carta de moscou

Casas de palavras e idéias

Os lugares onde moraram Gorki, Tolstoi, Tchekhov e Bulgakov contam histórias de arte, política, poder e sofrimento

Felipe Fortuna
A incoerência entre a austeridade de Gorki e a escada de sua casa mostra a lógica do realismo socialista, do qual o escritor foi arauto
A incoerência entre a austeridade de Gorki e a escada de sua casa mostra a lógica do realismo socialista, do qual o escritor foi arauto FOTO: DEMETRIO CARRASCO_DORLING KINDERSLEY_DK IMAGES

Transponho os umbrais da residência de Maximo Gorki – eis uma frase que faria o escritor russo me proibir até mesmo de passar pela rua onde morou em Moscou. Mas a solenidade da frase se assemelha demais ao estilo da casa, um exemplo extravagante de art nouveau. A escada principal foi construída com mármore cinzento trazido da Estônia, e projeta-se na forma de uma onda. Ou de cera derretida. Há vitrais coloridos em forma de ânforas, detalhes florais revestidos em prata nas colunas, afrescos na sala de jantar, maçanetas sinuosas e delgadas nas portas dos cômodos e dos armários. A casa não foi uma escolha do autor de Os Pequenos Burgueses e de Os Bárbaros, mas uma imposição do Partido Comunista, que a confiscou do milionário Stepan Ryabushinsky e a entregou ao seu maior escritor oficial, “o pai da literatura soviética”. Celebrado e doente, foi nela que o artista passou os seus cinco últimos anos de vida.

Apesar da incoerência entre a exuberância dos ambientes e a austeridade do homem que nela morreu em 1936, a casa permite entrever os tormentos pessoais e, mais ainda, a lógica cruel do realismo socialista, do qual Gorki foi arauto. Entra-se devagar no estúdio do escritor, com a vontade de investigar cada objeto, e logo se encontra a mesa alta e rústica na qual foram compostas, dentro da casa, as peças finais do ciclo Através da Rússia, especialmente Yegor Bulychov e Outros, de 1931, e, três anos depois, Dostigaev e Outros. A mesa foi construída de tal modo que permitia ao escritor não se debruçar sobre o papel, o que o aliviava das dores no peito e, dizem, das seqüelas de um tiro com o qual tentou se suicidar na juventude. Todo o material de ofício está disposto com disciplina: as enormes folhas de papel preenchidas até nas margens, lápis de várias cores e o tinteiro. Pendurada num canto de parede, discretamente, surge uma gravura com o rosto de Stendhal. A guia da casa me fala da rotina imutável do escritor, que não permitia ser interrompido durante as manhãs. Somente depois do almoço recebia visitas, ou se dedicava a escrever cartas em resposta aos jovens que buscavam a sua orientação. O endereço do número 6 da rua Malaia Nikitskaia se tornou uma espécie de clube literário, no qual o escritor oficial expunha as vantagens de aderir às idéias estéticas de Josef Stálin.

Mas nenhuma placa e nenhum guia gentil explicam que a casa art nouveau serviu não apenas à rotina de quem escrevia, mas também à de quem passaria a reescrever. O período final de Maximo Gorki foi marcado por sua capitulação ao ditador. Mal se chega ao 2º andar da casa e já se avista, em meio a várias fotografias, aquela em que “O Grande Líder” conversa animadamente com o escritor, muito enfraquecido, na varanda da casa. As imagens mostram que eles se tocam fraternalmente nos braços e nas pernas. Ali, o ditador foi recebido diversas vezes e abriu caminho para a criação do Instituto de Literatura Maximo Gorki, afinal fundado em 1933, para nortear os escritores soviéticos.

Fiel às orientações de Stálin, Gorki usou a mesa alta do estúdio para reescrever Vassa Zheslenova, de 1910, de acordo com a nova orientação política. Na versão original, Vassa é uma mulher de características complexas e tendentes ao cômico, por causa de sua determinação em proteger os filhos e o patrimônio material. Mesmo ao perceber o fracasso de sua moral, insiste e segue em frente. Em 1935, a peça se converteu num panfleto socialista de ataque ao indivíduo, sem humor e sem qualquer tensão.

