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Cãomunitário

Um vira-lata com muitos donos
Marcela Donini 
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ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2016

“Quem é o responsável por esse vira-lata chamado Alemão? Atacou a minha cadela sem maiores motivos. O responsável pelo cão que tenha a hombridade de se identificar.” O funcionário público Edson Vallim, de 48 anos, estava furioso. Escreveu o post no grupo de Facebook Vizinhos do Centro Histórico assim que chegou em casa, às 17h10 do dia 29 de junho, uma quarta-feira. Acabara de voltar do passeio vespertino com sua cachorrinha, Farofa, de 14 anos.

Já havia algum tempo que Vallim avistava Alemão na rua Coronel Fernando Machado, no Centro Histórico de Porto Alegre. Ainda hoje, pelas manhãs, é comum ver o animal na mesma via, só que vagando pelos lados da 2ª Companhia do 9º Batalhão de Polícia Militar. Pouco antes do meio-dia, o cachorro costuma mudar de quarteirão e se postar, empertigado, diante do açougue Santo Antônio. Não raro, sai de lá com um osso, que enterrará no estacionamento da quadra seguinte, onde fica a casa do chaveiro Sergio Roberto Martins, o Chico.

Embora seja um vira-lata, o cão tem porte e traços de pastor-alemão. Na hora do almoço, gosta de passar na padaria Quero Pão para ganhar um enroladinho de salsicha. Às vezes, desvia o rumo e dá um pulo no boteco de Neusa Souto, onde bebe água. Ou, então, visita o estúdio de pilates no número 509, em busca dos afagos da fisioterapeuta Sandra Onofre. Se lhe sobra tempo, também acompanha o web designer Gervásio Gonçalves numa caminhada pelas redondezas.

Mas, afinal, quem é o responsável por Alemão?

Poucos minutos depois da publicação no Facebook, diferentes moradores do Centro Histórico se disseram donos do vira-lata e saíram em sua defesa, descrevendo-o como “dócil”, “tranquilo”, “gente boa” e “amigo de todos”. Os mais exaltados ofenderam Vallim. Alguns até fizeram ameaças: “Se algo acontecer com o Alemão, já sabemos quem foi.” Outros duvidaram do ataque e, indignados, exigiram fotos de Farofa machucada.

 

Ao relembrar o episódio, Edson Vallim contou que passeava sossegadamente com sua cachorra, ela também sem raça definida, já um tanto velha e mancando de uma perna. Mal avistou Alemão na calçada, “aparentemente tranquilo, enroscadinho nele mesmo, atrapalhando a passagem dos pedestres, como de hábito”, o funcionário público achou por bem manter a cadela na guia curta. Cuidou, ainda, de se afastar do macho. Ocorre que, quando Vallim e Farofa diminuíram o passo e olharam para os lados antes de atravessar a rua, Alemão, sorrateiro, veio por trás e atacou a fêmea. A mordida de raspão, na altura do pescoço, nem chegou a ferir Farofa. O susto é que foi grande: bem maior, o vira-lata deve pesar dez quilos a mais que a vítima, além de ser uns onze anos mais jovem.

O relato de Vallim surpreendeu a vizinhança. Até surgir aquela reclamação, não recaía sobre Alemão nenhum registro de ataques ou demonstração de agressividade. Pelo contrário: até há quem diga que o cachorro é meio pateta. Vanessa Bueno, filha da proprietária da Quero Pão, jura que frequentemente algum passarinho lhe passa a perna e rouba os enroladinhos de salsicha.

Pelo tom destemperado, o post desencadeou uma discussão que durou 254 comentários, média alta mesmo para o grupo conhecido como “Vizinhos da Treta Histórica”. “Alemão é um cão livre. Espero que ninguém tenha a infeliz ideia de raptá-lo e aprisioná-lo”, escreveu de pronto um morador. “O fascismo vem tomando conta do país”, alertou, enfático. Ato contínuo, a campanha #somostodosalemão estava lançada.

 

Em poucos minutos, post a post, os integrantes do grupo reconstituíram a trajetória do cachorro. Ele teria ficado ao deus-dará depois que seu dono, um papeleiro, foi preso, em outubro de 2014. Aparentando 1 ano de idade, acabou entregue a Claudia Rosana Sica, proprietária de um pet shop, que o alimentou, castrou e vacinou. O animal passava as noites no pátio dianteiro da loja. Através das grades, recebia comida dos vizinhos. Ao amanhecer, ganhava a rua.

O vira-lata se tornou, assim, uma espécie de cão comunitário. O status, que Alemão carrega numa plaquinha de metal pendurada em sua coleira, é uma condição prevista por lei em vários estados brasileiros. Desde 2009, no Rio Grande do Sul, se reconhece como comunitário qualquer bicho que “estabelece com a comunidade em que vive laços de dependência e de manutenção”. Uma vez registrado, o animal tem direito a receber do poder público serviços gratuitos, como esterilização e vacinação.

Apesar da plaquinha, Alemão é um cão comunitário apenas de facto. “Não tem o registro na prefeitura porque pretendíamos encaminhá-lo à adoção”, contou a proprietária do pet shop. Pelo menos duas tentativas nesse sentido foram feitas. Da primeira vez, a própria Sica o levou para seu sítio, onde já mantinha 35 cachorros. Mas, na hora da despedida, Alemão decidiu seguir o carro que partia. Tanto insistiu que o colocaram de novo no veículo e retornaram com ele a Porto Alegre. Depois, apareceu o policial militar Luís Miguel Fernandes, da 2ª Companhia do 9º Batalhão. A família do soldado acolheu o vira-lata com festa. Em menos de 24 horas, porém, Alemão fugiu e voltou a perambular pelo Centro Histórico.

“Cão comunitário? Que piada… Quando TODOS são responsáveis, NINGUÉM é responsável”, esbravejou Vallim, ainda de cabeça quente, no debate virtual que se seguiu a seu post. Após alguns dias do incidente com Farofa, o funcionário público se mostrava mais calmo. O ressentimento em relação ao agressor de sua cachorrinha não havia passado, mas ele já admitia esquecer o episódio. Mesmo assim, insistiu que não vê sentido nessa ideia de bichos comunitários. “Centros urbanos como o nosso, movimentados e caóticos, não são lugares propícios para se criarem animais soltos na rua.” Alemão, ao que tudo indica, discorda.

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