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Bom de cama

Um podcast que dá sono
Roberto Kaz
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ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2016

Ele já foi chamado de monótono, prolixo e sonífero humano. Suas histórias foram descritas como tolas, confusas e chatas. A todas essas palavras, o americano Andrew Ackerman reagiu com entusiasmo. Monotonia é a alma do seu negócio.

Aos 42 anos, Ackerman edita e apresenta o podcast Sleep With Me, único programa radiofônico que triunfa quando o ouvinte não chega ao final. Surgido há dois anos, um pouco como um hobby, o programa é um parlatório virtual, em que ele – ou seu alter ego, Scooter – perora sobre sopa de cheddar, povos vikings, hábitos dos golfinhos ou qualquer outro assunto que lhe venha à mente num intervalo de uma hora. Talvez pela temática delirante, talvez pela voz monocórdia do autor – ou possivelmente pelas duas coisas –, o podcast acabou virando a alternativa para o insone que, à Bela Gil, pretende trocar o comprimido de Rivotril por um sonífero sem efeito colateral. Costuma ser baixado 1 milhão de vezes por mês na loja do iTunes.

A ideia para o programa nasceu da mistura do acaso com um trauma pessoal. O acaso veio na forma de um plano – frustrado – de criar um podcast de humor, em parceria com dois amigos, alguns anos atrás. “Quando o projeto caiu, eu me vi com tempo livre para escrever”, explicou. Já o trauma era o histórico de insônia enfrentado na infância: “Meu irmão e eu contávamos histórias, um ao outro, para tirar os pensamentos ruins da cabeça.” Se a técnica funcionara no passado, ele pensou, não custava nada tentar atualizá-la.

No primeiro programa, que foi ao ar em novembro de 2013, Ackerman passou quinze minutos discursando sobre a letra de You Make My Dreams, música da dupla Hall & Oates. “Vou contar uma história que seja interessante a ponto de te fazer esquecer do seu cotidiano”, explicou, na estreia. “Mas que também seja chata a ponto de te ajudar a dormir.” Dali em diante, vieram episódios sobre o sistema operacional do iPhone, sobre uma viagem à Disney, sobre o perigo de engolir um ímã e sobre a geografia da ilha do seriado Lost. A temática resulta sempre de uma equação delicada, que busca o limiar entre o divertido (mas não muito divertido, para não atiçar o ouvinte) e o insosso (mas não muito insosso, para não amuá-lo). Por ironia, os melhores episódios foram justamente os que não geraram comentários. “Quer dizer que as pessoas dormiram rápido”, explica.

 

Ackerman ganha a vida como bibliotecário numa cidade pequena nos arredores de São Francisco, na Califórnia. É solteiro e pai de uma filha de 8 anos que não ouve seu programa. “Para ela, faço a versão ao vivo”, justifica. Metódico, diz dedicar até cinquenta horas roteirizando e gravando os três episódios semanais. “Tento não falar de assuntos que tragam emoções fortes, como sexo, política ou religião. E também não menciono figuras que possam aparecer em pesadelos, como fantasmas e aranhas.” (Um hipotético programa sobre o ministério de Michel Temer, portanto, seria vetado pelas duas razões). A gravação é feita em casa, e o material bruto é escutado no trem, no dia seguinte, a caminho do trabalho. “Tomo notas dos problemas e edito quando volto.” Cumprido o protocolo, o programa vai ao ar.

Quando quer dormir, o editor do podcast evita ouvir suas próprias pensatas: tem medo de ficar desperto, atento aos detalhes. “Leio um livro ou ouço músicas antigas”, explica. Até o ano passado, a produção era totalmente individual. Com o sucesso crescente – e com os dólares que passaram a pipocar em doações online –, Ackerman se deu ao luxo de contratar um auxiliar de edição. O podcast, que é distribuído de forma gratuita, lhe consome “algumas centenas de dólares ao mês” – gasto recompensado, ele diz, com o que ganha em termos emocionais. “Eu era introvertido, as palavras ficavam presas”, conta. “Mas como preciso falar sem parar durante o programa, acabei ficando mais seguro.” Houve um segundo ganho, mais importante: “Eu sempre via as coisas pelo lado ruim. Mas passei a receber relatos de pessoas insones, com dores crônicas, que me agradeciam pelo programa. Aprendi a ter compaixão.”

De fato, são milhares os devotos de Ackerman na esfera virtual. No site podbay.fm, um usuário compara sua voz a “um cobertor suave e confortável”, outro declara que ele “salva vidas”, e um terceiro prefere descrevê-lo como “mágico”. Uma ouvinte diz que o podcast a ajudou a enfrentar um caso de violência doméstica, outra se vangloria de ter largado os indutores de sono alopáticos. No iTunes, há quem defenda que a estrutura do programa é similar “à das memórias que surgem num sonho sem lógica”; outra pessoa decreta, enfática: “Esse homem é um gênio. Hilário. E chato. Não pode ser copiado. Obrigado.”

Desde que criou o Sleep With Me, Ackerman gravou mais de 360 episódios. Tem carinho especial por um, quando falou dos ataques terroristas em Paris. “Algumas pessoas não gostaram”, admite. “Mas não me arrependo. Citei organizações que estavam aceitando doações. Era importante demais para ignorar.” Orgulha-se, também, de ter passado metade de um episódio explicando um jogo de tabuleiro chamado Colonizadores de Catan: “Li as instruções de ponta a ponta. Não consigo pensar em nada tão chato.” Ultimamente, tem dedicado seu tempo a destrinchar um seriado colombiano chamado Metástasis. “Eles estão refilmando cena por cena de Breaking Bad. Achei que valeria a pena acompanhar, apesar de não entender espanhol.”

E se fizesse um episódio voltado ao leitor insone da piauí? Ackerman riu, e quis saber quais eram os problemas atuais do Brasil. Depois respirou fundo e começou a falar, com sua voz letárgica: “Você está deitado, indo dormir, relaxado, com a cabeça no travesseiro. Você pensa que está se acalmando, mas começa a se lembrar do esquema de corrupção que tomou o país. Os pensamentos se voltam contra você. Mas espere, se acalme. Qual é o oposto de corrupção? Ou melhor, o que rima com corrupção? Não, isso não vai ajudar. E se eu estivesse concorrendo à eleição da minha própria cama? Qual seria minha plataforma? Lá não haveria corrupção…”

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