No Tennessee terei salário confortável, laboratório amplo e tempo de sobra para pesquisa: tomar a decisão inteligente foi facílimo
Ver dados da foto No Tennessee terei salário confortável, laboratório amplo e tempo de sobra para pesquisa: tomar a decisão inteligente foi facílimo ILUSTRAÇÃO: ROBERTO NEGREIROS_2016

Bye-bye, Brasil

Neurocientista explica por que está de malas prontas para os Estados Unidos
Suzana Herculano-Houzel 
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No Tennessee terei salário confortável, laboratório amplo e tempo de sobra para pesquisa: tomar a decisão inteligente foi facílimo ILUSTRAÇÃO: ROBERTO NEGREIROS_2016

Inteligência, segundo minha definição favorita, do físico norte-americano Alex Wissner-Gross, é a capacidade de tomar decisões que maximizam possibilidades futuras. Decidir voltar para o Brasil depois da pós-graduação e ficar aqui, apesar de uma chance de ir para os Estados Unidos, foram decisões inteligentes no meu passado. Mas, agora, a única escolha inteligente que me resta é ir embora. Explico.

Quinze anos atrás, em 2001, resolvi recusar o convite para a entrevista final em Nova York para o cargo de editora-assistente da revista Nature Neuroscience, uma das mais importantes do meu campo. Eu havia passado duas horas ao telefone (em ligação internacional mesmo, pois não havia Skype na época) com o então editor, Charles Jennings, ao final das quais ele me disse estar convencido de que eu me encaixava no perfil procurado. Era o trabalho dos meus sonhos. Eu era, na época, neurocientista recém-formada e recém-retornada ao Brasil após sete anos de pós-graduação no estrangeiro, mas não trabalhava em pesquisa, e sim em divulgação científica, no Museu da Vida da Fundação Oswaldo Cruz. Meu site, O Cérebro Nosso de Cada Dia, recebia um número crescente de visitas; o livro homônimo, meu primeiro, sairia em breve. Escrever sobre neurociência era o que eu fazia rotineiramente.

Mas, se fosse escolhida para o cargo e me mudasse para Nova York, as portas se fechariam para que eu e meu então marido conseguíssemos empregos como professores universitários no Brasil. A razão? Contratações universitárias em nosso sistema público acontecem por concurso, e as vagas são decididas em disputas entre departamentos nos quais cada chefe precisa, oficialmente, brigar por suas prioridades de ensino e pesquisa – na prática, em geral defende-se um candidato pré-escolhido. Para termos uma chance de sermos candidatos pré-escolhidos, era preciso estar por perto. Se fôssemos embora, outras pessoas tomariam os lugares com que sonhávamos.

Foi uma boa decisão. Em 2002, graças ao lobby de alguns professores influentes e à minha presença continuada no país, o Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da Universidade Federal do Rio de Janeiro abriu uma vaga para professor adjunto (quer dizer, com doutorado). O perfil da vaga – inédito até então no Instituto – descrevia não um cientista, mas um divulgador de ciências, que trabalharia ensinando jovens cientistas a se comunicar com o público e com seus pares. Ou seja: era meu perfil, e eu era de fato a única candidata inscrita. Fui aprovada. A banca, ciente da minha especialização, observou que, caso eu desejasse voltar a fazer pesquisa além das minhas atividades, isso seria muito bem-vindo.

De fato, foi. Em 2004, com o apoio financeiro do então recém-criado programa Primeiros Projetos da Faperj, a fundação fluminense de amparo à ciência, iniciei meu programa de pesquisa sobre a quantidade de células que compõe cérebros de diferentes espécies. Naquele ano, o ICB autorizou a criação do Laboratório de Neuroanatomia Comparada, sob minha chefia, na mesma sala de um módulo que abrigava a unidade de divulgação científica. O acrônimo “Naco” que batizou o laboratório era uma piada interna que meus futuros colaboradores internacionais não teriam como entender. Ao contrário dos métodos tradicionais de contagem de células, que trabalhavam com cérebros cortados em fatias finas tal qual carpaccios submilimétricos, eu dividia cérebros em pedaços maiores e os transformava em sopa para contar células. No meu laboratório, os neurônios eram contados de naco em naco.

