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Coxinha de mortadela

Uma tentativa de unir o Brasil
Armando Antenore
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IMAGEM: ANDRÉS SANDOVAL_2017

Não tem jeito. O Fla-Flu que toma conta do país vai continuar – inclusive sob o viés culinário. No momento em que Lula e Bolsonaro lideram as pesquisas eleitorais, o Ragazzo avisa: a coxinha de mortadela não voltará. A rede de fast-food italiano lançou o “salgadinho da união nacional” há pouco mais de um ano, logo depois que a Câmara dos Deputados autorizou o processo de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff. Na ocasião, a disputa entre “coxinhas” e “mortadelas” atingia o ápice. “A gente avaliou que aquela rivalidade não fazia sentido”, relembra André Marques, o executivo responsável pelo marketing da cadeia de restaurantes. “Quem ganhava com a cisão do Brasil? Ninguém!”, prossegue o diretor, esquecendo-se de todos os alguéns que se aproveitavam da animosidade reinante. “Decidimos, então, propor uma trégua à nossa clientela.” Em vez de hastear bandeiras brancas na porta de cada loja, o Ragazzo preferiu comercializar o inusitado tira-gosto de 60 gramas.

Mal estreou, a coxinha de mortadela revelou-se um arraso. “Teve mais procura que as de frango, quatro queijos, calabresa, camarão e carne desfiada, os outros sabores oferecidos pela rede à época”, conta Marques, sem divulgar números. Durante algum tempo, a novata respondeu por praticamente metade das coxinhas vendidas no Ragazzo.

O triunfo, porém, não resistiu muito. À ascensão meteórica seguiu-se uma derrocada igualmente vertiginosa. Os consumidores deixaram de ver graça no quitute, que acabou se retirando de cena. Foram apenas quatro meses de existência – entre maio e agosto de 2016. O apaziguamento da república via papilas gustativas não passou de ilusão.

E agora, quando a Lava Jato desmascara os dois polos do maniqueísmo político e eleitores de ambos os lados convergem em frustração, não seria o caso de ressuscitar o petisco? “Negativo”, responde o diretor de marketing. “A coxinha de mortadela já deu o que tinha que dar.”

 

Exibindo uma faixa verde-amarela no pescoço, o deputado faz um breve e ardoroso discurso antes de votar “sim”. “Por um Brasil sem divisões!”, justifica-se, sob os aplausos dos colegas que o rodeiam. Outro parlamentar – de gravata vermelha e tão exaltado quanto o primeiro – também vota “sim”. A cena remete à noite em que o plenário da Câmara, inflamadíssimo, aprovou a queda de Dilma. Só que, desta vez, o “sim” vai chancelar o advento de um novo salvador da pátria: a coxinha de mortadela. São 513 votos favoráveis à iguaria e nenhum contra.

Criado pela PPM, agência publicitária do próprio grupo que controla o Ragazzo, o anúncio de trinta segundos apareceu na Globo, no SBT e na Record por um mês. Tudo indica que a propaganda contribuiu para o sucesso inicial do tira-gosto. Quando saiu do ar, as vendas caíram.

A coxinha custava a bagatela de 1,98 real. Quem a comprasse às segundas, terças ou quartas-feiras recebia outra de graça. Vender barato é um dos trunfos que possibilitaram o crescimento do Ragazzo. Fundada há quase três décadas, a empresa soma 155 restaurantes, localizados em São Paulo, Goiás, Paraná, Santa Catarina, Amazonas e Rio de Janeiro. A holding que a comanda também administra o Habib’s, cadeia de fast-food árabe, notória por cobrar 99 centavos pelas esfirras. Como a similar italiana, a rede já produziu anúncios espirituosos que aludem à nossa barafunda política. Num deles, dois engravatados travam um diálogo telefônico para lá de suspeito:

“Excelência, descobri um esquema em que todo mundo vai se dar bem.”

“Opa! Quanto a gente levará nessa?”

“Depende. Se pedir dois, leva três. Se pedir 20, leva 30.”

“Quem está dentro?”

“O quibe está totalmente envolvido. E o pastel acabou de entrar.”

 

Não se sabe com precisão como a palavra “coxinha” transpôs a seara gastronômica para se converter em sinônimo de reacionário, conservador, elitista ou partidário da direita. A teoria mais corrente remonta à década de 80, quando policiais militares de São Paulo recebiam vales-refeições tão baixos que só lhes permitiam comprar a guloseima. Com o tempo, “coxinha” virou gíria para designar os PMs e, por extensão, aqueles que os admiram.

Já a relação entre o termo “mortadela” e petistas ou adeptos da esquerda parece advir de maledicências propagadas à direita. Segundo tais boatos, a maioria dos presentes em manifestações convocadas pela Central Única dos Trabalhadores e pelo PT estaria protestando apenas para ganhar um lanche dos organizadores. Ou melhor: um sanduíche de mortadela.

Curiosamente, se considerarmos as origens tanto do petisco quanto do embutido, iremos nos deparar com realidades bem distintas das que lhes associamos hoje. A coxinha nasceu como quitute popular e a mortadela, como pitéu de rico. “Na passagem do século XIX para o XX, a Confeitaria Colombo – a mais tradicional do Rio – oferecia um prato de muita reputação e ainda apreciado por lá: a coxa creme. Feito com perna de frango, aipo, louro, alho-poró, pimenta do reino e leite, o empanado provavelmente inspirou a coxinha”, explica Sandro Dias, professor de história da alimentação no Centro Universitário Senac. Versão em miniatura e mais acessível da coxa creme, o salgadinho logo se alastrou pelos botecos cariocas.

Quanto à mortadela, suas raízes se encontram na Antiguidade greco-romana. “Mas só durante o século XV é que o embutido assumiu características semelhantes às atuais”, diz o professor. A transformação ocorreu em Bolonha, na Itália. “Sofisticada, a iguaria levava carne de porco com uns 15% de gordura, além de azeitonas verdes, noz-moscada, pistache e outros temperos.”

A coxinha do Ragazzo se valia justamente da mortadela tipo Bolonha. “Não posso. Nunca provei”, respondeu Dias quando lhe pedi que atribuísse uma nota para o excêntrico salgadinho. “Em tese, experimentações dessa natureza me agradam. São válidas. Divertidas, até.” E na prática? “Nem sempre funcionam. Misturar coxinha com mortadela… Talvez resulte em algo um tanto pesado, não?”

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