Manolo com Dolores de Morais e Carlos Drummond de Andrade em 1951. Segundo as análises do argentino, apenas 13,66% dos 38 mil versos escritos pelo poeta de Itabira são rimados
Ver dados da foto Manolo com Dolores de Morais e Carlos Drummond de Andrade em 1951. Segundo as análises do argentino, apenas 13,66% dos 38 mil versos escritos pelo poeta de Itabira são rimados FOTO: ACERVO DA FAMÍLIA

Calculando Drummond

Genro argentino deixa livro inédito sobre as rimas e a métrica do poeta mineiro
Lucas Ferraz
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Manolo com Dolores de Morais e Carlos Drummond de Andrade em 1951. Segundo as análises do argentino, apenas 13,66% dos 38 mil versos escritos pelo poeta de Itabira são rimados FOTO: ACERVO DA FAMÍLIA

“Caro Manolo, confesso-lhe que, até ser informado da elaboração de seu poema sobre a entropia, eu não tinha o menor conhecimento dessa personalidade. Minha ignorância em matéria científica é tão perfeita que talvez pudéssemos representá-la cientificamente pelo zero.”

Datada de 23 de fevereiro de 1950, a carta era a resposta de Carlos Drummond de Andrade ao argentino Manuel Graña Etcheverry, que menos de um ano antes havia se casado com Maria Julieta Drummond de Andrade, filha única do poeta e Dolores Dutra de Morais. Manolo, como o conheciam, tomara a liberdade de remeter alguns de seus poemas ao sogro – um deles intitulado Entropia – na esperança de conseguir um parecer sobre sua produção literária.

“Há entre ciência e poesia uma relação natural, se não quisermos falar de uma síntese das duas, que é a filosofia. Não há ciência que não acabe em filosofia, nem poesia que não vá ter a ela”, considerou o itabirano, antes do veredito: “Não me ocorre fazer nenhuma objeção no poema como obra de arte. Está realizado.”

Nos meses e anos seguintes, sogro e genro voltariam a trocar cartas sobre poesia, se bem que mais focados na produção do primeiro. Manolo também viria a se tornar o principal tradutor do poeta mineiro para o espanhol. Daí as correspondências exibirem um sem-número de dúvidas técnicas e esclarecimentos sobre versos, rimas e formas poéticas. O material crítico recolhido nas centenas de mensagens trocadas ao longo de quase quatro décadas acabaria virando uma das matérias-primas do argentino para realizar, com obstinação, um estudo da obra de Drummond, concluído em meados da década passada.

Morto em maio de 2015, seis meses antes de completar 100 anos, Manolo deixou um livro inédito no qual contabiliza e analisa os 38 mil versos escritos pelo sogro, num amplo tratado sobre métrica, ritmo e questões formais da poesia, chegando a conclusões que julgava inovadoras e cruciais.

 

Advogado com aspirações literárias, Manuel Graña Etcheverry entrou para a família Drummond de Andrade em setembro de 1949, semanas depois de conhecer Maria Julieta numa festa no Rio de Janeiro. Na primeira carta enviada ao pai da amada, naquele mesmo mês, já falava em casamento – embora também gastasse algumas linhas para descrever os próprios defeitos e reclamar da falta de dinheiro. Tinha 33 anos: doze mais que Maria Julieta, treze menos que o poeta.

Manolo acabara de abandonar a política, atividade que abraçara acidentalmente, empurrado por questões locais em Deán Funes, sua cidade natal, na província de Córdoba. Numa carreira fulminante, foi eleito deputado federal aos 30 anos, em 1946, na coligação que levou Juan Domingos Perón à Presidência. No ano seguinte, entraria para a história como o relator da lei que instituiu o voto feminino na Argentina. Em 1948, contudo, deixou o Congresso para nunca mais voltar. Diria depois que se desiludira com a política.

Àquela época, Drummond, já tido como um dos principais poetas brasileiros, preparava seu quinto livro de poesia, Claro Enigma, que muitos consideram um divisor de águas em sua trajetória. Cansado de ser moderno, o poeta decidira ser eterno, ocupando-se de temas como o amor e a brevidade da vida, após um período fortemente marcado por temáticas sociais e políticas.

