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Dentro do pesadelo

As memórias de Waldir Peres
João Gabriel de Lima
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ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2017

A autora não reconheceu o personagem no primeiro telefonema. “Alô? Aqui é o Waldir Peres”, disse ele. “Quem?”

A autora, Jeanette Rozsas, é reconhecida principalmente no universo da literatura infantojuvenil. Seu livro As Vidas e as Mortes de Frankenstein foi finalista do prêmio Jabuti em 2016. A literatura de terror faz parte de seu universo ficcional. Mas ela nunca havia escrito nada sobre esporte. “Não sei nada de futebol, não sabia quem era o Waldir”, afirmou.

O personagem, o goleiro Waldir Peres, queria contar em livro as histórias que viveu no futebol. Ele é lembrado principalmente por uma delas – justamente a mais inglória. Em 14 de junho de 1982, a Seleção Brasileira estreava na Copa da Espanha. Os jogadores ficaram hospedados num hotel nos arredores de Sevilha, um castelo que parecia cenário de filme antigo. “Logo na primeira noite naquele hotel tive um sonho que me fez acordar no meio da noite suando frio”, relembrou o goleiro. “Sonhei que havia nascido um chifre na minha mão esquerda. Mal sabia eu que o sonho me avisava, sim, de algo ruim que estava para acontecer logo, logo.”

Se o biógrafo de Peres fosse um cronista esportivo, tal detalhe não teria muita importância. Para Rozsas, leitora de Kafka e Poe, o protagonista não era um herói dos estádios, mas um homem que tinha pesadelos – alguns deles premonitórios.

Chegou o dia do jogo. Aos 33 minutos do primeiro tempo, o meia soviético Andriy Bal chutou fraco da intermediária. Foi um dos maiores frangos da história das copas. “Quando fui defender, a bola bateu na minha mão esquerda, bem no lugar onde, no sonho, tinha nascido o chifre”, contou Peres. “O Brasil virou o jogo, mas para mim foi uma tragédia.”

O pesadelo é evocado em O Moço que Veio de Garça: Depoimentos de Waldir Peres para Jeanette Rozsas (o título remete ao epíteto criado pelo locutor Fiori Gigliotti, em alusão à cidade paulista onde nasceu o goleiro).

A Seleção Brasileira de Zico, Sócrates e Falcão encantou o mundo, mas parou no bom time da Itália na inesquecível tragédia do Sarriá. Perdeu por 3 a 2. Não havia muito que Peres pudesse fazer para evitar os três gols de Paolo Rossi, o que não impediu que levasse parte da culpa pela derrota.

“Sofri muito depois da Copa. Onde estivesse me chamavam de frangueiro. Voltei para o São Paulo e, perante públicos de 40 mil ou 50 mil pessoas, eu ouvia a palavra amaldiçoada, berrada a uma só voz: frangueiro”, contou. “Na rua, no cinema, no supermercado, com minha mulher, com meus filhos, o povo não se intimidava: frangueiro, frangueiro. Isso acabou comigo.”

 

Waldir Peres foi um dos melhores goleiros do Brasil numa época em que rareavam os bons arqueiros ao sul do Equador e ao norte do Prata. Foi também o grande ídolo do São Paulo da segunda metade dos anos 70. Os são-paulinos daquela época não se lembram de gols, mas guardaram nas retinas as defesas de seu goleiro. O tricolor dos técnicos Poy e Minelli conquistou dois títulos nos pênaltis. Em 1975, Peres pegou dois contra a Portuguesa. Na final do Campeonato Brasileiro de 1977, não defendeu nenhum, mas enervou os adversários do Atlético Mineiro, que erraram três – e o São Paulo conquistou seu primeiro título nacional.

Após ser ídolo do clube e camisa 1 de uma das melhores seleções que o Brasil já formou, Peres entrou em declínio. Nunca mais vestiu a faixa de campeão como titular. Abandonou o futebol no clube que o projetara, a Ponte Preta. Tentou a carreira de técnico – não vingou. Arriscou a política – não se elegeu.

Enfrentou um divórcio complicado, que corroeu seu patrimônio. Passou um tempo rompido com a família, arrebatado por uma paixão outonal. Ela era cigana e trabalhava em circo. Peres saiu de casa para ficar com a mulher que, no livro, é identificada pela letra S. Sem dinheiro, foi morar com a amada e os pais dela. Foi uma tragédia familiar. O filho mais velho se casou e não o convidou. A paixão acabou em brigas. Aos poucos, Peres fez as pazes com todos os personagens do enredo. Dos afetos, restou apenas a amizade.

Há dez anos, foi morar com a irmã, Isabel. Sabendo que Peres desejava escrever suas memórias, ela lhe apresentou a escritora Jeanette Rozsas, mãe de um colega. A biógrafa não gravou nenhuma entrevista com seu personagem. Anotou as conversas em cadernos, como se fosse psicanalista. Com atenção especial aos sonhos.

 

Para o poeta João Cabral de Melo Neto, o craque Ademir da Guia impunha, dentro de campo, o ritmo do homem dentro do pesadelo. Fora de campo e da metáfora, na mesma época em que Ademir brilhava, Peres tinha sonhos ruins. Entre os dois títulos dos quais foi herói – o de 1975 e o de 1977 –, viveu algo que define como uma crise pessoal. “Eu mesmo me estranhava: pensamentos sempre tristes, desde a hora que acordava; medo de dormir no escuro, sozinho no meu quarto; a impressão de que alguma catástrofe se aproximava.” Peres sonhava que defendia cidadelas medievais e era alvejado por balas de canhão. Entre sonhos e pesadelos, o goleiro narra no livro vitórias e alegrias. Talvez o personagem procurasse uma autora justamente para se livrar do estigma de herói trágico.

Há quase dois anos, Rozsas e Peres decidiram que era o momento de colocar a palavra “FIM”. O livro acaba com a descrição de um sonho, dos mais prosaicos: uma viagem de avião. “Olhei para fora: o fim de tarde era um dos mais belos que já vira, ainda ensolarado, o céu, um misto de tonalidades entre o rosa, o azul e o dourado. Fechei os olhos e senti quando o avião começou a correr na pista. Ia cada vez mais depressa, mais e mais, o som das turbinas me ensurdecendo, até que, suavemente, alçou voo.”

Peres morreu de infarto no domingo, 23 de julho, aos 66 anos. O Moço que Veio de Garça, previsto para sair pela editora Realejo, continua inédito. Há pouco mais de um ano, os responsáveis pelo projeto fizeram um crowdfunding para bancar a obra. Dos 30 mil reais necessários, arrecadaram apenas 4 460.

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