CARTAS

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O RALO

Inspirado pela brilhante reportagem “O ralo”, de Consuelo Dieguez (piauí_109, outubro), ocorreu-me uma comparação. Moro num apartamento, e todos os meses sou convocado a fazer um investimento compulsório no meu prédio. Assim são custeados os serviços de limpeza, manutenção, os elevadores, os jardins e a piscina. Pago todas as taxas, fiscalizo o que posso e não me furto de participar das reuniões e assembleias, a fim de saber como andam as finanças do condomínio. Voto e luto sempre para diminuir os custos impostos aos moradores. Assim, pergunto: como poderei fazer o mesmo para acompanhar esses “pequenos investimentos” feitos pelo BNDES, à guisa de incentivo às empresas brasileiras? Como explicitou Cláudio Leal, economista ouvido na reportagem, todo o 2º andar do prédio do banco estatal abriga um sem-número de técnicos, ao ponto de cada projeto ser avaliado por cinquenta pessoas para depois seguir para nova avaliação de pelo menos mais dez profissionais. Imagine o quanto isso não custa para cada cidadão. Choro. Choro muito. Todo aquele dinheiro também era meu.

DIRCEU LOPES RODRIGUES_SÃO GONÇALO/RJ

 

Que coisa estarrecedora, chocante e horripilante. Estou pasmo com “O ralo”. Por favor, editores da revista piauí, prestem um grande serviço ao nosso país e coloquem Consuelo Dieguez em contato com o juiz Sergio Moro. Ainda há salvação.

IVAN GUIMARÃES LOPES_ITABIRITO/MG

 

Creio que a maioria dos brasileiros já tinha noção do que acontecia. Mas não sabia com tantos detalhes quanto a reportagem de Consuelo Dieguez foi capaz de mostrar que fim levava nosso dinheiro, jogado no ralo – ou melhor, nos bolsos – de grandes empresas, a título de desenvolver o Brasil. Um desenvolvimento que infelizmente eu só consigo ver nas contas e nas casas de diretores de empresas estatais, de políticos e lobistas. Bilhões desperdiçados em projetos furados. Governo sem planejamento dá nisso: hoje acorda pensando que viajar de ônibus é bom, amanhã cria o programa tarifa zero para o setor aéreo.

HERIK LESSA RODRIGUES_VOLTA REDONDA/RJ

 

O QUE DIZER SOBRE MÁRIO?

Pareceu-me, de início, muito oportuno o artigo de José Miguel Wisnik sobre Mário de Andrade (“O que se pode saber de um homem?”,piauí_109, outubro). O desafio do título, entretanto, já soava equivocado. Afinal, só importa saber de um homem aquilo que contribui para que se compreenda melhor a sua obra. Vencido o tortuoso gongorismo do texto, constatei que o ensaio nada acrescenta à fortuna crítica de Mário de Andrade. Nem a respeito de seu romance mais conhecido, Macunaíma, nem quanto a sua poesia. Desvenda-se, é verdade, um pouco da ambiguidade sexual do autor, e são fornecidas algumas pistas dessa condição nos seus textos poéticos. O final do texto, contudo, apresenta uma conclusão absolutamente insólita em relação a tudo o que havia sido dito antes.

Escreve José Miguel Wisnik que o “projeto de vida” de Mário de Andrade “está dizendo no essencial, com o mesmo ‘brilho inútil’ e potente das constelações e das obras de arte, que educação e cultura é o luxo para todos capaz de nos levar a proezas civilizacionais inauditas, em vez de se querer jogar de maneira mal disfarçada, com uma sanha também inaudita, a juventude pobre, negra e mestiça no esgoto das prisões”. A grande “revelação”, o grande insight que se tinha a oferecer, era então a de que todo o esforço de Mário, como estimulador da produção e da difusão cultural, serviria como um “contraponto” à maioridade penal? É uma coisa que, claro, nunca passou pela cabeça do poeta modernista. É incorreto. Apresenta como conclusão algo que o texto não demonstrou, e que não consta da obra referenciada. Confunde a posição do autor do ensaio com a do escritor que é objeto da análise. É anacrônico. O Brasil de Mário de Andrade não se encontrava na situação apocalíptica da “insegurança pública” em que estamos afundados.