Mal se casaram, Manolo e Maria Julieta estabeleceram-se em Buenos Aires, onde tiveram seus três filhos. Entre outras atividades, ele seria advogado do Banco do Brasil na capital argentina. Avesso a viagens, Drummond acabou fazendo do país vizinho seu único destino no exterior. Visitou-o cinco vezes, a primeira em 1950, quando nasceu Carlos Manuel, o primeiro neto, batizado com os prenomes do pai e do avô. Numa dessas viagens, por pouco não se encontrou com Jorge Luis Borges. Segundo contou Manolo, que o acompanhava num passeio pelas livrarias portenhas, o sogro viu o escritor dentro de uma delas, “festejado por admiradores”. Prestes a entrar na loja, acabou preferindo não participar da confraternização. “Num gesto mineiro, retraiu-se e retornou, indo embora.”

 

A poesia, para Drummond, era “negócio de grande responsabilidade”. O itabirano não acreditava em poeta que versejasse por dor de cotovelo e que não se entregasse ao que chamava de “trabalhos cotidianos da técnica”. “Até os poetas se armam”, escreveu num texto publicado em 1938, “e um poeta desarmado é mesmo um ser à mercê de inspirações fáceis, dócil às modas e compromissos.”

As armas e técnicas da poesia interessavam Manolo desde a mocidade, tanto que antes e depois da rápida carreira política ele chegou a dar aulas de gramática em Córdoba. Como poeta, era devoto da métrica, aspecto que guiou sua produção poética e ensaística. Não à toa, o sogro, além de interlocutor, passaria a ser objeto de estudo.

O primeiro aspecto da poesia de Drummond que Manolo analisou, no final dos anos 80 – quando o mineiro e a filha já tinham morrido –, foi o erotismo, uma das grandes obsessões do argentino, também ele autor de versos eróticos (sua biblioteca contava com aproximadamente 500 volumes dedicados às produções do gênero). O ensaio acabou incluído em coletâneas de Drummond publicadas no exterior e virou tema de conferências que Manolo fez no Rio e em Itabira.

No começo da década de 90, ele deu início a um levantamento sobre a rima e a métrica do sogro. À época octogenário, estava de volta a Deán Funes, onde viveu os últimos anos sozinho, rodeado pelos livros e objetos que colecionava. Um retrato de Drummond pintado por Candido Portinari, por exemplo, convivia com uma boneca inflável que mais parecia uma rainha egípcia. Na pacata cidade de 20 mil habitantes, dispunha de tempo e tranquilidade para se dedicar à contagem dos versos.

O trabalho lhe tomaria pelo menos uma década. O filho Luis Maurício Graña Drummond lembra que o pai, com mais de 90 anos, continuava empenhado na pesquisa, às vezes cumprindo jornadas de doze horas, sempre escrevendo à mão. O estudo só foi transcrito para o computador depois de terminado.

Inspirado numa pesquisa semelhante que o linguista francês Pierre Guiraud fizera da obra de Charles Baudelaire, Manolo analisou os 38 mil versos do sogro, classificando-os de acordo com a natureza das rimas. Concluiu, assim, que 86,34% deles são livres, enquanto 13,66% são rimados. Também construiu quadros estatísticos para mostrar a “originalidade” e a “riqueza rítmica” de Drummond.

Com mais de 500 páginas, o estudo revela que, nos poemas do itabirano, predominam os quartetos, geralmente compostos de versos heptassílabos, octossílabos ou decassílabos. Obcecado, Manolo ainda inventariou todos os neologismos (432) que aparecem na produção do sogro, além de nomes próprios (845, ordenados por sexo e profissão) e menções à poesia ou a seus termos afins (408).

 

“Achei que faltava outro tipo de análise, que estudasse por separado os aspectos formais dos versos clássicos e dos livres (…), as estrofes, a catalogação dos temas, quando o poeta falava de si mesmo, ou de sua família, ou de Itabira, ou da própria poesia”, escreveu Manolo na introdução do livro inédito. Diferentemente de Manuel Bandeira e Cecília Meirelles, que exploravam abundantemente as diferentes técnicas da versificação, Drummond se deixava levar mais pelo ouvido, com uma “intuição aguda” que lhe permitia encontrar as “cadências melódicas às quais ajustava seu pensamento”, segundo o argentino. “Não era um perito comparável a Bandeira ou Cecília Meirelles, mas sabia o necessário da técnica”, diz Sérgio Alcides, crítico literário e professor da UFMG, a Universidade Federal de Minas Gerais. “Ele sabia principalmente utilizá-la a seu favor, sem nenhum dogmatismo, nada excessivo, nunca gratuito.”

