ciência & ideologia

Darwin e seus descendentes

Tendo atingido a consciência e o conhecimento científico, a espécie humana é a única que pode vir a dominar os genes, em vez de ser dominada por eles. Depende das ciências humanas definir se esse futuro será parecido com o pior dos pesadelos ou com a maior das utopias

Otavio Frias Filho
A lei da natureza é a do egoísmo, seu método é a destruição dos mais fracos, seu propósito é nenhum. Qualquer sentido de compaixão é só uma trégua, que os homens aceitam mal
A lei da natureza é a do egoísmo, seu método é a destruição dos mais fracos, seu propósito é nenhum. Qualquer sentido de compaixão é só uma trégua, que os homens aceitam mal IMAGEM: NUNO RAMOS

Um fantasma ronda as ciências humanas: o fantasma do darwinismo. O assédio começou em meados do século passado, nos confins de uma disciplina então incipiente, a etologia, que estuda o comportamento animal. O pressuposto desses pioneiros, zoólogos darwinistas, era que o comportamento contribui para um maior ou menor sucesso evolutivo, sobretudo entre os animais sociais, os que cooperam entre si. Por conseqüência, também os comportamentos devem ter sido “selecionados” em termos evolutivos. Ou seja, teriam predominado ao longo do tempo as condutas que propiciam a seus portadores viver mais e deixar prole mais numerosa.

As espécies sociais existem em vários ramos da natureza. Além das formigas, abelhas, vespas e cupins, o grupo inclui determinados peixes, aves e mamíferos – entre estes, os homens. Não tardou para que extrapolações da etologia fossem aplicadas, de maneira cautelosa e especulativa, à espécie humana. Os próprios etólogos foram os primeiros a ressalvar que, no caso da humanidade, a herança biológica se mescla à cultural, formando um amálgama impenetrável. Por imensa que seja a variação cultural entre os homens, no entanto, para esses autores ela sempre será expressão de uma matriz genética e inconsciente, adquirida de forma evolucionária nos 5 milhões de anos desde que nos destacamos dos símios.

Lançou-se, nas décadas seguintes, uma nova ciência, a sociobiologia, que se propunha a realizar um ambicioso programa: estabelecer a ponte necessária entre cultura e natureza, entre ciências humanas e ciências naturais, para enfim completar o majestoso edifício da razão materialista, tendo a física e a química como alicerces. Seu postulado era o darwinismo – a teoria visionária do século XIX que a ciência contemporânea confirmou integralmente. Seus métodos, o empírico e o matemático. Quanto a seu alvo, por mais que os neodarwinistas evitassem admiti-lo, não poderia deixar de ser as ciências sociais.

Estas reagiram com ultraje à invasão de seu sacrossanto domínio, o da autonomia da cultura. Ignoraram os arrivistas vindos do darwinismo. Quando os cientistas sociais replicaram, foi com a retórica de costume: acusaram os neodarwinistas de fazer ideologia disfarçada em ciência, e explicaram, pacientemente, que o método das ciências humanas não pode ser o mesmo das ciências exatas. Mas não parece que as humanidades se encontrem numa posição invejável, do alto da qual possam distribuir lições. Excetuada a economia, que desfruta de um crescente sucesso mundano e, ao que consta, científico, é perceptível o declínio de sua vitalidade intelectual.

As ciências sociais não se recuperaram do impacto provocado pela dissolução do experimento socialista nos anos 80 e 90. Pois não foi apenas o marxismo, que exerceu um domínio hipnótico sobre o pensamento humanístico no século XX, quem sofreu um xeque-mate com a derrocada do “socialismo real”. Foi atingido também o projeto, acalentado pela sociologia desde o início, de transformar a sociedade segundo critérios de planejamento racional, com vistas a superar a forma iníqua e perdulária de sua organização espontânea, “natural”. Desbancada de sua soberba, a sociologia passou a imitar sua colega, a economia, tomando lições de matemática. Restou incólume a história, isolada em eterna ruminação.

 

Após começo tão intrépido, foi um duro revés. A origem das ciências sociais é o iluminismo do século XVIII, o vibrante movimento de idéias que pretendeu aplicar a razão científica, tão eficaz nos séculos anteriores para decifrar e manipular a natureza, ao estudo e à reforma da sociedade. Condorcet, o último dos filósofos iluministas, terá sido também o mais explícito nesse sentido. Nos meses em que esteve foragido da ditadura jacobina, pouco antes de morrer na prisão em circunstâncias obscuras, ele escreveu sua última obra, um esboço de reforma das instituições sociais com base no método emprestado às ciências exatas. Adolphe Quetelet propôs em 1835 uma “física social”, que encontraria seu messias em Comte, considerado o fundador da sociologia. Toda fantasia metafísica sobre o homem e a sociedade deveria ser descartada, para dar lugar ao estudo dos fatos estritamente sujeitos à comprovação e mensuração – daí a sua doutrina ter recebido o nome de positivismo.

Mas na sociedade humana as variáveis (para falar em termos científicos) são de tal forma numerosas e entrelaçadas que o método empírico não dá conta de sua complexidade. Um outro movimento de idéias, o romantismo, inspirou a noção alternativa de que às ciências humanas caberia desenvolver um método próprio, o histórico. Do estudo comparativo de diferentes situações geográficas e históricas seria possível inferir certas regularidades, algo semelhante às leis que a ciência discernia no funcionamento da natureza. Mais promissor do que quantificar uma multidão de fatos seria compreender os processos, a relação qualitativa, sempre dinâmica e instável, entre eles.

O século XIX foi pródigo, a partir daí, em teorias sociais baseadas na evolução histórica (o positivismo, inclusive), cada uma a pleitear a sua própria sucessão de estágios, fases e modos de produção, rumo a uma superação constante. Marx e Nietzsche, antagônicos em quase tudo, concordariam quanto a isto: o homem é um animal que não está “pronto”, que ainda está-se fazendo por meio da história.

