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De Jetsons a Flintstones

Desencantos tecnológicos do IBGE

Gustavo de Paula
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2007

Com certo alarde, o IBGE divulgou em abril o início da contagem da população brasileira em cidades de até 170 mil habitantes. A pesquisa é importante porque a partir do número de moradores de um município, o governo calcula o repasse de verbas para as prefeituras. O minicenso tinha duas novidades. O questionário traria uma questão inédita: “O cônjuge é do mesmo sexo?”. A intenção da pergunta é estimar o número de casais gays. A segunda inovação tinha cunho tecnológico. Assim como ocorreu com as urnas eletrônicas, o Brasil sairia na frente ao abandonar lápis, caneta e papel nos levantamentos demográficos. Pela primeira vez, palmtops seriam usados para gravar e transmitir informações de uma pesquisa desse porte.

Foram gastos 91,8 milhões de reais para comprar 82 mil aparelhinhos, feitos em Taiwan. Com eles, em vez de marcar o xis no papel, o entrevistador iria apenas clicar com a caneta de plástico na tela. Os resultados seriam processados em menos da metade do tempo exigido pela compilação manual.

Eram quase 8 da manhã de 16 de abril, início da pesquisa, quando o aposentado Luiz Carlos Curty Moreira foi buscar o crachá com seu nome (errado: “Corty”) e o palmtop no Ciep de Engenheiro Pedreira, em Japeri, na Baixada Fluminense. Ele é um dos 60 mil recenseadores recrutados por concurso público (750 mil inscritos) no ano passado. Durante três meses, o batalhão deve correr o Brasil para fazer 30 milhões de entrevistas. Todos participaram de um curso de 25 horas-aula para aprender a abordar a população e mexer no aparelhinho. Mas boa parte da turma ficou mesmo é transferindo arquivos pessoais de música e fotos. “Deixamos para facilitar a adaptação dos recenseadores”, explicou um figurão do IBGE. Quando o trabalho começou pra valer, a ferramenta foi bloqueada.

Costeleta e bigode bem aparados, camisa pólo verde e cinza, bolsa preta a tiracolo, calça jeans, Luiz Moreira, aos 61 anos, é um veterano das pesquisas. Desde 1970, já participou de nove levantamentos do IBGE. O bico engrossará a renda familiar em até 500 reais por mês. O valor depende do número de entrevistas; os recenseadores são remunerados por produção. Cada entrevista vale de 18 a 46 centavos, conforme a localização da área visitada.

Já no primeiro dia, Moreira soube que apenas quatro dos 29 palmtops de seu setor estavam funcionando. Saiu a campo com três colegas. Ao meio-dia, tentava ligar o aparelhinho pela décima vez. Nada. Só aparecia na tela o desenho de uma ampulheta rodando. “Esse treco não funciona”, disse. Depois de uma hora de tentativas frustradas, voltou para casa sem ter entrevistado ninguém.

Soube-se que parte da rede de transmissão de dados havia pifado. Por isso, a maioria dos aparelhinhos inteligentes não pôde nem ser carregada. Na verdade, quatro dias depois do início da pesquisa, o IBGE só havia conseguido programar 4 mil palms. Levaria ainda quase três semanas para completar o serviço.

No segundo dia, Moreira tomou uma decisão arriscada. Resolveu anotar as entrevistas à mão, num caderno de espiral. Achava que lidar com o aparelhinho era muito difícil. Sua desenvoltura eletrônica se resumia ao controle remoto da televisão. “Eu só tive dois dias para aprender a mexer naquilo”, disse. Incumbiu a filha mais velha de passar as entrevistas do caderno para o aparelhinho todas as noites antes do final da novela das oito.

Para implantar o uso dos palmtops em censos (os Estados Unidos, esse paisinho que ainda está na idade da pedra, tecnologicamente falando, só pensam em fazê-lo por volta de 2 010), o IBGE montou uma estrutura formidável. Todas as cidades seriam habilitadas a transmitir os dados. Foram instalados 1 111 computadores em escolas, prefeituras e associações, para enviar as pesquisas por cabo ou via satélite diretamente à sede do instituto, no Rio de Janeiro. Nas outras 4 500 bases, onde não havia computador, as informações seriam passadas por Bluetooth, recurso que conecta o palmtop a um modem sem usar fios.

No meio do terceiro dia, Moreira se sentiu perdido. Estava diante de uma casa que ele não sabia se integrava o seu setor ou se era atribuição de um colega. Tentou então se localizar num mapa de papel. Outro problema ocorrera com o palmtop: a conexão capenga não permitiu baixar um programa chamado GeoPad, que exibiria um mapa digitalizado da área destinada a cada recenseador. Na dúvida, Moreira resolveu fazer a entrevista. Gastou 25 minutos. No fim do dia, o supervisor informou que aquela casa estava fora do seu setor. O trabalho havia sido em vão. O GeoPad nunca funcionou.

 

Em Japeri, os chefes de Moreira descobriram que ele e metade dos colegas boicotavam o palmtop. “Resolvemos fazer vista grossa porque, na verdade, os que estavam anotando à mão trabalhavam melhor, mais rápido”, disse um dos chefes, que preferiu ficar anônimo “para não criar confusão com o pessoal”.

No início da segunda semana, Moreira foi informado de que devia ficar em casa. Havia um problema técnico: era impossível transmitir os dados do posto de Japeri. Segundo o IBGE, o problema estava nas linhas telefônicas. “Temos de usar linhas locais, que são de péssima qualidade, para discar o 0800 da Embratel”, explicou Heleno Mansoldo, coordenador de informática do censo. Em junho, cerca de 500 postos continuavam sem condições de transmitir qualquer tipo de informação.

O mesmo ocorreu com as transmissões via satélite. Nos 583 municípios em que se programou o uso da tecnologia, o resultado foi um fiasco. Bastava chover para o vento deslocar a antena, interrompendo a conexão.

Moreira passou a enfrentar outro problema desmoralizante: o pagamento do posto de Japeri estava um mês atrasado. O sistema que controla o trabalho do entrevistador e o impede de inventar entrevistas (logo, também de incrementar artificialmente seus vencimentos) tinha travado. O IBGE não podia calcular quem tinha feito o quê. E, portanto, não podia estabelecer o salário de cada um. Em 8 de junho, quase dois meses depois de ter começado as entrevistas, Moreira ainda não tinha visto a cor do dinheiro.

E o processo continuava caótico. Foi quando o IBGE resolveu lançar mão de outra tecnologia de ponta: o correio. Autorizou os postos a copiar os dados em CD e mandá-los por malote. Também permitiu que os entrevistadores enviassem as informações das pesquisas de seus computadores domésticos. Ou seja: depois da janta, o recenseador, de pijama e banho tomado, instalado na sala de sua casa, poderia passar ao IBGE os dados de uma das maiores e mais importantes pesquisas brasileiras. Como começou a dar certo, a ousadia foi além: liberou-se a utilização dos serviços de cibercafés e lanhouses para transmitir os dados.

Em Japeri, foi comunicado aos recenseadores que a última entrevista – a lápis, vá lá – precisa ser feita até o dia 31 de julho. O resultado tem de estar pronto um mês depois. Com ar desconfiado, Luiz Moreira disse: “Quero só ver”.

Gustavo de Paula

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