Em 1985, Raduan Nassar comprou a Fazenda Lagoa do Sino, no interior paulista, e se dedicou à agricultura até o ano passado, quando doou a propriedade, avaliada em torno de R$ 20 milhões, à UFSCar. Foi o desfecho de uma nova "virada radical" na vida do autor de <i> Lavoura Arcaica </i>
Ver dados da foto Em 1985, Raduan Nassar comprou a Fazenda Lagoa do Sino, no interior paulista, e se dedicou à agricultura até o ano passado, quando doou a propriedade, avaliada em torno de R$ 20 milhões, à UFSCar. Foi o desfecho de uma nova "virada radical" na vida do autor de Lavoura Arcaica FOTO: EGBERTO NOGUEIRA_IMAFOTOGALERIA

Depois da lavoura

Trinta anos após deixar a literatura, Raduan Nassar doa sua fazenda a uma universidade pública, abandona a agricultura e se recolhe em silêncio no Retiro Feliz
Rafael Cariello
Tamanho da letra
A- A+ A
Em 1985, Raduan Nassar comprou a Fazenda Lagoa do Sino, no interior paulista, e se dedicou à agricultura até o ano passado, quando doou a propriedade, avaliada em torno de R$ 20 milhões, à UFSCar. Foi o desfecho de uma nova "virada radical" na vida do autor de Lavoura Arcaica FOTO: EGBERTO NOGUEIRA_IMAFOTOGALERIA

Raduan Nassar abandonou a agricultura comercial há pouco menos de um ano, no dia 3 de agosto de 2011.

Até essa data, o autor de Lavoura Arcaica havia se dedicado profissionalmente à irrigação do arroz, à engorda de reses, ao plantio e à colheita de grãos por quase três décadas, desde que deixara claro, no início dos anos 80, que tinha interrompido sua carreira literária.

Raduan surpreendeu seus leitores numa entrevista em 1984 à Folha de S.Paulo. Sem dar muita explicação, disse que pouco tinha “a ver ainda com a literatura”. “Estou dando agora uma virada radical na minha vida”, resumiu. “Minha cabeça hoje fervilha com outras coisas, ando às voltas com agricultura e pecuária, procurando me enfronhar sobre tratores, implementos, formação de pastos, tipos de capim, braquiária, pangola, setária, humidícola”, enumerou o então novo produtor rural, visivelmente disposto a não abrir mão do rigor e da precisão vocabular que sempre cultivou.

A obra completa de Raduan Nassar até aquele momento, os romances Lavoura Arcaica e Um Copo de Cólera, publicados em 1975 e 1978, ocupava pouco mais de 280 páginas impressas – suficientes, contudo, para lançar seu autor a um patamar que muito poucos alcançaram na literatura brasileira da segunda metade do século XX.

Quando anunciou o fim de sua carreira literária, Raduan já possuía um pequeno sítio no sul do estado de São Paulo. No ano seguinte, compraria a Fazenda Lagoa do Sino, localizada no município de Buri, a cerca de 250 quilômetros da capital paulista. Com quase 640 hectares – unidade de medida que equivale à dimensão aproximada de um campo de futebol –, é uma propriedade de tamanho médio para São Paulo. Existem no estado cerca de 4 mil fazendas desse tipo, medindo entre 500 e mil hectares. Acima delas, pouco mais de 2 mil unidades rurais realmente grandes medem entre mil e 5 mil hectares, cada uma. No topo da pirâmide fundiária, quase 100 fazendas paulistas possuem mais de 5 mil hectares.

A atitude do escritor que, no ápice do sucesso, resolve abandonar seu ofício para se dedicar à agricultura já seria inusitada nos dias de hoje, quando o agronegócio voltou a ganhar proeminência. Nos anos 80, quando o ambiente em que Raduan circulava recebia vagas notícias pela tevê de um mundo rural pouco produtivo e arcaico, sua escolha causou perplexidade.

Em meados dos anos 90, em sua coluna na Folha, o jornalista Otavio Frias Filho constatou que a pergunta “Por que Raduan Nassar parou de escrever?” nunca deixou de representar um enigma. “No auge de uma carreira recém-começada, as traduções de vento em popa, quando seus leitores antecipam proezas ainda maiores que estavam por vir, de repente o escritor paulista anunciou que passava a arar outras terras, trocava a literatura pela agricultura, o que foi festejado como mais uma metáfora do mestre”, escreveu Frias Filho. “Mas não, a decisão era literal, quer dizer, agrícola.”

O cuidado minucioso dedicado desde então à Lagoa do Sino, a obra literal de Raduan, não passa despercebido para o visitante que cruza, ainda hoje, a porteira principal da propriedade e toma o caminho de terra que leva à sede. No terreno de topografia aplainada, com horizonte largo ao fundo, logo se vê à esquerda de quem entra um jardim de pequenas flores amarelas e azuis; do lado direito fica o corpo-d’água que dá nome à fazenda. A seguir, fazendo sombra à estrada, erguem-se eucaliptos e araucárias imponentes, num gramado amplo e bem aparado. Casebres de colonos se espalham pela propriedade, dando a impressão de terem sido recém-pintados de branco.