Afinal, não se tratava de descobrir o que é possível saber de um homem? No caso, o escritor Mário de Andrade? Pois, quanto a Wisnik, todos sabemos que se perfila nas hostes dos intelectuais do PT, mediadores da ética e defensores da incompetência em nome dos dogmas da esquerda. Qualquer assunto que ele aborda é pretexto para fazer sua profissão de fé. O assunto? Dane-se o assunto.

A situação dessa gente está ficando complicada. Já estão alistando mortos, sem o devido consentimento, nas suas fileiras.

SAMIRA ABRAHÃO_BRASÍLIA/DF

 

Ao ler o perfil de Mário de Andrade, ouvi muitas vezes um grito de “eureca!” soar na minha cabeça sobre o que é ser brasileiro. Num dos trechos do ensaio, José Miguel Wisnik menciona Freud e comenta a observação do psicanalista austríaco de que é comum encontrar, em diversas tradições mitológicas e literárias, um herói que deve escolher entre três mulheres. Diz Wisnik, citando Freud, que a primeira das três mulheres é a mãe; a segunda, a amante; e a terceira, a morte. Ao fazer o protagonista ter um poder de escolha quanto à terceira mulher, esses textos estariam nos dizendo, de forma paradoxal, que “só ama, ou só vive, quem aceitou a morte”. Quanto a Macunaíma, ele não só não escolhe, como se aproveita das três – e termina com uma quarta. Pois não é isso, justamente, o que significa ser brasileiro? Ignorar a regra, pensar no próprio benefício e fazer no fim o que bem entender? Além de rezar para dar certo, bien sûr? Não fiz o dever de casa, mas tomara que no fim dê certo. Pelo menos a gente gozou o Carnaval.

Não só por causa do texto de Wisnik, essa foi uma das melhores edições da piauí que eu já li. O furo da publicação de trechos do diário do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, outros textos deliciosos, os refugiados sírios da Despedida – tive que disfarçar as lágrimas nos olhos –, o artigo de Fernanda Torres sobre Spalding Gray. Leio a revista para aprender. E como aprendo.

DEBORA NOGUEIRA_SÃO PAULO/SP

 

BOAS-VINDAS E PARABÉNS

Gostaria de dar as boas-vindas ao estagiário Tiago Coelho, e parabenizá-lo pela Esquina “Protesto imperial” (piauí_108, setembro) e pelas Chegadas “Cléo está presente” (piauí_108, setembro) e “Capitães da areia” (piauí_109, outubro). Está no caminho certo: textos que mesclam de modo quase indiscernível elementos jornalísticos e recursos literários.

Parabéns também à neurocientista Suzana Herculano-Houzel por seu texto- “AT x T1/2 = k x AE5/4” (piauí_107, agosto) e pela ideia inovadora de lançar uma campanha de crowdfunding para seguir com suas pesquisas. E talvez eu deva também parabenizar a revista, pelos nove anos recém-completados. Pinguins estimados, felicidades! Que a tiragem da piauí ultrapasse os 57 mil exemplares, neste novo ciclo.

FERNANDO SETTON SANCHES_SÃO PAULO/SP

 

BOAZINHA

A edição de aniversário da revista (piauí_109, outubro) está boazinha. Aliás, como as edições da revista costumam ser. Noto uma curiosidade, porém: nessa edição, dos treze colaboradores, sete publicaram ou estão para publicar um livrinho pela Companhia das Letras. (Excluo Dilma Rousseff, que ainda não o fez.) Pergunto: é merchandising?

E respondo: Não! Trata-se do seguinte fenômeno, leitor: a piauí recruta, arregimenta, seleciona (sinônimos à escolha do copidesque) seus colaboradores numa faixa social estreita, estreitíssima. Em primeiro lugar, os limites são espaciais. Vêm sobretudo de São Paulo – que é grande, mas menor do que o país. Depois, propriamente sociais: os colaboradores compõem um escrete de crânios uspianos, em geral ligados à Folha de S.Paulo ou à Companhia das Letras.

