Quase não fui à Copa de 1970 por causa de um deslocamento de retina. Quase não fui titular. Quase deixei a medicina e me tornei psicanalista. Tive muitos "quases" na vida
Ver dados da foto Quase não fui à Copa de 1970 por causa de um deslocamento de retina. Quase não fui titular. Quase deixei a medicina e me tornei psicanalista. Tive muitos "quases" na vida ILUSTRAÇÃO: CASSIO LOREDANO_2016

A chuteira e o jaleco

Um craque entre o futebol e a medicina
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Quase não fui à Copa de 1970 por causa de um deslocamento de retina. Quase não fui titular. Quase deixei a medicina e me tornei psicanalista. Tive muitos "quases" na vida ILUSTRAÇÃO: CASSIO LOREDANO_2016

Depois da Copa de 1970, recebemos muitos prêmios pela conquista. Um deles, que me incomoda até hoje, foi o Fusca dado pelo prefeito de São Paulo, Paulo Maluf. Na época, ele não tinha tanta fama de corrupto como tem hoje. Recebi o carro como uma homenagem, um reconhecimento pelo título. Eu era um jovem de 23 anos e não tinha o conhecimento que tenho hoje. A prefeitura foi processada por um cidadão, e Paulo Maluf foi condenado a devolver aos cofres públicos o dinheiro gasto. Ele recorreu e foi absolvido. Com o tempo, amadureci, entendi e aprendi que dinheiro público não pode ser distribuído para quem quer que seja. Essa é uma das razões de eu ter recusado, anos atrás, o prêmio em dinheiro concedido pelo governo federal aos campeões de 1970, 1962 e 1958. Muitos não compreenderam.

Os jogadores dessas e de outras copas, e todos os outros que passam por dificuldades financeiras, deveriam ser ajudados pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF), pelos clubes em que atuaram e pela Previdência Social, que é um direito de todo cidadão. Para manter minha independência como colunista e crítico, recusei também o plano de saúde oferecido pela CBF aos campeões mundiais.

O futebol brasileiro voltou a ser adorado por todo o mundo após a Copa de 1970, mais ainda do que tinha sido depois das conquistas de 1958 e 1962. Estavam solidificadas a fama e a lenda da magia do futebol brasileiro, abaladas naqueles últimos anos. O cineasta e escritor italiano Pier Paolo Pasolini disse que a poesia brasileira tinha derrotado a prosa italiana. Chico Buarque escreveu que os europeus eram os donos do campo, pela organização, distribuição e posicionamento, enquanto os brasileiros eram os donos da bola, pela habilidade, fantasia e improvisação. Penso que, em 1970, o Brasil foi prosa e poesia, dono da bola e do campo, a união perfeita do futebol organizado e planejado com a improvisação, a fantasia e a técnica. Aquele foi um período de encantamento, começando com a Seleção Brasileira de 1958, seguida pela inglesa de 1966 e a brasileira de 1970, e completando-se com a seleção holandesa de 1974.

 

Em 1972, foi realizada no Brasil a Taça Independência, um pequeno torneio com algumas seleções. Pelé já tinha feito sua despedida do time brasileiro um ano antes. Pelé quis parar no auge, campeão do mundo. Leivinha, atacante do Palmeiras, jogou ao meu lado – eu mais recuado e ele mais à frente. Na final, no Maracanã, ganhamos de Portugal com um gol de Jairzinho. Uma semana antes da Taça Independência, fui contratado pelo Vasco.

Eu tinha uma grande chance de ser um dos protagonistas da Seleção na Copa de 1974, por causa da ausência de Pelé e de outros grandes jogadores. Na época, o jornalista escocês Hugh McIlvanney escreveu: “Por combinar o que há de melhor no craque europeu e sul-americano, e o que há de melhor nas velhas artes e nas novas ciências do jogo, ele bem poderia ser o símbolo perfeito de uma grande Copa do Mundo em 1974. Só de pensar nisso, o coração bate mais forte.”

Após o Mundial de 1970 e durante dois anos, joguei normalmente pelo Cruzeiro, sem problemas no olho. Para mim, era uma situação já superada.[1] Em 1971, fui a Milão, convidado para jogar na despedida do goleiro russo Yashin, considerado o maior goleiro de todos os tempos. Almocei na concentração do Milan, ao lado dos jogadores, a convite dos dirigentes. Queriam me levar para lá, mas dependia do fim da proibição da contratação de estrangeiros, o que não aconteceu naquele momento. Por pouco não joguei na Itália. Minha vida, em vários sentidos, poderia ter tomado outro rumo.

Em Milão, fiquei hospedado no mesmo hotel em que moravam Garrincha, Elza Soares e vários filhos. Elza Soares fazia apresentações em bares e boates, e Garrincha tinha um salário como garoto-propaganda do Instituto Brasileiro do Café. Saímos uma noite para jantar. Jornalistas diziam que os dois tinham problemas financeiros e que Elza Soares tentava arrumar shows para ganhar dinheiro, pagar a conta do hotel e voltar ao Brasil. Não sei se era verdade ou fofoca.