Mas enquanto as ciências da natureza prosseguiam de proeza em proeza, aumentando a população, a longevidade e o bem-estar humanos em proporção geométrica durante o século XX, os empenhos da ciência social contribuíram para dar forma a conflagrações e massacres de escala também inaudita, sob responsabilidade do totalitarismo socialista e de sua contrapartida, o fascismo. O primeiro foi inspirado no marxismo; o segundo, em parte uma reação histérica ao avanço do socialismo marxista, apropriou-se da tentativa de prescrever certos aspectos da teoria da seleção natural à organização da sociedade: a eugenia e o darwinismo social. O próprio Darwin, porém, havia desautorizado a utilização política de suas idéias. Vamos ver que idéias eram essas, capazes de deflagrar uma controvérsia que nunca termina.

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Quando Charles Robert Darwin embarcou como naturalista de bordo no navio britânico Beagle, em 1831, a então chamada “transmutação” das espécies já era assunto polêmico na comunidade científica. A descoberta de fósseis de animais desconhecidos solapava a noção tradicional de que todos os seres seriam obra de um único ato de Criação. Surgiam indícios, ao mesmo tempo, de que a Terra seria muito mais antiga do que os seis milênios que lhe eram atribuídos pela exegese da Bíblia.

No mesmo ano em que Darwin nasceu, o francês Jean-Baptiste Lamarck publicou um livro discutindo a tese, que ficou associada a seu nome, segundo a qual o mecanismo da evolução dos seres seria o uso dos órgãos. No famoso exemplo, as girafas se esforçariam para alcançar e comer as folhas na copa das árvores. Desse esforço constante resultariam pescoços mais longos e vigorosos, e essa característica seria transmitida às gerações sucessivas.

Na posição oposta, um autor eclesiástico, William Paley, colocava em circulação a metáfora do relógio, até hoje usada pelos adeptos do criacionismo. Se ao andar numa trilha, diz Paley, alguém encontra um relógio no chão, só pode concluir que algum artífice o projetou. Seria inconcebível que as partes pudessem reunir-se numa coordenação espontânea. Idêntica conclusão seria imposta, pelo relógio da natureza, à vasta multiplicidade de plantas e animais, todos em perfeito funcionamento, concebidos até o mais ínfimo detalhe em maravilhosa harmonia. Darwin havia lido esses escritores quando estudante, para não mencionar seu avô, o filósofo Erasmus Darwin, autor de uma dissertação lamarckiana sobre os seres vivos.

Os cinco anos a bordo do Beagle, numa viagem ao redor mundo pelo hemisfério sul, ampliaram a visão de Darwin tanto sobre a diversidade das formas de vida como sobre as misteriosas conexões entre elas. As origens de sua teoria, no entanto, não se acham em alguma iluminação obtida nas ilhas Galápagos, mas na meditação sobre dois livros influentes e no exame de uma prática habitual entre criadores de espécies domésticas na Europa.

O primeiro desses livros é o Ensaio sobre o Princípio da População, de Thomas Malthus, publicado em 1798. Apresentado como réplica ao otimismo reformador de Condorcet, o estudo parte de uma constatação perturbadora: enquanto a população aumenta em razão geométrica, os meios de subsistência crescem em razão aritmética. O aumento demográfico é contido pela doença, pela guerra e pelo “vício” (sexo não-reprodutivo). Ainda assim, a fecundidade cedo ou tarde multiplica o número de indivíduos até o máximo permitido pelos meios de subsistência. Atingido o limite, a fome se encarrega de frear a progressão. Malthus diz que “essa lei impregna toda a natureza animada”. Ele a chamou de “luta pela existência”.

Cada desenvolvimento dos meios técnicos, ao torná-los mais produtivos, alivia a escassez. Mas por isso mesmo dá livre curso à fecundidade, até que o limiar da fome seja de novo alcançado. Toda tentativa de derrotar a miséria derrota seu intento, ele afirma, pois “nenhum progresso observável foi obtido até agora no sentido de extinguir as paixões entre os sexos”. O melhor controle seria que cada homem fosse precavido o bastante para produzir tão-somente a prole que pudesse sustentar. O surgimento dos modernos anticoncepcionais suspendeu a vigência do princípio de Malthus, ao tornar mais fácil a realização do seu conselho. Sempre que lemos, porém, sobre o esgotamento dos recursos naturais do planeta, deveríamos imaginar o fantasma desse lúgubre autor a sorrir na eternidade.

O outro livro, publicado em 1830, é Princípios da Geologia, de Charles Lyell, considerado o maior geólogo do século, mais tarde amigo de Darwin. O tratado esclarecia fatos intrigantes, a exemplo da descoberta de conchas do mar no cume de cordilheiras. Argumentava que a superfície da Terra vem sendo refeita continuamente, não só por cataclismos capazes de ejetar terrenos submersos e fazer mergulharem antigos planaltos, mas sobretudo pela ação paciente dos ventos, chuvas e marés. Lyell mostrou que pequenas alterações, desde que acumuladas, produzem efeitos portentosos, e ensinou Darwin a pensar em termos de um tempo incomensuravelmente longo.

A terceira fonte intelectual do achado de Darwin não poderia ser mais prosaica. Era antigo o costume, entre criadores de pombos, cães e outros animais domésticos, escolher os exemplares mais aptos para determinados fins, ou que ostentassem algum traço valioso, e promover cruzamentos entre eles, de modo a acentuar, geração após geração, essas características desejáveis. Darwin tornou-se ele mesmo criador de pombos e se correspondeu durante décadas com outros manipuladores de linhagens. Refletiu sobre o que eles já sabiam: que em todas as espécies os indivíduos variam ligeiramente, que as variações são transmitidas à descendência e, tendo sido “selecionadas” durante sucessivas gerações, tornam-se mais agudas.

 

A originalidade de Darwin foi vislumbrar uma seleção realizada não pelas mãos do homem, mas pelos imperativos do ambiente. A ferocidade da competição pela subsistência, evocada por Malthus, converteria toda pequena variação fortuita, desde que benéfica a seu possuidor, numa vantagem apreciável. Transmitida a descendentes sempre mais numerosos, essa variante acarretaria uma vantagem permanente na competição com os demais, até se tornar universal naquela espécie, quando todos os indivíduos que não a portassem já tivessem desaparecido sem deixar descendência. A acumulação desse processo ao longo de inúmeras gerações daria à luz novas espécies, numa diferenciação crescente entre elas. A natureza podia “esperar” que surgissem, da infinidade de variações entre os indivíduos, aquelas que por acaso se revelassem vantajosas e fadadas, portanto, a se disseminar, pois sua escala de tempo não era humana, conforme Lyell fizera ver, mas geológica.