No quarto de dormir, encontra-se uma folha de papel sobre a cômoda, informando que o escritor era extremamente simples, “o que se reflete no despojamento da mobília, apesar de um pequeno armário de laca chinês”. A cama de solteiro onde Gorki dormia é de fato estreita. Numa pequena cabeceira, o retrato de uma criança, “a neta preferida do escritor”. Subitamente, lembro-me de um comovente texto de Josef Brodsky (1940-1996), no qual ele apresenta o espaço em que viveu com o pai e a mãe, em São Petersburgo: no total, um quarto e meio, cerca de 40 metros quadrados. O poeta mostra júbilo e ironia com a dimensão concedida à sua família, uma vez que na União Soviética o espaço mínimo destinado a cada pessoa era de 9 metros quadrados. Foi nesse “excesso de espaço” disposto pela sorte para os três – “especialmente quando se pensa que éramos judeus” – que Brodsky viveu com sua pequena família, dentro de um apartamento comunal onde viviam com outras oito pessoas, que dividiam o mesmo banheiro e a mesma cozinha.

O trecho mais marcante da evocação do poeta – e que me surgiu enquanto passava pelo dormitório de Maximo Gorki – era a cama de casal dos pais, grande, ornamentada com motivos vegetais, “oscilante entre o art nouveau e a versão comercial do construtivismo”. A mãe de Brodsky comprara a cama em 1935, numa loja de móveis de segunda linha, pouco antes do seu casamento. A cama logo se transformou, para os padrões russos, num objeto de luxo e foi, para o poeta, o que persuadiu o seu pai a se casar. Naquele mesmo ano, Maximo Gorki reescrevia uma peça de teatro segundo os princípios vigentes e dormia na sua cama simples dentro da casa opulenta. O poeta, por sua vez, decidiu compor em inglês, no exílio, as lembranças da sua vida no quarto e meio, pois “escrever em russo serviria apenas para ampliar o cativeiro dos meus pais”. A visita à casa termina com um sentimento de que eu havia estado em vários ambientes desconexos, como se fossem cubos, círculos e triângulos que, apesar de muito diferentes, eram inseridos uns dentro dos outros.

 

Já na rua, à esquerda, se avista a igreja na qual Aleksander Pushkin se casou com Natalia Goncharova. Ao lado de um jardim, ergueram duas estátuas ao casal, que parecem diminutas, como se duas crianças estivessem dançando valsa. O casamento foi trágico, pois o poeta acabou morrendo em duelo com o tiro de um barão holandês, suspeito de tentar seduzir a sua mulher.

Caminho para a direita e descubro, praticamente ao lado do pátio da casa de Maximo Gorki, a entrada do apartamento de Alexei Nikolaevsk Tolstoi (1883-1945), descendente de um dos ramos da famosa família aristocrática. Esse Tolstoi (cujo nome não deve ser confundido com o do autor de Guerra e Paz, mas é semelhante ao de outro Alexei Tolstoi, também escritor…) tem a vida entrelaçada a um caso de sedução e de tardia colaboração com o stalinismo. Depois de haver emigrado para a Alemanha e a França, fugindo da Revolução de 1917, retornou à União Soviética em 1923 – disposto a emprestar o seu nome e a sua obra à nova causa. Acabou participando, juntamente com seu vizinho Maximo Gorki e alguns outros escritores, da publicação de um livro que elogiava uma das obras mais brutais do ditador: a construção do canal que liga o mar Báltico ao mar Branco.

Cerca de 150 mil prisioneiros dos gulags foram convertidos em trabalhadores forçados – dos quais 100 mil morreram. Construído entre 1931 e 1933, sem qualquer utilização de técnicas modernas de engenharia, o canal surgiu integralmente a partir do trabalho manual. Para Tolstoi, no entanto – que era conhecido por um dos mais contraditórios epítetos: “Camarada Conde” – , o que sobressaía era a magnitude da obra, o fato de que foi inaugurada quatro meses antes do tempo previsto e a confirmação de que o plano qüinqüenal era um instrumento que se beneficiava do “trabalho corretivo” dos prisioneiros. Poucos prisioneiros tiveram tempo para saber disso.

O apartamento de Alexei Tolstoi, no entanto, exibe uma apreciável distinção burguesa. Retratos da família nas paredes contam histórias de uma linhagem ilustre. Quadros a óleo tematizam paisagens e personagens históricos. Está ali, por exemplo, o retrato de Pedro, o Grande, o tsar que consolidou o império russo a partir da sua expansão e do fortalecimento das relações com o Ocidente. O Camarada Conde escreveu uma volumosa novela histórica sobre o aristocrata modernizador, ainda muito lida e elogiada nos dias de hoje. O livro propaga todos os sonhos de grandeza da velha Rússia, e o escritor foi hábil ao aproximar as políticas do tsar às que Stálin vinha executando na União Soviética.