O Cruzeiro, como é frequente acontecer com grandes equipes, caiu de produção após ganhar o Campeonato Mineiro cinco vezes seguidas, de 1965 a 1969, e ter sido campeão da Taça Brasil, em 1966, hoje reconhecida como título do Campeonato Brasileiro. Além disso, o Atlético-MG havia formado um ótimo time, com o técnico Telê Santana e o artilheiro Dario, e foi campeão do primeiro Campeonato Brasileiro oficial, em 1971. Isso assustava o Cruzeiro. Por causa dos maus resultados, houve grandes críticas ao clube, como a de que alguns jogadores já estivessem famosos e sem a mesma dedicação. Isso me ofendia. O time fez uma longa excursão à Ásia e à Oceania, com os reservas, mas eu estava presente, por exigência contratual, por ter sido campeão do mundo. Quando estávamos na Tailândia, recebemos a notícia de que o Cruzeiro tinha contratado o técnico Yustrich, conhecido por sua brutalidade, por histórias de até bater em jogador. A diretoria esperava que Yustrich fosse capaz de fazer com que os atletas se dedicassem mais. De lá mesmo, disse que não jogaria mais no Cruzeiro. O interessante é que, um dia depois, fiz cinco gols contra a seleção da Tailândia, na vitória por 5 a 0, a única vez em que consegui esse feito em minha carreira.

Voltei, me apresentei e treinei, sob o comando de Yustrich, e mantive meu desejo de sair. Apareceram alguns candidatos, como o Fluminense. Pedi ao Cruzeiro para acertar com o tricolor carioca, pois era tido como o clube mais organizado do futebol brasileiro naquele momento. Aí apareceu o Vasco, com uma proposta superior. Na época, o passe do jogador era preso ao clube, mesmo depois de terminado o contrato – uma estrutura de escravidão. A Lei Bosman, de 1995, foi o início de uma mudança nas relações entre clubes e jogadores em todo o mundo. Os atletas, como todos os profissionais, passaram a ter liberdade de escolher onde trabalhar após o fim do vínculo contratual com os clubes. O Cruzeiro, para fechar o negócio, exigiu que eu abrisse mão da minha porcentagem de 15%, garantida por lei. Para ser coerente e mostrar minha insatisfação, concordei, o que foi um grande erro. Para a época, era uma grande quantia, e era meu direito.

Fiquei muito decepcionado com a diretoria, especialmente com o presidente Felício Brandi, pela conduta comercial, maquiavélica, e pela falta de reconhecimento da minha trajetória no clube. Fui um dos principais responsáveis pelo crescimento do Cruzeiro, que passou de terceiro time de Belo Horizonte a um clube conhecido e idolatrado em todo o Brasil e até no exterior. O fato não mudou em nada o afeto que tenho pelo clube, no qual joguei por dez anos e tive grandes alegrias. Sou torcedor do Cruzeiro. Hoje, diferentemente do que acontecia antes, a maioria dos torcedores e dirigentes entende que, como colunista esportivo, tenho a obrigação de ser isento e de criticar e elogiar o Cruzeiro, como faço com qualquer outro clube.

Antes de assinar o contrato, fui examinado por três oftalmologistas do Rio, escolhidos pelo Vasco, por causa dos problemas anteriores no olho. Não houve nenhuma objeção à minha contratação. Assinei um contrato para ganhar um salário maior do que tinha no Cruzeiro, sem nenhum valor adiantado ou de luvas. Como a vida no Rio era muito mais cara, na prática, não tive nenhuma vantagem financeira.

Na minha chegada ao Vasco, desfilei em carro aberto pelas ruas do Rio. No primeiro ano, em 1973, tive altos e baixos, em um nível muito abaixo do que atuava no Cruzeiro. O Vasco era muito inferior ao time mineiro, e eu sentia falta dos antigos companheiros. Fiquei também impressionado com a falta de seriedade profissional. A concentração servia para os jogadores dormirem, de dia e de noite, para recuperarem o sono das noitadas. Na verdade, isso era comum no futebol brasileiro. O Cruzeiro era exceção. Apesar de as pessoas gostarem de dizer que, no passado, os jogadores tinham mais amor ao clube, a verdade é que eles se comportavam como amadores. Hoje, os atletas são muito mais responsáveis. Têm também salários infinitamente maiores.

Durante meu primeiro ano no Rio, morei em um hotel enquanto procurava apartamento para comprar. Imaginei que ficaria um longo tempo, para jogar e desfrutar da Cidade Maravilhosa. Era recém-casado. Quando consegui um apartamento no Humaitá, com uma bela vista para a Lagoa Rodrigo de Freitas, tive, subitamente, novos problemas no olho. Viajei para Houston e recebi o diagnóstico de novo descolamento da retina. Fui operado. Depois de seis meses de repouso e observação, fui orientado pelo dr. Roberto Abdalla Moura a não mais jogar, pelo risco de ter novo descolamento. Além do mais, dessa vez eu havia perdido parte da visão central, o que me impossibilitava de ter uma visão correta de profundidade, resultado da conjunção dos dois olhos. Isso, para um atleta de futebol, é uma grande perda. Quando a bola chegasse com velocidade, não teria mais as mesmas condições para dominá-la. Seria um jogador comum, um perna de pau.

