivial com um espaço inviolável, privado. Linda não dizia nada, não insistia para que eu saísse porque tanto ela como eu sabíamos que era um pequeno passo até nos tornarmos aqueles casais que entram sem bater, cheirando a merda um do outro, apressando um ao outro, esse ritual humilhante. Levantei, dei descarga, apaguei o cigarro, o chuveiro ainda corria. A neblina era densa, como se fosse me engolir, e senti um imenso prazer ao pensar que desapareceria naquela fumaça.

SÓ PARA ASSINANTES.

Os direitos autorais de todo o material apresentado neste site, inclusive imagens, logotipos, fotografias e podcasts, são de propriedade da revista piauí ou de seu criador original. A reprodução, adaptação, modificação ou utilização do conteúdo aqui disponibilizado, parcial ou integralmente, é expressamente proibida sem a permissão prévia da revista ou do titular dos direitos autorais.

ASSINANTE PIAUÍ

Use o mesmo e-mail e senha cadastrados no site da Ed. Abril no ato da assinatura. Esqueceu a senha ou o e-mail ?