Embora a Lagoa do Sino se encontre dentro dos limites de Buri, apenas uma ponte a separa da pequena Campina do Monte Alegre, onde vivem cerca de 6 mil pessoas. A maior parte delas trabalha na agricultura. Nas épocas de colheita da batata, do feijão ou da laranja – atividades intensivas em mão de obra –, uma dezena de ônibus com faixas amarelas nas laterais e a inscrição “RURAIS” pintada por cima circula desde cedo em Campina do Monte Alegre. Estão ali para embarcar os boias-frias, depois das cinco da manhã.

Foi nessa região relativamente pobre do estado que Raduan se enfurnou e se dedicou com afinco a uma atividade de fins comerciais a partir de 1985. Criou gado e plantou arroz. Investiu em maquinário e na irrigação do solo. Nos primeiros anos, a propriedade lhe rendeu frequentes prejuízos. O cultivo da soja e do milho fez a fazenda finalmente deslanchar na década passada, quando passou a dar bons lucros.

Foi só então que o escritor tomou nova decisão, em tudo semelhante à que provocara perplexidade décadas antes: estava na hora de parar.

Poderia ter arrendado ou vendido as terras, o que lhe garantiria uma renda mensal mais do que confortável. Não tem filhos, mas nada o impedia de deixá-la para os irmãos e seus respectivos herdeiros. Raduan, no entanto, deu outro destino a seus quase trinta anos de trabalho.

Numa tarde azul e fria, em agosto de 2011, o escritor recebeu na casa térrea que serve de sede para a propriedade uma comitiva da Universidade Federal de São Carlos. Concluiu, numa breve reunião, a última etapa do processo de doação do imóvel, das benfeitorias ali realizadas e de quase todo o seu maquinário. A instituição de ensino superior se comprometia, segundo os termos do documento assinado pelo doador e pelo reitor Targino de Araújo Filho, a instalar na fazenda um campus universitário.

A USCar já começou a reformar a Lagoa do Sino. Pretende iniciar as atividades pedagógicas do novo campus em 2013 – a princípio, com um curso de agronomia. Mas estuda-se a abertura de outras áreas de graduação, como engenharia florestal, economia, ciências sociais e pedagogia. Como parte do acordo, a fazenda continuará a produzir.

Na escritura de doação, a Lagoa do Sino tem seu valor estimado em 11 milhões de reais. Alguns anos antes da transferência, um fazendeiro chegou a oferecer 18 milhões pela propriedade. Se somarmos o maquinário também transferido ao governo federal, a oferta de “porteira fechada” de Raduan vale um montante superior a 20 milhões de reais.

Mas a doação da fazenda à universidade é apenas uma parte – a etapa final – da nova “virada radical” do escritor. A primeira providência foi tomada ainda em 2004, quando Raduan loteou um vasto terreno que possuía em Campina do Monte Alegre. A área de propriedade do escritor foi repartida em 321 lotes de 300 metros quadrados cada. Quase metade dos terrenos foi doada, em 2007, a uma associação particular, encarregada de vendê-los, a preços subsidiados, aos trabalhadores da região. Outra parte dos lotes originais, dezenas deles, foi oferecida gratuitamente por Raduan a funcionários e ex-funcionários da Lagoa do Sino.

Eliseu Crispim Rodrigues tem 35 anos e se mudou para a região ainda criança, quando seu pai, Antônio, foi contratado por Raduan para fazer “serviços gerais”. Recebeu um dos lotes doados pelo escritor, onde construiu sua casa. Mora lá, embora ainda falte “o acabamento, por fora”. Na adolescência, Eliseu ajudou a cuidar do gado, na fazenda. Nos últimos anos, ficou responsável por dirigir a máquina colheitadeira. Diz que Raduan não aceitava funcionário “sem registro” e pagava melhor que os fazendeiros da região.

“É uma pessoa muito boa”, contou Eliseu no início de abril, enquanto tirava o chapéu de palha e enxugava o suor do rosto. No final da manhã, a calça jeans e a camisa de mangas curtas já tinham algumas manchas de cimento. “Seu Raduan se dava muito bem com criança”, disse, interrompendo a construção de um muro numa casa próxima aos silos de estocagem. “Tenho três filhos. De vez em quando ele botava as crianças todas na Saveiro dele e passeava dentro da fazenda. Perguntava coisas para elas. E conversava, conversava. Com a gente mesmo, com os funcionários, conversava só o necessário.”