Diferentemente da fase de recuperação da primeira cirurgia, em 1969, quando eu tinha muita confiança de que voltaria a jogar, dessa vez me preparei para o pior, pois já tinha sido avisado pelo médico de que dificilmente ele me recomendaria atuar novamente. Recebi a confirmação com tristeza, mas sem pânico. Já tinha me preparado para retornar aos estudos e ter uma nova atividade.

Lamento ter jogado tão pouco tempo e não ter tido, no Vasco, o mesmo sucesso que tive no Cruzeiro. Tenho boas lembranças de São Januário, do bairro de São Cristóvão, das marcas da colonização portuguesa, da bela arquitetura dos prédios e dos bons restaurantes típicos.

A diretoria do Vasco, para justificar o investimento que tinha feito, quis, na Justiça, receber do Cruzeiro o que havia gasto, o que, obviamente, foi negado. Como decidi voltar a Belo Horizonte, a Justiça – a meu ver, erradamente – decidiu que o Vasco não precisava pagar meus salários, desde o momento da contusão até o fim do contrato, por mais ou menos um ano. Vendi, com pressa e prejuízo, meu apartamento no Rio, no qual vivi por apenas alguns meses, pois precisava comprar outro em Belo Horizonte. Não tinha mais nenhum salário. Ainda bem que minha esposa, engenheira química, tinha emprego, e eu tinha guardado algum dinheiro.

Eu, que tinha ficado tão decepcionado com os dirigentes do Cruzeiro, estava mais ainda com os do Vasco. Era mais um motivo para me retirar do futebol, em vez de exercer outro cargo no esporte. Minha carreira durou dez anos, de 1963 a 1973, dos 16 aos 26 anos. Se tivesse parado aos 35, não teria mais ânimo para voltar a estudar.

 

No dia seguinte à minha chegada a Belo Horizonte, fiz minha inscrição em um cursinho pré-vestibular. Como já estava quase no fim do ano e tinha de recomeçar do zero, aprender as coisas da época do ginasial, tive de fazer um grande esforço. Sabia que, naquele ano, não seria possível passar em medicina, um curso muito concorrido. Porém, no ano seguinte, em 1974, ano da Copa, estudei muito. Fiz prova no mesmo Mineirão em que, pouco tempo antes, eu era aplaudido pelos torcedores. Passei em medicina na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), e também em fisioterapia na Faculdade de Ciências Médicas, em primeiro lugar.

Escolhi a medicina por várias razões. Tinha uma grande curiosidade de entender e conhecer os segredos do corpo, da alma, da vida e da morte. Mas aprendi nos livros de Dostoiévski, Sartre, Camus, Machado de Assis, Hermann Hesse, Freud e outros, e nas poesias de Pessoa e Drummond, muito mais da vida e da morte do que na medicina e na dissecação de cadáveres.

A profissão de médico é sedutora, traz prestígio social e possibilita ajudar as pessoas, além de interferir na doença e no destino dos pacientes. Sentia-me importante como ser humano. Tinha também uma boa relação pessoal com médicos e com pessoas ligadas à profissão. Era o início da descoberta de um novo mundo.

Começava a realizar meu sonho de adolescente de ter uma profissão liberal, antes de decidir ser um atleta profissional. Meu total afastamento do futebol, ao recusar convites para dar entrevistas e ir a programas de televisão, despertou mais curiosidade. As pessoas não entendiam como um jogador famoso se afastava do esporte daquela maneira. Isso ficou ainda mais marcante quando a Rede Globo fez uma reportagem com a mensagem de que eu não queria mais falar nem saber de futebol. Apenas queria ser um cidadão comum, não ser alvo de curiosidade e ter mais tempo para estudar, além de não deixar que a fama e o passado atrapalhassem minha nova atividade. Queria ser um médico, com total dedicação.

Fiz o curso de medicina, de 1975 a 1981, na UFMG. No início, havia uma grande curiosidade entre os colegas, entre os professores e até mesmo entre os pacientes com minha presença. Aos poucos, me acostumei, e eles também. Fiquei à vontade e não mais chamava a atenção. Passei os seis anos na faculdade com apenas um caderninho para anotar os compromissos, enquanto a maioria dos alunos copiava tudo o que o professor dizia. Achavam estranho. Eu não copiava, mas prestava muita atenção. Na época, não havia computador, muito menos internet. Penso que, por ter mais ou menos uns dez anos a mais que os colegas, sabia definir o que era mais importante entre milhares de informações que recebíamos.

Na formatura, houve uma divisão da turma. Havia um grupo chamado de Conforme, dos conformistas, que estava de acordo com toda a programação social da faculdade, e outro, o Disforme, do qual eu fazia parte, que participou apenas do que era realmente obrigatório. Fizemos nossa festa separadamente. Na entrega do diploma, com a presença de todos, estava lá a Rede Globo e o repórter Chico Pinheiro, hoje apresentador da emissora, para me entrevistar.

Diferentemente da frase do ex-jogador Falcão, que ficou famosa, de que o jogador morre duas vezes, uma quando para de jogar e outra quando morre de fato, tive, quando encerrei a carreira, uma perda, mas também um renascimento. Morremos e renascemos várias vezes na vida, até desistirmos, ou até que a vida desista de nós.

