Lilly Love e a cacatua Caju: “Aqui todas as aves são vítimas. Todas passaram por coisas que de certa forma também aconteceram com os veteranos. Isso me ajuda a lidar com meu trauma.”
Ver dados da foto Lilly Love e a cacatua Caju: “Aqui todas as aves são vítimas. Todas passaram por coisas que de certa forma também aconteceram com os veteranos. Isso me ajuda a lidar com meu trauma.” FOTO: JACK DAVISON PARA O NEW YORK TIMES_2016

Caminhos cruzados

A identificação entre veteranos de guerra e papagaios traumatizados num santuário americano
Charles Siebert
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Lilly Love e a cacatua Caju: “Aqui todas as aves são vítimas. Todas passaram por coisas que de certa forma também aconteceram com os veteranos. Isso me ajuda a lidar com meu trauma.” FOTO: JACK DAVISON PARA O NEW YORK TIMES_2016

Há cerca de trinta anos Lilly Love perdeu o rumo na vida. Acabava de completar uma missão de cinco anos no Alasca, trabalhando como salva-vidas. Voava nos helicópteros da Guarda Costeira, integrando uma equipe de elite que, de mares gélidos e bravios, resgatava pescadores em risco de naufrágio. No dia seguinte àquele em que deixou o serviço ativo, o helicóptero em que tinha voado nos três anos anteriores pegou mau tempo e se arrebentou numa montanha, matando seis ex-colegas de tripulação. Sofrendo com a perda, afogando-se em culpa, Love decidiu, como penitência, começar a pescar – ser como aqueles pescadores que salvara tantas vezes na Guarda Costeira. Em menos de um ano, quase se afogou em duas ocasiões: com o puxão dos ganchos e das pesadas linhas de pesca, caiu do barco que balançava em ondas altas.

Love só recebeu formalmente o diagnóstico de Transtorno de Estresse Pós-Traumático [TEPT ou PTSD em inglês] quinze anos depois. Nesse meio tempo, casou e se divorciou três vezes, então se assumiu transgênero e passou a viver como mulher. Morou longos períodos em Yelapa, no México, numa cabana isolada, só acessível pelo mar. Acabou vivendo num barco numa marina de Los Angeles, bebendo muito e tomando drogas psicotrópicas que os médicos receitavam com frequência cada vez maior. Era atendida no Centro Médico da Secretaria dos Veteranos de Guerra, distrito de Los Angeles Oeste, mas resistia aos tratamentos tradicionais, como aconselhamento e terapia de grupo. Uma noite, depois da quinta estadia na ala psiquiátrica do Centro dos Veteranos, seu barco se chocou contra um quebra-mar. Certo dia, em 2006, passeava pelo jardim do centro quando por acaso avistou uns papagaios alojados num aviário, um lugar muito especial inaugurado no ano anterior.

“Sobrevivi por causa deste lugar”, disse Love, recentemente. Eu a observava numa de suas sessões diárias de terapia no Serenity Park – nome absurdo, aliás, a qualquer um que esteja a 200 metros dali.

Dentro de um aviário cercado por uma rede de arame, Julius, uma cacatua-das-molucas de um palmo e meio de altura, branca e cor de pêssego, com um adorno rosa na cabeça, andava de um lado para o outro, murmurando alguma coisa em coreano, língua natal de sua antiga dona. Sua vizinha é Bacardi, uma arara-canindé de quase 1 metro de altura, abandonada por um motorista de caminhão que vivia na estrada. Bacardi chamava sem parar por alguém de nome “Muffin”. De repente levantou voo e derrubou a bandeja de comida, provocando gritos de prazer das aves ao redor. Do outro lado estava Pinky, uma cacatua-de-goffin, cuja guarda foi ferozmente disputada pela dona original e seu marido – que por puro despeito ameaçou cortar as asas do pomo da discórdia. Pinky imitava um gaio azul, num lamento que lembrava uma serra elétrica em ação. Mais gritos agudos, depois intervalos de silêncio, interrompidos por fragmentos aleatórios de conversas antigas: “Oi, amor!”, “Sei lá!”, “O quê?!”, “Uau!”, “Anda logo!” Dali a pouco, vindo de um canto longínquo, ouvi o assobio lento e persistente de A Ponte do Rio Kwai.

“Eles tanto me entupiram de remédio que eu já estava enxergando homenzinhos verdes e aranhas pulando das árvores”, continuou Love, hoje com 54 anos. Enquanto isso, uma marianinha fêmea chamada Caju, de menos de um palmo de altura, andava em seus ombros, determinada, de cá para lá e de lá para cá, como um soldado fazendo a ronda, cumprindo seu dever.

Nos dez minutos seguintes, Love, de olhos fechados e braços relaxados, deu prosseguimento a um dueto com ela – um dos muitos que ela entoa, diariamente, com cada um dos habitantes alados do Serenity Park. Erguia e abaixava os ombros suavemente, como um navio balançando, e o andar da ave, leve como a pluma, a deixava ainda mais à vontade. De vez em quando Caju fazia uma pausa para roçar o biquinho no pescoço e na orelha de Love; daí virava a cabeça em direção à boca da companheira para ganhar uns beijinhos. Caju caminhou mais um pouco e de repente subiu no cocoruto da cabeça da amiga. Abrindo um sorriso largo, Love permitiu que ela ficasse lá um bom tempo, deitada de costas e batendo as asinhas, como fazem as marianinhas na natureza ao tomar banho em pequenos montes de folhas molhadas.

