esquina

Crimes e castigos

A propósito da fé de leões e pretos velhos

Douglas Duarte
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2008

Quando Afonso Henrique Alves Lobato abriu a porta daquele sobrado no Catete, no Rio, e subiu correndo a escada até o 2º andar, esperava encontrar nada menos que um demônio — ou vários —, mas o que encontrou foram apenas imagens de devoção. No centro de um altar estava Jesus Cristo, rodeado por Santa Bárbara, Nossa Senhora da Conceição, São Jorge, São Sebastião e Santo Antônio; no chão, uma grande estátua de São Lázaro. Ou, dependendo da orientação do devoto, Oxalá, Iansã, Oxum, Ogum, Oxóssi, Exu e, no chão, Omulu. Isso e mais diversas imagens menores de Iemanjá (ou Nossa Senhora da Glória), do cacique Cobra Coral (sem correlato na hagiografia cristã) e de pretos e pretas velhas (idem), algumas com quase oitenta anos de vela e reza nas costas.

Afonso Lobato começou a atirar as imagens no chão. Dominique Pereira, sua amiga de fé, completava o serviço, esmigalhando os cacos com os pés. Raimundo Pessoa e Alessandro dos Santos, que demoraram mais para subir a escada, não tiveram tempo de ajudar os companheiros a levar a cabo a obra de Deus. Os santos já eram pó.

A confusão se instalara minutos antes, quando os quatro, freqüentadores da casa evangélica Geração Jesus Cristo, começaram a fazer proselitismo na fila de aflitos que esperava diante do Centro Cruz de Oxalá. Lobato, segundo relatou, disse aos umbando-kardecistas que, ao invocar santos, eles estavam na verdade chamando o demônio. “Maria Mulambo nunca fez nada por eles, o Tranca-Rua não morreu por eles. Jesus morreu na cruz. Falei que eles ainda tinham chance de se salvar, mesmo sendo espíritas. Tudo sem impor nada, sem gritar nada”, diria mais tarde.

A destemperança foi deflagrada quando um dos não-salvos inverteu o jogo. Declarou que levaria o nome dos crentes para o terreiro, presumivelmente para que fossem objetos de um trabalho. Lobato não estava para ecumenismos. Com idéias nada cristãs na cabeça, tocou a campainha e, inadvertidamente, alguém lá dentro puxou a cordinha que abre o trinco. Em questão de segundos o andar de cima estava forrado de cabeças de santo e de pretos velhos decapitados. Meia dúzia de senhoras seguravam o espanto entre as mãos.



Depois de bater boca com um senhor que, “além de pai-de-santo, ainda era homossexual”, como lembrou Lobato, o grupo quis ganhar a rua. Os quatro desceram a escada estreita, mas a tranca emperrou. Encurralado ao pé da escada, o quarteto só viu a calçada quando a porta foi aberta por fora. Lá estavam vinte umbando-kardecistas furiosos, além de quatro policiais e duas viaturas.

Na delegacia, os jovens não pareciam arrependidos e reagiram estoicamente ao serem enquadrados nos artigos 147 (ameaça), 163 (danos ao patrimônio) e 208 (ultraje a culto) do Código Penal. Enquanto o grupo depunha — “O diabo estava naquela casa!”, disseram —, o pastor da congregação, Tupirani Lores, tentou em vão conter a curiosidade dos jornalistas. “Eles não iam fazer isso do nada, são pessoas pacatas e tranqüilas, exemplos na nossa igreja. Fiquei muito surpreso. Não incentivamos esse tipo de atitude. Só vou saber exatamente o que aconteceu no culto de amanhã.”

 

A repercussão foi grande. Jornais populares puseram o caso na manchete principal da primeira página. Apresentadores de televisão franziram o cenho ao abrir telejornais com o assunto. Na Assembléia Legislativa, houve pendenga entre os deputados Átila Nunes, umbandista militante — “Queria ver fazer isso em Bagdá!” —, e Édino Fonseca, pastor da Assembléia de Deus, que contra-atacou em estilo vale-tudo: “Extremos existem também entre os umbandistas, como quando eles fazem sacrifício de crianças.”