 

Ao longo dos oito anos seguintes, convenci-me de que permanecer no Brasil e até mesmo tentar fazer pesquisa aqui tinham sido decisões inteligentes. Nesse período, vi a situação financeira do laboratório florescer. Nunca fomos ricos ou tivemos verba sobrando; tenho certeza de que não teríamos conseguido produzir e publicar os 45 artigos que se seguiram caso trabalhássemos com insumos caros, como meus colegas que fazem genética ou biologia molecular. Pudemos avançar porque nossa pesquisa era barata: requeria apenas cérebros, alguns anticorpos, um tanto de vidraria e tempo cedido para usarmos um microscópio alheio. Trabalhamos ao longo de dez anos com um orçamento mensal médio de 6 mil reais, o que mal compra dois tubos de anticorpos, nosso feijão com arroz para identificar os neurônios que contamos. Mas tivemos apoio praticamente contínuo e crescente da Faperj e do CNPq, agência de fomento do governo federal. Acabamos nos tornando parte de um consórcio financiado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, via CNPq, que nos permitiu comprar nosso primeiro microscópio, ao custo de 30 mil dólares (106 mil reais em dinheiro de hoje), que na época me pareciam uma fortuna.

Não que tudo fossem flores. Até 2012, apesar do reconhecimento internacional crescente, e mesmo após ter sido, em 2010, a primeira e ainda única pessoa no país a receber da fundação americana James S. McDonnell o prêmio de 600 mil dólares (2,1 milhões de reais) para pesquisa sobre cognição humana, eu continuei no mesmo laboratório de 3 por 8 metros. Meu escritório, que inicialmente ocupava um terço do laboratório, foi encolhendo para acomodar a pesquisa crescente. Primeiro, para um décimo da sala, o que mal abrigava minha escrivaninha. Depois que chegou um microscópio confocal recém-adquirido com o dinheiro do prêmio (financiamentos brasileiros jamais teriam sido suficientes; no máximo, eu conseguiria dividir o equipamento com outros dez pesquisadores), o jeito foi ceder para ele minha mesa – e mudar-me para uma microescrivaninha que cabia atrás de um fichário vertical, ocupando 1 metro quadrado. Reivindiquei ao instituto espaço para um laboratório maior, sem sucesso. Ora a prioridade era acomodar professores recém-concursados (que ainda trabalhavam com seus ex-orientadores, nos laboratórios destes, no mesmo prédio, e tinham produção menor que a minha); ora, para minha revolta, o argumento ouvido nas reuniões do Instituto era que, se eu já produzia tanto em um espaço exíguo, “para que um laboratório maior?”. Pensar em trabalhar naquelas condições de superlotação me deixava fisicamente doente. Receber meus colaboradores estrangeiros para uma temporada na UFRJ? Nunca. Seria constrangedor demais para mim e para eles: como convidar um colega para passar algumas semanas interagindo com nossos estudantes sem poder ao menos lhe oferecer uma mesa, quanto mais uma sala, como eles me disponibilizavam quando a convidada era eu? A vontade era ceder meu último metro quadrado aos alunos e trabalhar sentada no corredor, em frente ao laboratório, laptop no colo, em protesto.

Por outro lado, a despeito do aperto (que veio a ser amenizado, mas não resolvido, com a mudança no final de 2012 para um laboratório de 42 metros quadrados), eu ainda enxergava vantagens em trabalhar no Brasil diante da situação de meus colegas estrangeiros do pequeno mundo de neurobiólogos interessados em evolução e estudos comparados entre espécies. Em seus países, a única maneira de bancar esse tipo de estudo era encontrar alguma aplicação clínica, pois as agências de financiamento aprovavam cada vez mais exclusivamente projetos aplicados à saúde. Ou, então, meus colegas tinham outras linhas de pesquisa aplicada e faziam o trabalho em neuroanatomia comparada “por fora”, como hobby, sem financiamento específico. No Brasil, eu ainda dispunha do luxo de submeter projetos de pesquisa puramente básica, cujo objetivo era tão somente prover informações sobre de que são feitos os cérebros de diferentes espécies – o que muda e o que não muda, e por que isso é importante. Não era preciso arranjar argumentos para explicar como esse novo conhecimento poderia ser útil em um futuro impreciso para entender autismo, envelhecimento, epilepsia ou Alzheimer. O valor era mirrado: não mais que 100 mil reais em três anos. Como comparação, nos Estados Unidos, o auxílio típico da Fundação Nacional da Ciência para um projeto de pesquisa é de 200 mil dólares por ano – mais de 2 milhões de reais em três anos. A diferença é significativa, ainda que cerca de metade do valor de auxílios nos Estados Unidos seja destinada para pagar salários, o que não ocorre aqui. Mas eu conseguia financiamento para fazer pesquisa básica; meus colegas estrangeiros penavam.