Em seu estado silvestre, na floresta tropical, as marianinhas – aves pequeninas de cores chamativas, amarelo, branco e um verde profundo – voam em enormes bandos compactos, produzindo um som farfalhante. Caju, porém, por razões desconhecidas, teve as asas excessivamente aparadas pelo ex-dono, que a comprou para criá-la em casa, mas depois a abandonou. Love vai ajudá-la a voar diariamente.

As aulas de voo em geral ocorrem no final da rotina de Love. Todos os dias, logo ao amanhecer, ela sai de casa – o barco ancorado na marina – e vai até o Serenity Park. Passa quatro ou cinco horas cuidando dos papagaios, junto com os outros seis veteranos do programa de terapia ocupacional do parque. Leva água e comida para as aves, limpa as gaiolas, encosta o rosto nelas, faz carinho, acompanha os arrulhos, o falatório, os gritinhos. Love, de longe a mais animada entre os veteranos que conheci no local, pula de um aviário a outro, imitando os movimentos de cada ave, a voz e o jeito de cada uma. E, assim como faz com Caju, tenta restaurar o que lhes foi arrancado.

Naquele dia, bastou pronunciar uma única vez o nome da aluna e Caju correu para a palma de sua mão, a cabecinha meio de lado, sinalizando prontidão. Love a colocou num poleiro, e abaixou e levantou suas asas seguidas vezes, como que fazendo um aquecimento. Daí estendeu o indicador, no qual Caju se apoiou por um instante, e com um rápido impulso soltou-a no ar, deixando-a mergulhar em queda livre. Depois de alguns movimentos frenéticos, Caju começou a bater as asas com mais firmeza, conseguindo sustentação para alcançar o outro lado de seu espaçoso lar cercado de tela. “Viu?”, disse Love, radiante. “Ela consegue voar, percorreu uma boa distância!”

Acolhendo-a novamente na palma da mão, encostou Caju em seu rosto, com carinho. “O espírito deles me dá força para levantar de manhã e viver mais um dia. Aqui todos são vítimas. Todos passaram por coisas que de certa forma também aconteceram com os veteranos.” Love baixou as mãos e observou Caju rolando no chão de costas, numa típica brincadeira das marianinhas conhecida como “luta livre”. “Eles não deveriam ficar em cativeiro, não são feitos para isso”, disse Love, acariciando as penas brancas no peito de Caju. “Mas eles têm uma mentalidade de sobreviventes. São raios de luz, são grandiosos, e foram chutados, marginalizados. Eu enxergo o trauma, o trauma mútuo, o que sofri e o que eles sofreram, e meu coração só quer chegar até eles, alimentá-los, dar carinho, cuidar deles. Isso me ajuda a lidar com meu trauma. E tudo isso sem palavras!”

 

Os papagaios abandonados são seres duas vezes traumatizados: primeiro lhes tiraram o instinto natural de permanecer com o bando; depois, foram apartados da companhia dos seres humanos com quem viviam. Na natureza, os papagaios cruzam os ares assim como as baleias, os mares: em bando, e de maneira complexa. Os pares de longa data voam juntos, tocando as pontas das asas. E dentro desse agrupamento social amplo e muito unido, cada indivíduo, como os cientistas descobriram recentemente, tem seu próprio grito, identificável e único como o nome de um ser humano. Os papagaios aprendem a dar esse grito individual logo após o nascimento, durante um período transitório de vocalização equivalente ao balbuciar dos bebês humanos, conhecido como “subcanto”, e fazem isso para se comunicar melhor com os membros de seu bando e com outros bandos. E é essa a origem do famoso dom para a imitação – um dom que, juntamente com a plumagem vivíssima e o olhar estranhamente fixo, induz o ser humano a querer manter um papagaio só para si, numa bela gaiola na sala de casa – esses animais, porém, dispõem de neurônios programados para uma vida em bando, até os 60 a 70 anos de idade, e têm a capacidade cognitiva de uma criança de 4 a 5 anos.

Contei 34 papagaios no Serenity Park, representantes de algumas das mais de 350 espécies da ordem dos psittaciformes. Eram, em geral, animais de estimação abandonados e profundamente traumatizados por terem sobrevivido aos donos – ou à paciência dos donos. Um papagaio separado do bando vai se concentrar, deliberada e intensamente, nas atenções e afetos de seu novo guardião humano. E quando essa pessoa, não importa por que motivo, não consegue corresponder a essa relação tão exclusiva, os efeitos são devastadores.

Basta caminhar pelo corredor do parque, com aviários de ambos os lados, e os sinais desses vínculos rompidos saltam aos olhos e invadem os ouvidos. Alguns bichos vivem com seus comportamentos repetitivos, obsessivos, andando ou se balançando de um lado para o outro, sem parar, ou gritando incessantemente; outros, encolhidos num canto, arrancam as próprias penas, falam as mesmas palavras relembradas como um disco quebrado. Mas, no parque, aqueles comportamentos que talvez reforçassem nossa ideia caricata dos papagaios – “cérebro de passarinho”, “só imitação, sem compreensão”, “repete feito um papagaio” e assim por diante – são reconhecidos como sintomas clássicos do Transtorno de Estresse Pós-Traumático, o mesmo que aflige os pacientes no Centro dos Veteranos. Hoje os pássaros estão envolvidos num processo de cura mútua entre duas espécies, eles e alguns humanos com profundas feridas psicológicas.

