esquina

Chipados

Os ciborgues estão chegando

Luiza Miguez
IMAGEM: ANDRÉS SANDOVAL

“Deu até uma tremedeira aqui”, disse Victor Stefani ao avistar a seringa com uma agulha de 9 centímetros à sua frente. “Relaxa, vai doer menos que injeção”, reagiu Daniel Rodrigo, tentando tranquilizar o rapaz de 34 anos, que deu uma longa baforada em seu cigarro eletrônico. Ao redor, um pequeno grupo observava a cena com curiosidade. “Ele vai implantar um microchip no corpo”, explicou um pai ao filho que assistia à cena. “Mas para que ele vai fazer isso?”, murmurou o garoto, de olhos arregalados.

Daniel Rodrigo é um profissional especializado em fazer tatuagens, piercings e outras modificações corporais. Naquele sábado, estava a serviço da empresa americana Dangerous Things – “coisas perigosas” em português – numa feira de tecnologia em São Paulo. Tinha sido contratado para implantar chips pouco maiores do que um grão de arroz nos participantes do evento. Operava num estande decorado com o slogan da empresa: “Humanos são coisa do passado, seja um ciborgue.”

Os microchips em questão consistem num circuito eletrônico envolto por um cilindro transparente feito de um material compatível com tecidos humanos. Implantados na mão dos clientes, sob a pele entre o polegar e o indicador, são capazes de se comunicar com celulares e computadores e, uma vez instalados, podem armazenar informações sobre a identidade ou a saúde do portador, ou ainda servir de cartão de acesso. Nesse caso, eles permitem abrir a porta de casa ou do carro, e funcionam de forma análoga ao cartão magnético usado como chave em hotéis.

“Sua pele é boa, bem descolada”, elogiou Rodrigo enquanto esticava com um beliscão a região onde injetaria o microchip na mão do rapaz (com formação em química, enfermagem e biomedicina, ele é habilitado a fazer os implantes há cinco anos). Mordendo os lábios, Victor Stefani desviou a cabeça para o lado, evitando olhar para a agulha de quase 4 milímetros de diâmetro que entrava em sua mão. “Viu só? Mole, mole”, consolou Rodrigo, ao final do procedimento. Naquele sábado, ele vendeu, a 392 reais cada, os 100 microchips que tinha levado para o evento. Implantou dezessete deles; os demais seriam colocados depois, em seu estúdio.

 

Os microchips foram desenvolvidos por Amal Graafstra, um empreendedor de 41 anos que mora no interior do estado de Washington, no noroeste dos Estados Unidos. Fundador da Dangerous Things, Graafstra tem dois dispositivos implantados no corpo, um em cada mão. Estava escalado para uma palestra em São Paulo, mas não pôde viajar devido a um problema de saúde na família e fez sua apresentação por videoconferência.

Graafstra cresceu numa pequena fazenda de laticínios. Desde a infância, gostava de desmontar eletrônicos num ferro-velho próximo, e se acostumou a ajudar a família nos serviços manuais, consertando o maquinário. Na adolescência, aprendeu sozinho a programar; um pouco mais velho, começou um curso profissionalizante de computação, que abandonou por julgá-lo muito básico.

Foi em 2005 que ele implantou o primeiro chip, a fim de substituir as chaves, que considera objetos arcaicos. “Estava cansado de perder as chaves e ficar preso do lado de fora”, explicou Graafstra à piauí, falando dos Estados Unidos. Com a ajuda do médico da família, colocou um chip na mão direita usando um kit de implantes de identificação de animais. Um amigo publicou na internet um vídeo em que o empresário abria uma porta com a mão chipada, e logo sua caixa de mensagens estava abarrotada de comentários e pedidos de entrevista. Alguns se assustaram com as imagens; uma mulher chamou-o de “arquiteto do diabo”.

Desde então, sua empresa já vendeu cerca de 30 mil chips pelo mundo afora, com preços entre 60 e 100 dólares. Um modelo popular consiste num ímã implantado sob a pele de um dos dedos, que os usuários podem usar para atrair pequenos objetos metálicos. Segundo Graafstra, o propósito do dispositivo é conferir ao usuário uma espécie de sexto sentido que ele chama de “visão magnética”. “Quando a gente passa por um campo magnético, o implante vibra, fazendo com que você perceba o mundo de maneira mais completa”, explicou. “Dá para brincar de confundir o GPS do telefone ou desligar o monitor do computador só de tocar na tela.”

 

Houve quem comparasse os portadores dos implantes a personagens dos quadrinhos como Magneto, o vilão da Marvel que controla objetos metálicos a distância, ou Cyborg, o herói da Liga da Justiça cujo corpo é repleto de componentes robóticos. “Essa comparação é uma faca de dois gumes”, ponderou Graafstra. A vantagem, continuou, é que as pessoas estão mais dispostas a aceitar a fusão do corpo com as máquinas. “A parte ruim é que, na ficção, o chip é sempre usado para rastreamento ou para atirar mísseis, dois péssimos exemplos.”

Graafstra disse que a segurança dos dispositivos vendidos por sua empresa foi testada em máquinas de ressonância magnética e detectores de metal, sem apresentar problemas. “Eles não têm prazo de validade e não requerem energia elétrica para funcionar”, afirmou. Por não se tratar de um produto de uso médico, não precisaram de aprovação pela FDA, agência americana que regula fármacos e alimentos.

No futuro próximo, sua empresa pretende lançar chips que funcionem como cartão de crédito ou passaporte, ou que possibilitem fazer check-in em aeroportos e bater ponto no escritório. Graafstra sonha em tornar os implantes corriqueiros. “Para mim, o corpo humano é como um carro que abriga o cérebro, e que pode ser atualizado”, argumentou.

Hoje, o principal entrave ao projeto não é de ordem técnica, mas religiosa. Seus chips já foram comparados à “marca da Besta”, descrita como um sinal na mão direita num trecho bíblico do Apocalipse. A associação diabólica não tira o sono do empresário, frequentemente taxado de adorador de Satã. Para Graafstra, a Bíblia é clara. “Para não se preocupar, basta implantar o chip na mão esquerda.”

Luiza Miguez

Luiza Miguez é repórter, checadora de apuração e produtora da rádio piauí

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