Os cômodos da casa, por sua vez, não deixam de transmitir as incoerências nas quais viviam os seus moradores: o apartamento comunica ao visitante a modéstia e o escasso conforto que se tornaram padrão no período soviético. Algumas cortinas e móveis, contudo, parecem indicar a aristocracia desaparecida. Existe um impressionante quadro de Hieronymus Bosch no final do corredor, com uma típica cena do seu grotesco. Perguntei diversas vezes à guia se o quadro era mesmo original – e ela me confirmou outras diversas vezes com a cabeça. A casa recebe poucos visitantes, apesar do ingresso baratíssimo.

Na sala de jantar, com uma austera mesa preta no centro, o escritor pendurara o retrato de uma bela mulher. Ao perguntar de quem se tratava, a guia respondeu: “Prostituta!” “Como assim, minha senhora?”, indaguei, entre surpreso e incrédulo. “Prostituta!”, ela repetiu, já tendendo à exasperação. Em seguida, mais didática, explicou que a modelo pintada era uma afamada moça de programa de Moscou, no século XIX, cujo quadro fora comprado pelo Camarada Conde por suas qualidades estéticas. “É claro, minha senhora”, assenti. Ela me contou então que, durante todas as refeições familiares naquela sala, alguém sempre tinha o cuidado e o decoro de cobrir o quadro com um pano preto. Pensei que assim seguia o moralismo de um escritor convertido ao comunismo.

A guia era uma senhora gordinha e bem baixa, e caminhava pela casa como se estivesse num pátio de hospital. Mal falava inglês, e talvez tivesse optado pela palavra prostituta por sua semelhança com o idioma russo: prostitutka. Pedi-lhe, numa mistura de russo e gestos, que me explicasse outros objetos e quadros da casa, o que fez com enfado. Desci a estreita escada que liga o apartamento à rua, deixando para trás, entre tantas surpresas, um piano da família que teria sido muito utilizado por Dmitri Shostakovich (1906-1975), e com o qual alguns estudantes apresentam recitais nos fins de semana.

 

Dias depois, por outra escada estreita, subi ao apartamento de Mikhail Bulgakov (1891-1940). Não é uma escada qualquer, nem mesmo um apartamento qualquer: trata-se do centro gravitacional do romance O Mestre e Margarida, provavelmente a sátira mais incisiva da era stalinista. Ambientado nos anos 20 e 30 e, portanto, registrando a paranóia e as convulsões do autoritarismo que atingia todas as dimensões da vida soviética, o romance tematiza as peripécias de um encontro com o Diabo, então disfarçado de estrangeiro com o nome de Woland. O primeiro capítulo do livro se intitula, justamente, “Nunca Fale com Estrangeiros”, um dos lemas mais difundidos entre os cidadãos da URSS. Toda a realidade, a partir de então, começa a se transfigurar de modo alucinante. (Se escrevi “centro gravitacional” foi por contradição poética, uma vez que Margarida é capaz de voar por toda a cidade.) Além disso, o apartamento do romance se inspirou no lugar onde de fato morou Bulgakov, que o denominava de “o apartamento assombrado”, que já teria má reputação antes mesmo de Woland se mudar para lá, “um pesadelo de quartos horríveis e de vizinhos idem”.

Sobe-se, pois, com muita atenção, rumo ao apartamento localizado na rua do Grande Jardim, número 10 (no romance, 302-bis). O escritor morou no prédio de 1921 a 1924, período que marca a sua intenção de abandonar a carreira de médico para se dedicar à de escritor. Com a ascensão de Stálin, passou a sofrer uma censura perturbadora, que alguns interpretam como responsável, a um só tempo, pelas fantasias presentes em O Mestre e Margarida e pela deterioração emocional do escritor. Bulgakov continuava a escrever contos, sem conseguir publicá-los, e procurava encenar suas peças – numa ocasião, depois de ensaios que duraram quase quatro anos. Num episódio célebre da sua biografia, escreveu uma carta ao ditador, em 1930, na qual pedia permissão para deixar o país. Assombrosamente, o próprio Josef Stálin lhe telefonou e garantiu que não existia qualquer perseguição ao escritor. Declarou admiração por uma das suas peças (O Dia dos Turbin) e o indicou para trabalhar no Teatro de Arte de Moscou, onde Bulgakov manteve parceria com Constantin Stanislavski (1863-1938). Mas a infelicidade do escritor aumentava, e sua passagem pelo teatro, e também como libretista do Bolshoi, não foi bem-sucedida. Além disso, a censura continuou.