Além disso, o jeito brasileiro de viver era mais favorável para pesquisadores que não desejavam abrir mão de ter filhos. Minhas poucas colegas estrangeiras que eram mães moravam longe de suas famílias, e com frequência precisavam reduzir suas horas de trabalho ou fazer malabarismo com o orçamento para pagar creches caríssimas. No Brasil, ao contrário, minha mãe morava a meia hora de casa e vinha com o maior prazer duas ou três vezes por semana ficar com a netinha enquanto eu ia trabalhar.

Sem falar na garantia de salário. Nos Estados Unidos, é comum que os vencimentos de pesquisadores da área médica venham do financiamento para pesquisa, mesmo em universidades. Sem recursos para o projeto, nada de contracheque. Eu, ao contrário, recebia 13,3 meses de salário por ano, contando as férias, independentemente de ter financiamento para pesquisa. Parecia uma situação muito mais confortável. Além disso, o ICB sempre estimulou viagens internacionais para trabalhos em colaboração, limitando a burocracia a um mínimo. Por anos, eu encontrava meus colegas em reuniões científicas internacionais – e não tinha inveja deles. Um dólar valia em média 2 reais, se tanto; com um pouco de mágica para evitar os preços e impostos de importação abusivos praticados no país, meus auxílios para pesquisa davam conta do recado. Eu tocava os projetos que queria, dentro das possibilidades, viajava quando precisava, tinha minha vida pessoal e vivia perto da minha família. Era feliz o suficiente.

 

Não que o sistema de salário garantido fizesse sentido. Comecei a me dar conta seriamente das distorções do sistema brasileiro quando fui convidada para dar uma palestra sobre motivação, do ponto de vista da neurociência, para o sindicato de auditores federais do trabalho. Expliquei, no palco, como a expectativa positiva de ter o esforço recompensado é fundamental para manter a motivação – e tão importante quanto a expectativa é a obtenção efetiva de recompensas, de preferência proporcionais ao esforço. No Brasil, contudo, como pesquisadores são tipicamente contratados como professores universitários, valem as leis do funcionalismo público e seu esquema rígido de remuneração. Não importa o quanto um cientista produza, o quanto se esforce, quanto financiamento ou reconhecimento público traga para a universidade – o salário será sempre o mesmo dos colegas que fazem o mínimo necessário para não chamar a atenção. Ou seja, o sistema na academia brasileira de salários prefixados, garantidos por toda a carreira, com promoções por tempo de serviço, e não por mérito, é o pior possível quando se reconhece a importância da recompensa proporcional ao esforço para manter trabalhadores motivados. A associação de docentes da minha universidade luta ferrenhamente para manter tal isonomia; “meritocracia”, nesses círculos, é palavrão.

Tive prova de que fazer bonito é prejudicial ao cientista brasileiro em uma reunião de departamento para discutir o que fazer com os resultados de uma avaliação de nossos pesquisadores que fora encomendada a colegas externos, alguns deles de outros países. A intenção da avaliação era a melhor possível: identificar maneiras de fazer nosso Instituto crescer em qualidade e se tornar uma referência nacional. Para minha surpresa, os avaliadores haviam sido brutalmente sinceros, e classificavam a maioria de nós como pesquisadores “fracos” ou “medíocres” – mas identificavam alguns “excelentes”. Levantei a mão e pedi a palavra. Como entendia que o intuito era melhorarmos a qualidade da produção científica do Instituto, comentei que seria ótimo que se investisse naqueles pesquisadores considerados excelentes, por exemplo perguntando a eles o que poderia ser feito para lhes garantir condições melhores de trabalho. A colega ao lado prontamente levantou a mão e discordou: “Pelo contrário, devemos investir nos fracos e medíocres.”

