esquina

Coxão duro lifestyle

João Doria Junior visita a periferia

Julia Duailibi
CRÉDITO DA ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL

O café da manhã foi servido logo na entrada do salão, em um clube à beira da represa de Guarapiranga, no extremo sul da cidade de São Paulo. Sobre uma mesa improvisada foram colocadas três garrafas térmicas de café adoçado, leite achocolatado, bolo, cachorro-quente, sanduíche de queijo e copinhos com gelatina. Mais de setenta cadeiras de plástico, brancas, foram dispostas em frente ao palco, enfeitado com duas fotos idênticas de um coqueiro ao pôr do sol.

Seguido por uma pequena comitiva, o publicitário e apresentador de tevê João Agripino da Costa Doria Junior caminhava apressado e decidido pelas dependências bastante modestas do local. Usava tênis branco e carregava uma pasta preta – identificada com um post-it amarelo em que se lia: CAMPANHA.

Naquele domingo quente de setembro, cerca de trinta pessoas, quase todas militantes do PSDB na periferia, já o aguardavam dentro do salão. Doria tentaria convencê-los de que é o melhor nome para representar os tucanos na eleição à Prefeitura de São Paulo, em 2016. Ele foi o primeiro a desembolsar os 20 mil reais cobrados pelo partido para disputar as prévias, que devem acontecer apenas no ano que vem. O pré-candidato, porém, já está com a campanha avançada. Montou uma equipe com 32 pessoas, incluindo, como fez questão de dizer em reuniões partidárias, “dois favelados”.

Será a segunda vez que o PSDB recorrerá ao mecanismo de consulta às bases. As regras ainda não estão definidas, mas é provável que os 26 mil filiados possam votar. Em 2012, quando José Serra foi escolhido candidato, apenas 6 mil compareceram. A Zona Sul paulistana, que Doria visitava, é a terceira região com o maior número de filiados: tem 5 002 tucanos inscritos. Por enquanto, o único adversário oficial do publicitário é o vereador Andrea Matarazzo, próximo a Serra.

Aquele não era nem o público nem o cardápio usual do pré-candidato, amigo do governador Geraldo Alckmin. Fundador do Grupo Doria, do qual faz parte o Lide (Grupo de Líderes Empresariais, associação formada por 1 700 empresas), ele costuma ciceronear governadores, ministros e CEOS em cafés da manhã à base de frutas, granola e café expresso.

Doria é uma espécie de public relations do empresariado paulista. Promove encontros com autoridades em fóruns cuja inscrição pode chegar a 140 mil reais, organiza viagens para participar do Yacht Show em Mônaco e oferece descontos em ternos da marca italiana Ermenegildo Zegna – 15% para quem paga em dia a anuidade do Lide, de 9 mil reais. Há também contribuições extras, dependendo dos eventos – e taxas para quem quiser anunciar neles. Quem sabe por isso haja quem o chame, nos bastidores, de João Dólar.

Entre muitos negócios, ele também é dono de dezoito revistas, nas quais o governo Alckmin gosta de anunciar: o estado de São Paulo já investiu 1,5 milhão de reais nas publicações do pré-candidato, 500 mil só para a Caviar Lifestyle, autoidentificada como “uma sofisticada revista de luxo”. Parte de sua notoriedade vem do fato de, há alguns anos, ter encabeçado o movimento Cansei, de críticas ao PT (uma iniciativa de vanguarda, já que em 2007 eram poucos os que estavam cansados).

 

No salão do clube, Doria dispensou palco e microfone. Atirou-se, olho no olho, à tarefa de se vender para uma plateia com lifestyle nada caviar. Em poucos minutos, desfiava agruras de sua infância, depois que João Doria pai, publicitário e deputado, foi exilado pelo regime militar. O restante da família, ele disse, teve então que deixar a casa com piscina no Pacaembu – “nosso vizinho de baixo era Benjamin Steinbruch, grande empresário” – e se mudar para um apartamento “bem mais modesto”. Depois disso, contou, não havia mais sobremesa em casa – um simples refresco em pó virou artigo de luxo: “Sofisticação era Ki-Suco.”

Visivelmente emocionado, disse à plateia (a maioria oriunda de bairros pobres como Jardim Ângela, Capão Redondo e Cidade Ademar) que chegou a andar de ônibus nessa época. “Comprava a cartelinha de passes toda picotadinha. E a gente punha um plástico, porque se molhasse…”

Parte do público abanava a cabeça em sinal de apoio. Outros se entreolhavam, surpresos. Um homem grisalho, na primeira fila, perguntou para a pessoa ao lado: “Ele tem um programa na Manchete?” Enquanto isso, Doria já falava da mãe. Nos tempos de penúria, ela batia a carne, um pedaço de coxão duro, com um martelo, para amolecer. “Foi um período muito difícil”, concluiu.