“O problema dos papagaios é que eles têm uma sintonia intensa”, disse certa tarde Lorin Lindner, a psicóloga que fundou o Serenity Park, enquanto observávamos Julius andando para lá e para cá, falando em coreano. “Eles têm um número imenso de neurônios sociais, capazes de espelhar aquilo que o bando faz. É crucial para a sobrevivência deles saberem o que o bando está fazendo, quais os sinais de perigo, quando devem ficar juntos, quando a noite está caindo e é preciso voltar para o poleiro. Os papagaios reagem socialmente em tanta sintonia que podem muito bem transferir isso para nós. Eles têm a capacidade de se ligar, se conectar, de sentir proximidade com outro ser, outra espécie.”

Ao ouvir Julius falando em coreano, me lembrei de uma história que li há pouco na revista Current Biology. Koshik, um elefante asiático de 22 anos, residente no jardim zoológico Everland, em Yongin, na Coreia do Sul, foi separado das duas elefantas com quem havia sido criado em cativeiro. Ele viveu sozinho em Everland por sete anos, e nesse período desenvolveu uma maneira de pronunciar palavras em coreano perfeitamente inteligíveis, enfiando a tromba na boca e, com a língua, emitindo sons e consoantes explosivas no idioma dos funcionários e visitantes do zoo. Esse “aprendizado vocal”, segundo as conclusões dos autores do artigo, não é uma tentativa de se comunicar diretamente conosco, mas sim o modo como uma espécie altamente social como o elefante tenta “cimentar vínculos sociais” com a única outra espécie presente em seu entorno.

É um resultado natural, mas totalmente improvável, do chamado Antropoceno, a primeira era a ser batizada com o nome do ser humano: o confinamento prolongado de criaturas inteligentes e sociais as obriga a falar a língua dos cuidadores. E agora, em mais um fenômeno insólito do Antropoceno, os papagaios, uma das vítimas mais antigas da ganância e da vaidade humana, se tornaram peritos em ler, com alta dose de empatia, nossa mente perturbada. Sua profunda necessidade de se conectar consegue atrair as mais gravemente feridas e mais ensimesmadas vítimas de TEPT, fazendo-as se abrirem e saírem do isolamento. Em um extraordinário exemplo de simbiose, dois tipos de rejeitados, completamente diferentes, mas ambos vítimas da agressão humana – a guerra e o cativeiro –, estão ajudando uns aos outros a reencontrar seu rumo.

 

Lindner, de 59 anos, uma nova-iorquina do Queens, pouco sabia sobre papagaios quando, em 1976, foi concluir a faculdade e fazer pós-graduação em ciências comportamentais na Universidade da Califórnia em Los Angeles, a Ucla. Certo dia de 1987, uma semana antes do Natal, um amigo que sabia de seu profundo afeto e afinidade com os animais lhe telefonou. “Ele tinha ouvido falar de um papagaio, uma femeazinha chamada Sammy, que precisava de alguém para cuidar dela”, lembrou Lindner. “Sammy estava vivendo sozinha numa mansão em Beverly Hills. O dono havia posto a casa à venda e decidira deixar a ave por ali mesmo – como as cores da plumagem combinavam com a decoração, ele achou que os possíveis compradores poderiam gostar. Uma vez por semana o motorista ia levar comida para ela. Quando fui buscá-la, as fezes formavam uma pirâmide que chegava até o poleiro.”

No ano seguinte, Lindner abriu um consultório particular no bairro de Westwood e se engajou num trabalho voluntário com veteranos de guerra – um número crescente de ex-militares sem-teto vagava pela vizinhança. À época, muitos moravam em barracas sob os viadutos enquanto aguardavam as consultas no Centro dos Veteranos. Arrasada com as histórias que ouvia, Lindner resolveu trabalhar em tempo integral com aqueles homens. Acabou pedindo apoio do governo para dirigir, num centro residencial de tratamento, o programa New Directions, sem fins lucrativos, voltado à reabilitação de veteranos desabrigados.

Como passava cada vez mais tempo no trabalho, Lindner adotou uma cacatua órfã, Manga, para servir de “colega de bando” a Sammy. Não demorou muito e já estava à frente de dois projetos – o New Directions, transferido em 1997 para um edifício recém-reformado no terreno do Centro dos Veteranos, e um santuário para papagaios sem-teto que ela fundou naquele ano com uma amiga, num terreno de 16 mil metros quadrados em Ojai, ao norte de Los Angeles, a uma hora e meia de carro. Certo dia, no final de 1997, ao comandar uma sessão de terapia de grupo com veteranos – mais uma sessão que não chegava a lugar nenhum –, Lindner tomou uma decisão.

“Os caras estavam ali sentados, estoicos, de braços cruzados e boca fechada”, ela lembra. “E já estavam assim havia várias semanas. Então, só para variar, resolvi levá-los até Ojai para ajudar a construir novos aviários. E de repente aqueles mesmos sujeitos de boca fechada estavam acariciando papagaios e falando com eles sem parar.”