O problema adicional é que, também por causa das regras do funcionalismo público, todo professor recém-concursado em uma universidade pública no Brasil ganha estabilidade garantida ao fim de apenas três anos de estágio probatório. Como se entende que é um período curto demais para que um recém-doutor mostre a que veio, na prática nunca soube de alguém que não tenha sido efetivado em três anos: seria preciso cometer um crime hediondo – e olhe lá. Somada aos salários prefixados, a estabilidade garantida não oferece qualquer incentivo para que um professor jovem procure se manter produtivo. Lá fora, é comum pesquisadores serem contratados por períodos de cinco anos renováveis, contingentes a boas avaliações por colegas e desconhecidos. Nos Estados Unidos, a estabilidade – ou tenure – é algo a que se concorre com cautela, pois não há segunda chance. Quando um professor pede tenure numa universidade e não recebe, deve buscar emprego em outro lugar.

O mesmo sistema de estabilidade e isonomia trabalhista na academia brasileira também garante que não haja mobilidade ou incentivo à criação de grandes centros de excelência. Nos Estados Unidos e na Alemanha, por exemplo, cientistas que se destacam são disputados por instituições como Harvard e o Instituto Max Planck, que têm cacife para atraí-los com promessas de excelentes salários e condições de trabalho. Mas, no Brasil, para que passar pela burocracia laboriosa de pedir transferência de uma universidade federal para outra, se o salário será exatamente o mesmo? Aqui, ainda estamos na fase de forçar a distribuição de recursos para as regiões subdesenvolvidas; propostas de criação de centros de excelência são taxadas de “elitistas” – como se almejar ter pesquisa de primeiro nível fosse deplorável. Mas, ao mesmo tempo, nosso governo cobiça uma colocação respeitável nos rankings de produção científica mundial. Como, se não podemos premiar cientistas de ponta por sua produção? Como, se não podemos oferecer melhores salários para atrair expoentes que impulsionem centros de excelência, e aliás nem mesmo criar tais centros? No Brasil, a norma é um pesquisador começar e terminar a carreira no mesmíssimo emprego. Promoção é ganhar cargos administrativos e políticos – minha menor aspiração profissional.

 

Meu descontentamento já era crescente em 2014, quando a realidade do país mudou – só nos daríamos conta disso no ano seguinte. No final daquele ano, um projeto nosso teve financiamento aprovado pelo CNPq no valor de 50 mil reais (menos da metade dos 120 mil reais solicitados); na mesma época, a Faperj se comprometeu a bancar outro projeto, parte de um consórcio milionário com o Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino. Contudo, em meados de 2015, nenhum dos dois havia sido pago. Um consórcio da Faperj com a Universidade Paris-Sorbonne, na França, teve os recursos franceses liberados em janeiro de 2015; a contrapartida carioca só foi aprovada no fim de julho – e até hoje o dinheiro não veio. Outro pedido de fundos para uma colaboração com colegas alemães deveria ter seus resultados anunciados em março, o que só aconteceu de fato em agosto – e, de novo, nossos recursos ainda não foram pagos, enquanto os colaboradores europeus já estão terminando de usar sua parte do dinheiro, aliás onze vezes maior que o nosso lado do financiamento. Comecei a recusar pedidos de pesquisadores estrangeiros para vir trabalhar conosco; mesmo com as bolsas ainda sendo pagas, seria irresponsabilidade trazê-los sem recursos para o trabalho de bancada. Recusei também pedidos de alunos brasileiros desejosos de se juntar a nós para a pós-graduação.

Durante a maior parte de 2015, o único jeito de continuar nossos projetos e não mandar mestrandos e doutorandos para casa foi tirar dinheiro do meu próprio bolso – cerca de 25 mil reais, apenas uma parte mínima dos quais eu me reembolsava lentamente com a verba mensal de 2 800 reais que ainda recebia do programa Cientista do Nosso Estado, da Faperj. Peças do microscópio quebraram em sequência, cada uma com um custo lá fora de 500 a mil dólares – e pelo menos o dobro se as encomendasse do Brasil (com um prazo de importação de pelo menos três meses). Publicar nossos artigos nas revistas especializadas com a opção de acesso gratuito, para que leigos e especialistas não precisassem pagar para lê-los, custava 2 mil dólares cada. Era exasperante. Se já era difícil fazer ciência de excelência com recursos escassos, com recursos inexistentes tornou-se impossível. Em setembro, fiquei tão cansada de ter que fazer eu mesma o papel dos governos federal e estadual que resolvi chutar o balde e apelar para o crowdfunding – vaquinha, em bom português. Se não conseguisse o dinheiro necessário para manter o laboratório pelos próximos meses e garantir ao menos que meus alunos terminassem suas teses, eu fecharia as portas – mas, ironicamente, continuaria a receber meu salário. Em uma campanha de sessenta dias pela internet, levantei mais de 100 mil reais para manter o Naco pelos próximos cinco meses – o dobro do que o CNPq se comprometera a pagar para manter o laboratório pelos próximos três anos. Cinco meses depois, o dinheiro, como esperado, acabou.