O apartamento de Bulgakov foi transformado em um misto de café literário e museu. Não há bilheteria, não há guias. Lá dentro, caminha-se entre primeiras edições, objetos pessoais e muitas fotos de família, incluindo as das três mulheres com quem foi casado. Ainda na escada, há inúmeros grafites com frases e comentários sobre O Mestre e Margarida. Repete-se a palavra de ordem “os manuscritos nunca queimam”, que diz respeito ao fato de que o escritor destruiu a primeira versão do romance – o que, afinal, acaba figurando na narrativa.

Também nos anos 30, alguns contos e textos esparsos haviam sido apreendidos pela polícia política e devolvidos ao autor tempos depois. Com seu temor agravado, Bulgakov preferiu também eliminar esses originais, o que acabou sendo inútil: descobriu-se que os burocratas haviam feito cópia daqueles escritos, e os arquivaram no seu volumoso dossiê. Os grafites nas paredes, feitos por admiradores do escritor e contestadores do comunismo, figuram em outro episódio de enfrentamento das forças oficiais: ao final de uma longa luta envolvendo o governo, os responsáveis pelo prédio e os grafiteiros, travada ao longo dos anos 80 (que incluiu uma boa camada de tinta sobre as palavras de protesto), o apartamento de Mikhail Bulgakov foi reconhecido como de interesse turístico e oficialmente aberto à visitação no final da década.

Ficou reforçada, assim, a demoníaca sina de Woland – bem como a dos seus seguidores, jovens que perambulam pelo apartamento inspirados por um suposto satanismo do qual O Mestre e Margarida representa, por assim dizer, um livro sagrado. Esses jovens são vistos em outros lugares de Moscou, tais como a rua Arbat, onde Margarida e o marido moravam numa cobertura, e no número 10 da praça Spasopeskovskaia, onde aconteceu o baile organizado por Woland. O endereço, intrigantemente, é o do embaixador norte-americano desde 1933. Mas o lugar preferido de todos é mesmo o Lago do Patriarca (Patriarshie Prudy), a poucos metros do apartamento, onde se passam várias das ações do romance. Grande, com seus caminhos de terra e muitas árvores, além de vários bancos em torno da superfície da água, a praça é citada na abertura do livro, quando Wolland se aproxima de dois cidadãos, Berlioz e Bezdomny, que discutem a existência de Jesus…

 

É impressionante perceber, in loco, a presença da política na vida cotidiana dos escritores soviéticos. Josef Brodsky conheceu bem tamanha angústia, e por isso resolveu até mesmo abandonar o idioma russo ao compor as suas recordações, para ganhar mais liberdade. “Nenhum país dominou a arte de destruir as almas dos seus cidadãos tão bem como a Rússia”, ele escreveu no ensaio “Menos que um”, que rememora o tempo do quarto-apartamento no qual viveu com seus pais. Agora, são muitos os que decidem aprender russo para ler a obra-prima de Mikhail Bulgakov.

Caminho pela mesma calçada do prédio onde viveu o escritor de O Mestre e Margarida, em direção ao zoológico. Ando pouco, pois logo encontro a residência de outro médico, Anton Tchekhov (1860-1904), tal como informa a pequena placa em bronze em um edifício cor de tijolo. Embora tenha morrido ainda mais jovem do que o escritor de O Mestre e Margarida, Tchekhov obteve sucesso estupendo e contínuo com seus contos e peças, e não sofreu o embate direto da política – tsarista, no caso – na sua produção. Essa falta de opressão já aparece nos amplos espaços da casa, na distribuição dos móveis e no exercício das suas duas profissões: ali está a mesa do escritor, com seus dois tinteiros de cristal e a pequena estátua em bronze de um cavalo; no lado oposto, entra-se no consultório do médico, com a mesa na qual escrevia as receitas.

