esquina

Cuidado com essa pia…

A nova jóia da orla de Copacabana fica abaixo do nível do mar

Tania Menai
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2007

Manoel Messias tem emprego fixo no calçadão da Princesinha do Mar. Do lado de cá, a ondulação das areias e a beleza das ondas. Do lado de lá, atravessando a avenida, a imponência do Copacabana Palace. Pena que ele não veja nada. Fica tudo lá em cima.

Messias, de 39 anos (“mas pode falar que eu tenho 26”), é um dos responsáveis pelo banheiro subterrâneo que recebe transeuntes em geral e, em particular, clientes do tradicional Bar Luiz, que mantém um quiosque naquele ponto. O banheiro, com pé-direito de quase quatro metros, faz parte do projeto da Orla Rio, a empresa privada que venceu uma licitação para explorar os quiosques por vinte anos. O ecletismo gastronômico é grande. Há comida para todos os gostos, da japonesa ao McDonald’s.

Com obras estimadas em 350 milhões de reais – sem contribuição de dinheiro público –, 309 quiosques estão sendo espalhados ao longo de 34 quilômetros de praias cariocas, do Leme até a Prainha, no Recreio. Muitos cariocas dizem que o novo projeto é elitista, porque joga para escanteio os velhos comerciantes que há anos ocupam o espaço. Pelo contrato firmado entre a cooperativa dos quiosques e a empresa, os comerciantes teriam de desembolsar até 80 000 reais para se adaptar aos novos padrões de serviço. Além disso, como os preços inevitavelmente subirão, críticos afirmam que o projeto deixará de fora os banhistas menos endinheirados. O contra-argumento é que a iniciativa trará segurança e vida noturna para a orla, gerando até 9 000 empregos diretos, entre garçons, cozinheiros, faxineiros e pessoal de manutenção. Gente como Messias.

 

Os banheiros, desenhados pelo escritório de arquitetura Índio da Costa, seguem o padrão 2001 – Uma odisséia no espaço. A entrada é discreta: 21 degraus de pedra portuguesa e granito verde levam aos domínios de Messias. Entre a entrada para a sala dos homens e a das mulheres, fica a mesa de Messias, guardião das toalhas, dos sabonetes e – eis o diferencial mais importante – da caixa registradora. Para usar o mictório, paga-se 1 real e 50 centavos. Por 4 reais, pode-se tomar uma ducha e alugar toalhas de banho (sabonete incluído). Senhoras e cavalheiros dispõem de compartimentos com chuveiro de água fria, privada, rodapé de granito e guarda-volumes.

Os toques futuristas estão por toda a parte, mas, nas pias, atingem a glória: placas de vidro inclinadas a 45 graus do chão descem da altura do umbigo até o rodapé, permitindo, assim, que o cliente fique olhando a água desaparecer lá embaixo, no ralo. O chato é que os mictórios funcionam igualzinho. “Muita gente confunde”, diz Messias. “Já cansei de ver marmanjo urinando na pia.”

Messias, que veste uma camisa pólo com o nome de seu empregador, a Organização Beni, tem orgulho de seu ambiente de trabalho. Exibe-o com a dedicação de um guia de museu.”Todo mundo fotografa”, conta. Trabalha ali desde a inauguração, em novembro de 2005, e recebe turistas de dezenas de países. Enrola um inglês e um portunhol. “Converso com muito americano, alemão, argentino. Mas os australianos são os mais simpáticos. País ensolarado levanta o astral”, filosofa, enquanto dá o troco a um californiano. “Já os ingleses são fleumáticos, é o clima”, sustenta. Vez por outra recebe gorjetas dos turistas, o que complementa seu salário, inferior a mil reais.

Messias conhece as emergências da vida: quem estiver impossivelmente apertado paga na saída. Ele já enfrentou de tudo. Impressiona-se com a deselegância e a ousadia de alguns usuários. Reclama de um visitante que afanou ganchos de pendurar bolsas da parede do fraldário. Papel higiênico só roubaram uma vez, também do masculino. “Outro dia, um cidadão de alto teor etílico se recusou a pagar e urinou aqui na entrada.” Messias já recebeu cantadas, mas levou na brincadeira. Um estrangeiro, ao ler na placa que “O atendente está disponível para ajudar”, disse-lhe que, no fim da tarefa fisiológica, precisava de alguém para “balançar”. Já surpreendeu homens que se amavam, mas afirma que, sem dúvida, cenas assim acontecem com mais freqüência no banheiro feminino.

Seu dia-a-dia também inclui celebridades. A bailarina Deborah Colker, por exemplo, “esbanja simpatia”. Ela “quis mergulhar por baixo da roleta, mas eu disse: ‘Pra que isso? A senhora é minha convidada.'”. Ganhou autógrafo e um ingresso para o espetáculo da dançarina. Também teve boa impressão do guitarrista Victor Biglione. Aliás, de todos os músicos. A exceção é Lobão, o único que não quis conversa; anunciou que estava ali apenas para fazer um pipizinho. Narcisa Tamborindeguy, de profissão ignorada, também é um amor. Ela chegou a pedir votos para a irmã deputada. Messias conseguiu três.

As noites mais concorridas, previsivelmente, são as do Ano-Novo. É quando ele faz jus ao título de ‘salvador das bexigas’. Copacabana recebe 3 milhões de pessoas. Não são poucas as que chegam ao banheiro no limite da incontinência. “Só deixo entrar de três em três e divido a fila. Como as mulheres demoram mais, aloco algumas para o masculino.”

Messias pega no serviço às 4 da tarde e permanece a postos, sem ver a luz do dia, até que o último boêmio do Bar Luiz resolva que já deu, o que nunca acontece antes das 2 ou 3 da manhã. Mora na Praça da Bandeira, na zona norte da cidade, perto do Maracanã. De madrugada, o ônibus não gasta mais de vinte minutos. Solteiro, vive com a tia, numa casa com dois banheiros. “São normais, têm o basicão”, diz ele, enquanto separa um kit toalha para um turista havaiano.

Tania Menai

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