É uma idéia simples, quase óbvia. Atende com elegância os requisitos científicos de parcimônia e amplitude explicativas. Impõe-se como conseqüência da conjugação de cinco fatores: alta fecundidade, variação individual, competição implacável, transmissão hereditária e tempo – muito tempo. O biólogo T. H. Huxley, mais tarde chamado de “buldogue de Darwin” pelo zelo com que passou a defender a idéia, ao tomar conhecimento dela, teria exclamado: “Que idiota eu fui de não ter pensado nisso antes!” De certa forma, ela deveria ser tão pouco surpreendente quanto a constatação de que a água de um rio assume exatamente a forma do leito e das barrancas. Mas trata-se de uma simplicidade aparente, traiçoeira.

O raciocínio percorrido por Darwin vai contra nossos hábitos mentais ou, mais precisamente, inverte o padrão habitual do pensamento, fazendo “antes” e “depois” trocarem de lugar. Não é que alguma intencionalidade tenha dirigido a organização dos seres vivos: é o resultado gradualmente acumulado que, visto em retrospectiva, parece ter sido intencional. Plantas e animais são como são porque um número incalculável de outras possibilidades se mostrou menos eficiente e pereceu. Basta uma alteração ambiental importante, porém, para que apareçam novas frestas adaptativas, e novas espécies surjam no encalço de seu aproveitamento. Para tornar a idéia mais inteligível, apesar de sua simplicidade (ou por causa dela…), costuma-se recorrer a uma linguagem metafórica, antropomórfica, recheada de “é como se” – é como se os seres “tentassem” se adaptar ao ambiente, é como se as espécies “quisessem” se perpetuar etc. Nosso hábito de atribuir intenções, sentido e finalidades adere à língua, que não consegue se desfazer dele. O primeiro a incidir nesse tipo de linguagem foi o próprio autor, quando batizou o mecanismo com a expressão “seleção natural”, como se algo ou alguém escolhesse entre as variações.

Depois de fazer uma descoberta desse porte, segundo seus cadernos de anotações em setembro de 1838, Darwin ficou 21 anos sem publicá-la. Redigiu um breve manuscrito em 1842, outro em 1844, deu conhecimento do assunto a três amigos, entre eles um incrédulo Lyell – e afundou numa prolongada pesquisa sobre cracas, o minúsculo crustáceo que adere ao casco dos navios. Sobretudo um cientista, Darwin não ignorava que o desafio de toda hipótese atraente é demonstrá-la. E demonstrações cabais eram necessárias no caso de hipótese tão cativante, sem dúvida, pela facilidade com que iluminava num só clarão toda uma vasta esfera de fenômenos, mas ao mesmo tempo tão temerária no que continha de inverossímil, de bizarro, de avesso ao mais elementar senso intuitivo. O naturalista entregou-se a um silencioso trabalho de observação, além de estender uma rede de contatos com colegas, criadores, informantes e coletores de espécimes pelo mundo afora. Preparava um compêndio irrefutável que abrigasse um acúmulo esmagador de provas. Teria prosseguido, não se sabe por quanto tempo, não fosse a carta que recebeu em junho de 1858.

O missivista Alfred Russel Wallace escrevia da ilha de Ternate, na atual Indonésia. Era um jovem naturalista galês que vinha seguindo os passos de Darwin. Também estivera na América do Sul (inclusive no Brasil), lera com atenção os livros de Lyell e de Malthus, conhecia o relato de Darwin sobre a viagem do Beagle e havia escrito um ensaio sobre o problema da evolução. Sem os recursos familiares e o prestígio científico de Darwin, Wallace vivia dos espécimes que coletava nas florestas tropicais e vendia ao mercado europeu. Certo dia, acometido de malária, tremendo de febre numa cabana na selva, teve uma inspiração. Resolveu relatá-la numa carta a Darwin, a quem vendera carcaças de animais.

Ao ler a correspondência, no outro extremo do mundo, Darwin ficou atordoado. O texto era um resumo da teoria da seleção natural, às vezes com o emprego de expressões idênticas. Como Wallace pedia na carta que Darwin a mostrasse para Lyell, caso visse nela algum valor, foi isso o que ele fez, deixando que o geólogo arbitrasse a melindrosa questão. Lyell e outro amigo, o botânico Joseph Hooker, propuseram que um dos manuscritos que Darwin escrevera na década anterior fosse lido juntamente com a missiva de Wallace numa sessão científica. Darwin concordou, Wallace não foi consultado (declarando-se, mais tarde, satisfeito com o acordo de cavalheiros). A leitura ocorreu em 1º de julho de 1858, na Linnean Society, onde foi recebida com indiferença. No ano seguinte Darwin publicava A Origem das Espécies, que produziu impacto imediato. Consta que até a rainha Vitória o leu.

 

A urgência fez bem ao livro. O que seria uma caudalosa digressão destinada a especialistas se condensou num volume com cerca de 400 páginas, escrito em linguagem acessível. Como é próprio num autor vitoriano, Darwin adota um andamento circunspecto e judicioso. O argumento se propaga em suaves ondas de persuasão, cautelosamente, como se as evidências forçassem autor e leitor a aceitá-lo quase a contragosto.

A maioria das objeções até hoje apontadas contra a teoria é discutida em detalhe já no livro em que ela é exposta. A formação miraculosa de um órgão complexo como o olho. O fato espantoso de que o favo com cavidades hexagonais é a melhor solução geométrica para armazenar um máximo de mel com um mínimo dispêndio de cera. A dificuldade oferecida por um membro como a asa, que só poderia beneficiar seu portador depois de estar “pronta” para fazê-lo voar. O chocalho da cascavel, que denuncia sua presença para possíveis presas. Darwin contorna essas e outras objeções, não sem antes tê-las enaltecido como dificuldades quase intransponíveis.

