esquina

Cada um no seu quadrado

É de Uberlândia o recordista sul-americano de montagem de cubo mágico

Tomás Chiaverini
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2011

Para os pobres de espírito, o cubo mágico é um brinquedo dos mais irritantes. Tentativas obstinadas para deixar cada um de seus seis lados com quadradinhos da mesma cor não costumam render mais do que horas perdidas e frustração. A maioria desiste e larga numa gaveta qualquer o quebra-cabeça endiabrado. Os mais arrebatados destroem o cubo a marretadas ou arremessam-no contra a parede, num compreensível acesso de ira.

Mas, assim como existem aqueles que conseguem assoviar, estalar os dedos, mexer as orelhas ou dobrar a língua, há também uma elite privilegiada capaz de resolver o quebra-cabeça com certa facilidade. Pior: há cidadãos que desembaralham o tinhoso com uma rapidez de dar raiva aos reles mortais. O australiano Feliks Zemdegs, o mais ligeiro do mundo na solução do cubo mágico, ajeitou certa vez os seis lados em espantosos 5,66 segundos – pouco mais de metade do tempo que o jamaicano Usain Bolt levou para bater o recorde dos 100 metros rasos. Zemdegs tem 15 anos.

Não contentes em humilhar o resto da humanidade, alguns ases do cubo mágico preferem montá-lo de olhos fechados, após memorizar a posição de cada peça. Num torneio realizado em 2001, o malaio Chester Lian resolveu, vendado, dezessete cubos em menos de uma hora. E a galeria da fama cubista não estaria completa sem o finlandês Anssi Vanhala, que montou o quebra-cabeça com os pés. Levou 31,56 segundos.

O cultivo de mentes argutas e dedos diligentes para desenovelar o brinquedo também grassou por estas paragens. Num fim de semana de julho, o Brasil sediou um torneio reconhecido pela World Cube Association, a Fifa do cubo mágico. No Sesc de Santos, no litoral de São Paulo, 121 inscritos se encontraram para concorrer em dezoito modalidades. O ambiente foi dominado pelo trec-trec dos cubos que matraqueavam incessantemente nas mãos dos adolescentes – todos ali tinham as mãos ocupadas.

Com apenas um competidor entre os 100 melhores do mundo, o Brasil não é propriamente uma potência na competição. Mas há quem garanta que é questão de tempo até que Gabriel Dechichi (pronuncia-se Dekiki) Barbar, mineiro de Uberlândia, quebre o recorde mundial. Ele postou na internet vídeos em que resolve o problema em menos de 5 segundos. Mas a WCA só reconhece os tempos obtidos em eventos oficiais. O rapaz é o atual número 15 do ranking. Detém o recorde sul-americano em sete categorias.

Dechichi não larga o cubo. Enquanto conversa, o adolescente de 17 anos e 1,90 metro vai embaralhando e reordenando as peças sem olhar. Seu jeito desengonçado de menino que cresceu rápido demais vai só até o pulso: ele tem com as mãos a precisão de um neurocirurgião e a destreza de um crupiê. O rapaz é despachado também nos estudos: enquanto seus colegas terminam o colegial, ele já está no 2º ano da faculdade de engenharia mecânica.

Mas o mérito de desvendar os segredos do cubo não coube a ele. Em tempos de Google, há pouco espaço para mistérios. A solução está ao alcance de qualquer um: quem digitar “Fridrich” no buscador encontrará, passo a passo, a explicação para o método de montagem desenvolvido pela tcheca Jessica Fridrich. Que não se anime o leitor: a solução requer a execução de várias sequências de movimentos para cada caso. Para ser competitivo, é preciso decorar a saída para 119 possibilidades de embaralhamento, cada uma com dezenas de movimentos. O método Fridrich tirou parte da graça de resolver o quebra-cabeça. Em compensação, deu competitividade aos torneios. O último campeonato mundial, realizado em Düsseldorf, em 2009, teve mais de 400 inscritos, em contraste com os pouco mais de dez gatos pingados dos primeiros certames.

 

Um pré-requisito para o bom desempenho é usar um cubo de qualidade, com a tensão exata, que permita às peças deslizarem com suavidade e controle. Recomenda-se evitar os modelos vagabundos das lojas de 1,99 real. Mas tampouco é necessário ir ao outro extremo – há cubos que custam mais de 200 reais. O “Cubo de Rubik” – nome oficial do brinquedo, em homenagem ao arquiteto húngaro que o inventou, em 1974 – é um inexplicável sucesso de vendas. Segundo o jornal The Independent, mais de 300 milhões de unidades já foram vendidos. Não há registro de quantos consumidores conseguiram resolver o quebra-cabeça.

Em Santos, Gabriel Dechichi Barbar pagou o preço por usar um cubo imperfeito. Na categoria com uma só mão, o mineiro estava indo bem, girando os quadradinhos numa rapidez que tornava impossível aos espectadores visualizar as cores, quando uma pecinha se soltou e saiu caprichosamente rolando pela mesa da competição. Mesmo assim, Dechichi bateu o recorde sul-americano, com uma média de 16,57 segundos.

No fim da tarde, o estudante subiu novamente ao palco para a final da categoria principal. Sentou-se na cadeira de plástico diante de uma mesa com um grande mostrador digital. Um fiscal levou seu cubo até voluntários, que o embaralharam de acordo com um modelo gerado por computador. Em seguida, o quebra-cabeça foi colocado na mesa coberto por um recipiente. Com um movimento de cabeça, Dechichi deu um sinal para o juiz e o cubo foi revelado. Ele pôde examinar a configuração das cores durante quinze segundos, e a prova teve início.

O rapaz agarrou o brinquedo e começou a movimentar as peças freneticamente. Para quem via de fora, ele parecia estar girando aleatoriamente os lados do cubo em grande velocidade. De repente, Dechichi largou-o sobre a mesa e bateu as mãos no sensor que interrompeu o cronômetro. Estava resolvido: cada lado de uma cor, como se nunca houvesse existido outra formação. O mostrador marcava 9,47 segundos.

Dechichi saiu ovacionado. Enquanto autografava a camiseta de um garoto, no entanto, lamentou seu desempenho. “Não bati tantos recordes quanto queria” – foram apenas quatro sul-americanos. Ele atribui o rendimento decepcionante à falta de treino. Antes, costumava praticar até quatro horas diárias. Agora, quase não tem mais tempo. Culpa da faculdade. Para o segundo semestre, inscreveu-se em cálculo 3, dinâmica e cálculo numérico.

Tomás Chiaverini

Tomás Chiaverini é jornalista, autor do romance Avesso, publicado pela editora Global.

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