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Coxinha emergente

Um petisco suburbano na Barra
Tiago Coelho
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ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2017

No início do mês passado, cerca de 10 mil coxinhas deixaram o abafado bairro do Cachambi, na Zona Norte do Rio de Janeiro, e seguiram em direção à beira-mar até desembarcarem na Barra da Tijuca. O movimento emergente dos salgadinhos guardava certa semelhança com o de suburbanos cariocas que, há décadas, ao engordar um pouco a conta bancária, procuram no abastado balneário da Zona Oeste um lugar ao sol, tanto na areia quanto na pirâmide social da cidade.

Andrea Queiroz, a responsável por fornecer a maior parte dos quitutes itinerantes naquele sábado de céu azul, é uma mulher alta, de sorriso largo e fácil. Ainda adolescente, em Duque de Caxias, município pobre da Baixada Fluminense, ajudava a mãe a preparar coxinhas de galinha, vendidas para os vizinhos. Após se casar e ter três filhos, já residente no Cachambi, dividiu suas atenções entre a prole e a produção, sob encomenda, de milhares de petiscos. Quando, nos fins de semana, as crianças reivindicavam um passeio longe de casa, a cozinheira, atarefada e coberta de farinha de trigo, declinava. Mas sempre deixava uma promessa no ar: “Um dia, a mamãe vai ser a rainha das coxinhas.”

A filha mais velha da quituteira, Rohana Queiroz, de 28 anos, levou a sério o prometido. Com uma bolsa do Programa Universidade para Todos, o Prouni, estudou jornalismo na PUC. Depois de formada, virou sócia de uma startup de tecnologia, em Ipanema. Recentemente, enquanto ajudava a empresa a dobrar de tamanho, começou a planejar a expansão dos negócios da mãe. Andrea já tinha dado os primeiros passos nessa direção, servindo refeições para ONGs e empresas. Mas o que a filha realmente desejava era tornar famoso o carro-chefe das receitas maternas. “Você não queria ser a rainha da coxinha? Chegou a hora!”, disse para a matriarca, no fim de 2016.

Em janeiro, tomou as providências necessárias. Fez parcerias com empresas alimentícias e convidou outros poucos quituteiros profissionais a se arriscarem num empreendimento em plena Barra, o Festival de Coxinhas. Quando lançou a ideia no Facebook, amealhou 1 milhão de visualizações nas primeiras 24 horas. Alguns dias depois, 14 mil pessoas já haviam confirmado presença no evento inédito no bairro.

 

A palavra “coxinha”, como se sabe, não se restringe mais à seara gastronômica. De uns tempos para cá também passou a designar pessoas certinhas e um tanto caretas, seja no modo de se vestir, seja no de pensar. Por tabela, o termo acabou entrando para o léxico polarizado da política nacional: à direita, os coxinhas; à esquerda, os mortadelas.

Ocorre que, em 2016, a Barra da Tijuca aderiu majoritariamente a panelaços contra a então presidente Dilma Rousseff. Na noite em que a Câmara dos Deputados aprovou a abertura do processo de impeachment, gritos eufóricos, de júbilo até, tomaram conta da região. Lugar de coxinhas, decretaram os partidários de Dilma. Nove meses e meio depois, no último dia 11 de fevereiro, uma Barra que não cabe em simplificações ideológicas ou culinárias experimentou o pitéu do Cachambi. Cinco barracas se incumbiram de saciar a fome do bairro. Ao saírem da praia, dezenas de famílias se encaminhavam para o clube arborizado onde o festival se desenrolava. O bom burguês de bermudão e tênis, as mulheres platinadas com seus óculos de sol Prada, a juventude dourada do açaí e os surfistas atiçados pela larica, ninguém resistiu à guloseima altamente calórica.

Havia coxinhas de toda sorte – das tradicionalíssimas às de feijoada, jaca, patinha de caranguejo, soja e acarajé. As preparadas por Andrea reinaram absolutas. Era impossível ter acesso às dela sem esperar pelo menos vinte minutos na fila. Rohana gerenciava o caixa e anunciava aos fregueses que a família aceitava encomendas. Outros dez parentes ajudavam a atender a clientela.

 

Também entrei na fila. Quando se aproximava a minha vez de pedir o salgadinho, Andrea me reconheceu e acenou efusivamente: “Olha o rapaz da revista que vai falar da minha coxinha!” Mais de um rosto se virou em minha direção. Acenei de volta, um pouco constrangido. Injustamente, não faltou quem achasse que eu me aproveitaria da credencial de jornalista para passar à frente dos demais. Um homem de camisa polo azul-marinho fez questão de me alertar: “Não pode furar fila, não! O Sérgio Moro não fura fila.” “É, o Moro não faz isso. Eu vi no jornal”, emendou uma voz atrás de mim, reiterando que, na fila da coxinha, o juiz da Lava Jato é mesmo ídolo. Civicamente, aguardei a hora de me apossar de quatro petiscos médios – combo que saiu por 15 reais. Uma massa fininha e crocante recobria o farto e suculento recheio de frango com Catupiry.

Diante da barraca de Andrea, a simpática Eliane Lomelino, uma senhora de 72 anos, julgou não haver problema em pedir preferência no atendimento. Registre-se, porém, que dona Lomelino tampouco furou a fila. Tudo se deu por acordo entre as partes. “A gente parece jovenzinha, mas é só aparência. Falei minha idade e me deixaram passar na frente”, gabou-se duplamente e já devorando uma preciosa porção da iguaria.

À noite, ao final do evento, a família Queiroz parecia cansada, mas feliz. Era hora de desmontar a barraca e voltar para casa. Rohana preferiu não revelar cifras. Disse apenas que as vendas proporcionaram um boom no orçamento doméstico. Se depender dela, ainda retornarão muitas vezes à Barra. Mãe e filha têm planos de abrir uma loja no bairro.

Será que a própria Rohana está virando coxinha? “Evito entrar nessa questão”, respondeu. “Como empreendedora, penso em políticas e partidos que estimulem os negócios. Fui beneficiária dos programas sociais do governo passado e sei a relevância deles. Mas hoje o que me importa é vender – tanto para coxinhas quanto para mortadelas.”

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