Vamos e convenhamos: mencionar sete vezes, em treze entradas, o nome de uma empresa privada num expediente que não ocupa meia página – a seção de colaboradores – é um exagero. Capricho ou sintoma? Os editores imaginam, talvez, que nada, nadinha aconteça em outros estados, cidades, universidades e editoras. Quando a piauí olha para o país que existe além de São Paulo, não mira os agentes relacionados à cultura universitária: nisto a capital paulista parece se bastar. A revista olha para o interior, para os rodeios, por exemplo. É óbvio que se deve falar sobre eles. Existe, contudo, produção intelectual noutros centros, não? Se há, como fica? Nas páginas da piauí, não fica. Nem entra. A revista devia talvez trocar seu nome para “Higienópolis”. Higienópolis! Seria mais fidedigno.

Em tempo: escrevi para vocês noutra ocasião. O jornalista que copidesca as cartas, Flaubert da Vila Madalena, resolveu mexer no textículo como se o leitor, abaixo assinado, fosse funcionário do veículo. Não sou. Deixe os textos assinados como estão, ô Alencar do Largo do Arouche!

A sério: desnecessário dizer que a revista é muito boa. Pena que, assim como a extinta Bravo!, se atribua uma aura de excelência. Tudo isso apenas disfarça – ou antes, escancara – as assimetrias nacionais, das quais o elenco restrito de autores é um sintoma.

FERNANDO MARQUES_BRASÍLIA/DF

NOTA VAI QUE COLA: A jornalista responsável pela seção de cartas é natural do Espírito Santo. Já é alguma coisa, não é? (Aproveitando: ela lembra que, como se pode ler no pé da seção, “por questões de clareza e espaço a piauí se reserva o direito de editar as cartas”.)

 

A VOZ DE DEUS

O conteúdo da revista é riquíssimo, como talvez não se encontre em qualquer outro periódico deste país. Parabéns e mantenham essa pegada. Gostaria de fazer uma solicitação, contudo: os cartuns cujo alvo seja o nome de Deus poderiam ser substituídos por temas do mundo profano, e assim nos fazer, cristãos, aplaudi-los como merecem de fato.

GUARACY SILVA_RIO DE JANEIRO/RJ

 

VOZES DA DIREITA

Compro regularmente a revista piauí desde outubro de 2014, e o faço por considerar excelentes muitas das reportagens. Acho curioso, de toda forma, como a qualidade varia de edição para edição. Em algumas, tenho vontade de correr para o computador e encher de elogios cada um dos textos e seus respectivos autores e editores. Noutras vezes me deparo com reportagens bastante tendenciosas.

Até hoje o ímpeto de escrever à revista não tinha vencido a preguiça, mas um fato recente me obrigou a fazê-lo. Um vídeo que circula na internet mostra um grupelho de pessoas odiosas na Livraria Cultura, em São Paulo, se manifestando contra o prefeito Fernando Haddad e o ex-senador Eduardo Suplicy. Uma das protagonistas dessa cena é figura central na reportagem de Roberto Kaz na edição de outubro (“Na estrada com Pixuleco”, piauí_109, outubro). Dar toda essa atenção a figuras como ela somente alimenta esses provocadores. Fosse uma matéria sobre insanidade, teriam ótimo material. Aliás, poderiam encontrá-lo não só na extrema direita, mas também na extrema esquerda.

GILBERTO JOSÉ SOARES_CAMPINAS/SP

 

O subtítulo de “A nova sinfonia paulistana” (piauí_106, julho) dava a entender que a matéria se restringiria ao petismo, mas o texto de Julia Duailibi foi uma aula sobre a construção histórica da voz de direita paulistana, conservadora, nas ondas do rádio. Num país em que apenas pobres, pretos e petistas vão para a cadeia, é importante entender o que faz essa suposta classe média esclarecida se incomodar e se mobilizar. Querem defender sua condição social, quase divina. É verdade que os ouvintes desses justiceiros verbais parecem ser “do bem”, melhores que as pantomimas que supostamente os representam. Mas o fascismo também cresceu assim, quando pessoas de bem alimentaram o mal.

ADILSON ROBERTO GONÇALVES_CAMPINAS/SP

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