Tudo parece ordenado, eficiente, sob controle. Mas é uma casa bifronte: um lado está voltado para a medicina, com seu consultório e, sobre a mesa do doutor, os cartões de visita. O outro lado está voltado para a literatura, e na mesa do escritor encontram-se os retratos de dois amigos, o músico Tchaikovski (1840-1983) e o pintor Isaac Ilyich Levitan (1860-1900). O sucesso de Anton Tchekhov – que lhe trouxe rápidos e bons ganhos financeiros – aconteceu com a publicação dos seus contos, não com a escrita de prescrições médicas. Em muitas ocasiões, após avaliar a penúria dos seus pacientes, o doutor decidia nada cobrar. Já os camponeses, no interior do país, recebiam consultas asseguradamente grátis.

Na casa em Moscou, portanto, havia intensa atividade e não apenas a do médico e escritor, mas também a da sua irmã, Maria Pavlova Radimova, pintora de quadros impressionistas. Foi ela, cujo quarto no 2º andar também pode ser visitado, quem desenhou cada cômodo da casa, em 1889, e assim documentou os móveis e sua disposição. Naquele ano, o escritor já se sabia tuberculoso e testemunhou a morte de um irmão, Nikolai, que padecia da mesma doença. Escondendo a enfermidade de todos – e provavelmente de si mesmo -, Anton Tchekhov decide partir numa viagem que o faz atravessar o imenso país até a colônia penal nas Ilhas Sacalinas, no extremo oriente da Rússia. Durante a viagem, redige cartas e um impressionante diário, no qual registra a paisagem e o povo que encontra. Os biógrafos têm dificuldade em explicar a razão precisa que levou o escritor a deixar a vida confortável em Moscou. Muitos sugerem que o êxito alcançado criou tensões em Tchekhov, que procurou o interior e a alma profunda do país para apaziguar suas dúvidas e receios.

De volta da viagem, já plenamente consolidado na vida literária russa, o escritor comprou uma pequena casa a cerca de 70 quilômetros ao sul de Moscou, na cidadezinha de Melikhovo. Pequena e rústica, a casa foi inteiramente restaurada por Tchekhov, que mostrou seu talento de jardineiro. A moradia representou um pequeno luxo para toda a família, numa época em que a vida no interior, de acordo com os ritmos da natureza, era considerada muito saudável e higiênica. Foi nesse local que ele escreveu A Gaivota (1895) e onde, em contato com os camponeses, recolheu inúmeros casos e visitou outras tantas casas, minuciosamente descritas em seus contos.

Numa informação biográfica encaminhada ao editor de um jornal russo, Tchekhov declarou que seu escritor preferido era Lev Tolstoi (1828-1910). Se o realismo do autor de Anna Karenina é uma evidente inspiração, a amizade que o já idoso mestre oferecia ao jovem talentoso se manifestou em diversas visitas mútuas. Em busca de climas que pudessem atenuar as complicações pulmonares, Anton Tchekhov deixou Melikhovo e se instalou numa espaçosa casa em Autka, próxima a Yalta, com vista para o mar. Foi praticamente a sua última morada. Ali também recebeu as visitas de Lev Tolstoi e de Maximo Gorki, e lhes falou do seu imenso desejo de retornar a Moscou e abandonar aquela “Sibéria quente” onde estava internado para escapar à morte. No seu estúdio fartamente mobiliado, escreveu As Três Irmãs, O Jardim das Cerejeiras e A Dama do Cachorrinho, títulos que logo vêm à mente assim que se pronuncia o nome do escritor, e marcam a maturidade do artista, com pouco mais de quarenta anos de idade.

 

Em Moscou, Tchekhov visitara diversas vezes o amigo Lev Tolstoi em sua ampla casa ao sul da capital. O visitante de hoje pode ter uma idéia ainda mais completa do que se passava dentro daquela casa, preservada de um modo quase milagroso. É uma construção imponente, toda em madeira. Depois do café-residência de Mikhail Bulgakov, essa é certamente a casa de escritor mais visitada em Moscou. Os cômodos são espaçosos e transmitem a tranqüilidade da aristocracia que se servia bem dos empregados.