Ironia maior foi que, no meio de tanta miséria, meu colaborador Bruno Mota e eu emplacamos um artigo 100% brasileiro na prestigiosa revista Science: uma análise de dados coletados ao longo dos dez anos anteriores que resolvia, pela primeira vez, uma questão antiga da neurociência – o que faz o córtex cerebral, a parte mais externa e valiosa do cérebro, se dobrar. Poucos meses depois, tive a honra duvidosa de ter as dificuldades enfrentadas por meu grupo de pesquisa contadas no primeiro parágrafo de uma reportagem na Science sobre a penúria da ciência brasileira.

 

E então algo inesperado aconteceu. Em setembro de 2015, soube que Jon Kaas, meu colaborador de longa data na Universidade Vanderbilt, e alguns de seus colegas estavam mobilizando seus departamentos e a reitora da Faculdade de Artes e Ciências para me oferecer um emprego. Não seria pelas vias normais, embora àquela altura, desejando sair do país, eu já tivesse me candidatado a uma vaga que acabara de abrir no Departamento de Psicologia daquela universidade de Nashville, no Tennessee. Seria um opportunity hire, uma vaga aberta especificamente para mim. O melhor equivalente no Brasil seria um concurso com cartas marcadas para outra universidade – mas vencimentos intocados, como preestabelecido pelas tabelas do governo, e financiamento para pesquisa ainda dependente de governos federal e estadual falidos. Nos Estados Unidos, ao contrário, eu receberia um salário várias vezes maior do que o prescrito pelas tabelas do funcionalismo brasileiro, verba generosa garantida para os projetos, laboratório e escritório espaçosos, além do suporte de toda uma máquina administrativa eficiente que permite ao pesquisador apenas fazer seu trabalho. No Brasil, “apenas fazer seu trabalho” era um luxo com o qual eu nem sonhava mais; ao longo dos últimos anos, além de me multiplicar como contadora, secretária, agente de viagens, técnica de informática e tantas outras ocupações não previstas no meu contrato de trabalho, eu me desdobrava em consultorias e palestras para reforçar minha renda de professora universitária e manter as crianças em uma boa escola particular.

Passei os meses de outubro de 2015 a fevereiro de 2016 em visitas, entrevistas e negociações. A cada conversa surpreendiam-me a deferência de tratamento, as lisonjas, a admiração pelo meu trabalho, o desejo genuíno dos futuros colegas de me receber lá. Para quem se acostumara ao tratamento de isonomia, eu me sentia um Harry Potter que subitamente descobria que talvez pudesse sair do quartinho debaixo da escada e explorar uma Hogwarts de possibilidades, onde as regras são outras, feitas para desenvolver potenciais e capacidades individuais, e onde conquistas são celebradas e estimuladas, não trancadas em um módulo diminuto de 24 metros quadrados.

Orgulho-me do que eu e meu grupo temos produzido. Entendo que nosso trabalho tem dado contribuições importantes para a área da neurociência em que atuamos por recolocar uma série de questões antigas sob novas perspectivas. Ainda assim, estou tão acostumada a sermos colocados no armário embaixo da escada que fico surpresa quando, no estrangeiro, recebemos honrarias dignas de cientistas de primeira grandeza. Recentemente fui levada a Harvard (voando business, imagine!) para fazer a primeira rodada de entrevistas e concorrer a uma vaga para trabalhar lá, porque, nas palavras do chefe do departamento, “Harvard só se interessa por pessoas que estão mudando o mundo – como você”. Fiquei pasma. Meu marido, cientista acostumado ao sistema norte-americano, protesta contra meu espanto: “Claro que você está mudando o mundo, só você não vê.” Como poderia? Meu colaborador na África do Sul recebe da universidade cerca de mil dólares de prêmio a cada artigo que publica e já pôde usar o bônus acumulado na carreira para comprar uma casa (o CNPq paga uma “bolsa de produtividade”, é verdade – mas de valor fixo, condizente com a isonomia reinante, e que, se décadas atrás correspondia à metade do salário de um professor, hoje não chega a 10%). Meus colegas que trabalham nos Estados Unidos podem pleitear salários melhores, mais espaço, promoções e outras regalias conforme publicam estudos de impacto, trazem mais financiamentos para a universidade e são cortejados por outros centros de pesquisa. No sistema brasileiro, porém, meu trabalho não rende nenhum benefício ou melhoria nas minhas condições, não importa quão transformador seja, quantas vezes tenha sido citado ou quantas outras pesquisas tenha influenciado. Sou apenas mais uma professora com o mesmo salário e status que meus vizinhos de corredor. Como meu trabalho poderia estar mudando o mundo, se não muda minha vida?