As idéias de Darwin foram recebidas com alarme e inquietação, que deram lugar a manifestações de repugnância quando ele as aplicou ao caso específico da espécie humana, em 1871, no livro A Descendência do Homem e a Seleção Sexual. Foi então que o assunto se tornou sensacional e proliferaram as charges em que Darwin aparece com corpo de macaco.

Sempre que pensamos na repulsa ao darwinismo, logo vêm à mente os criacionistas de hoje, com sua necessidade psicológica de manter os cordéis da natureza nas mãos de um senhor barbudo que mora no céu. Não foi essa a reação do público vitoriano, já demasiado esclarecido para dar ouvidos ao fundamentalismo religioso e a interpretações literais das escrituras. É possível ser devoto e darwinista ao mesmo tempo. Deus não precisa pilotar pessoalmente a evolução natural para existir, assim como ninguém espera que Ele se esfalfe para intervir no movimento dos corpos ou nas trocas de energia: basta que tenha criado as leis do universo e se recolhido, como diz o Gênesis, a um merecido repouso. Podendo conviver com a noção de um arquiteto oculto, não é menos verdade que a teoria da seleção natural prescinde dela.

Mas sua implicação devastadora é outra. Ela revela uma natureza que nada tem da concórdia idílica das pastorais, mas que irrompe, como no verso de um poema de Alfred Tennyson, de 1850, “com dentes e garras rubros” de sangue. Sua lei é a do egoísmo desabrido, seu método é a destruição dos mais fracos, seu propósito é nenhum. Toda moralidade, qualquer sentido de compaixão ou renúncia e o próprio cristianismo não passam de tréguas precárias que os homens aceitam mal e cumprem pior, antes de sucumbirem na voragem dos seres.

Se essa é a lei da natureza, por que não haveria de ser também a dos homens? O sistema concebido pelo darwinismo como explicação da natureza foi convertido em doutrina a ser prescrita à sociedade. Inventor da expressão “sobrevivência do mais apto”, tendo chegado ao evolucionismo por um caminho próprio, Herbert Spencer terá sido o primeiro sociólogo a parasitar o darwinismo, sob a desaprovação de Darwin e Huxley, para quem o homem está imerso na cultura, que remodela as pressões da biologia. Vivia-se, entretanto, a fase mais ostensiva do imperialismo. O pensamento europeu era receptivo a teorias que se prestassem a endossar a dominação dos povos “civilizados”, das raças “superiores”, das classes dominantes. À medida que nacionalismo e racismo se combinavam de forma agressiva, as idéias de Darwin seriam convocadas para justificar políticas de mistificação pseudocientífica, expansão territorial e genocídio.

No âmbito científico, persistiam dúvidas. Em 1871, por exemplo, um diletante britânico, Fleeming Jenkin, apresentou certa objeção que preocupou Darwin sobremaneira. Jenkin observava que as características genéticas parecem diluir-se ao longo do tempo. Se uma população de pele clara, digamos, reproduzir-se com outra de pele escura, os descendentes terão pele de cor intermediária. Pelo mesmo motivo, eventuais variações favoráveis que pudessem surgir ao acaso seriam dissolvidas logo nas gerações subseqüentes. Ficava inviabilizado um dos pilares da teoria. Darwin reconheceu que o processo da hereditariedade era uma incógnita. Pelas dúvidas, sempre sustentou que o mecanismo lamarckiano atuaria como força auxiliar da evolução. Quando morreu, em 1882, e foi enterrado na abadia de Westminster, cercado de reconhecimento universal, a seleção natural continuava uma hipótese ainda por comprovar.

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As características genéticas se combinam, mas não se misturam no sentido de resultar uma “média” entre elas. São transmitidas intactas e permanecem distintas na descendência. Foi essa a descoberta do monge austríaco (hoje ele seria tcheco) Gregor Mendel no experimento em que estudou a reprodução de linhagens de ervilhas. Escolheu a planta pelas variações nítidas no aspecto do grão: rugoso ou liso, amarelo ou verde, redondo ou angular. Essas características não se diluíam ao longo dos cruzamentos, e reapareciam a freqüências regulares. Em cada dupla de opções, uma delas era mais freqüente. Mendel traduziu as freqüências em fórmulas matemáticas. Os caracteres mais reincidentes ele chamou de “dominantes”, e de “recessivos” os outros. (No exemplo da cor da pele, o resultado é intermediário porque vários genes contribuem para determinar esse traço físico.)

Embora a experiência de Mendel já estivesse em curso quando Darwin decidiu escrever A Origem das Espécies, a publicação dos resultados permaneceu ignorada até ser redescoberta em 1900, dando origem à genética, a ciência da hereditariedade. Sabe-se hoje que as instruções químicas para construir os seres vivos estão “escritas” nas moléculas de um ácido, o DNA. Cada célula tem no seu núcleo uma cópia do conjunto das instruções, embora só uma mínima parte delas determine a feitura daquele tipo específico de célula. Fitas de DNA estão empacotadas, no núcleo das células, em corpúsculos chamados cromossomos. Na espécie humana, eles são 46.

Conforme revelava os mecanismos de transmissão dos caracteres herdados, em descobertas que se sucederam nas primeiras décadas do século XX, a genética confirmava, ao mesmo tempo, o cerne das teses de Darwin. Aos poucos, a teoria da seleção natural emergiu do limbo científico onde estivera relegada, convertida dessa vez em ciência “dura”, passível de ser comprovada no laboratório e expressa em linguagem algébrica. Muitos tomaram parte nesse trabalho coletivo, mas aos britânicos R.A. Fisher e J.B.S. Haldane e ao russo-americano Theodosius Dobzhansky é atribuída a formulação, nos anos 30 e 40, da chamada “síntese moderna”, demonstrando que são compatíveis os esquemas darwinista e mendeliano, e que sua conciliação matemática é a chave do funcionamento da natureza. É de Haldane, que foi comunista, a famosa resposta para uma pergunta sobre o que a seleção natural revela a respeito da mente de Deus: “Uma paixão desmedida por besouros”.