Lindner logo quis repetir a experiência com outros veteranos. As transformações que presenciou em ambas as espécies foram tão marcantes que ela iniciou uma batalha para convencer a administração dos Veteranos a ceder o terreno de uma velha quadra de basquete, bem próxima ao centro médico, logo abaixo de uma colina. A ideia era transferir as aves de seu santuário e iniciar um programa de terapia ocupacional. (Os veteranos recebem um pagamento pelo trabalho no santuário; alguns, como Love, são voluntários.) Lindner começou com dois aviários de 7,5 metros de altura; agora há mais de vinte. Alguns abrigam até três ou quatro aves, como Kiki, Phoebe e Dino (os chamados “Três Patetas”), um inseparável trio de cacatuas-brancas que passa o dia afagando, alisando e cuidando uma da outra. Em outros moram apenas casais muito unidos, como Mandy e Kookie, um casal de papagaios ecletus, espécie nativa das Ilhas Salomão; ou ainda as duas araras, Jester e Tango, uma arlequim e uma vermelha-grande, que nunca se afastam uma da outra. Mas há também os alojamentos dos solitários inveterados, travados em algum lugar entre seu eu natural e seu eu cativo, como Caju ou Bacardi. Ou ainda Julius, que tem medo dos outros papagaios porque, como explicou Lindner, “ele não se julga um deles”.

Naquele dia, enquanto eu conversava com Lindner – uma mulher calorosa e efusiva, loira, de franja e cabelo comprido –, fiquei observando Jim Minick, que serviu três vezes no exterior e sofreu ferimentos graves na parte superior do corpo, numa queda de helicóptero. Jim estendia as mãos para Bacardi, a arara-canindé, e a deixava limpar suas unhas com o bico. Em outro recinto, Jason Martinez, veterano do Exército, estava sentado em sua cadeira de rodas ao lado de Molly, uma fêmea de papagaio africano que descansava em seu poleiro – os dois apenas se olhavam.

Love se aproximou com uma cacatua-de-goffin já idosa chamada Bobbi, que tinha passado a maior parte da vida trancada numa gaveta da cozinha. Parecia uma galinhazinha azul depenada. A única plumagem remanescente eram algumas penas falhas na cauda e nas asas, e um gorrinho esgarçado na cabeça, que só não era calva porque ela não conseguia alcançar o bico para se mutilar. Love ergueu o indicador bem alto e saiu correndo entre os aviários, gritando: “Voa, Bobbi, voa!”, proporcionando à pupila, que em vão batia as asas, pelo menos uma sensação de voo.

“A gente olha nos olhos deles…”, comentou Love, já de volta. “Basta olhar nos olhos de qualquer um destes papagaios, e eu vejo uma alma. Vejo uma luz lá dentro. E quando eles olham para você, enxergam diretamente a sua alma. Olhe em volta. Está vendo? Estão todos prestando atenção… Eles percebem tudo! É uma coisa intensa.”

Olhei em torno e me deparei com uma série de olhares fixos em mim, em vários níveis de altura, e me senti ao mesmo tempo observado e flutuando, graças a essas criaturinhas com uma fração do meu peso. De início não consegui situar onde eu já tinha visto aquilo: o movimento rotativo do olhar, passando lentamente de um lado para o outro, a maneira como abaixam a cabeça e em seguida a levantam devagar, qual uma filmadora ajustando o foco. De repente me veio a imagem: eles me lembravam aqueles velociraptores de efeitos especiais dos filmes de ficção científica, só que as escamas se transformaram em penas e os bracinhos mirrados viraram asas. O tempo deu uma guinada violenta, ao mesmo tempo para trás e para a frente, e então me recolocou bem no lugar onde eu estava antes – de volta àquele momento e, contudo, mais presente, profundamente presente.

“Deus é um papagaio”, disse Love. “Agora já sei. Dizem que Deus interpreta e imita o que fazemos na Terra, não é? É um reflexo de nós? Então eu acredito que Deus, ou Deusa, se é que ela existe, deve ser um papagaio.”

 

A terapia assistida por animais não é uma receita nova. É utilizada pelo menos desde o século XVIII, quando se inaugurou o Retiro York para doentes mentais na Inglaterra, em 1796, que permitia aos pacientes caminhar pelas áreas externas, em meio aos animais da fazenda. Sigmund Freud, em seu consultório de Viena, costumava manter seu chow-chow por perto nas sessões de psicanálise, para tranquilizar e relaxar os pacientes e fazê-los se abrir mais facilmente. Já em 1919 os militares americanos empregavam cães como ajuda terapêutica para tratamentos psiquiátricos no hospital Saint Elizabeth, em Washington. Mas o que distingue o vínculo mutuamente pacificador entre veteranos e papagaios no Serenity Park é a inteligência – diferente da nossa, mas reconhecível – do lado não humano da equação.

Hoje em dia há inúmeras provas de que os papagaios possuem uma capacidade cognitiva e uma sensibilidade muito semelhantes às do ser humano. Alex, um famoso papagaio africano, já falecido, foi estudado por sua companheira de longos anos, a dra. Irene Pepperberg, professora de psicologia, e costuma ser citado como paradigma da inteligência da sua espécie: sua capacidade cognitiva era igual à de uma criança de 5 anos. Ele dominava mais de 100 palavras e compreendia conceitos abstratos como ausência e presença. (Alex era ótimo no jogo das três tampinhas, no qual duas sementes ou moedas são escondidas e uma tampa fica vazia.) Muitas vezes dava ordens peremptórias aos pesquisadores que o estudavam, e brincava na língua deles, dando, de propósito, uma resposta errada a suas perguntas, só para aliviar o próprio tédio. Alex também demonstrava o que chamamos de “sentimentos magoados”. Certa vez, quando Pepperberg voltou para casa depois de uma ausência de três semanas, ele virou as costas e ordenou: “Vem aqui!”