A cada avanço nas conversas com a Universidade Vanderbilt, eu ficava mais esperançosa – mas usava todas as minhas forças para me conter e não festejar antes da hora. Eu tentava não acreditar que conseguiria o emprego para não desmoronar de decepção caso a negociação desandasse por qualquer razão. Hogwarts ainda poderia me negar matrícula.

Mas a oferta finalmente chegou. Serei em breve professora associada dos departamentos de Psicologia e de Ciências Biológicas, que abrigarão meu laboratório na Vanderbilt. Terei escritórios amplos em ambos os prédios. Minha carga de aulas não precisa ser mais do que trinta horas por semestre. Com estabilidade e salário mais que confortável, poderei dedicar todo o resto do tempo à minha pesquisa.

Tomar a decisão inteligente foi facílimo.

 

Tentei enquanto pude. Fui idealista enquanto ainda foi possível me agarrar aos fiapos que sustentavam a crença de que era viável ser cientista no Brasil. Mas já não acredito nisso – ao menos, não na área de biomédicas. Ao contrário da matemática, em que temos grandes expoentes como Artur Avila e instituições de renome internacional como o Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada (Impa), precisamos de muito mais do que mesa e computador: na área biomédica, fazer ciência excelente requer recursos excelentes, o que não temos. No Brasil, o financiamento é apenas o suficiente para dar ao governo números para encher a boca: já são mais de 10 mil novos doutores ao ano, dizem (sem completar a frase como deveriam – “com chances mínimas de conseguirem emprego como pesquisadores de fato”). Infelizmente, muitos apenas brincam de cientista fazendo “trabalhinhos” (palavra desses colegas, não minha) que replicam o que foi feito lá fora – o que permite aos alunos a experiência da iniciação científica, mas não a geração de conhecimento. Salvo raras exceções, financiadas pela riqueza do estado de São Paulo ou por instituições privadas como o hospital paulista Albert Einstein ou o Instituto D’Or, no Rio, a ciência no Brasil é apenas suficiente para criarmos jovens minimamente preparados para manter vivo o espírito científico e transferir conhecimento para as próximas gerações, na esperança de que um dia elas possam ter recursos para desabrochar e finalmente competir de igual para igual com os estrangeiros – porque competência, vontade e capacidade de inovação não nos faltam; só faltam condições.

Mas as perspectivas, no momento, são sombrias. A ciência brasileira está agonizante, sufocando na mão de um governo que a considera supérflua enquanto ainda houver miséria. Infelizmente, aqui não se enxerga que o caminho para a soberania nacional e uma melhor qualidade de vida em qualquer país é a geração de conhecimento e o consequente desenvolvimento e independência tecnológica e cultural. Nossos 16 bilhões de neurônios no córtex cerebral não serviriam de grande coisa se não fosse o corpo de conhecimento que com eles geramos, cultivamos e passamos adiante.

Mas aqui sinto que já não tenho mais como gerar nem cultivar coisa alguma. A escolha inteligente que me resta a fazer é ir embora para abrir novas portas e possibilidades futuras. Na Vanderbilt poderei fazer ciência abordando as questões que importam, e não apenas as que cabem no orçamento; dedicar meu tempo à pesquisa, e não trabalhando como minha própria contadora ou eletricista; receber colaboradores e alunos brasileiros ou de outras nacionalidades, sem me preocupar se sua bolsa de estudos será paga ou desviada para cobrir rombos fiscais do governo. Quem sabe de lá eu consiga fazer mais pela ciência brasileira do que insistindo em ficar no meu próprio país.

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