Eliseu vê seu futuro com certo fatalismo. Diz que vai continuar “nessa lenga-lenga de lavoura” até que os novos donos da fazenda resolvam lhe dar “uma bica na bunda”. Raduan não chegou a explicar aos funcionários o motivo da doação. “Da boca dele mesmo, não falou. No dia de acertar as contas, no último dia, ele chegou a chorar. Ficou sem palavra.”

Poucos passos além do local onde Eliseu trabalhava, numa sala invadida pela luz do sol, o administrador da fazenda, Newton Santos Correa, procurava um número no celular com a ajuda dos óculos de leitura dependurados na ponta do nariz. Aos 53 anos, Newton tem sido o braço direito de Raduan Nassar em suas atividades agrícolas desde o início, no prejuízo e na abundância.

“A plantação de aveia é a coisa mais linda”, comentou, interrompendo assim uma discussão com funcionários da Federal de São Carlos sobre o preço da semente do cereal. Corpulento, o administrador tem a pele clara do rosto avermelhada pelo sol. Os cabelos grisalhos também adquiriram uma coloração extra, de tom esverdeado. Ele é simpático e gentil, embora desconfiado. Observações estéticas – sobre a beleza de um caramanchão, de um conjunto de bois no pasto ou sobre as cores da aveia e do trigo – são comuns em sua boca, o que não denota falta de entusiasmo pelos aspectos mais práticos da vida rural.

Nos últimos meses o administrador tem ocupado uma sala desprovida de adornos, próxima à entrada da propriedade. Um pequeno calendário era o único objeto que pendia da parede do escritório. Sentado numa cadeira de plástico, diante de uma mesa simples de madeira, Newton relembrou o início difícil da Lagoa do Sino.

Quando Raduan adquiriu a propriedade e o convidou a administrá-la, “estava tudo caindo”, ele disse. “A fazenda estava malcuidada mesmo.” Pior: nem ele nem o futuro patrão tinham experiência em agricultura comercial de larga escala. Haviam se conhecido durante a negociação para a compra de uma outra propriedade, bem menor, onde o administrador trabalhava. Raduan confiou em sua honestidade e capacidade. Fez ofertas cada vez mais altas de salário, mas Newton resistia.

“Seu Raduan, como é que eu vou sair de 20 alqueires para cuidar de 220?”, argumentou. “Se acertarmos, nós vamos acertar juntos. Se errarmos, vamos errar juntos”, prometeu o escritor.

Na conversa daquela manhã de abril, descreveu o ex-patrão de maneira carinhosa como um sujeito turrão. Em mais de uma ocasião, brigaram – numa delas, Newton ameaçou ir embora. Raduan, ele diz, sempre foi muito exigente, inclusive ao contratar serviços para a fazenda. Discutia com frequência com os pedreiros. “Tudo tinha que ser certinho; ele reclamava que as paredes não estavam alinhadas”, contou, sorrindo.

Na recente rodada de doações, Newton recebeu do ex-patrão não um lote, mas uma pequena fazenda de 112 hectares.

Raduan Nassar também fez uma doação indireta ao restante da população campino-monte-alegrense. Comprou o único clube da cidade, que estava abandonado havia alguns anos, e o destinou à mesma associação responsável pela venda dos lotes. Feitas as reformas necessárias, os moradores da região poderão ter acesso, ao custo de 8 reais por dia, a três piscinas, quatro quadras poliesportivas e um campo de futebol-soçaite.

O escritor recebeu da Associação Capaúva, donatária dos lotes e do clube, a promessa de construir na cidade a “Sala de Estudos do Trabalhador Rural” – uma espécie de centro comunitário, com biblioteca, computadores ligados à internet e auditório para a realização de cursos de capacitação profissional. A entidade, cujos integrantes têm experiência em trabalhos com assentados da reforma agrária, é presidida por Hamilton de Souza Silva, ex-candidato a vereador pelo PT no município de Castilho, no extremo oeste de São Paulo.

Miltinho, como é conhecido, diz ter “um bom vínculo de amizade” com o MST. É magro, usa óculos e fala de maneira pausada, com a voz aguda. Faz lembrar um seminarista. Seu grupo foi indicado ao escritor pelo religioso dominicano Carlos Alberto Libânio Christo, o Frei Betto. Amigo de Raduan, o ex-assessor especial do presidente Lula presta assessoria a movimentos sociais.

Ao transferir propriedades à Associação Capaúva, a Eliseu, a Newton, a dezenas de outros trabalhadores rurais e ao poder público, o escritor acabou abrindo mão da maior parte da riqueza de que dispunha – bem como da renda obtida das gordas safras da Lagoa do Sino. “Ele não doou apenas o que estava sobrando”, afirma seu contador, Messias Barboza, um católico praticante. Antes de concluir a transferência da fazenda para a Federal de São Carlos, Raduan  avisou: não queria dar publicidade a seu gesto. Se a imprensa estivesse presente, não assinaria a escritura.