Histórias como essas abundam entre aqueles que criam papagaios e trabalham com eles. A dra. Patricia Anderson, antropóloga da Universidade Western Illinois, me disse que seus conhecimentos de antrozoologia, o estudo das relações entre o homem e os animais, são contestados todos os dias por seus papagaios. Há cerca de trinta anos ela decidiu adotar um periquito-monge chamado Otis, que foi o primeiro de uma série. “Otis tinha uma inteligência brilhante”, disse. “Eu lhe ensinei a dizer ‘Obrigado’ – já sei, é muito antropocêntrico da minha parte. Mas ele generalizou a expressão corretamente, aplicando-a a qualquer coisa que eu fizesse por ele. E nunca falava ‘obrigado’ aleatoriamente, só quando eu lhe fazia alguma gentileza. Assim, parecia mesmo que a palavra tinha um significado para ele. Havia cognição, e pirei.” Anderson leu muito sobre papagaios e aprendeu que, sempre que fosse sair de casa, devia dizer: “Vou voltar já!” Ela conta: “Passei a dizer isso, e então, sempre que eu me punha a calçar os sapatos para ir ao trabalho, ele dizia: ‘Voltar já? Voltar já?’”

 

Embora o cérebro das aves possua apenas um nódulo mínimo das estruturas associadas à inteligência dos mamíferos, estudos recentes sobre corvos e papagaios revelam que as aves pensam e aprendem com uma parte totalmente diferente do cérebro, uma espécie de neocórtex aviário chamado estriado ventral médio rostral. E, de fato, tanto nos papagaios como nos corvos, a proporção entre o tamanho do cérebro e o do corpo é semelhante à dos grandes primatas. É um quociente de encefalização que produz em ambas as espécies não só os sinais habituais de sofisticação cognitiva, como resolução de problemas e utilização de ferramentas, mas também dois aspectos da inteligência que se pensava serem exclusivos do ser humano: a memória episódica e a capacidade de atribuir estados mentais, como intenção, desejo e consciência, a si mesmo e aos outros.

Ou seja, a natureza, num exemplo impressionante de evolução paralela ou convergente, encontrou outro caminho, completamente diferente e muito mais antigo, para a cognição complexa: uma outra inteligência, diversa, que proporciona uma ligação direta não só com mentes que sempre acreditamos estarem perdidas para sempre, como os dinossauros, mas que também podem se sentir magoadas e coagidas, da mesma forma que nós. Em um estudo psiquiátrico recente realizado pelo Serviço de Adoção e Salvamento Aviário do Meio-Oeste – um santuário e centro de reabilitação de papagaios em Minnesota –, um macho de cacatua-branca, criado em cativeiro e “exposto a vários cuidadores muito instáveis (violência doméstica, abuso de substâncias, vícios)”, recebeu um diagnóstico de TEPT. “Vistos pela lente do TEPT”, escreve a dra. Gay Bradshaw, psicóloga, ecologista e uma das autoras do estudo, “os sintomas de muitos papagaios engaiolados são quase indistinguíveis dos apresentados por prisioneiros de guerra e sobreviventes de campos de concentração.” E acrescenta que as cacatuas gravemente traumatizadas “costumam apresentar comportamentos como andar pela gaiola para lá e para cá rapidamente, soltar gritos e chamados de socorro, automutilação, agressão em resposta ao contato físico, pesadelos, insônia”.

Os veteranos têm cicatrizes psicológicas semelhantes, mas sempre que eu perguntava como se explica que os papagaios se conectem com eles quando terapeutas e outros veteranos do grupo não conseguiram, a resposta parecia aludir, justamente, ao fato de que os papagaios são uma outra inteligência, muito diversa: uma mente paralela, analogamente ferida, que conhece a dor, sente-a profundamente, mas tem o poder de liberar o outro, pois está fora dos limites normativos da linguagem humana e dos preconceitos humanos.

“Eles olham para você e não julgam” disse Jim Minick, o veterano ferido numa missão de helicóptero. “O papagaio olha e enxerga simplesmente o que está ali. É uma coisa pura.”

Certo dia subi a colina até o Centro dos Veteranos para falar com Leslie Martin. Assistente social clínica e diretora do serviço de recuperação de traumas do centro, ela costuma recomendar a terapia com papagaios, inclusive a pacientes “resistentes ao tratamento”, como Lilly Love. Perguntei se a natureza primordial da inteligência dos papagaios pode exercer um efeito particular em certos veteranos. “Todo mundo sabe que esses animais são muito sensíveis, como as crianças”, ela disse. “A natureza pura, primitiva, de seus sentimentos, de suas emoções, ativa o cérebro primitivo das pessoas. E quando os pacientes vêm falar com a gente, é uma alegria, uma euforia.”

