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Ciborgues na vitrine

Uma cirurgia transespécie
Tomás Chiaverini
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ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2016

“Bem-vindo à sala cirúrgica”, dizia a recepcionista a cada recém-chegado, antes de lhe entregar sapatilhas descartáveis. Com os pés devidamente envolvidos pelo paninho azul-claro, próprio para locais assépticos, os convidados adentravam um dos ambientes de um casarão aristocrático, em São Paulo. Os raros apetrechos que se espalhavam pelo salão lhe conferiam a aparência de uma balada, e não a de um hospital: luminárias no teto, forradas com celofane roxo, caixas de som e grandes isopores com gelo, para a cerveja. Quem perambulava por lá, segurando long necks, procurava exibir uma naturalidade tão tediosa quanto o indie rock que saía dos alto-falantes. O fato de, naquela noite, haver um par de ciborgues entre os presentes parecia causar pouca comoção.

É verdade que nenhum dos dois circulava pelo recinto. O mais famoso deles, Neil Harbisson, não deixava ao alcance de qualquer curioso a antena metálica que trazia na cabeça. Preferia refugiar-se numa sala contígua, separada do espaço maior por uma parede de vidro. Sentado num solitário sofá branco, como se estivesse numa vitrine mal iluminada, vestia uma túnica hospitalar por cima das roupas e fazia o tipo robô blasé. Quando alguém se aproximava do vidro, o híbrido de homem e máquina não oferecia um mísero bit de reação. Dava a impressão de se interessar apenas – mas não muito – pelas revistas que folheava. A seu lado no sofá, encontrava-se a outra ciborgue, Moon Ribas. O casal permanecia mudo.

 

Franzino e loiro, Harbisson mantém um corte de cabelo no estilo mamãe-usou-uma-cuia-em-mim. A antena de metal que brota na parte de trás do seu crânio descreve uma parábola sobre o cocuruto e termina diante da testa, à semelhança de um terceiro olho suspenso. Quando criança, o britânico – hoje com 34 anos – foi diagnosticado como portador de uma síndrome incomum, que o impede de enxergar cores. Por muito tempo, resignou-se ao preto e branco até que, na faculdade, assistindo a uma palestra sobre robótica, teve a ideia que nunca mais saiu de sua cabeça. Literalmente.

O eyeborg acoplado a seu corpo capta a luz refletida pelos objetos e transforma as ondas correspondentes às cores em impulsos elétricos. Mal alcançam o crânio de Harbisson, tais impulsos acionam um dispositivo, que vibra e emite notas musicais. Como decorou a nota equivalente a cada cor, o londrino é capaz de identificar azuis, amarelos e magentas.

Já a espanhola Moon Ribas carrega no braço um implante conectado via internet a um sismógrafo. Sempre que algum canto do planeta treme, um pedacinho dela chacoalha. “É como ter um segundo coração”, explicou a moça esguia, de olhos expressivos e voz melancólica.

Artistas performáticos e militantes do “ciborguismo”, Harbisson e Ribas defendem o uso da tecnologia para melhorar nossa espécie ou – por que não? – conceber uma nova. Juntos criaram a Fundação Cyborg e tentam convencer a comunidade médica a aceitar cirurgias similares à que instalou a antena no britânico, realizada clandestinamente. Também participam de eventos no mundo inteiro, como o curso que naquela noite de setembro chegava ao fim.

 

Em São Paulo, quinze profissionais de áreas diversas – entre eles, um engenheiro, um designer, dois publicitários e um dentista – desembolsaram 2 700 reais cada um para conviver durante seis dias com a dupla de super-humanos. Uma participante do workshop, a multiartista Monica Nassar, de 27 anos, se fascinou especialmente com uma das vantagens de um mundo ciborgue friendly, mencionada por Harbisson na oficina: “Se a gente conseguisse desenvolver visão noturna, não precisaria mais de iluminação nas cidades. Daria para observar as estrelas sem que as luzes urbanas as ofuscassem.”

Passava um pouco das dez da noite quando o britânico e a espanhola foram conduzidos até o centro do salão e estendidos sobre uma mesa revestida de plástico prateado. “Vocês estão prestes a presenciar uma cirurgia transespécie”, anunciou, em inglês e pelo alto-falante, uma voz feminina e sensual.

Um homem de avental, máscara e luvas entrou no recinto, com ar solene. Era o dentista. Uma assistente, com um notebook aberto, o acompanhava. O mascarado se debruçou sobre Harbisson e colocou algo em sua boca. Repetiu o gesto com Ribas. Em seguida, os dois ciborgues se sentaram, de costas um para o outro, enquanto a assistente embaralhava cartazes com figuras impressas. Mostrou uma para Harbisson. Todos, menos Ribas, viram do que se tratava: um sorvete de casquinha. Logo a ciborgue passou a folhear cartazes idênticos. Ergueu um deles e… lá estava: um sorvete de casquinha! O experimento foi repetido inúmeras vezes. De alguma forma misteriosa, Harbisson conseguia passar informações a Ribas, e vice-versa.

A possibilidade de um fenômeno telepático provocou frisson. Mas a narradora sexy não demorou a frustrar o público, explicando do que se tratava. Os implantes dentários inseridos pelo mascarado se conectavam entre si via notebook. Quando um dos ciborgues batia os dentes, o outro sentia a vibração. As informações eram transmitidas por meio do bom e velho código Morse. Após todo o desenvolvimento tecnológico dos séculos XX e XXI, a propagandeada “cirurgia transespécie” havia engendrado nada mais do que dois telégrafos de carne e osso.

“É só isso?”, uma moça de vestido curto perguntou ao companheiro. O rapaz deu de ombros. Sem mais a fazer, a plateia se dispersou ao longo do salão, novamente tomado pelos acordes do indie rock. Deixados em paz, Harbisson e Ribas despiram-se da engenhoca “transdental”. Depois, usaram alguns dos sentidos ordinários que compartilham com os reles mortais – visão, audição – para levar a cabo a tarefa de localizar uma cerveja long neck.

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