Enquanto ainda se dedicava à literatura, Raduan falava pouco a jornalistas, e concedeu raras entrevistas desde que decidiu parar de escrever. Tem aversão a qualquer gesto que denote vaidade ou ostentação. O amigo Antonio Fernando de Franceschi, diretor editorial dos Cadernos de Literatura Brasileira,[1] conta que por alguns anos o escritor se recusou a usar a imponente sede da Lagoa do Sino, com seus 500 metros quadrados de área construída, como residência. Em suas temporadas na fazenda, preferia se hospedar numa construção bem menor, de dois quartos, situada a poucos metros da casa-grande.

A “relação complicada” de Raduan com o narcisismo, como a descreve Franceschi, ajuda a explicar seu silêncio, que terminou por alimentar a fama de personalidade enigmática. Falar, aliás, não é uma garantia de esclarecimento, e o escritor parece não ter por hábito se justificar sobre suas decisões. Em 1996, instado a dizer o que o havia levado a se dedicar inteiramente à escrita numa determinada época de sua vida para depois parar, afirmou: “Foi a paixão pela literatura. Como começa essa paixão e por que acaba, não sei.”

Já a origem da paixão pela agricultura pode ser localizada. É uma herança familiar. O pai do escritor, João Nassar, um cristão ortodoxo, trabalhou como lavrador no Líbano sob domínio do Império Otomano, antes de migrar para o Brasil com a mulher, em 1920. Chafika Nassar era, segundo o filho, uma criadora de mão cheia de galinhas e perus, e foi dela que veio seu gosto pela criação de animais.

Raduan nasceu no dia 27 de novembro de 1935, em Pindorama, no interior de São Paulo. Era o sétimo de dez filhos. Teve “uma das melhores alegrias da infância”, como a descreveria mais tarde, ao ganhar do pai, em 1943, um casal de galinhas-d’angola. No ano seguinte, teve início uma fase de fervor religioso. Ia à missa todos os dias para comungar e, em 1946, tornou-se coroinha.

Em 1953, a família se mudou para São Paulo. O pai abriu um pequeno armarinho no bairro de Pinheiros, o Bazar 13, que se tornaria uma das principais casas comerciais da cidade. Em 1955, Raduan decidiu ingressar simultaneamente na tradicional Faculdade de Direito do Largo de São Francisco e no curso de letras clássicas da USP. Antes do final do ano, abandonou a segunda graduação. Mas logo encontraria uma nova área de estudo para dividir suas atenções – filosofia na USP, que passou a cursar em 1957.

É dessa época a formação de seu mais próximo grupo de amigos do Largo de São Francisco, todos com aspirações literárias. Modesto Carone, que se tornaria o principal tradutor de Franz Kafka no Brasil, foi apresentado a Raduan por Hamilton Trevisan,outro aluno das Arcadas. José Carlos Abbate, que se tornaria jornalista, completava o quarteto.

A primeira grande fuga de Raduan – frustrada, é bem verdade – data também desse período. Numa crônica publicada em 1996 nos Cadernos de Literatura Brasileira dedicados a Raduan, Carone recorda “uma noite de largueza” em que o grupo de amigos bebia, como de hábito, num dos bares do centro de São Paulo. O tema recorrente das conversas, lembra o tradutor, era a relação entre a experiência e a literatura: “Quanto maior uma, melhor a outra.”

Seguindo uma lógica incontestável, alguém teve a ideia: deviam embarcar num navio para qualquer parte, partindo do porto de Santos, e só voltar “com a obra pronta”. “Acreditávamos plenamente que ia dar certo”, disse.

“Quase quarenta anos depois”, escreveu o tradutor de Kafka, “é difícil dizer quem parou o táxi junto à calçada. Hamilton, Raduan e eu entramos e Abbate ficou para informar as famílias sobre nossa partida. Mandamos o chofer rumar para o porto de Santos.”

Como não tinham dinheiro sobrando nem passaportes, só lhes restava a esperança de embarcar clandestinamente. Mas, no porto, uma “implacável grade de ferro” os separava do cais. Avistaram ao longe um portão aberto e bem iluminado. Sentado num banco alto, um empregado portuário que figuraria melhor num conto do escritor tcheco guardava a passagem, enquanto tocava uma improvável clarineta. “O funcionário ouviu as alegações com paciência, soprou no instrumento umas notas da Cavalgada das Valquírias e disse que era impossível”, escreveu Carone.

“Acho que ali acabou a nossa adolescência”, concluiu o tradutor, durante uma entrevista recente por telefone.

Isso não impediria Raduan Nassar de tentar novas fugas. No que seria seu último ano na faculdade de direito, em 1959, abandonou o curso do Largo de São Francisco. Carone afirma que, à época, o amigo não deu maiores explicações sobre sua decisão – “Apenas parou de ir.”