Estudos anteriores já haviam demonstrado que uma terapia eficaz contra o trauma pode ajudar o cérebro a construir desvios neurais em torno das áreas traumatizadas. “Essas pesquisas estão engatinhando, mas ocorrem fenômenos no córtex pré-frontal”, disse Martin. “Existem alterações fisiológicas e químicas nessa área que são reais, são mensuráveis.” Lindner diz que gostaria de convocar pesquisadores das ciências do cérebro para explicar a eficácia da terapia com papagaios. Seu interesse é saber se são realmente os papagaios que estão ajudando os veteranos, ou se há outras variáveis em ação. Por enquanto ela usa como régua o jardim ali perto, em frente ao parque. Há muitos anos os veteranos angustiados são encaminhados para trabalhar no jardim, como terapia ocupacional para enfrentar seus traumas. Trabalham num ambiente tranquilo como o Serenity Park – com a diferença, é claro, que não há papagaios. Lindner observa os sinais de melhora nos dois grupos de veteranos: ficar sem beber nem tomar drogas, comparecer às consultas marcadas no centro, restabelecer relações com a família, encontrar um emprego remunerado e assim por diante. Na comparação, é bem visível que os que convivem com papagaios se saem melhor.

“Sem dúvida há algo diferente acontecendo aqui neste lugar”, diz Lindner. “Nós sabemos que, na verdade, aquilo que foi preservado através das espécies, em todos os vertebrados, é a capacidade de sentir compaixão. Em relação às aves e aos seres humanos, ambos apresentam reações do sistema nervoso simpático. Ambos reagem ao trauma da mesma forma, tanto no nível fisiológico como em termos da natureza reparadora da compaixão e da empatia. É isso que está realizando a cura, é isso que está juntando as duas metades quebradas. Não sabemos qual é, na realidade, o fator da cura, mas creio que tem a ver com o espelho mental. Os papagaios compreendem o que os veteranos estão sentindo, e os veteranos também os compreendem.”

 

Uma tarde, uma caminhonete branca chegou zunindo e freou atrás do galpão no Serenity Park. No assento do passageiro, Lindner segurava uma caixinha de madeira com as cinzas de seu primeiro papagaio, Sammy, morta em março passado depois de 27 anos de convívio com ela. Mais tarde, ela ia ser enterrada no parque. Quem dirigia a caminhonete era o gerente do local, Matt Simmons, um sujeito musculoso de 43 anos, de queixo quadrado, um veterano que chegou ao santuário em 2006, depois de muito tempo sem fazer progressos na terapia de grupo tradicional. Quando o terapeuta disse a ele, pela primeira vez, para ir até o aviário, Simmons pensou que ia “lidar com galinhas”. Em vez disso, encontrou a si mesmo, através dos olhos das pequenas vítimas aladas. Começou a dedicar seus dias aos papagaios, formando vínculos que aos poucos o resgataram da sensação de isolamento e desconfiança. As aves lhe permitiram se abrir e se conectar também com as pessoas. Ele e Lindner foram se aproximando, até que em 2009 se casaram, numa cerimônia realizada ali no santuário. Sammy foi a dama de honra, trazendo flores; o buquê de noiva foi confeccionado com penas caídas dos papagaios.

Matt Simmons montou seu primeiro computador ainda na escola primária. Ao terminar o secundário, entrou direto na Marinha, contra a vontade do pai, que o queria cursando direito. No recrutamento, Simmons pediu explicitamente uma atividade não combatente; suas notas, porém, foram tão altas que a Marinha quis mandá-lo para um submarino nuclear. Ele conseguiu escapar e alistou-se como escrevente num porta-aviões. No início de 1991, partiu numa missão que acreditava ser relativamente fácil, encarregado de serviços de escritório. Até que um dia o porta-aviões deu uma guinada repentina e mudou de rumo.

“Eles nos disseram que íamos a Porto Rico”, contou Simmons, num jantar com Lindner. “Mas, de repente, o que foi que eu vi? O sol atrás do porta-aviões, e um aviso: vamos para o Golfo Pérsico. Fui parar em Bahrein, no interior do país, numa missão ultrassecreta, acompanhando os Seals da Marinha. Meu trabalho administrativo consistia em documentar, em meio a uma fumaça espessa, todos os assassinatos cometidos, e quantos alvos os aviões tinham acertado. Durante vários meses, o dia parecia noite. Vi muita matança, e muita coisa que eu gostaria de não ter visto.”

Ao voltar, Simmons entrou na Universidade de Cincinnati para estudar literatura e filosofia. Abriu uma firma de software ainda no terceiro ano e estrelou no futebol americano como quarter-back, sob a orientação de Rex Ryan, agora treinador dos Buffalo Bills, até que uma lesão no joelho o obrigou a parar de jogar. No início, atribuía o terror noturno e o suor frio que sentia nos últimos dois anos de faculdade ao estresse dos estudos e do gerenciamento de sua nova firma. Mas logo começou a beber muito, e com menos de 30 anos ficou viciado em heroína e medicamentos receitados. Foi se distanciando da primeira mulher e se divorciou; vendeu a firma para a LexisNexis, e um belo dia zarpou em sua BMW para a Califórnia. Ali acabou encarcerado um ano por agressão, depois de quase matar um homem numa briga de bar.

O TEPT resultante do período na Marinha só foi diagnosticado formalmente dois anos depois. Um amigo sugeriu que ele pedisse ajuda no Centro dos Veteranos de Los Angeles. Simmons me disse que até aquele momento nem fazia ideia de que tudo aquilo que sentia tinha a ver com o serviço militar. No centro, os medicamentos receitados por um psiquiatra não surtiram efeito. Foi ficando cada vez mais fechado nas sessões de terapia – na época, dominadas por veteranos da Guerra do Vietnã, que há muito eram ignorados e tinham problemas completamente diferentes dos veteranos da Guerra do Golfo. “Falei tudo isso para meu terapeuta”, conta Simmons, “e ele respondeu que, se eu não fosse trabalhar no santuário das aves, ele não me trataria mais.”