A comoção e o interesse duraram menos de 24 horas. Já naquela noite, quando o pastor Tupirani assumiu o púlpito da Geração Jesus Cristo, numa rua escura do bairro de Santo Cristo, atrás da Central do Brasil, o caso caminhava rapidamente para longe da pauta jornalística. Ninguém estava lá para ouvir o que ele tinha a dizer sobre o caso.

O pastor é um homem de bom porte, sem um único fio de cabelo fora do lugar. Sua presença cala imediatamente os fiéis. Embalado por um violão elétrico, ele canta a plenos pulmões o hino Nosso General, cujo refrão admoesta com vigor bélico: “O nosso general é Cristo/ Seguimos os seus passos/ Nenhum inimigo nos resistirá!”

Enquanto a música soava, ouviu-se o barulho de um objeto pesado que se chocava contra o telhado. É rotina, ninguém estranha. Tupirani trovejou: “O palhaço já está atirando pedras de novo! Mas atira escondido, porque é covarde. Nós já sabemos que ele é ligado à boca de fumo aí em cima. Se ele nos atira pedras, irmãos, nem faz idéia do tamanho da pedra que o Nosso Senhor Jesus Cristo vai atirar na cabeça dele. Amém?” (O pastor tem o cacoete de usar o amém — “assim seja”, em hebraico — na forma interrogativa, como se dissesse: “Certo?”)

Depois de imprecar contra o vizinho palhaço, Tupirani passou às leituras bíblicas. Dado o ocorrido, os incautos esperariam um bom Sermão da Montanha ou, quem sabe, a passagem em que se fala sobre oferecer a outra face. Não. O trecho escolhido trouxe o profeta Eliseu na guerra contra os sírios.

Todos os sermões de Tupirani podem ser comprados em CDs, a 1,50 real cada. Um de seus maiores sucessos é Guerra 1 e 2, obra em que pega fogo: “Jesus Cristo não veio a este mundo com bandeira da paz, amém? (Amém!) Jesus Cristo veio a este mundo com sangue. Sangue da guerra! Sim ou não? (Aleluia!) Jesus Cristo não veio a este mundo como pacificador. Não, não. Não veio. Quem é teu Cristo? É um Cristo de paz ou da guerra? Para mim, Jesus Cristo é homem de guerra!” O tom não varia muito ao longo de quase setenta minutos. Lembra um pouco Dick Cheney imprecando contra Saddam Hussein.

O pastor já foi da Igreja Universal. Foi também umbandista, espírita, batista e pentecostal. Resolveu abrir sua própria casa em 1999, quando saía do templo onde pregava e, segundo consta, se deparou com um anjo de aspecto abatido que o espreitava com um papel amarelado na mão. Era um mensageiro divino. Tupirani desdobrou o papel e leu nele a palavra “Restauração”. Decidiu na hora que fora escolhido para trazer o cristianismo de volta aos trilhos.

Passado o furor iconoclasta contra o Centro Cruz de Oxalá, tanto o pastor como seu discípulo Lobato se mostram serenos. O protagonista do quebra-quebra diz que se arrepende do que fez, embora pouco se importe com a decisão do tribunal dos homens. (Será em agosto a primeira audiência do processo.) Tupirani, por sua vez, reafirma o que disse à imprensa no dia da confusão: não é um agente da intolerância, não instruiu nem incitou Lobato e colegas a fazer o que fizeram. O que não o impediu de proclamar, do alto do púlpito, poucos dias depois do ocorrido: “Como pastor, acredito que esse ministério não forma cordeiros. Esse ministério é para formar leões!” Não propriamente a mais dócil das criaturas, como se sabe.

Douglas Duarte

Douglas Duarte é jornalista. Seu primeiro documentário é Personal Che, que foi exibido na Première Latina do Festival do Rio.

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