esquina

Clássicos pop

Sucessos da Antiguidade em Curitiba

Rafael Moro Martins
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2017

Está meio vazio, né?”, observou o professor Rodrigo Tadeu Gonçalves, correndo os olhos sobre a sala e as sucessivas fileiras de cadeiras, suficientes para acomodar cerca de cinquenta pessoas. Já era início da noite e ele não se encontrava mais na Universidade Federal do Paraná, onde dá aulas de letras clássicas, mas num bar no Centro de Curitiba, não muito distante da faculdade. Alguns de seus alunos se acomodavam na plateia. Não estavam ali para escutá-lo falar sobre Homero, Anacreonte e Simônides – mas sim para ouvi-lo cantar versos desses poetas gregos do período clássico. E também, quem sabe, sucessos de Michael Jackson e Bonnie Tyler.

Gonçalves tem 36 anos, uma barbichinha rala, voz contida, usa óculos. É doutor em letras com uma tese sobre o “relativismo linguístico e o aspecto criativo da linguagem”. É também percussionista e vocalista da banda Pecora Loca, grupo que reúne professores e alunos da UFPR e se apresenta com um repertório que poderia ser descrito como pop clássico – mas bota clássico nisso.

“Quando a gente dá aula de poesia grega e apresenta um Anacreonte, tem de falar que determinado verso é um dímetro jônico menor anaclástico”, explicou outro participante do projeto, o também doutor em letras Guilherme Gontijo Flores. “É incompreensível. Cantando fica bem mais fácil entender”, acrescentou o professor, um homem alto de 33 anos, cabelos negros penteados para trás, barba cerrada e, naquela hora, copo americano com cerveja na mão. Quando o grupo se apresentou na última edição da Festa Literária Internacional de Paraty, a Folha de S.Paulo elegeu Flores um dos “musos” do evento. No Pecora, além de cantar, ele é responsável por tocar violão, cavaquinho e lira.

Gonçalves e Flores conceberam a banda em 2015. Era inicialmente um exercício de tradução performática com um grupo de alunos da universidade. A adição dos instrumentos veio aos poucos, e de forma casual. Logo notaram que, ao respeitar fielmente a métrica original dos poemas clássicos, havia uma insuspeitada conexão com a música popular. “Começaram a aparecer coisas como um Anacreonte que cabia perfeitamente numa melodia de Roberto Carlos”, explicou Flores.

Com o restante da banda posicionado no canto do salão que serviria como palco, o show estava prestes a começar. Agora já não havia mais cadeiras vazias no bar Ornitorrinco. Alguns jovens decidiram se sentar no chão, numa espécie de primeira fila imaginária, quase colados aos pés dos professores-músicos.

A formação do Pecora se completava naquela noite com o baixista Bernardo Brandão, 36, professor de grego, doutor com uma tese sobre o filósofo helênico Plotino; Leonardo Fischer, 24, um estudante de barba e cabelos longos que parecia ter saído de um livro de J. R. Tolkien, ao violino; a estudante Luana Prunelle, 25, voz e violão, e seus colegas Guilherme Bernardes, 24, e Raphael Lautenschlager, 39, que se dividem entre vocais e percussão.

 

A música ambiente foi cortada e as luzes, reduzidas. Em torno da banda já se aglomerava uma pequena multidão, na maioria jovens, muitos deles estudantes de letras, alguns com celular em punho e a câmera ligada no modo vídeo.

A princípio, participaram de maneira morna do show. Mas, quando o Pecora começou sua terceira canção, foi como se uma corrente de energia elétrica tivesse atravessado a sala. Sobre uma base de cavaquinho, baixo e tambores, ouvia-se a melodia de Blitzkrieg Bop, dos Ramones. Os versos que a banda entoou, contudo, não eram os originais. Em seu lugar se ouvia uma tradução de Anacreonte. “A terra negra bebe/E bebe dela o roble/Os mares bebem rios/E bebe o sol dos mares”, diziam, numa levada punk rock.

O poeta lírico grego, morto em 478 a.C., voltaria a fazer sucesso sobre a melodia de Amigo, de Roberto Carlos. Em vez de “Não preciso nem dizer/tudo isso que eu lhe digo/Mas é muito bom saber/que você é meu amigo”, o que se ouviu foi: “Meu garoto, traga taças/Tomarei tragadas fartas/Sem parar você mistura/Quatro d’água e dois de vinho.”

“As sílabas do grego antigo são longas ou breves, e não tônicas ou átonas como as dos idiomas modernos. Isso aproxima muito os versos clássicos da música popular moderna e faz aparecerem essas coincidências, coisa que adoramos”, teorizaria Flores, mais tarde.

Já se aproximava da meia-noite quando a banda ameaçou ir embora sem um bis. A plateia protestou; exigia o grand finale. Seria uma versão em português do sucesso pop Total Eclipse of the Heart, com o título Peito em Eclipse Total. A canção foi gravada por Bonnie Tyler em 1983, vendeu 6 milhões de discos naquele ano e experimentou, em agosto passado, um improvável retorno ao topo das paradas de sucesso graças ao eclipse solar nos Estados Unidos. Os primeiros acordes vieram acompanhados de gritos e urros na plateia. Os mais afoitos se puseram em pé sobre as cadeiras do bar. “Era uma vez em que eu caí por você/Agora só caí na real/Nada que fazer/Peito em eclipse total”, cantou Luana, a vocalista. A plateia parecia satisfeita.

“Traduzimos música pop da mesma forma que os clássicos gregos, com mais atenção à forma e ao ritmo”, disse Gonçalves. “Anacreonte é alta literatura, ainda que só falasse de álcool e pegação. Roberto Carlos é baixa música popular. Também queremos colocar a noção de bom gosto em xeque. É aí que entram coisas como Bonnie Tyler”, emendou Flores. “Fora que a canção é um clássico. É isso o que tocamos: clássicos, da Antiguidade até os anos 80.”

O show tinha chegado ao fim. Ao descer do palco, Gonçalves foi abordado por um aluno. “Professor, que coisa linda. Isso muda a gente”, ouviu. Pouco tempo depois Flores estava apoiado no balcão do bar. Ele tem na estante, em casa, um prêmio Jabuti e outro da Associação Paulista de Críticos de Arte como tradutor, mas naquele momento saboreava o sucesso da apresentação da banda e a dimensão que o Pecora Loca tomou. Entre os afazeres na universidade, além de traduções e poesias que lhe ocupam o cotidiano, disse querer encontrar tempo para gravar um disco. “O público da banda já é maior que o meu de poesia, e em tese sou um poeta de algum sucesso”, gabou-se.

Rafael Moro Martins

Jornalista freelancer baseado em Curitiba. Colaborador de The Intercept Brasil, Valor Econômico e UOL. Integrante do projeto Livre.jor

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