Toda uma gama de fenômenos, porém, ainda desafiava a teoria. Por que certos pássaros piam para alertar seus companheiros sobre a presença de um predador, correndo o risco de chamar uma perigosa atenção para si mesmos? Por que as abelhas, quando a colméia é ameaçada, desferem ataques suicidas, já que ao picar o intruso seu ferrão acaba decepado e elas morrem? Por que as formigas dedicam toda sua vida e lutam até a morte em prol das irmãs? Comportamentos altruístas são comuns nas espécies sociais, o que pode parecer simpático numa perspectiva moral, mas é embaraçoso do ângulo darwinista. Como o altruísmo tende a prejudicar quem o pratica, deveria ter sido eliminado pela seleção natural.

 

O livro O Gene Egoísta, de 1976, do inglês Richard Dawkins (reeditado recentemente no Brasil em nova tradução), foi concebido para sustentar que o altruísmo está radicado no “egoísmo” dos genes. O autor se propõe a fazer uma exposição didática do trabalho de quatro biólogos da geração seguinte à de Fisher e Haldane, especialistas em genética populacional a quem o livro é consagrado: os britânicos J. Maynard Smith e W.D. Hamilton, e os americanos G.C. Williams e R.L. Trivers. As descobertas que fizeram, ocultas do público leigo em publicações especializadas, extravasam o problema técnico do altruísmo para desvendar um amplo panorama do comportamento animal naquelas esferas que mais influem no êxito darwiniano, sempre expresso em sobrevivência e fecundidade máximas: agressão, acasalamento, cooperação e dissimulação.

Para esses autores existe, decerto, uma competição entre espécies que ocupam um mesmo nicho e entre indivíduos de uma mesma espécie. Mas o nível básico da competição, aquele no qual se encontra em última análise o gargalo da seleção natural e ao qual todas as demais formas de competição podem ser reduzidas, é o nível dos genes. Se uma espécie é bem-sucedida, se um indivíduo deixa prole saudável e numerosa, tudo o que uma e outro fazem é disseminar mais cópias de seus respectivos genes, na forma de uma quantidade maior de organismos.

Das evidências dessa idéia, Dawkins extrai uma poderosa imagem: os seres vivos são veículos temporários que os genes fabricam e utilizam para se perpetuar no tempo. Mais do que etólogo, Dawkins é um escritor imaginativo, dotado de excepcional talento para a metáfora e a generalização. Os indivíduos, assim como os grupos, são “federações temporárias” de genes. Cada geração é uma partida de baralho na qual os cromossomos são as “mãos” e os genes são as cartas. Baleias, girafas ou seres humanos, somos “gigantescos e desajeitados robôs” construídos por aglomerados de genes para funcionar como seu abrigo provisório. Peixes são “máquinas” de sobreviver na água; macacos, de sobreviver nas árvores. Se vírus e bactérias viajam por meio dos fluidos corporais de um organismo infectado a outro, os genes, que tanto se assemelham a eles, trafegam por meio da reprodução sexuada, ao cabo da qual constroem suas novas moradas, em vez de infectar as que encontram prontas.

Os genes que determinam comportamentos altruístas tendem a se replicar mais, na medida em que “ajudam” suas cópias, contidas nos organismos de parentes, a se replicarem mais também. Esse princípio foi chamado de seleção por parentesco e seu desenvolvimento é atribuído a Hamilton. Outro conceito proposto por esses pesquisadores é o das “estratégias evolutivamente estáveis”. Diante de um predador ou rival, por exemplo, um indivíduo pode adotar atitudes de confrontação, ameaça, fuga ou apaziguamento. Estratégias opostas e complementares podem competir até se ajustarem numa proporção na qual entram em equilíbrio, tornando-se estáveis. Afirmar que uma estratégia é estável significa dizer que ela favorece, mais do que as demais variantes em seu gênero, a reprodução dos organismos que a adotam e, portanto, dos genes que a determinam.

O próprio sexo pode ser tomado como estratégia estável em sentido lato. É a reprodução sexuada que faz girar a loteria genética, assegurando que os indivíduos sejam ligeiramente diversos. Especula-se que a variedade genética seja vantajosa, por sua vez, ao funcionar como uma espécie de seguro coletivo, um estoque de adaptações e proteções imunológicas disponíveis em face de um ambiente que também varia. Além disso, a variação reduz a chance de um gene defeituoso ser idêntico a seu par no cromossomo, circunstância que pode provocar a eclosão de efeitos nocivos, quando não letais, no indivíduo assim formado.

Sendo o novo organismo resultado da fusão de duas células sexuais, seria mais eficiente que uma delas fosse maior, contendo material nutritivo e abrigo para o futuro embrião, e a outra fosse menor e mais móvel. Se algum arranjo é o mais eficiente, a seleção natural cedo ou tarde “encontrará” um caminho para produzi-lo. Em conseqüência, óvulos são mais dispendiosos e por isso mais escassos; espermatozóides são mais baratos e abundantes. Desde a aurora da sexualidade, o investimento por célula reprodutiva realizado pela fêmea é muito maior que o do macho. Aliás, é isso o que a define. Esse desnível se acentua num efeito “bola de neve”: a fêmea arca também com a gestação e, entre os mamíferos, com o aleitamento.

 

O macho pode multiplicar seus genes disseminando suas numerosas células sexuais a esmo, ao passo que a fêmea fica restrita a uma fecundação de cada vez. É como se os machos se especializassem em produzir filhotes, as fêmeas em garantir que sobrevivam. As estratégias desenvolvidas pelos dois sexos serão conseqüência dessa especialização e dessa disparidade. Traduzirão o “interesse” da fêmea em aumentar o investimento do macho e o deste em manter e até ampliar o desnível. Seria a “guerra dos sexos” manifesta num plano estatístico e genético. Dawkins se compraz em relatar a contribuição drástica do louva-a-deus macho, cujo investimento consiste em sacrificar seu próprio corpo, ingerido vivo pela fêmea com quem acaba de copular, a fim de nutrir os ovos que seus espermatozóides fecundarão.