Estranhamente, apenas o quarto onde Lev Nikolaievitch Tolstoi e Sofia Andreievna Tolstaia dormiam parece acanhado e modesto: a esposa contribuiu ainda mais para a sensação de perda de espaço ao dividi-lo com um biombo. Na outra metade, sem nenhuma visão da cama, eram recebidas as visitas mais íntimas, em torno de uma pequena mesa onde era servido o chá. A casa abrigou o escritor no último período de sua vida, quando radicalizou sua visão religiosa e social, e acabou por defender a causa do Humanismo Cristão, doutrina com elementos de não-violência, vegetarianismo e abstinência sexual. O livro O Reino de Deus Está em Vós (1894), publicado na Alemanha por estar banido na Rússia, contém a suma do seu pensamento cristão, com uma característica pregação contra a violência considerando o quinto mandamento: “Não Matarás”. É possível traçar um arco que parte dos princípios que embasam a desobediência civil, tal como a concebeu Henry Thoreau, e alcança a visão extremamente espiritualizada de Lev Tolstoi, até chegar a Mahatma Gandhi, que reconheceu a influência do escritor russo na sua ação. Não escapa aos biógrafos que a última carta de Lev Tolstoi foi dirigida, justamente, para o líder político hindu.

Dentro da casa, contudo, as brigas entre marido e mulher foram freqüentes e raivosas. À medida que o velho Tolstoi exigia o cumprimento de uma vida mais simples, Sofia, dezesseis anos mais jovem, que tivera treze filhos, procurava receber os amigos e manter inalterada a rotina fidalga da família. Aos poucos, a separação de ideais se somava a problemas nunca imaginados – da insistência do marido em realizar tarefas domésticas, como cortar lenha, até sua excomunhão da Igreja Ortodoxa, em 1901. A casa reflete esse desajuste com exatidão: da confortável sala de jantar passa-se para um ambiente efusivamente decorado com tapetes, cortinas de veludo ornadas, peças de bronze, sofás e divãs no qual a esposa recebia os convidados, terminada a refeição. Com um gosto parecido com o da sua mãe, Tatiana Tolstoia mantinha um quarto com farta decoração, que incluía seus esboços, aquarelas e telas a óleo. Recebia amigos com o mesmo entusiasmo de Sofia, e tinha gosto pelas festas e pela vida social.

No mesmo 2° andar da casa, depois de atravessar um extenso e mal iluminado corredor que recebera o nome de “a gruta”, depara-se com o quarto da filha Maria, a preferida do escritor, que com o pai comungava o credo de austeridade e despojamento. Seu pequeno espaço está bem próximo ao dos empregados, e, não fossem os retratos e alguns enfeites e objetos pessoais, quase não mostraria diferenças. O local de trabalho do escritor fica ao final do corredor, quase em frente a uma escada de serviço, e seu único luxo é possivelmente a vista para o jardim. Ali Lev Tolstoi escreveu seu último romance, Ressurreição, em 1899, com renovadas críticas à Igreja. As provas do livro foram revistas pelo escritor numa minúscula casa de verão, com largos vidros, construída no jardim.

Na saída do seu estúdio, porém, há um sinal do homem determinado no qual o escritor se transformou à medida que envelhecia: a cadeira na qual se sentava para escrever tivera os pés cortados em pelo menos um terço do tamanho. Desse modo, ele podia aproximar os olhos do papel e enxergar as palavras que escrevia sem precisar usar óculos ou lentes. Seu outro exercício de simplicidade consistia em fazer sapatos, muitos deles hoje expostos num espaço adjacente ao estúdio e que demonstram suas qualidades de bom artesão. A obsessão com seu estado físico é visível na presença dos pesos com os quais fazia exercícios regularmente. Também está ali, encostada e em bom estado, a bicicleta inglesa com a qual passeava em Moscou mesmo com a idade avançada.

 

Apesar de transmitir muito da vida e mesmo das idéias de Lev Tolstoi, a casa em Moscou não é tão célebre quanto a sua propriedade em Iasnaia Poliana, a 200 quilômetros ao sul da capital. A estrada até lá não é esburacada, mas os desníveis e as novas camadas de asfalto não permitem que a viagem seja mais tranqüila. Não há qualquer paisagem notável no caminho. Em pouco tempo, passa-se por Tula, que enche os russos de orgulho: a cidade medieval, com sua famosa cidadela (kremlin) fortificada, produziu armamentos durante a II Guerra Mundial e resistiu aos ataques alemães, ganhando a fama de inexpugnável. Mas sigo com pressa, e antes do meio-dia já me encontro diante da entrada da vasta propriedade onde nasceu Lev Tolstoi, em 1828, e de onde fugiu, numa noite de chuva, em 1910, para morrer na pequena estação de trem de Astapovo, exausto. Aqui também está enterrado o escritor – e seu túmulo transmite a simplicidade que pregou na última fase da sua vida: apenas uma pedra, sem qualquer inscrição, mesmo porque inteiramente coberta pela vegetação.