Simmons sentiu uma afinidade instantânea com Joey, um papagaio-campeiro que tinha a curiosa história de ser pai adotivo: havia adotado e criado um par de filhotinhos no santuário, duas femeazinhas de papagaio-de-finsch que tinham caído do ninho. Joey regurgitava sua própria comida para alimentá-las. Para um papagaio macho, criar dois filhotes de outra espécie é uma rara demonstração de altruísmo, disse Lindner, um comportamento que sempre se acreditou exclusivo dos seres humanos e outros primatas.

“Joey chegou ao Serenity Park mais ou menos na mesma época que eu”, disse Simmons. “Essa foi a primeira coincidência. Como me disseram que os papagaios-campeiros não são muito amigáveis, quando Joey se aproximou para fazer amizade, o gesto teve uma importância enorme para mim. Nós dois somos de espécies diferentes, mas temos um ao outro. Eu era tímido, vivia isolado, irritado, me sentia queimado, escaldado pelos seres humanos. Joey me pareceu ter essa mesma atitude. Nós dois sentimos uma ligação, e ele me deixou encostar a mão nele. Só a mim ele permitiu isso.”

Algumas semanas depois de chegar ao parque, disse Lindner, Simmons praticamente tomou conta do lugar. Todos os dias às três da madrugada já estava na cozinha, preparando o café para todos os veteranos. Descia para o santuário e trabalhava até as seis da noite, limpando o terreno, construindo novos aviários, ampliando os já existentes.

Quando pedi a Simmons para descrever o que acontece quando ele está com um papagaio, ele logo embarcou num de seus monólogos acelerados. “Lá vamos nós! Anote aí! Vi coisas que nunca mais vou esquecer. Carrego comigo uma carga enorme de culpa, vergonha, dor, um fardo pesadíssimo que desabou em cima de mim quando eu tinha 18 anos, lá em Bahrein. Mas agora, quando estou com um papagaio, não é que o tempo das coisas mude inteiramente, mas então eu preciso agir como um menino de 12 anos outra vez, preciso mesmo. E sabe por quê? É porque os papagaios não são animais domesticados. Eles não foram criados por centenas de anos para ficar a meus pés.”

Simmons fez uma pausa e tomou um gole de Coca-Cola, a terceira da noite. “Assim, se eu quiser ter um relacionamento com um papagaio, ele tem que me escolher. E, para isso, ele precisa se sentir à vontade. E tenho de me aproximar dele bem aberto, calmo e tranquilo. Como aquele garoto de 12 anos que ficava frente a frente com o cachorro bravo do vizinho e nunca teve problemas. Como o garoto de 12 anos que um dia saiu para uma caminhada e avistou um leão da montanha. Estou agindo de novo como um menino de 12 anos, e isso me ajuda a enfrentar meu trauma, em vez de continuar carregando esse peso nas costas. Porque agora as coisas são assim – estou conversando com um psiquiatra, e de repente comento sobre certo papagaio, digo que ele não estava se sentindo muito bem hoje, não estava à vontade, ficava se escondendo no fundo da gaiola… E o psiquiatra diz: ‘Humm… você está começando a falar sobre as emoções.’ Quer dizer, eu estava falando sobre o que o papagaio estava sentindo, mas também estava transferindo minhas próprias emoções. Então é assim – estar com os papagaios me permite olhar meu trauma de fora, na terceira pessoa –, uma coisa que a gente não pode fazer quando está pirado de tanto Vicodin e Budweiser, morando debaixo do viaduto.”

 

Muitas vezes pensamos que a empatia é um dom, não uma ferramenta bioevolucionária antiquíssima direcionada para a sobrevivência, entranhada nos neurônios: a capacidade de habitar os sentimentos de outro ser (a palavra “empatia” vem do grego en, que significa “em”, e páthos, “sofrimento” ou “experiência”). É a capacidade de sentir, por exemplo, o medo que o outro sente diante de uma ameaça; ou o entusiasmo por um alimento recém-descoberto; ou a tristeza por uma perda, algo que tem a ver com a própria trama da comunidade, assim como qualquer perda. Nesse sentido, a empatia pode ser considerada a fonte de todas as emoções – sem ela, as outras não teriam nenhum registro cerebral.

Quanto mais tempo eu passava no Serenity Park, mais pensava em termos da anatomia expansiva da empatia. E não são apenas os circuitos neurais semelhantes, já mapeados em várias espécies, desde o Homo sapiens e os outros primatas até os elefantes e as baleias, mas também, como sabemos agora, nas criaturas com um cérebro inteiramente diferente do nosso, um cérebro não mamífero, como os corvos e os papagaios. Pensei também na extraordinária capacidade que esse circuito fornece de reconhecer e reagir às enfermidades específicas de outra espécie, tanto psíquicas como físicas (embora as duas coisas sejam, essencialmente, uma só).

Logo no início de minha estadia no parque, percebi quais papagaios e quais veteranos sentiam atração um pelo outro. Observei, por exemplo, a maneira como Dagwood, uma fêmea de papagaio-de-finsch, ganhava vida quando estava perto de Jim Minick, o veterano do helicóptero da Marinha. Mas só mais tarde fiquei a par da verdadeira profundidade desses laços.