Concluiria o curso de filosofia bem mais tarde, em 1963, depois de se desligar dos negócios da família – que via prosperar o Bazar 13 – e passar uma temporada no Canadá e nos Estados Unidos. Recusou, nessa mesma época, uma oferta para ser professor no departamento de pedagogia da USP. Em 1965, começou a se dedicar à criação de coelhos. No ano seguinte, passou a presidir a associação brasileira dos criadores do animal, mas essa atividade também foi interrompida em 1967.

Numa entrevista para a revista Veja, no final dos anos 90, Raduan aludiu à trajetória incomum que o transformava em objeto de permanente curiosidade. “Abandonei o curso científico e pulei para o clássico, abandonei um curso de letras na universidade, o curso de direito no último ano, a empresa familiar assim que meu pai faleceu. Abandonei ainda uma criação de coelhos, o jornalismo e outras coisas mais. Tudo somado, só levei a pecha de inconstante. Por que só quando abandonei a literatura eu teria me transformado em personagem fascinante?”

O início da atividade jornalística a que o escritor se refere coincide com o fim da criação de coelhos. Em 1967, Raduan fundou com os irmãos o Jornal do Bairro, publicação paulistana que, apesar do nome modesto, abria espaço para temas de política nacional e internacional.

Segundo o escritor, o jornal “fazia oposição ao regime da época e identificava-se com as reivindicações do então chamado Terceiro Mundo”. Em abril de 1974, deixou a direção do semanário, que já alcançava a expressiva tiragem de 160 mil exemplares por edição. Nos seis meses seguintes, se dedicaria exclusivamente a escrever seu primeiro romance, trabalhando às vezes mais de dez horas por dia.

Lavoura Arcaica é a história de uma fuga – e de suas consequências. O jovem André, protagonista e narrador do romance, encontra-se no quarto de uma velha pensão interiorana no capítulo inicial da obra. Deixou para trás a casa da família, uma propriedade rural em que numerosos irmãos e irmãs, o pai severo e a mãe acolhedora vivem em relativo isolamento do mundo.

O irmão mais velho, Pedro, é encarregado de cumprir a “sublime missão de devolver o filho tresmalhado ao seio da família”, e vai ao encontro de André. O caçula é repreendido, a princípio de forma amorosa. “Meu irmão prosseguia na sua prece, sugerindo a cada passo, e discretamente, a minha imaturidade na vida.” Segue-se um discurso de apresentação da vida familiar e a exposição de motivos do jovem narrador, que ocupa a maior parte da obra. O adolescente desgarrado contrapõe seu ceticismo – mais do que a ânsia de liberdade – ao relato dos sermões do pai, que em tom solene faz a defesa da ordem familiar, do comedimento, da temperança e da paciência.

Uma das forças do romance está no fato de André expor tanto as crenças do pai quanto a sua própria descrença de maneira equilibrada e com igual rigor de argumentos. Não é fácil recusar o grão de verdade existente nos valores do chefe da família, cujo discurso se ergue contra qualquer ameaça de desordem.

“O tempo é o maior tesouro de que um homem pode dispor; embora inconsumível, o tempo é o nosso melhor alimento; sem medida que o conheça, o tempo é contudo nosso bem de maior grandeza: não tem começo, não tem fim”, alerta o pai, aos filhos, da cabeceira da mesa.

“O equilíbrio da vida depende essencialmente deste bem supremo, e quem souber com acerto a quantidade de vagar, ou a de espera, que se deve pôr nas coisas não corre nunca o risco, ao buscar por elas, de defrontar-se com o que não é”, afirma. Mas “ai daquele que queima a garganta com tanto grito: será escutado por seus gemidos; ai daquele que se antecipa no processo das mudanças: terá as mãos cheias de sangue; ai daquele, mais lascivo, que tudo quer ver e sentir de um modo intenso: terá as mãos cheias de gesso, ou pó de osso, de um branco frio, ou quem sabe sepulcral […]”.

André ainda tentará convencer o pai de que seus esforços e seus conselhos são vãos. “Toda ordem traz uma semente de desordem; a clareza, uma semente de obscuridade.” O chefe da família se mostra surpreso. “É muito estranho o que estou ouvindo”, diz ao filho. “Estranho é o mundo, pai, que só se une se desunindo; erguida sobre acidentes, não há ordem que se sustente.”

O tema rural e patriarcal e a prosa de acento bíblico de Lavoura Arcaica destoavam do ambiente dominante da literatura brasileira dos anos 70. “O livro do Raduan impacta pelo contraste e é recebido como uma coisa estranha”, afirma Homero Vizeu Araújo, professor de literatura da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, especialista na produção literária brasileira da segunda metade do século XX.

