poesia

Caderno

Tenho um caderno sempre aberto numa nuvem, e nele escrevo. É nuvem, não papel

Paulo Henriques Britto
ILUSTRAÇÃO: LULA ROCHA_2017

da série CADERNO

I

Escrevo nas nuvens.
Tenho um caderno sempre aberto numa nuvem,
e nele escrevo. É nuvem, não papel.

Mas as palavras são de terra. Escrevo terra,
mesmo escrevendo nas nuvens.
Só às palavras-terra me aferro.

Outras sei que são só som:
são ar. E há também as pura tinta
descarnada. Que são água.

A água é boa e o ar é bom.
A carne é terra: também soa,
também sobe às nuvens, certo,

e arde como a chama mais impura.
Porém é terra. E só palavras-terra
me aterram.

 

V
Palavra perdida no fundo
do corpo entre sonho e lembrança
feito cunha ou ângulo agudo
ou ponta rombuda de lança

cravada onde é difícil o acesso
ao mundo do eu que perdi
que a cada dia mais esqueço
embora esteja sempre ali

quase ao alcance dessa mão
que é minha apenas por um triz
e por um instante até me atrevo

a afrontar meu fio de razão
e de ânsia de ainda ser feliz
e ligo o foda-se e a escrevo.

 

VIII

Confinado num corpo
de dúbia propriedade
provido de um contorno
muito bem delineado,

procura na palavra
(por mais escarnecida)
a possibilidade
de uma quase saída

rumo a um outro eu
novo do cerne à casca
ou então, faute de mieux,
a uma boa máscara.

 

X

A primeira tentativa
quase sempre dá em nada.
A segunda é mais do mesmo.
A terceira, malograda,

faz a pessoa pensar,
questionar metas e métodos,
antes de embarcar na quarta,
que dá num naufrágio épico.

A essa altura, desistir
não é mais uma alternativa:
o fracasso se tornou
a própria textura da vida,

e a hipótese do acerto
não entra sequer no cálculo.
Assistir à própria queda
agora é todo o espetáculo.

 

XII

Naquela página antiga
não se lê mais o que escreveu
o proprietário do caderno
(que por acaso sou eu.

(Melhor dizendo: um eu que fui
já não sei quando nem onde,
e que pensava ser alguém
que nunca foi, nem de longe.

(O que também não quer dizer que
quem escreve agora nesta tela
seja precisamente o ser que
julga ser, tampouco aquela

pessoa ainda incognoscível
que anos depois virei talvez
a ler isso que, noutro agora,
leitor irmão, agora lês.

(No entanto, mesmo sem saber
se sou quem fui ou sou ou somos,
nem por que faço isso que faço,
escrevo até cair de sono.)))).

Paulo Henriques Britto

Paulo Henriques Britto é escritor e tradutor. Seu livro de poesia mais recente é Formas do Nada, lançado pela Companhia das Letras

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