Alcides admira-se que 86% dos versos de Drummond sejam livres, já que o poeta abusou da métrica, principalmente nas redondilhas maiores (heptassílabos). “O que não me surpreende nada”, ressalta o crítico, “é que ele tenha inventado uma rima macho-fêmea, considerando seu histórico.” As chamadas rimas macho-fêmea, quando uma palavra masculina dialoga com a equivalente feminina (digo/diga ou branco/branca), foram bastante difundidas na Espanha no século XV, mas Manolo acreditava “ser admissível, e mesmo bem possível, que Drummond não tenha conhecido tais antigas maneiras de versificar”.

O jornalista e escritor Edmilson Caminha, amigo do argentino e dono de uma respeitável biblioteca drummondiana, ouviu falar do livro pela primeira vez em meados dos anos 90. “Manolo era um intelectual autônomo, dotado de muita astúcia e erudição. Ele comentava com entusiasmo que esse trabalho seria sua maior contribuição à literatura brasileira.” O poeta Affonso Romano de Sant’Anna, autor de um estudo sobre o mineiro – Drummond: O Gauche no Tempo –, também se lembra de encontros com Manolo: “O que ele fez é loucura, coisa de compulsivo.”

Impossível precisar o momento exato em que o argentino colocou um ponto final em sua pesquisa. No livro, consta o ano de 2003, mas é certo que, depois disso, ele continuou a trabalhar. Mais tarde enviou os originais a Caminha, pedindo um prefácio. Pedro Graña Drummond, filho caçula de Manolo, faria um desenho para a capa e cuidaria da tradução para o português.

Em 2009, a editora da UFMG lançou 100 Poemas, uma coletânea bilíngue do  itabirano, organizada e traduzida pelo genro do autor. Caminha aproveitou a oportunidade e ofereceu o livro de Manolo aos editores, mas não teve resposta. Outra editora, de Brasília, também recusou a obra: o estudo seria demasiadamente técnico e extenso, inviável em termos comerciais.

O poeta e tradutor Paulo Henriques Britto, professor da PUC-Rio, mostra-se interessado pelas análises, embora reconheça que a versificação, mesmo dentro da academia, seja um tema que a poucos empolgue – ele estima que cerca de 5% de seus alunos se ocupem do assunto. “As pessoas passam anos estudando literatura e nunca veem esse aspecto. É algo que geralmente as assusta. Mas quem se aventura fica animadíssimo, abre-se um novo mundo”, diz Britto.

O poeta Antonio Carlos Secchin, membro da Academia Brasileira de Letras, é outro que lamenta o desinteresse pelo estudo, que conheceu “por alto”, quando Manolo ainda estava vivo. “Não há muita receptividade hoje em dia para esse tipo de trabalho. Os editores consideram a técnica um mero formalismo, o que é uma ignorância.”

Por ora, os netos de Drummond não sabem que destino dar à obra. Inéditas também permanecem as cartas trocadas pelo argentino e pelo itabirano. Se publicada, pondera Luís Maurício, a correspondência precisaria de um robusto aparato de notas explicativas: “Encarar essa leitura não é algo que tenhamos vontade de fazer já, pois decerto há coisas ali de caráter familiar.” Secchin, com quem o assunto já foi tratado, seria o nome da preferência dos herdeiros para cuidar do volume.

Além das discussões técnicas, as cartas trazem histórias divertidas, como a de um congresso literário no Rio, nos anos 70, que motivou uma vinda de Manolo ao Brasil. Antes de embarcar, ele pediu para o sogro lhe pagar a taxa de inscrição. Entretanto, no dia do colóquio, o nome de Manuel Graña Etcheverry não constava da lista. Embaraçado, ele explicou que sua inscrição havia sido paga por Carlos Drummond de Andrade. E assim acabou descobrindo que, ao receberem o cheque com a assinatura do poeta, os organizadores do evento pensaram num fim mais nobre para o autógrafo, emoldurando-o na parede.

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