A característica que unifica um conjunto amplo de livros e autores daquela dezena de anos é uma espécie de ressaca, de decepção com o Brasil moderno real que surgia na esteira do golpe de 1964, muito distinto das promessas harmoniosas de uma ou duas décadas antes. Obras importantes daquele momento, como a prosa de Rubem Fonseca, se ocupavam da desordem e da violência das cidades, dos efeitos, explícitos ou tácitos, da ditadura militar.

A estranheza de Lavoura Arcaica foi bem recebida, contudo. No ano seguinte ao de seu lançamento, a obra ganhou os principais prêmios literários do país: melhor romance, da Academia Brasileira de Letras; o Jabuti, na categoria Autor Revelação; e uma menção honrosa da APCA, a Associação Paulista de Críticos de Arte.

O fato de André ceder aos apelos do irmão mais velho e retornar às promessas de conforto familiar fez com que o enredo do romance fosse com frequência comparado à parábola bíblica do filho pródigo. No Evangelho de Lucas, o irmão mais novo de uma família abastada exige sua parte da herança e abandona a casa paterna. Partindo para um país longínquo, logo dissipa todos os seus bens, “vivendo dissolutamente”. Decide então voltar, para se oferecer como simples trabalhador assalariado ao pai, mas este o perdoa, sacrifica um novilho gordo e lhe oferece uma festa de boas-vindas.

No romance de Raduan, no entanto, os insistentes sermões do pai já são um indício da fragilidade da ordem que pretendiam reforçar. André foge de casa como reação a um outro impulso, confinado ao âmbito familiar, mas também desregrado: o desejo incestuoso pela irmã, Ana. Na celebração de sua volta, a irmã surge coberta dos enfeites de prostitutas que o adolescente trouxera na mala, e dança de maneira provocativa, para desespero do pai, que, descontrolado, a atinge com um golpe de foice.

“Ao contrário do filho bíblico, que vai se submeter à ordem, André provoca uma crise”, afirma Araújo.

Ao expressar um ceticismo que guarda relação com o de seu personagem e abandonar a literatura, Raduan também provocou uma crise considerável – pelo menos do ponto de vista de quem cultua a produção literária e faz discursos em seu louvor com solenidade análoga à do pai de André.

A incompreensão que cercou sua decisão, a esperança de que não podia estar falando sério ao igualar a invenção de romances à criação de galinhas, ensejou apelos de acolhimento tão sedutores quanto o carinho da mãe e das irmãs do narrador de Lavoura Arcaica.

Num ensaio sobre a obra do escritor, de 1996, a crítica Leyla Perrone-Moisés se referia ao “impaciente Raduan, que finge não acreditar no valor da literatura apenas porque sua ação no mundo não é imediata e visível”. De maneira esperançosa, conclui o seu texto assinalando que “o deus da literatura nem sempre abandona os que dele descreem”. “Esperemos que, se Raduan abandonou a literatura, a literatura não o tenha abandonado, e o traga de volta a seus leitores.”

“Impaciência”, “abandono”, “volta”. A escolha de palavras não poderia ser mais significativa do paralelo estabelecido, explicitamente, entre o escritor e seu personagem.

A desfeita do autor de Um Copo de Cólera aos valores da tradicional família literária provocou reação menos generosa por parte do crítico e jornalista José Castello. Em texto publicado no livro Inventário das Sombras, de 1999, Castello conclui que “Raduan Nassar não suportou ser um grande escritor e desistiu da literatura para criar galinhas”. De maneira oblíqua, lamenta que ele não retorne ao lar. “Trocou a criação estética, que é complexa e desregrada, pela mecânica suave da avicultura, e parece muito satisfeito com isso, tanto que, resistindo a todos os apelos, se recusa a voltar atrás em sua decisão.”

A“criação de galinhas” de Raduan Nassar possuía, ao ser doada, quatro tratores, três plantadeiras, uma colheitadeira, duas máquinas pulverizadoras de agroquímicos, quatro silos de estocagem – dois com capacidade para 7,5 mil sacas de 60 quilos cada, e outros dois capazes de armazenar até 17,5 mil sacas – e uma máquina de secagem de grãos, abrigada num prédio cujo pé-direito mede 6 metros de altura.

Sua complexa engrenagem, de mecânica pouco suave, passou a ser gerida, após a transferência de posse, por uma fundação ligada à Universidade Federal de São Carlos. Na primeira semana de abril, Valter Secco e José Eduardo Martinez, funcionários da entidade, chegaram para uma visita de dois dias à Lagoa do Sino, o que fazem com frequência semanal. Os dois são, para todos os efeitos, os atuais administradores da fazenda. Dividem a tarefa com Newton, o antigo responsável pela propriedade, que deve continuar a prestar os seus serviços até que os cursos de graduação comecem a funcionar.