“Sabe, Jim faz um esforço danado para esconder os ferimentos”, disse Simmons. “Ele tem tatuagens no cotovelo que agora não fazem mais sentido. Ele nunca fala sobre o assunto, mas já enfiou o cano da espingarda na boca, com lágrimas escorrendo pelo rosto. Naquela noite ele pegou o carro e bateu de frente numa árvore, caindo de bêbado. Daí ele chegou ao Serenity Park e, sem conhecer a história de nenhum dos papagaios, qual deles logo criou amor por ele? Dagwood, aquela da asa ferida e bico torto. Não tem explicação.”

Jason Martinez, que teve lesões cerebrais traumáticas ao pular de paraquedas no Afeganistão e agora sofre de crises epilépticas, foi imediatamente atraído por Molly, uma fêmea africana – o único papagaio do parque, como ficou sabendo depois, que tinha epilepsia. E havia também os carinhos e os cochichos diários, de rostinho colado, entre Bobbi, a cacatua-de-goffin toda depenada, ex-prisioneira de uma gaveta, e um ex-fuzileiro naval, um rapaz loiro de 21 anos chamado Josh Lozon.

“Olha só o caso do Josh”, disse Simmons. “Um rapaz bonitão, de cabelo encaracolado. Mas que dá um pouco de medo. Foi tão quebrado, tão moído, que seus ferimentos ainda estão bem escondidos. E quem se dá melhor com ele? Bobbi, depenada, quase nua, sangrando nas poucas penas que lhe restam. Cara, ela parece um pterodátilo que passou por uma serra elétrica.”

De todos os veteranos que conheci ali, Lozon era, de longe, o mais arisco. A única vez que consegui conversar um pouquinho mais com ele foi certa manhã em que o encontrei em cima de uma plataforma de madeira, lá no alto de um galpão, escovando as grades de uma gaiola vazia. Subi os degraus estreitos da plataforma, e com isso acabei meio que encurralando Lozon.

Ele disse que tinha entrado nos Fuzileiros Navais porque “queria dar porrada em alguém”. Recebeu notas excepcionais no teste de aptidão e foi encaminhado a um escritório para trabalhar com informática – um serviço adequado a sua capacidade intelectual, mas não a seu temperamento. Acabou sendo enviado ao Centro dos Veteranos para avaliação, depois de frequentes episódios de insubordinação e comportamento imprevisível. Receitaram-lhe antipsicóticos e estabilizadores de humor – no momento, confessou timidamente, não estava tomando nada, graças ao parque.

Lozon não conseguia expressar o que exatamente acontecia entre ele e os papagaios. Tudo que dizia e repetia era: “São as gaiolas. Tem a ver com as gaiolas.” Percebi que ele estava ficando constrangido, e desci a escada da plataforma. De volta no chão, olhei para Lozon lá em cima, que arrulhava e chilreava tranquilamente com Koko, um rosela-elegante. De repente ele me olhou e disse: “Eles estão presos nessas gaiolas, sem poder fazer nada… e não é culpa deles.” Fez uma pausa, e quando eu ia me afastar, continuou: “Mas, para mim, pessoalmente, quando estou sozinho com eles, aqui nessas gaiolas… sinto que não preciso ser do jeito que todo mundo espera de mim. Posso ser um animal outra vez.”

No fim da tarde de meu último dia no santuário, fiquei com a sensação de que não havia mais ninguém ali. Passei pela gaiola de Koko, que declamava seus trechinhos selecionados da constante sinfonia de vozes humanas no parque. Lembrei-me dos inúmeros casos já relatados sobre bandos de papagaios silvestres que aprendem, por “transmissão cultural”, a falar palavras humanas, ensinadas por outras aves que foram criadas como animais de estimação e depois reintegradas à natureza. Nos parques de Sidney, na Austrália, onde há bandos de papagaios silvestres nativos, as pessoas costumam ouvir, lá em cima na copa das árvores, coisas como “Oi, amor!” ou “O que foi?”. O alemão Alexander von Humboldt, explorador naturalista do século XVIII, relatou ter encontrado em suas viagens pela América do Sul um papagaio que era o último repositório vivo do idioma de uma extinta tribo indígena, os atures.

Agora sozinho em meio aos papagaios do santuário, tive a súbita visão de um futuro possível. Um futuro muito além de nós e de nossos traumas. Um mundo de pequenos dinossauros alados, esvoaçando de lá para cá, falando e conversando em seus vários dialetos locais, salpicados de cacos de um dialeto há muito perdido: “Oi, amor!”, “Vamos logo!”, “Voltar já?”, “Sei lá!”

Ao chegar à saída do Serenity Park, decidi dar meia-volta e entrar um momentinho no recinto de Caju. Foi só chegar perto de seu poleiro e ela logo pulou nas minhas costas. Andando em meus ombros, para lá e para cá, como eu a tinha visto fazer com Lilly Love, ela parou por um momento e achei que viria me dar o equivalente a um beijinho de papagaio. Mas não, ela começou a limpar meus dentes: o biquinho batendo de leve contra o esmalte, uma vibração estranhamente apaziguadora. Em seguida tirou uma breve soneca no bolso esquerdo da minha camisa – tive a sensação de que havia surgido um outro coração no meu peito. Daí saiu do bolso e foi andando até o alto de minha cabeça. Ficou passeando, arrancou uma de suas peninhas, de um verde-azulado profundo, e desceu para colocá-la suavemente em meu ombro esquerdo. Guardo a pena até hoje.

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