 

Enquanto eu estudava para o vestibular, assisti à Copa de 1974. A seleção holandesa maravilhou e surpreendeu o mundo. Johan Cruyff conta que, uns quinze dias antes do Mundial, o lendário treinador Rinus Michels reuniu os jogadores e disse-lhes que, como era quase impossível ganhar a Copa, fizessem algo diferente. Nascia o Carrossel Holandês. Onde quer que estivesse a bola, havia vários holandeses para tomá-la, em todas as partes do campo. Os zagueiros, adiantados, pressionavam, recuperavam a bola no meio-campo e continuavam a jogada até o gol. Os defensores se misturavam com os armadores e os atacantes. Era a pelada organizada. Cruyff, que teoricamente era o centroavante, estava em todas as partes do campo. Foi um dos jogadores mais inteligentes da história do futebol e, depois, um excepcional técnico e crítico. Contra os holandeses, as seleções do Uruguai e da Argentina quase não pegaram na bola. O domínio era tanto que se cada jogo acabasse 7 a 0 seria normal. Contra o Brasil, foi um pouco mais difícil porque o time brasileiro, com bolas longas, nas costas dos zagueiros, quase fez dois gols. Mas, na maior parte do tempo, foi também um massacre holandês. O Brasil perdeu e apelou para a violência.

Muitos jogadores encantaram o mundo, mas, fora dos gramados, ninguém teve tanta importância para o futebol quanto Cruyff. Como técnico, revolucionou o Barcelona – e, consequentemente, todo o futebol mundial – com seus conceitos de jogo compacto, de aproximação para trocar passes, de posse de bola e de marcação por pressão. Cruyff foi também um grande crítico e pensador.

Nunca joguei contra ele. Conversei com Cruyff uma única vez, rapidamente, no corredor de um shopping center em Joanesburgo, na África do Sul, antes da Copa de 2010. Ele disparou a elogiar a Seleção Brasileira de 1970. Sabia todos os detalhes. Tive vontade de fazer uma tietagem, mas não tive coragem de dizer a ele que, há muito tempo, eu procurava alguma imagem sua em miniatura para a minha coleção de grandes ídolos e personalidades que transformaram o mundo, em todas as áreas do conhecimento humano. Ainda vou achar.

 

No período entre 1974 e 1994, afastei-me do esporte e dediquei-me à medicina. Trabalhei e estudei muito, e não tinha tempo para acompanhar de perto o futebol, a não ser os principais jogos, como os da Copa. Nas folgas do trabalho médico, estava com a família. Por isso, durante os últimos vinte anos, como comentarista de televisão e colunista esportivo, tive de ler bastante, pesquisar e conversar com muitas pessoas que viveram intensamente o futebol daquele período, a fim de entendê-lo melhor. Continuo com muitas dúvidas. Assistir anos mais tarde às partidas do passado, como fiz, é diferente de vê-las na época em que foram realizadas.

A Inglaterra de 1966, o Brasil de 1970 e a Holanda de 1974, seleções com grande encanto, talento e também organização tática, foram, naquele período, as maiores inspiradoras para o início do futebol atual, científico, planejado, dentro e fora de campo. A partir daí, houve progressivamente um grande desenvolvimento da ciência do futebol e uma vedetização dos treinadores. Os clubes brasileiros passaram a ter vários especialistas em suas comissões técnicas, como fisiologistas, fisioterapeutas, nutricionistas, médicos e outros. Um exemplo da grande diferença científica entre o futebol de hoje e o daquela época era a comissão técnica do Cruzeiro, que, nos anos 60, era formada apenas pelo treinador, pelo preparador físico e por um médico ginecologista, que já estava no clube havia muito tempo. Ele conhecia bem a medicina geral e encaminhava a um ortopedista os problemas mais sérios e difíceis. Havia ainda o pai de santo. Na véspera das partidas, os jogadores o encontravam. Eu fazia questão de não ir. Achava um atraso mental e profissional. Diziam também que o pai de santo recebia até prêmios pelas vitórias (ou “bichos”, como se diz no futebol).

Os grandes clubes brasileiros construíram novos centros de treinamento, aproveitando os avanços da tecnologia. Eles têm hoje uma estrutura profissional tão boa quanto a dos principais clubes da Europa, às vezes até melhor. Atualmente, existe um contrassenso: a qualidade dos centros de treinamento dos grandes clubes brasileiros é, em média, melhor que o talento dos jogadores.

 

Como nada no mundo é linear e nada acontece sem sobressaltos, surgiu nesse período de 1974 a 1994, de baixa qualidade técnica no futebol, uma excepcional Seleção Brasileira, dirigida por Telê Santana, um técnico que gostava de vencer e de dar espetáculo. O time não venceu, mas encantou o mundo. Tive de trocar meus plantões de médico-residente da área de clínica médica, no Hospital das Clínicas da UFMG, para assistir aos jogos do Brasil.

Essa equipe de 1982, a holandesa de 1974 e a húngara de 1954 contrariam o lugar-comum de que a história é sempre contada pelos vencedores. O operoso Dunga fica com raiva e não compreende como uma seleção que perdeu pode ser mais elogiada que a de 1994, que venceu. Ele nunca vai entender. Falam muito que, por causa da derrota da Seleção Brasileira em 1982, o futebol, em todo o mundo, passou a ser mais pragmático e feio, como se não fosse possível jogar bonito e vencer. Na verdade, as mudanças no futebol, que o tornaram mais previsível naquele período, proporcionaram grandes benefícios científicos futuros, que existem atualmente no futebol mundial, como vimos na Copa de 2014.

