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Choque de elegância

Manual de etiqueta para vereadores
Roberto Kaz
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ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2017

Quem atentou ao nome artístico do empresário Pery Rodrigues dos Santos – mais conhecido como Pery Cartola – talvez adivinhasse o que vinha pela frente. Em janeiro, mal foi eleito presidente da Câmara dos Vereadores de São Bernardo do Campo, Cartola decidiu promover um choque de elegância na Casa. Debruçou-se sobre manuais de conduta de grupos privados, como a Gol, a Volvo e a Sociedade Brasileira de Coaching. Depois recorreu a textos pinçados em sites de empresas que, segundo definiu, “se preocupam com a imagem”, como o Habib’s e o Magazine Luiza. Ao fim de duas semanas, fez nascer sua própria obra, intitulada Manual de Respeito ao Cidadão. Distribuiu-a aos servidores da Câmara.

Em questão de dias, Cartola virou personagem nacional. “Câmara no ABC cria manual de conduta e inclui até como deve ser aperto de mão”, noticiou o site G1. “Vereador deve evitar beijinho e gravata de bichinho”, explicou o site da revista Veja. O Fantástico dedicou cinco minutos de uma noite de domingo para esmiuçar os pormenores do manual. “Sou um cara retraído, sofri muito com a exposição”, ele contou, numa conversa recente em seu gabinete na Câmara de São Bernardo. “Mas depois disso umas quinze cidades me pediram o manual, por terem problemas semelhantes.”

Pery Cartola é um homem tímido, de 37 anos, que namora a mesma mulher – com quem teve duas filhas – desde os 14 anos de idade. Formou-se em administração e foi dono de loja, mas no fundo sempre nutriu a esperança de seguir os passos do pai, Waldir Cartola, que chegou a ser deputado estadual por São Bernardo. Em 2012, Cartola, o filho, tornou-se vereador pelo Partido Popular Socialista. Quatro anos depois disputou a reeleição pelo Partido da Social Democracia Brasileira, tendo como plataforma os direitos dos animais. “Todas as leis de São Bernardo voltadas à proteção dos animais são de minha autoria”, lembrou o edil, com orgulho. Como se sagrou o vereador mais votado da cidade, no último pleito, acabou sendo escolhido também para presidir a Câmara.

Do alto de seu novo cargo, Pery Cartola resolveu combater certos hábitos que o haviam incomodado nos anos de simples vereança, em que militava como um a mais no plenário da Casa. “Venho da filosofia americana de fast-food, em que as empresas se preocupam muito com a imagem”, explicou ele, que é dono de uma filial da rede Habib’s. “E ouvia muita reclamação dos munícipes sobre a falta de preparo de quem trabalhava aqui. Não só sobre a vestimenta, mas sobre a educação das pessoas.” Como um João Doria, resolveu aplicar a lógica privada ao funcionamento da coisa pública. Surgiu então o código de conduta.

As primeiras reações na imprensa até foram positivas, lembrou Cartola. “Mas aí saiu uma matéria no ABCD, que é um jornal de viés petista”, lamentou. A reportagem citava trechos do manual que diziam respeito à vestimenta (mulheres deveriam ter “cuidado com babados e rendas”, aos homens cabia evitar “gravata de bichinho”); ao perfume (elas deveriam priorizar “colônias frescas ou lavanda”, eles deveriam evitar essências fortes); e à forma do cumprimento (o aperto de mão, para homens e mulheres, deveria “ser firme com três sacudidas”). O tratado, que entre outras normas de etiqueta contraindicava o uso de meias claras com terno escuro, foi logo criticado por vereadores e pelo presidente do sindicato dos servidores públicos de São Bernardo. “O documento tinha 29 páginas, e só uma delas falava de vestimenta”, lamentou Cartola. “Tentaram deturpar o que eu fiz.”

Dias depois, cioso da reação negativa, o presidente da Câmara de São Bernardo fez um recall do texto original, retirando-o de circulação.

 

O manual atual, com onze páginas a menos, versa de forma mais sóbria sobre os modos dos funcionários. “Seja qual for o local de trabalho, é preciso ter bom senso para não cair na vulgaridade”, recomenda o texto, na seção sobre indumentária. “Não é permitido trabalhar com trajes de descontração, bermuda, shorts, regatas, chinelos, camisa de times.”

Há dicas para quem organiza uma reunião. “Você que convocou a reunião, chegue antes dos convidados. É muito deselegante atrasar-se e deixá-los esperando”, diz o texto, lembrando também que é fundamental servir “água e café”. Há sugestões, também, para quem se ocupa do telefone: “Procure atender no máximo até o terceiro toque e evite perguntar ‘Quem fala?’. Só faça esta pergunta se não conseguir identificar quem está falando.”

Na nova versão do manual, aboliu-se a exigência do aperto de mão com exatas três sacudidas, mas as formas de cumprimento continuam tendo relevância. “‘Bom dia’, ‘Por favor’, ‘Com licença’, ‘Obrigado’ (Homem) e ‘Obrigada’ (Mulher)”, enumera o guia de etiqueta, são “palavras importantes para o relacionamento diário”. Há, por fim, um trecho que trata do eterno dilema de saber o que se deve fazer com a carne onde se ganha o pão. “Namorar um colega de trabalho não é proibido”, explica o documento. “Se você estiver namorando um colega, discrição é o principal mandamento. Respeite o seu horário de trabalho, não namore pelos corredores, ao telefone, e-mail, MSN corporativo e similares. O namoro é para o final de expediente e em outros locais.”

Apesar de culpar a imprensa pelas críticas e dores de cabeça que enfrentou, Pery Cartola admite que a primeira versão do manual era algo exagerada. “Minha esposa e minhas filhas haviam dito que poderia dar problema, mas não ouvi com atenção. Naquele momento eu precisava chocar”, explicou, justificando, com um exemplo específico, as medidas quase desesperadas: “A gente era motivo de chacota por causa de funcionário que vinha de terno, gravata e meia branca.” Desde então, garante o vereador, heresias desse tipo não ocorreram mais. “As reclamações caíram muito. E não temos mais os excessos. Você anda nos corredores da Câmara e vê o resultado.”

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