 

Depois de apresentar propostas para a cidade, Doria abriu para perguntas. O sujeito grisalho da primeira fila era Robertinho Carvalho, presidente do diretório do PSDB no Capão Redondo. Pediu a palavra. “Ô, Doria, não te conhecia. Só do programa Aprendiz, onde quem não era competente acabava demitido. E agora você está fazendo um programa de entrevistas na Band. Você vem contrapor outros que estão na mídia, o Russomanno e o Datena. Se o seu nome for aprovado nas prévias, vamos ter três candidatos da televisão. Isso é importante.”

José Carlos Pugliano Júnior, do diretório de Santo Amaro, ajudou a organizar o encontro. Ele trabalha no Detran, área sob a influência de Julio Semeghini, ex-deputado e aliado de Alckmin. “O João está mais interagido com a base que o conde Matarazzo. O Andrea é da cúpula. Quem gosta de estar aqui, até uma da tarde, no fundo da Zona Sul? Ninguém gosta. O João está fazendo isso.” Perguntei se Alckmin apoia Doria. “Ele e vários secretários.” Disse, porém, reconhecer a estratégia do governador. “Vai deixar em banho-maria. Está esperando, sentindo o cheiro.”

Antes de ir embora, Doria ainda teve tempo de passar na mesa do café da manhã. Pegou dois cachorros-quentes e um achocolatado. O fotógrafo correu para registrar o fato, estranho ao personagem, mas não raro nesses tempos de campanha. Preocupado com a saúde, o pré-candidato vem tomando suplementos nutricionais para compensar o que tem sido obrigado a engolir por aí. E a fama de coxinha? “É um aperitivo nacional. Todo mundo gosta. Eu gosto também. Isso não me machuca.”

Pouco depois, Doria entrou num SUV preto, estacionado ali perto. Antes de partir rumo aos Jardins, ligou para casa e fez um pedido. “Vocês já almoçaram? Eu comi um sanduichinho. Separa uma frutinha pra mim.”

Julia Duailibi

Julia Duailibi trabalhou na piauí, na TV Bandeirantes, na Folha de S.Paulo, na Veja e n’O Estado de S. Paulo

Leia também

Últimas Mais Lidas

Aula de risco

Reabrir colégios, como sugeriu Bolsonaro, aumenta perigo de contaminação para 5 milhões de brasileiros de mais de 60 anos que moram com crianças em idade escolar

A Terra é redonda: Coroa de espinhos

Especialistas discutem quem é o inimigo que está prendendo bilhões em casa e como vamos sair da pandemia causada pelo coronavírus

Resultado de teste de covid-19, só um mês depois do enterro

Se Brasil repetir padrão chinês, hospitalizações por síndromes respiratórias graves apontam para 80 mil casos no país

Direito à despedida

As táticas de médicos e famílias para driblar a solidão de pacientes de covid-19 nas UTIs

Foro de Teresina #94: A subnotificação do vírus, Bolsonaro acuado e a economia desgovernada

O podcast de política da piauí comenta os principais fatos da semana

Pandemônio em Trizidela 

Do interior do Maranhão a celebridade nas redes: prefeito xinga na tevê quem fura quarentena contra covid-19, ameaça jogar spray de pimenta e relata disputa por respirador alugado

Socorro a conta-gotas

Dos R$ 8 bi prometidos para ações de combate à Covid-19, governo federal só repassou R$ 1 bi a estados e municípios

O gás ou a comida

Na periferia de São Paulo, com epidemia de Covid-19, preço do botijão vai a R$ 150 (um quarto do auxílio prometido pelo governo), renda cai e contas continuam chegando

Na piauí_163

A capa e os destaques da revista que começa a chegar às bancas nesta semana

Mais textos
2

E se ele for louco?

Suspeitar da sanidade mental de Bolsonaro não permite encurtar caminho para afastá-lo; saída legal é o impeachment

5

Resultado de teste de covid-19, só um mês depois do enterro

Se Brasil repetir padrão chinês, hospitalizações por síndromes respiratórias graves apontam para 80 mil casos no país

6

Não tenho resposta para tudo

A vida de uma médica entre seis hospitais e três filhos durante a pandemia

7

Direito à despedida

As táticas de médicos e famílias para driblar a solidão de pacientes de covid-19 nas UTIs

8

Separados pelo coronavírus

Ao falar contra isolamento, Bolsonaro surpreende até Bannon, favorável à quarentena total; no Brasil, cúpula do Congresso teme autoritarismo e evita confronto direto

9

Onze bilhões de reais e um barril de lágrimas

Luis Stuhlberger, o zero à esquerda que achava que nunca seria alguém, construiu o maior fundo multimercado fora dos Estados Unidos e, no meio da crise, deu mais uma tacada

10

A capa que não foi

De novo, a piauí muda a primeira página aos 45 do segundo tempo