A Seleção Brasileira de 1982 tinha jogadores excepcionais em quase todas as posições. Não havia pontas fixos, o que motivou a criação do personagem Zé da Galera, de Jô Soares, que reclamava: “Bota ponta, Telê!” Éder era um ponta-esquerda mais armador, que vinha pelo meio e se misturava com Cerezo e Falcão, teoricamente os volantes, e com Zico e Sócrates, os meias ofensivos. E ainda tinha, nas laterais, Júnior, pela esquerda, que ia também ao meio armar as jogadas, e Leandro, pela direita, um dos grandes da posição na história do futebol brasileiro. Luizinho era um zagueiro clássico, que antevia a jogada, antecipava e saía com a bola com eficiente passe. Faltou Careca ou Reinaldo na frente, contundidos, no lugar de Serginho Chulapa. Uma equipe com tantos craques precisava de um centroavante com mais talento.

Temos o hábito de achar sempre uma única razão para tudo, como a de que a Seleção perdeu porque não teve cuidados defensivos quando deveria segurar a vantagem do empate contra a Itália. Os três gols de Paolo Rossi saíram de lances pontuais, de erros isolados e pelos méritos do time italiano. Se o Brasil jogasse várias vezes com a Itália – que tinha também uma excepcional equipe, tanto que foi campeã –, ganharia a maioria das partidas.

Quatro anos depois, na Copa de 1986, apenas alguns dos craques de 1982, como Zico e Sócrates, estavam presentes. Telê foi novamente o treinador. Em 1992 e 1993, ele foi bicampeão mundial de clubes dirigindo o excepcional time do São Paulo, contra Barcelona e Milan, respectivamente. Telê foi um dos grandes treinadores da história do futebol brasileiro. Diferentemente de Carlos Alberto Parreira e de Cláudio Coutinho, que valorizavam mais os detalhes táticos e o jogo programado, ensaiado, Telê insistia com os jogadores para treinar e melhorar os fundamentos técnicos, além de se preocupar com que os atletas atuassem em suas posições corretas, para exercerem o máximo de seus talentos. Telê gostava de vitórias e do belo e bom futebol.

Na volta da Copa do Mundo no México, o Brasil foi eliminado nos pênaltis pela França, que tinha excelentes jogadores. Os franceses discutem até hoje quem foi seu melhor jogador: Platini, craque na Copa de 1986, ou Zidane. Platini era mais um meia-atacante, ponta de lança, goleador. Zidane era mais um armador, de talento magistral. Não tenho dúvidas de que Zidane foi melhor. Ele está entre os maiores jogadores da história.

Mas a grande sensação da Copa de 1986, vencida pela Argentina, foi Maradona, que estava no auge. Além de muitos argentinos, um grande número de italianos fala que Maradona foi superior a Pelé porque brilhou intensamente no Napoli, da Itália – um time que não estava entre os grandes do futebol mundial, e ainda mais por ser em um país que tinha as melhores defesas do mundo –, e também porque Pelé jogou ao lado de mais craques, tanto na Seleção quanto no Santos. Maradona foi mais artista, mais showman. Pelé foi mais completo, mais técnico, pois tinha, no mais alto nível, todas as virtudes necessárias da posição. Foi o maior de todos. Sei que Messi nunca será tão idolatrado quanto Maradona, mesmo que faça um gol tão espetacular em uma Copa e seja campeão mundial. Acho Messi mais completo que Maradona, por fazer mais gols, além de ser excepcional na armação das jogadas.

Em 1986, Maradona fez o gol mais bonito de todas as Copas, nas quartas de final contra a Inglaterra, na vitória da Argentina por 2 a 1. Na mesma partida, ele fez o famoso gol com a mão. Para o povo argentino, foi mais que uma vitória esportiva. Foi a vingança por causa da derrota na Guerra das Malvinas, em 1982.

Maradona contou a seu amigo Jorge Valdano – que também estava em campo e que depois se tornou um grande pensador do futebol – que, ao receber a bola em seu campo, pensou em passá-la ao companheiro. Apareceu um inglês à frente, e ele teve de driblá-lo. Queria novamente dar o passe, e estava lá outro inglês à sua frente. Teve também de driblá-lo. Assim, sucessivamente, driblou vários ingleses, o goleiro e fez o gol. Foi a união de um fenomenal talento com os acasos.

Na Copa de 1990, disputada na Itália, recebi um convite tentador e aceitei. Vi, no Brasil, os três primeiros jogos da fase de classificação. Depois, tirei férias do trabalho e viajei para lá, onde me hospedei em um navio de turistas e torcedores, ancorado em Gênova. Fui com minha esposa e meu filho, que tinha 12 anos. Minha filha não pôde ir, por causa de provas no colégio. Chegamos a Gênova e, no outro dia, fomos de ônibus até Turim, para ver Brasil e Argentina. Uma grande decepção, apesar de o Brasil ter sido muito superior. A Seleção Brasileira, dirigida por Sebastião Lazaroni, jogou pela primeira vez com três zagueiros e dois alas. O jovem Romário, que na época atuava no PSV, da Holanda, já despontava como um fenômeno, mas se contundiu e não pôde jogar. Maradona, em um lance genial, driblou dois marcadores e tocou para Caniggia fazer o gol da vitória. Meu filho, no estádio, chorou copiosamente. Maradona, venerado pela torcida do Napoli, no qual jogava, conseguiu a proeza de fazer os torcedores napolitanos torcerem para ele e para a Argentina contra a própria Itália. Os argentinos eliminaram os donos da casa nos pênaltis.