Sem chegar a tais extremos, a relação entre parceiros sexuais, segundo Trivers, é sempre de desconfiança e exploração mútuas. Cada lado busca se aproximar do que seria o “ideal” evolutivo: ter o máximo de filhos e deixar a outrem o encargo de cuidá-los. Na natureza, machos abandonam fêmeas que fecundaram, fêmeas dissimulam a verdadeira paternidade de suas ninhadas, machos recém-chegados matam os filhotes da fêmea antes de fecundá-la. Haverá promiscuidade, regime de harém ou monogamia conforme o saldo das condições ambientais (alimento, clima, predadores etc.) recompensar mais esse ou aquele arranjo. Acredita-se que ligações monogâmicas sejam premiadas em espécies nas quais o cuidado com a prole é muito dispendioso em termos de tempo e energia. Em certos tipos de pássaros, o filhote precisa ser alimentado a cada trinta segundos. Não surpreende que a monogamia seja freqüente entre as aves.

A fim de compelir os machos a investir mais, as fêmeas tendem a adotar um comportamento dito “recatado” ou “tímido”. Selecionam pretendentes, criam obstáculos, demandam ser cortejadas mediante complicados rituais, quando não exigem provisão de alimentos ou ninho adequado para a futura prole. Se a fêmea logra obter um investimento maior da parte do macho, ela o torna mais comprometido com o cuidado dos filhotes, o que é benéfico para seus próprios genes. Os machos disputam entre si pelo acesso a seus preciosos óvulos, sendo esse o motivo pelo qual, na maioria das espécies, são fisicamente maiores e mais agressivos que as fêmeas.

Dawkins imagina uma população em que as fêmeas podem assumir comportamento “tímido” ou “rápido”, enquanto os machos podem se conduzir de forma “fiel” ou “conquistadora”. Ele atribui uma pontuação arbitrária, mas plausível em termos de contabilidade evolutiva, a cada combinação possível dessas condutas quando postas em interação. Feitas as simulações, apurou que uma população na qual 5/6 das fêmeas fossem “tímidas” e 5/8 dos machos fossem “fiéis” seria evolutivamente estável. Observe-se que o resultado seria idêntico caso todas as fêmeas fossem “tímidas” 5/6 do tempo e todos os machos “fiéis” 5/8 do tempo… Mais tarde Dawkins, que é dado a reformular opiniões e atulhar seus livros com notas de rodapé, corrigiu-se. Nenhum arranjo seria estável, as proporções flutuariam de maneira intermitente. O comportamento “dos amantes oscila como a lua”, concluiu, tendo o bom senso de acrescentar que “ninguém precisa de equações diferenciais para perceber isso”.

Além daquele derivado do parentesco, Trivers distinguiu um comportamento semelhante que ele chamou de “altruísmo recíproco”. Nesse caso, o investimento realizado no bem-estar de outro indivíduo se dá na expectativa de retribuição. Toda a infinidade de seres que vivem em simbiose, como nós e as bactérias que habitam nosso aparelho gástrico, pratica altruísmo recíproco. Primatas que removem parasitas uns dos outros, também. Para nosso desalento, entretanto, a natureza premia não apenas a violência, mas igualmente a fraude. Os animais evitam o dispêndio e o risco da agressão desnecessária, restringindo-se quando possível à mímica hostil, como notou o austríaco Konrad Lorenz, um dos fundadores da etologia. Mas se o altruísmo recíproco é bom para as duas partes e funciona assim muitas vezes, pode ser ainda melhor para a parte que consiga se beneficiar sem ceder à devida contrapartida. Na sua avareza indiscriminada, a seleção natural incentiva tanto os falsários quanto os que aprendem a desmascará-los.

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Dawkins observa que entre os animais é o macho quem se “enfeita” para despertar a atenção da fêmea, a exemplo da problemática cauda do pavão, que tanta celeuma vem causando entre os evolucionistas desde Darwin e Wallace. Mas na espécie humana acontece o contrário, Dawkins acrescenta casualmente, sem esclarecer o porquê. Como em outros momentos, ele se detém às portas da nossa espécie, alegando que ela escapa a sua especialidade. Nem todos tiveram a mesma atitude.

O mais ambicioso na incursão pelo território das ciências humanas terá sido um entomologista americano, Edward O. Wilson. Considerado um dos maiores mirmecologistas (especialistas em formigas), Wilson dedicou-se a estabelecer, nas últimas décadas do século passado, uma alegada unidade subjacente às espécies sociais, incluído o Homo sapiens, que ele se propunha a ver “pelas lentes de um telescópio”. É insólito que um mirmecologista se aventure a teorizar sobre os humanos, mas a aproximação soa menos despropositada quando lembramos que as formigas são os únicos seres conhecidos a compartilhar conosco a guerra, a escravidão, a agricultura e a pecuária. Espécies vivem de guerrear outras, matar a população adulta e aprisionar as larvas. Levadas ao formigueiro das conquistadoras, serão escravas usadas para cultivar fungos, que alimentam pulgões, por elas ordenhados em benefício das larvas de suas senhoras.

Formigas, entretanto, são autômatos. Por mais complexos que sejam, seus comportamentos são inteiramente “programados” pelos genes. No caso da espécie humana, entre genética e comportamento se interpõe uma espessa camada: a cultura. Wilson a qualifica de “superorganismo” e opina que “a evolução social humana é obviamente mais cultural do que genética”. Seu estilo, límpido e criterioso, desarma prevenções. Ele se revela versado em leituras humanísticas e convida à retomada do projeto iluminista de uma ciência social tão “científica” quanto as disciplinas exatas e naturais. Modestamente, sugeriu uma nova: a sociobiologia, o estudo dos fundamentos genéticos e evolucionários do comportamento nas espécies sociais (depois conhecida também pela denominação mais discreta de psicologia evolutiva).