A casa serviu a muitas gerações dos Tolstoi, e seus arredores induziram o escritor a se interessar pelo dia-a-dia dos camponeses. Foi nesse ambiente, cercado de natureza e de silêncio, em contato com os mujiques, que escreveu, entre outras obras, Guerra e Paz, Anna Karenina, “Hadji Murad”, “Sonata a Kreutzer” e “O que é arte?”. Mundialmente célebre, no último ano de sua vida, Lev Tolstoi chegou a receber mais de vinte cartas por dias no endereço de Iasnaia Poliana, que se transformou quase num templo literário. Paga-se o ingresso logo na entrada da propriedade, e tudo parece organizado para a visita guiada, que começa a cada meia hora. Pontualmente, a jovem guia nos leva pelo comprido caminho de terra batida que vai da entrada à casa do escritor, e subimos uma suave colina. Só se fala russo – e praticamente só há russos no grupo. Todos ficam felizes ao saber que um estrangeiro também continua a ler e a apreciar o escritor. Tiram fotos e contam que já assistiram a novelas brasileiras.

Pela direita, entra-se na ampla casa da família, que, tal como a de Moscou, está impecável. Ultrapassada a porta de entrada, logo aparecem os primeiros livros, dispostos numa estante sólida ao lado da escada que leva ao 2º andar. Lá em cima se encontra a célula vital da casa, o estúdio no qual Lev Tolstoi trabalhou incansavelmente. É um espaço não muito grande e, de fato, uma espécie de passagem entre o quarto de dormir e a sala de estar. Voltado para o sul, no estúdio muito luminoso há apenas duas estantes com os livros que deveriam estar sempre à mão do escritor.

Na de cima estão enfileirados os 86 volumes da Enciclopédia Brockhaus & Efron, obra culminante da Rússia imperial, que conseguiu reunir os sábios da época. Alguns pesquisadores se deleitaram em buscar, página por página, as anotações a lápis do escritor entre os mais de 120 mil verbetes da obra, e encontraram comentários em relação, por exemplo, a Marx, Kant e Fichte. Na estante de baixo encontram-se os livros de filosofia e de religião, entre os quais os de Confúcio, Platão, Montaigne; a Bíblia e o Corão estão lado a lado, assim como os livros sobre Buda e sobre Gandhi. A mesma estante também guarda os livros eminentemente russos: compilações de poemas populares, provérbios e literatura regional. Um pequeno livro sobre política que traz um artigo de Lenin, de 1907, contrário à proposta de boicotar o Parlamento russo, mereceu a leitura e as anotações do escritor. Finalmente, há um fonógrafo que lhe foi presenteado por Thomas Edison, e no qual o escritor chegou a ditar algumas cartas e o início de um artigo apropriadamente intitulado “Eu não posso ficar calado”. Diversos registros da voz de Lev Tolstoi chegaram aos nossos dias.

A casa está repleta de objetos: a máquina de escrever Remington, usada pelo secretário e pelas filhas para fazer cópias ou registrar as cartas ditadas; os 10 mil livros que se espalham por quase todos os cômodos; e, dentro de muitos deles, as dedicatórias e as anotações que multiplicam as histórias. Lev Tolstoi trabalhou em quase todos os ambientes da casa e, num deles, sua filha Maria, a preferida, morreu de pneumonia em seus braços. Uma visita só não basta.

Volto a Moscou e sei que ainda devo conhecer outras casas de escritores. Também quero visitar o Museu Maiakovski, preciso entrar nas duas moradas de Aleksander Pushkin – e ainda nas casas dos arquitetos, dos músicos e dos atores. Passei minha vida no Rio de Janeiro sem precisar conhecer as casas de Machado de Assis e de José de Alencar, sem visitar o apartamento e a garçonnière de Olavo Bilac – porque desapareceram antes de se abrirem aos leitores e visitantes. Mas aqui é diferente: vou explorar cada casa de escritor dessa cidade, lendo e relendo as páginas que me levam daqui para lá, e de lá para cá.

Felipe Fortuna

Poeta, ensaísta e diplomata. Publicou O Mundo à Solta, pela Topbooks, e O Rugido do Sol, pela Pinakotheke, ambos de poesia

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