Como já estava combinado entre a companhia de turismo e os passageiros, caso o Brasil perdesse, iríamos passear pelo Mediterrâneo e pela Grécia. Assisti a alguns jogos em um telão, dentro do navio, com uma péssima imagem. Na final, a Alemanha ganhou da Argentina. Foi mais um Mundial de baixa qualidade técnica.

Na viagem de navio, vivi um grande susto, por causa de uma tempestade. O navio balançava muito, quase todos os passageiros vomitavam, e muitos entraram em pânico. Tive de atuar como médico. Fui até a cabine, onde ficavam os comandantes, que estavam tranquilos, apesar de a água passar por cima do navio.

 

Eu era professor da Faculdade de Ciências Médicas e médico da Santa Casa, e depois do São José, que funcionavam como hospitais-escolas. Orientava os médicos-residentes no atendimento aos pacientes na enfermaria e no ambulatório e dava aulas de semiologia médica, parte essencial do curso, em que os alunos aprendiam a examinar o paciente e a fazer um diagnóstico fisiopatológico (entendimento do distúrbio do doente), baseado nos sinais físicos e nos sintomas. No hospital e na faculdade, eu era um dos médicos assistentes do conceituado dr. José de Laurentys Medeiros, já falecido. Uma parte da enfermaria, com um grande número de leitos, ficava sob minha responsabilidade, junto com os médicos-residentes e os alunos. Além do trabalho diário de examinar, medicar e discutir todos os problemas dos pacientes, fazíamos reuniões científicas, de atualização da parte clínica e farmacológica. Eu era um CDF, um caxias. Até hoje, algumas poucas pessoas acham que me tornei médico apenas para ter diploma de doutor.

Como um dos meus desejos, quando escolhi a profissão, era entender os mistérios do corpo e da alma, fiz cursos paralelos de medicina psicossomática, psicologia médica e psicanálise, além da minha análise pessoal. Eu era tido no hospital como um médico que conversava bastante com os pacientes, sempre procurando saber também suas aflições, que influenciam na evolução das doenças. Tinha a pretensão de ser um médico completo. É impossível, pela complexidade da medicina. Durante um curto período, aluguei um horário em um consultório particular de um amigo. Desisti. Gostava mais do hospital-escola e do trabalho de professor.

Quando terminei o curso de psicanálise, tive uma paciente, por quase um ano, com a orientação de meu professor. Quase troquei a medicina pela psicanálise.

Eu percebia, no atendimento diário aos pacientes, que a preocupação principal deles era ter um corpo sadio, para estar apto ao trabalho. O “eu” era o corpo.

Fui homenageado algumas vezes pelos alunos da Faculdade de Ciências Médicas, onde era professor, e uma vez – um fato inusitado – pelos alunos da UFMG, porque alguns participavam, fora das atividades curriculares, da enfermaria em que eu trabalhava, na Santa Casa. Tiveram de fazer um pedido especial ao reitor da universidade. Essas homenagens me traziam muita satisfação e orgulho. O contato com os alunos era enriquecedor e me dava muito prazer. Fico contente quando encontro alguns deles hoje, cinquentões e competentes médicos.

Sentia-me mais completo como ser humano e um melhor cidadão, como desejava. Tinha também o orgulho de ser capaz de fazer bem uma outra atividade, fora do futebol. Por outro lado, o contato diário com a doença, a possibilidade e a proximidade da morte e a transitoriedade das coisas aumentavam minha angústia existencial diante da fragilidade, da incompletude humana e da finitude da vida.

Isso não me torna depressivo, não me tira a alegria de viver, a gana de ir atrás do que quero nem o sono. Às vezes, sinto até uma prazerosa melancolia.

 

Próximo à Copa de 1994, Luciano do Valle me telefonou e me convidou para participar diariamente do programa de debates da TV Bandeirantes, à noite, nos Estados Unidos. Aceitei na hora, para sua surpresa. Apesar de não ter pensado objetivamente, pode ser que, inconscientemente, eu me preparava para voltar ao futebol.

Também comentei vários jogos da Copa ao vivo, do estúdio, o que não estava programado. Pedi para fazer. Aprendi na hora.

Embora haja exceções, os comentaristas de jogo que foram atletas profissionais são, geralmente, melhores para explicar os lances decisivos, os detalhes e as intenções dos jogadores, enquanto jornalistas comentaristas costumam ter uma postura mais profissional e científica, dar mais informações, além de, paradoxalmente, se preocupar mais com os sistemas táticos.

Fiquei mais de um mês em Dallas e passava o dia no centro de imprensa, onde via todos os jogos pela tevê, dava entrevistas, fazia alguns comentários e, à noite, depois das partidas, participava do programa de debates e análises dos jogos, junto com Luciano do Valle, Armando Nogueira e Júlio Mazzei, que havia sido preparador físico e diretor do Cosmos, de Nova York, onde trabalhara com Pelé nos anos 70. Gérson e Rivellino, companheiros da Copa de 1970, acompanhavam diariamente os treinos e jogos da Seleção na Califórnia. Tornei-me amigo de Armando Nogueira, com quem aprendi muito.

