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Chicotadas em família

Mãe e filha num bar sadomasoquista
Antonio Mammi
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ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2016

Foi na hora do almoço de um dia comum, enquanto se ocupava dos pedidos da freguesia, que Fernanda Benine ouviu a ideia pela primeira vez. A proposta veio de um dos poucos habitués do café que ela e a mãe, Sílvia Benine, mantinham no bairro de Pinheiros, em São Paulo. O movimento da casa estava diminuindo, e as duas batiam cabeça para inventar um novo negócio. Por que não inaugurar uma sex shop destinada ao público BDSM?, sugeriu o cliente. “Eu mesmo visitaria uma loja assim”, confessou. Diante do olhar interrogativo da jovem comerciante, ele traduziu a sigla: “Bondage, Disciplina, Dominação, Submissão, Sadismo e Masoquismo.”

Fernanda, de 28 anos, faz o tipo “garota de Berlim”. Tem cabelos vermelhos com pontas cor-de-rosa e gosta de usar roupas escuras. Resoluta, costuma falar rapidamente, quase atropelando as palavras. Escutou a proposta do amante de chicotes, couros e cordas em meados de 2015, com o pragmatismo de quem precisava fechar as contas no fim do mês – e foi consultar a mãe.

Sílvia é uma loira elegante de 54 anos, vaidosa, que aprecia joias douradas e, diferentemente da filha, exibe uma dicção cadenciada. Poderia passar por sócia do Harmonia ou de qualquer outro clube frequentado pela elite da cidade. Oriunda de Itararé, no interior paulista, casou-se com um dos proprietários da Cal Sinhá, fábrica que se destacava entre as indústrias do estado. Há cerca de uma década, porém, viu o império ruir em razão de desavenças familiares. No rastro da empresa, seu casamento também desmoronou. “Homem fica doente quando perde dinheiro e poder”, resumiu, enquanto fumava um cigarro.

Ela ouviu a sugestão trazida pela filha sem demonstrar um pingo de surpresa ou constrangimento. “Não é má ideia”, assentiu, depois de refletir um instante. Mas fez um reparo: no lugar de uma sex shop, deviam abrir um bar sadomasoquista. Afinal, as duas não só possuíam parte da mobília necessária para a empreitada como tinham experiência no ramo de bebidas e petiscos.

 

O Dominatrix Augusta funciona desde janeiro numa região apinhada de botecos, restaurantes e inferninhos, próxima à avenida Paulista. O negócio conta com um terceiro sócio, Rogério Scalamandré, um sujeito atarracado, simpático e tatuado, conhecido das Benine desde que ambas saíram de Itararé. Nenhum dos três manifesta a menor intenção de se tornar adepto do BDSM. São todos “baunilhas”, no jargão sadomasô. Um pouco por isso, outro tanto por tino comercial, acharam melhor não restringir o público do estabelecimento. Além de permitirem a entrada de curiosos, vetam práticas mais radicais dentro do casarão antigo, com mobiliário propositalmente kitsch e cuja fachada negra não ostenta placas ou luminosos que denunciem a natureza do lugar.

Numa noite de sábado, enquanto cuidava dos drinques, Scalamandré explicou por que aquele modelo light de negócio também atraía fetichistas hardcore. “Tem horas que mesmo os caras mais ortodoxos são baunilhas, pô! Aqui eles encontram comida boa, música boa e jogo de futebol”, enfatizou, apontando para a tevê. O cardápio do Dominatrix, aliás, é uma atração à parte. Oferece desde quitutes corriqueiros – tiras de filé ao gorgonzola e bruschetta caprese – até uma insólita iguaria para senhoras que desejem visitar a casa conduzindo o marido pela coleira: “Bolinhos de carne frita em forma de ração, servidos no comedouro de aço inox.”

Já passava de uma da manhã quando Scalamandré abaixou o som e comunicou aos clientes que o show iria começar. Apareceram, então, as protagonistas da noite: Lust Queen e Agatha. Nuas, as moças se dirigiram para um tablado. Agatha, a submissa, deitou-se no chão, e Lust, a dominadora, desfilou de salto agulha em cima dela. Como a escrava gritava exageradamente, num híbrido de miado com risada diabólica, um grupo de três universitários se pôs a debochar da cena. A apresentação foi interrompida e os jovens amargaram uma breve repreensão.

Em seguida, a performance evoluiu para uma sequência de chibatadas e pancadinhas com uma colher de pau. Os vergões exibidos por Agatha já se tornavam alarmantes quando Lust suspendeu o castigo. Desejava saber se, na plateia, havia algum interessado em participar da farra. Os mesmos rapazes que tinham levado o sermão se prontificaram, lançando mão de piadinhas na esperança de mostrar desembaraço. Com as calças arriadas, receberam golpes impiedosos, para delírio dos espectadores. Um cliente, que lembrava uma versão metaleira do Wesley Safadão, sacolejava de tanto gargalhar. “Se foderam!”, gritou em direção ao palco. “Quero ver fazerem graça agora.”

 

Naquela noite, Fernanda Benine passou quase o tempo inteiro atrás do balcão. Em geral, é ela quem lida diretamente com o público. A mãe costuma se dedicar mais à cozinha. Enquanto a apresentação de Agatha e Lust Queen se desenrolava, Sílvia preparava uma porção de ração para um casal que acabara de chegar. Seu apreço pela clientela parece genuíno. “O pessoal daqui é adulto, culto. Tem gente que vem só para olhar e dar um up no casamento.”

Fernanda, por sua vez, emite sinais de cansaço em relação às picuinhas de alguns fetichistas. “Outro dia, um dominador reclamou porque, numa festa para 200 pessoas, alguém encostou no cabelo da escrava dele. Não quer que isso aconteça? Então fique em casa!” O que mais a incomoda é a rotina noturna. “Sonho em abrir um restaurante por quilo, com carga horária normal, das nove às seis.” A mãe também considera a possibilidade de mudança, mas sem abdicar do ramo erótico. “Eu adoraria ter um bar desse tipo em outro lugar.” Onde? “No Rio de Janeiro! Já pensou?”, respondeu de pronto, com um sugestivo brilho nos olhos.

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