esquina

Cara furada

A gari dos 100 piercings

Joana Suarez
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2018

Margarete Maria da Silva varria as folhas caídas no Parque Municipal Américo Renné Giannetti, em Belo Horizonte, quando duas crianças pararam à sua frente. Como estava de olho no chão, ela não percebeu os meninos de imediato. Estavam impressionados com a gari de 62 anos: seu rosto se esconde atrás dos cerca de 100 piercings que contornam as sobrancelhas, descem pelas bochechas e nariz até tapar todo o queixo. “Beleza pura?”, a varredora perguntou aos meninos para quebrar o gelo. “Vão dar uma volta, né? Bom passeio pra vocês!” As crianças continuaram boquiabertas enquanto eram puxadas pela mãe, que agradeceu à senhora.

A reação dos meninos não é incomum. Os metais e miçangas coloridas que cobrem o rosto de Silva a resgatam da invisibilidade que parece se abater sobre seus colegas que varrem as ruas da cidade. Muitos transeuntes param e puxam assunto, como se quisessem uma explicação. “Cada um é um, não podemos ser iguais”, ela costuma dizer para justificar a aparência incomum. Quando lhe pedem uma foto, posa invariavelmente com as unhas compridas pintadas à frente do rosto.

Silva não sabe o número exato de piercings que tem na face. “Quando chegou a 111 eu parei de contar”, ela disse numa tarde recente. “Durmo com eles e não tiro nunca. Se tivesse que colocar tudo de manhã, eu não conseguiria chegar ao trabalho”, continuou a gari, com a dicção afetada pelos ferros na boca. Não que seu ritual matutino de preparação seja simples: ela acorda antes das cinco para compor o figurino que inclui mais de vinte pulseiras nos braços, dez colares no pescoço e trinta anéis nos dedos.

Há mais de três décadas como gari na capital mineira, Silva já varreu de bairro nobre a praças populares, sempre atraindo olhares por onde passa. No Parque Municipal, ela vai completar oito anos de varrição, e é lá que pretende ficar “até morrer”, por se sentir protegida das humilhações na rua. “Aqui tem água gelada pra todo lado. Na rua, a gente tinha que pedir nas casas e a dona dava água quente da torneira”, queixou-se.

Silva se tornou uma figura folclórica da cidade. Sua imagem está impressa em tamanho gigante no pilar do viaduto Santa Tereza, cartão-postal da capital mineira. A gari se apegou à personagem exótica criada em torno de si e não se incomoda em interpretá-la para os curiosos de passagem. “Tem gente que vem de longe para encontrar essa figura”, justificou. “Se tiver a outra” – a Margarete da vida real –, “aí pega mal.”

Quando chega alguém atrás da “gari dos piercings”, ela corre para o vestiário dos funcionários, troca o figurino e sai desfilando com o sapato vermelho de salto baixo guardado no escaninho para essas ocasiões. “Mudo até o andar”, contou. Não fosse pelos adornos faciais, seria impossível reconhecer a funcionária que até pouco antes estava de vassoura na mão, uniforme laranja, lenço sobre o cabelo e boné da prefeitura. “Sou modelo de Belo Horizonte, aqui montei minha passarela”, ela disse, orgulhosa.

Silva começou a colocar piercings no rosto quando ainda era menina e morava no Serro, cidade histórica a 230 quilômetros da capital mineira. No dia em que completou 8 anos, foi com a mãe ver uma projeção de cinema em praça pública. “Era um filme sobre índios, tinha uma menina do meu tamanho que furava o rosto”, contou. Quando chegou em casa, a aniversariante quis imitar a menina do filme para agradar à mãe. “Vou dar a ela uma filha índia”, pensou consigo mesma. Tratou de espetar espinhos de laranjeira e pedaços de bambu nas bochechas e no nariz. Ela não se lembra de ter sentido dor com as perfurações. “Já o couro que minha mãe me deu quando me viu toda furada, esse doeu demais!”

Um mês depois, a menina se mudou para Belo Horizonte com a mãe e os seis irmãos. Veio tampada com um pano, pois a mãe tinha vergonha dos furos que ela tinha arrumado no rosto. Na cidade grande, ela própria teve sete filhos, o primeiro deles quando tinha 13 anos. “Foram nascendo um atrás do outro, era azar que eu dava.”

Mais velha, Silva passou a usar alfinetes e agulhas com bolas de miçangas que ela mesma montava e inseria na pele. “Essa é minha arte, sou eu que preparo”, afirmou. (As unhas de 5 centímetros que escapam das luvas, cada uma com uma pintura diferente, também são obra dela.) A quantidade de piercings aumentava à medida que ela fazia sucesso e envelhecia. Em 2008, ainda era possível vislumbrar suas feições por trás dos cerca de noventa furos que então se contavam em seu rosto. Hoje Silva não coloca mais novos piercings – nem haveria espaço –, só tira aqueles que enferrujam. Algumas cicatrizes mal curadas são camufladas por tintas que ela passa entre os furos e as rugas. “Minha pele nunca infeccionou”, disse.

Ao fim do dia de trabalho, Silva tomou o rumo de casa – um trajeto de 15 quilômetros percorridos em dois ônibus. Embora tivesse direito a viajar nos assentos preferenciais para idosos, a gari sexagenária preferiu ir de pé junto à porta, segurando seu carrinho de pertences e compras. “A mente é muito louca”, disse baixinho uma senhora que viu a repórter da piauí conversando com a mulher do rosto furado. “Acho que ela tem um distúrbio.”

Já perto do ponto final, Silva abriu uma sacola e sacou a carteira de identidade para mostrar como é seu rosto sem os piercings. Expedido em setembro de 2016, o documento traz a foto de uma mulher de traços corriqueiros – morena, de nariz largo, olheiras fundas, queixo fino e cabelos crespos amarrados. “Tapei todos os buracos com maquiagem, sou muito boa nisso”, explicou a gari. “Para fazer foto de identidade a gente tem que ser normal, igual a todo mundo”, continuou. “Depois escondi de novo”, arrematou, explicando inadvertidamente a função que os adornos faciais cumprem para ela.

Essa não foi a única revelação do RG de Silva. No campo “filiação”, consta apenas o nome da mãe. “Sou filha de índio, mas minha mãe não quis registrar.”

Joana Suarez

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