Em Dallas, era rara uma notícia de destaque sobre a Copa. Havia um grande silêncio nas ruas. Achava estranho. Um dia, no centro de imprensa, fui fazer um lanche. Estava sentando, comendo um sanduíche, quando apareceu um senhor mais velho, mais gordo, que pediu permissão para sentar-se a meu lado. Quando vi, achei que o conhecia. Ele se apresentou e disse: “Sou Di Stéfano.” Quase caí da cadeira. Batemos um longo papo sobre futebol. Ele comentava os jogos para uma tevê espanhola.

Alfredo di Stéfano faleceu há pouco tempo, quando era presidente de honra do Real Madrid, além de ter sido um dos maiores jogadores da história do clube. Os argentinos mais antigos falam que ele foi superior a Maradona e a Messi. Foi um dos ídolos de meu pai e considerado, por muitos, um dos cinco maiores jogadores da história do futebol. Alguns falam que era maior que Pelé. Meu pai dizia que Pelé foi melhor, mas que Di Stéfano era o único jogador da história que brilhava de uma área a outra. Hoje, muitos jogadores que não têm o talento de Di Stéfano fazem o mesmo, pois são muito mais bem preparados fisicamente.

Por causa da influência de meu pai, tentei, durante uma época, no Cruzeiro, jogar como Di Stéfano, de uma área a outra. Quando chegava ao campo do adversário, estava exausto e errava o lance. Desisti de ser um Di Stéfano e contentei-me em ser apenas um Tostão.

 

No Mundial de 1994, assisti somente a um jogo no estádio, entre Brasil e Holanda, pelas quartas de final, em Dallas. Na véspera, depois de 24 anos, encontrei Gérson, que viajou da Califórnia para acompanhar a partida. Vimo-nos durante o programa de debates, quando Gérson chegou ao estúdio. Ele entrou ao vivo, me deu um grande abraço e chorou.

Nessa partida, Romário fez mais um gol espetacular, incrível. Bebeto, em uma jogada de velocidade, em um contra-ataque, deu um passe da esquerda para o centro e Romário chegou a uns 30 centímetros da bola. Um jogador comum esticaria a perna para tentar tocá-la para o gol e, provavelmente, perderia a chance. Romário deu um impulso, ficou com as duas pernas no ar, sem nenhum apoio, e, com o lado externo do pé direito, para tirar do goleiro, colocou a bola no canto. Genial! Depois do jogo, no estúdio da TV Bandeirantes, eu e Armando Nogueira ficamos longo tempo vendo o lance, várias vezes, estudando os detalhes, para tentar entendê-lo. O Brasil venceu por 3 a 2.

Romário está entre os maiores centroavantes da história do futebol mundial. Foi o mais genial. Antes de a bola chegar ao companheiro, ele, com um olhar no passe e outro nos zagueiros, com o corpo de lado, já pronto para partir, recebia a bola nas costas dos defensores. Era um craque também nos pequenos espaços, pela rapidez com que decidia as jogadas. Romário estava sempre desmarcado. Enquanto os centroavantes parecem gostar de disputar as bolas com os zagueiros, ele, nos cruzamentos, se movimentava para recebê-las livre. Mesmo baixinho, fazia muitos gols de cabeça, como o que fez na semifinal contra a Suécia na Copa de 1994. Cruyff, que foi técnico de Romário no Barcelona, chamou-o de “gênio da grande área”. Contam que, numa festa do Barcelona para homenagear seus grandes ídolos, Cruyff foi o mestre de cerimônias. Apresentou todos os jogadores e, quando chegou a Romário, disse: “O maior de todos.”

Romário quase não foi à Copa dos Estados Unidos. Anos antes do Mundial, quando ainda estava no psv, da Holanda, foi convocado para um amistoso por Carlos Alberto Parreira, que era o técnico da Seleção Brasileira. Ao ficar na reserva e não entrar na partida, Romário disse que, para viajar tanto tempo e não jogar, era melhor não chamá-lo, o que de fato acabou acontecendo na sequência. Mas no jogo decisivo das eliminatórias, contra o Uruguai, no Maracanã, Parreira teve de convocá-lo e escalá-lo. Romário era imprescindível. Seria como não chamar Neymar por causa de uma indisciplina. Foi uma das maiores partidas de um jogador na Seleção Brasileira. O Brasil venceu por 2 a 0, com dois gols de Romário. Após o Mundial, ele recebeu o título oficial de melhor jogador do mundo naquele ano. Antes do Mundial, já era o melhor.

Em Dallas, a TV Bandeirantes reuniu os comentaristas (eu, Gérson, Rivellino e outros) e os narradores para um jantar especial. Pelé, que trabalhava na Rede Globo, foi convidado. Ele chegou atrasado, em uma limusine branca, com o terno, a gravata e os sapatos brancos. Quando entrou no restaurante, Gérson falou alto: “Crioulo, você está ridículo, todo engessado.”