O leitor terá notado que se trata aqui da velha controvérsia entre natureza e cultura, entre o que é hereditário e o que é aprendido. Como outros trocadilhos memoráveis em inglês, nature/nurture (natureza/criação, educação) é um achado de Shakespeare. Aparece na cena de A Tempestade em que Próspero diz, sobre o “mau selvagem” Calibã, que sua natureza é feita de tal modo que nenhuma criação jamais adere a ela. Wilson discute estratagemas para compreender melhor como natureza e cultura se entrelaçam. A análise estatística em torno do histórico de gêmeos é um desses estratagemas. Gêmeos univitelinos provêm do mesmo óvulo e do mesmo espermatozóide e são, portanto, idênticos do ponto de vista genético. Uma técnica compara o histórico de gêmeos separados no nascimento e que cresceram em ambientes diversos com o de irmãos adotivos que, ao contrário, compartilham a educação, mas não os genes. Foram relatados resultados sugestivos de que o aspecto genético seria mais determinante do que o ambiental. Mas Wilson evita entrar nesse campeonato. Sua concepção do problema, como veremos, é mais complexa.

 

Outra abordagem havia sido proposta pelo antropólogo americano George P. Murdock, em 1945. Ele listou as características identificadas em todas as sociedades conhecidas até o seu presente, na presunção de que expressassem um estrato imune à variação cultural e que deveriam ter, portanto, fundamento genético. Murdock recolheu 68 práticas que seriam universais. Exemplos: calendário, dança, divisão do trabalho, festas familiares, linguagem, jogos, tabus alimentares, ritos fúnebres, cosmologia, direitos de propriedade, restrições sexuais, cirurgia, comércio, etiqueta social, tabu do incesto. Cabe perguntar se os itens são as impressões digitais do que seria a natureza humana, ou práticas que qualquer espécie ostentaria se chegasse ao nível de autoconsciência que atingimos.

Wilson postula que as raízes do comportamento humano consistem no que ele define como regras epigenéticas. Seriam predisposições inscritas no nível genético, aptidões para agir que podem se desdobrar num gradiente de possibilidades. Na interação com os estímulos do ambiente, porém, algumas dessas possibilidades se desenvolveriam e outras não. Sua forma exterior depende das variações culturais de uma sociedade para outra, mas todas são redutíveis à mesma matriz implantada pela seleção natural no repertório genético da espécie. Nessa ótica, a cultura não seria tanto um acréscimo à natureza, mas sua projeção; menos negação do que desdobramento dela. É como se nossa estrutura genética nos “preparasse” para viver imersos na cultura, da mesma forma que o aparelho fonador nos capacita para a fala. Wilson chama de “co-evolução” o nexo entre as duas esferas.

O tabu do incesto é dado como exemplo de regra epigenética. O incesto é desvantajoso em termos evolutivos porque aumenta a probabilidade de genes recessivos defeituosos ou letais, sendo idênticos no par, prevalecerem no cromossomo e se manifestarem no futuro organismo. Uma prevenção genética contra o incesto seria muito benéfica numa espécie em que é tão dispendiosa a produção de filhotes, caso da nossa. Em 1891, o antropólogo finlandês Edvard Westermarck publicou estudo em que sustentava que existe, nos seres humanos, uma aversão inata ao contato sexual com pessoas que tenham compartilhado da intimidade nos primeiros anos de vida. Wilson compila pesquisas empíricas que teriam comprovado o efeito Westermarck. Se o tabu do incesto está introjetado na “programação” genética, por que a cultura se dá ao trabalho de reiterá-lo? Dawkins responde com a metáfora do dono de um carro equipado com trava antifurto que resolve instalar um alarme como garantia adicional.

Ao contrário do senso intuitivo, que vê na cultura um fator de contenção das nossas inclinações mais arraigadas, alguns autores neodarwinistas parecem concebê-la como reforço delas. Wilson chama de “hipertrofia” essa suposta propensão da cultura a amplificar, até atingir exageros grotescos, as diretrizes implícitas nas regras epigenéticas. Ele pensa na guerra, no patriotismo e no racismo como produtos do “logaritmo” genético que favorece o comportamento de ajudar parentes e defender o bando primitivo contra bandos rivais. Impressionantes por sua maníaca complexidade, os sistemas de parentesco de certas sociedades tribais seriam, da mesma forma, a expressão hipertrofiada do dispositivo antiincesto descoberto por Westermarck.

 

Um dos livros de E. O. Wilson se chama Sobre a Natureza Humana. É propósito expresso da sociobiologia e dos estudos assemelhados restaurar esse controvertido conceito, como matriz, agora genética e não metafísica, comum a todos os seres humanos, substrato da enorme variação cultural e individual que caracteriza nossa espécie. A questão é explosiva porque serve de divisor de águas no pensamento político moderno. Sob as aparências de divergir a respeito de valores como “igualdade” e “liberdade”, direita e esquerda se definem precisamente pela discordância quanto à existência de uma natureza humana ou ao menos quanto a sua configuração – mais fixa e condicionada pelo elemento inato, segundo o pensamento político de direita, mais plástica e amoldável pela experiência histórica, segundo o de esquerda.
Respondendo a críticos, Maynard Smith certa vez perguntou: “O que queriam que fizéssemos, que falsificássemos as equações?” Mas nenhuma pesquisa é neutra a ponto de não implicar uma perspectiva, a seleção de um problema, a escolha de uma hipótese. Embora conduza a descobertas objetivamente verificáveis e seja uma excepcional ferramenta utilitária, a atividade científica não está imune à ilusão ideológica. A história da ciência mostra que em cada época o conflito ideológico se torna encarniçado nas fronteiras do conhecimento, onde especulação e evidência se confundem, ainda mais se um paradigma tradicional está sob ameaça. Muito da concepção legada pelo humanismo acerca de nossa própria espécie é questionado pela psicologia evolutiva. Seria no mínimo prudente atentar para as críticas que são feitas à validade dos métodos que ela emprega. Tais críticas talvez possam ser resumidas a três vertentes principais.

A primeira delas é que as rotas de pesquisa sugeridas pela teoria social darwinista estão bloqueadas, ao menos no estágio atual do conhecimento. Ela promete, por assim dizer, o que não pode entregar. A junção concreta da base genética com o superorganismo cultural se dá no cérebro. Apesar dos avanços recentes da neurologia, o órgão mais complexo da natureza resiste a entregar seus mistérios. Funções cerebrais dependem do concurso simultâneo de diferentes partes do órgão. A própria distinção entre emoção e razão não se sustenta ante a evidência de que os dois processos se interpenetram. A seleção natural terá sido particularmente econômica ao produzir órgão tão dispendioso em consumo energético, de modo que idênticos percursos neuronais servem a finalidades diferentes e várias faculdades estão a cargo dos mesmos tecidos, comprimidos no menor espaço possível.