Secco e Martinez vinham acompanhados do engenheiro Ricardo Rizzo Correia, representante da Federal de São Carlos encarregado de fiscalizar as obras que começam a ser realizadas na fazenda, a cargo de uma empresa terceirizada. Os três usam as instalações da sede da propriedade para trabalhar e guardar objetos pessoais, mas se hospedam em Campina do Monte Alegre.

Rizzo tem 40 anos, mas aparenta menos. O ex-professor universitário Valter Secco, aos 61, é administrador rural de primeira viagem. Os dois são práticos e bem-humorados. Decidem me levar para conhecer uma das joias da coroa da Lagoa do Sino. São três “pivôs”: grandes braços metálicos com inúmeras saídas para a água, como pequenos chuveirinhos, ao longo de centenas de metros de comprimento. O sistema de irrigação gira lentamente, preso a um eixo central, e garante ao agricultor relativa independência do imprevisível regime de chuvas e secas a que antes ficava sujeito.

É em direção ao menor deles, com um “braço” de pouco mais de 300 metros, que o administrador e o engenheiro se deslocam. Os outros dois, distantes dali, têm raios de alcance de mais de 500 metros cada.

Num passo vagaroso, seguimos a estrutura metálica de irrigação. A cada 50 metros há um par de rodas de trator que, em conjunto, sustentam a máquina. São oito minutos de caminhada até o centro do plantio, na parte mais elevada do terreno. Quase na linha do horizonte erguem-se pequenos morrotes, salpicados de branco. Cada pontinho é um boi. Secco explica que o gado pertence ao irmão de Raduan, Rauf Nassar, dono da fazenda vizinha, sede da Agropecuária Guatambu.

A ligação da família Nassar com a região começou no final dos anos 60. Uma lei da época concedeu incentivos fiscais às empresas que comprassem terras para reflorestamento. O Bazar 13 decidiu então adquirir uma extensa propriedade em Buri, com essa finalidade. As terras viriam a ser divididas, na década seguinte, entre os irmãos. Com a venda de sua parte, Raduan comprou o pequeno sítio vizinho à Campina do Monte Alegre e, mais tarde, a Lagoa do Sino. O sistema de irrigação aumentou a produtividade da fazenda. Já os silos de armazenagem permitem guardar a safra por meses a fio, o que amplia a capacidade de barganha do produtor – à espera de um melhor preço de mercado. Toda essa aparelhagem foi adquirida aos poucos, ao longo dos anos 90, explica Newton.

Raduan é descrito pelo administrador e por Valter Secco como um negociador duro. A última safra de soja da Lagoa do Sino foi vendida por 51 reais a saca. Haviam colhido 21 mil sacas do grão. “Você faz a conta”, provocou Secco, com um sorriso nos lábios. A receita da fazenda, para um único produto, ultrapassa 1 milhão de reais. Cada alqueire agriculturável da terra – o equivalente a 2,4 hectares – poderia ser arrendado, na região, por até 2 mil reais. Isso significa que Lagoa do Sino é capaz de gerar uma renda anual, livre de qualquer custo, de pelo menos 360 mil reais. Bem tocada – como é –, rende muito mais.

“A fazenda é exemplar, é fantástica, é de cair o queixo”, avalia o agrônomo Antonio Roque Dechen, ex-diretor da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, a Esalq, da USP. Dechen, hoje vice-reitor administrativo da Universidade de São Paulo, negociou com Raduan a possibilidade de a propriedade ser doada à instituição onde o escritor se formou.

O longo e penoso processo de tentativa de doação da Lagoa do Sino começou em abril de 2007, quando Raduan enviou uma carta à USP fazendo a oferta. Passaram-se meses sem resposta, segundo o contador Messias Barboza, até que o escritor procurasse diretamente o governo do estado. Precisou reiterar a sua intenção de transferir a propriedade, gratuitamente.

“Nos colocaram então em contato com a direção da Esalq”, afirma Barboza. Professores e alunos fizeram visitas à fazenda – vinham em grupos grandes, de ônibus, e demonstravam satisfação irrestrita com o que viam. Dechen não nega o entusiasmo, mas explica que mesmo assim as negociações chegaram a um impasse. A Esalq avaliava ter encontrado “um lugar fantástico para um polo avançado, em que alunos pudessem fazer, por exemplo, estágios de conclusão de curso”. Mas Raduan, segundo o vice-reitor da USP, fazia questão de que o novo campus oferecesse cursos de graduação.

A universidade tinha dúvidas sobre a viabilidade de novas faculdades na região. Segundo o ex-diretor da Esalq, não era possível garantir que haveria demanda por parte dos estudantes. “Virão cinquenta alunos de agronomia? Com as escolas que já existem? E iam morar onde? Não podia dar a garantia de que iria abrir um curso”, argumentou Dechen.

Barboza diz ter recebido outra explicação da USP. Numa carta a Raduan, a universidade alegou não poder garantir os investimentos exigidos pelo escritor em sua propriedade – a construção de 7 500 metros quadrados em novas instalações – para realizar a doação. “Não sabemos por que não deu certo”, diz o contador.