A volta da Seleção Brasileira após a Copa de 1994 ficou conhecida como a viagem das muambas, pela quantidade absurda de bagagem trazida dos Estados Unidos – um jogador do Brasil trouxe até uma cozinha completa. Ninguém passou pela alfândega. Um desrespeito às leis. Pessoas famosas, do esporte ou de outras áreas, acham que têm mais direitos que o cidadão comum.

 

Apesar de minha timidez diante das câmeras, de engolir o final das palavras – como é frequente entre os mineiros – e de achar que sempre deixava de falar algo mais importante, além de me criticar por não usar as palavras corretas em uma análise rápida na tevê, gostaram muito de minha participação nos programas diários e nas transmissões ao vivo. Depois da Copa, recebi uma proposta da TV Bandeirantes para continuar. Durante um tempo, tentei conciliar meu trabalho de médico com algumas participações na televisão. Percebi que não dava para fazer bem as duas coisas. Ficava dividido e precisava tomar uma decisão.

Em 1997, depois de pensar muito, resolvi largar a medicina e aceitar o convite. Vários motivos determinaram minha decisão. Descobri que ainda adorava futebol e que ganharia umas vinte vezes mais do que recebia como professor da Faculdade de Ciências Médicas, em tempo integral. Outra razão era que, por ser muito detalhista e preocupado com tudo o que acontecia na enfermaria em que trabalhava, e pela angústia de ver a morte de perto, eu estava mais tenso e com a pressão arterial aumentada. Isso me preocupava. Outro motivo é que o ensino e o hospital da Faculdade de Ciências Médicas estavam muito distantes do que eu considerava ideal. Lá eu era, ao mesmo tempo, médico e professor. Como o hospital dependia de recursos do governo, eu tinha o compromisso de atender, com os alunos, um grande número de pacientes, como acontece no Sistema Único de Saúde (hoje é ainda pior), e, ao mesmo tempo, ensinar na faculdade. Era ruim para o paciente e para os alunos. Sentia-me conivente com a situação. Dizia aos alunos que o ideal seria fazer tal coisa, mas que teríamos de fazer o que era possível, pela falta de maiores recursos do hospital.

Se eu tivesse sido professor da Universidade Federal, que era meu desejo, provavelmente não voltaria ao futebol. Teria uma carreira universitária, o que não era possível na Faculdade de Ciências Médicas. Logo depois que terminei a residência de clínica médica no Hospital das Clínicas, fiz concurso para professor da UFMG, que era muito disputado. Havia quatro vagas, e eu fiquei em quinto lugar, por frações de pontos. Achava que merecia ter passado. Disseram-me que era certa minha efetivação, porque o concurso valia por dois anos e, certamente, surgiria uma vaga. Próximo de terminar o prazo, fui avisado que seria contratado, fiz exames médicos e, para minha decepção, soube que o governo tinha suspendido todas as contratações, mesmo se houvesse vagas. Durante um longo tempo, não houve mais concursos, e esqueci essa possibilidade. Na época, fiquei desconfiado e imaginei, sem ter certeza, que a banca examinadora, formada por professores competentes e sérios, dificultou minha aprovação, com receio de que alguém insinuasse que eu teria sido beneficiado por ser famoso. Anos atrás, fui homenageado pela UFMG, junto com outros ex-alunos que se destacaram em suas atividades profissionais.

Se tivesse passado no concurso, hoje eu certamente seria um professor ativo ou aposentado, um doutor, com cursos de mestrado e doutorado. Talvez andasse de avental branco e comprido. Não sei se estaria mais contente e melhor do que estou hoje. Como na passagem de jogador para médico, perdi e renasci com o retorno ao futebol. Fiz o caminho inverso. Todo encontro é um reencontro, com o que vivemos, imaginamos, sonhamos, deixamos de viver ou com o que perdemos.

Muitas coisas que desejamos não conseguimos. Outras, que temos, estamos sempre perto de perdê-las. Por muito pouco, muitos “quases”, por instantes fugazes e por acasos, a vida muda, ganhamos e perdemos. Quase não fui à Copa de 1970 por causa de um descolamento da retina. Quase não fui titular porque Zagallo achava, inicialmente, que o time teria de ter um típico centroavante. Quase deixei a medicina e me tornei psicanalista, após fazer minha análise pessoal e o curso de formação de psicanálise. Quase fui campeão do mundo em 2002, como diretor técnico, se tivesse aceitado o convite da CBF. Quase joguei na Itália, se na época não houvesse a proibição de contratar estrangeiros. Quase não fui médico, se não tivesse tido a contusão no olho. Quase não volto ao futebol, se tivesse sido professor da UFMG. Tive muitos outros “quases” na vida. “Viver é um descuido prosseguido” (João Guimarães Rosa).

Trechos de Tempos vividos, sonhados e perdidos: Um olhar sobre o futebol, a ser lançado este mês pela editora Companhia das Letras.

[1] No final de setembro de 1969, jogando pelo Cruzeiro contra o Corinthians, no Pacaembu, Tostão teve descolamento da retina do olho esquerdo, depois de ter sido atingido por uma bolada violenta, num chute do zagueiro Ditão, do time adversário. Tostão foi operado em Houston, nos Estados Unidos, e conseguiu se recuperar a tempo de jogar a Copa de 1970.

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