 

No flanco da pesquisa genética, a dificuldade é comparável. A noção primitiva de que a cada característica do organismo humano corresponderia um determinado gene é falsa. São raros os genes que isoladamente determinam um traço específico, como é o caso da cor dos olhos. Diversos genes contribuem para formar uma mesma característica; um mesmo gene pode exercer efeitos sobre características diversas. Há genes que ativam ou modificam a ação de outros genes. E a maioria aparentemente não tem função – especula-se que sejam passageiros oportunistas ou antigos vírus que parasitam o conjunto, viajando “de carona” pelas gerações afora. Até o lamarckismo reviveu, agora numa acepção molecular, pois parece haver indícios de que certos genes mudam por influência de estímulos ambientais.

Nem sequer existe consenso sobre o que é um gene. Melhor dizendo: há uma margem de arbitrariedade na definição de onde começa e termina um gene na fita de DNA. O conceito, à semelhança do átomo, foi formulado a priori, antes de sua verificação empírica. Em 1893, o alemão August Weismann sugeriu que a função hereditária seria desempenhada por uma substância enigmática contida no núcleo das células, o “plasma germinativo”. Na década seguinte, um biólogo dinamarquês, Wilhelm Johannsen, calculou que esse plasma haveria de ser composto por unidades básicas, que ele denominou de “genes”. Eram intuições corretas. Uma coisa, porém, é mapear o genoma, outra é entender seu funcionamento e ainda outra é manipular suas instruções. A ciência está longe de resolver esses dois últimos desafios.

Um segundo tipo de crítica focaliza o que poderíamos chamar de “superatribuição”. Dawkins afirma, por exemplo, que deve ser vantajoso voar em bandos, caso contrário as aves não o fariam. Hamilton ofereceu explicação engenhosa para a formação de manadas, bandos e cardumes: quem está nas bordas do grupo corre mais risco de ser atacado por predadores, razão pela qual todos derivam para o centro, dando origem às formações compactas. Mas no caso de organismos mais complexos, como o ser humano, será defensável atribuir todas as características ao benefício evolutivo que terão acarretado? O que dizer da miopia ou da impotência? Como explicar o suicídio, o ascetismo, o celibato? No mínimo, há uma multidão de genes que produzem efeitos benéficos e prejudiciais ao mesmo tempo. O reducionismo darwinista, quando atribui todos os fenômenos sob seu exame à seleção natural, depara com limites explicativos. Como as relações de produção na doutrina marxista e as pulsões do inconsciente na psicanálise, tomada numa chave dogmática a teoria da seleção natural se converte em abracadabra para “solucionar” problemas a golpes de mágica.

Chama atenção, por fim, a trivialidade das descobertas feitas pela psicologia evolutiva. Somos uma espécie moderadamente territorial. Somos dilacerados pelas trações contraditórias de cooperar, ludibriar e retaliar (criamos um sistema jurídico e moral na tentativa de regular essa tensão permanente). Somos solicitados pelas pressões evolutivas que favorecem a monogamia e pelas que induzem à variação genética. Somos sujeitos ao ciúme sexual, porque é vantajoso não desperdiçar investimentos na progênie alheia. Somos agressivos, mas inclinados à negociação para minorar danos. E assim por diante. Não se trata propriamente de revelações. Os sociobiólogos podem alegar que demonstraram, em termos matemáticos, como e por que essas e outras formas de comportamento social se fixaram. Seu método teria fornecido fundamento científico para percepções de senso comum.

Ainda assim, é legítimo que suas conclusões despertem desconfiança, conforme reiteram concepções tão tradicionais a respeito do homem e da sociedade. Com exceção de Fisher e Lorenz, nenhum dos naturalistas e biólogos mencionados neste artigo poderia ser classificado como politicamente reacionário. Darwin era abolicionista, Wallace era socialista, Maynard Smith e Haldane pertenceram ao Partido Comunista, Trivers foi membro do grupo revolucionário Panteras Negras nos anos 70. O darwinismo exala, porém, um odor de fatalidade. Há algo de conformista em sua resignada aceitação de tudo o que existe como resultado ótimo de um longo preparo. Como teoria, exemplifica os aspectos em que o iluminismo anglo-saxão diverge da versão continental: é gradualista, enfatiza antes as linhas de continuidade que as de ruptura, considera que a natureza humana é egoísta e não potencialmente virtuosa. A psicologia evolutiva traz o fatalismo implícito na teoria da seleção natural para muito perto de nós, e seu timbre conservador soa demasiado familiar para não levantar suspeitas.

Talvez as ciências humanas possam reencontrar algo da vitalidade perdida no esforço, que se espera delas, de criticar o assalto intelectual do neo-darwinismo, desde que a refutação não se limite a palavras de ordem. Na expressão do sociólogo americano Lee Ellis, sua disciplina precisa superar a atitude “biofóbica” que a caracteriza, não sem motivos, desde o começo do século XX. Talvez para persuadir de que o panorama descortinado por suas revelações não é tão desolador como parece, os neodarwinistas ressaltam que a espécie humana, tendo atingido a consciência e num passo seguinte o conhecimento científico, é a única que pode vir a dominar os genes, em vez de ser dominada por eles. Tudo indica que, mais cedo ou mais tarde, será tecnicamente possível interferir com segurança no repertório genético e recriá-lo. Depende das ciências humanas e não da biologia definir se esse futuro ainda envolto em névoas será mais parecido com o pior dos pesadelos ou com a maior das utopias.

Otavio Frias Filho

Otavio Frias Filho, jornalista, diretor de redação da Folha de S.Paulo, é autor dos livros de ensaios Queda Livre (Companhia das Letras) e Seleção Natural (Publifolha) e da coletânea teatral Cinco Peças e Uma Farsa (CosacNaify).

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