As negociações se estenderam por mais de dois anos e meio, até o final de 2009. Segundo Newton, o escritor se desgastou bastante nesse período. “Seu Raduan não sabia se plantava, se não plantava. Ficou decepcionado.”

Já em 2010, o proprietário da Lagoa do Sino foi convencido a procurar o governo federal, uma alternativa levantada por Messias Barboza enquanto ainda corriam as negociações com a USP. Dessa vez, tudo andou mais rápido, talvez pela força das relações pessoais, talvez pela sintonia de projetos.

Um conhecido de Raduan e amigo de Gilberto Carvalho, o atual secretário-geral da Presidência, relatou ao então chefe de gabinete de Lula as dificuldades enfrentadas pelo escritor para doar a fazenda. A possibilidade de transferência da propriedade a uma universidade federal foi discutida entre Carvalho e o presidente, que repassou a tarefa a Fernando Haddad, então ministro da Educação.

“Recebi um telefonema do Gilberto Carvalho, falando do caso”, disse o candidato do PT à prefeitura de São Paulo. “Quando ele me ligou, estávamos planejando uma terceira fase de expansão das federais.”O local da fazenda casava com os interesses do governo, explicou Haddad, por se tratar de uma região onde “não havia oferta de educação pública”.

A transferência só foi concluída no governo Dilma. Com um custo extra para o escritor. Pela lei brasileira, o imposto de renda sobre ganho de capital – a diferença entre o preço de aquisição e o valor do mesmo bem na hora da transferência – é devido mesmo nos casos de doação. Por entregar gratuitamente sua fazenda ao poder público, Raduan foi taxado em 483 mil reais.

Quase todos os interlocutores do escritor no processo de doação da Lagoa do Sino se referem à ansiedade de Raduan para concluir a transferência. Antonio Roque Dechen disse não ter conversado explicitamente sobre as razões que levaram o escritor a se desfazer da fazenda. “Depois de um determinado momento da vida, os dias correm rápido, você vê que o seu tempo vai passando e começa a dar maior agilidade a essas decisões”, limitou-se a dizer.

Numa conversa em abril, na sala improvisada que serve como escritório administrativo para a fazenda desde a doação, Newton explicou que o ex-patrão e amigo já não tinha nos últimos anos a mesma disposição para as tarefas cotidianas da propriedade. “A gente sentia que ele estava cansado”, comentou.

A interlocutores próximos, Raduan explicou que buscava, com as doações, devolver aos trabalhadores rurais o que deles havia recebido durante as suas quase três décadas de atividade. Notara, ao longo dos anos, a baixa autoestima de muitos lavradores, que teriam vergonha de ser identificados com a profissão. Do ponto de vista do escritor, a transferência de propriedades e a construção da “Sala de Estudos do Trabalhador Rural” – o centro comunitário em Campina do Monte Alegre – são uma tentativa, talvez utópica, de mudar essa realidade.

O autor de Lavoura Arcaica, de toda forma, não pretende se afastar do mundo rural, ao qual dedicou metade de sua vida adulta, como de resto nunca conseguiu se desvincular completamente da literatura. Ao mesmo tempo que se desfazia da fazenda, tratou de comprar uma nova. Seis vezes menor e vizinha à Lagoa do Sino, possui o sugestivo nome de Retiro Feliz.

Newton também é dono de uma casa na nova propriedade. Por um dos caminhos de terra da fazenda, ladeado por duas fileiras de velhos ciprestes, ele me conduziu a uma igrejinha discreta, de fachada branca e detalhes em azul. Diante da construção, o administrador se voltou para a estrada que havíamos acabado de percorrer e apontou na direção da casa principal. Chamou a atenção para a simetria de duas séries de edificações: “Está vendo? É tudo alinhado. É muito bonito.”

Newton explicou também que a nova propriedade não tem finalidade produtiva: “Tem um plantiozinho lá, mas vai virar pastagem. Não é mais para negócio. É para ver uns boizinhos.”

Raduan agora divide o seu tempo entre a beleza ordeira e sem opulência da Retiro Feliz, em Buri, e o apartamento que mantém em São Paulo. Numa dessas idas e vindas, o escritor recebeu, assim que chegou a São Paulo, uma mensagem minha. Ao convite para comentar, em entrevista, suas motivações e decisões, respondeu de maneira educada e gentil. Ao final, dizia: “Aqui entre nós, falando baixinho: prefiro o silêncio.”


[1]O publisher de piauí é presidente do Instituto Moreira Salles, que edita os Cadernos de Literatura Brasileira.

ASSINANTE PIAUÍ

Use o mesmo e-mail e senha cadastrados no site da Ed. Abril no ato da assinatura. Esqueceu a senha ou o e-mail ?