internacional

Desaparecido no deserto

Mistérios do seqüestro do engenheiro brasileiro no Iraque

Silvio Ferraz
ILUSTRAÇÃO: GUAZZELLI_2006

Ao tocar a pista do aeroporto de Guarulhos, em fevereiro, o Boeing 747 da Air France, procedente de Paris, trazia uma carga de esperança. Para a família Vasconcellos, de Juiz de Fora, os passageiros que poderiam vir com a boa-nova eram um engenheiro da Odebrecht e um empreiteiro jordaniano, embarcados em Amã. Eles traziam uma pequena caixa de isopor, hermeticamente lacrada, com um dedo mínimo envolto em gelo seco. Amputado de uma mão direita, o dedo saíra de um vilarejo na fronteira do Iraque com o Irã. Ele foi levado com rapidez para Campinas, para o Centro Médico Especializado Professor Walter Pinto Jr., onde uma equipe de legistas retirou-lhe diversas amostras, para serem comparadas ao sangue dos pais do engenheiro João José Vasconcellos Júnior. Se o DNA deles fosse compatível, haveria finalmente a prova de que o engenheiro, seqüestrado no Iraque em 19 de janeiro de 2005, estaria vivo. Em outubro de 2005, um outro funcionário da Odebrecht trouxera de Amã um chumaço de cabelos que, supostamente, seria de Vasconcellos. Ao recebê-lo, porém, os legistas descartaram-no logo como material capaz de identificar o DNA: o cabelo fora cortado rente, mas sem os bulbos, imprescindíveis para o exame.

A incerteza quanto ao destino do engenheiro, raptado na estrada de 180 quilômetros que liga a cidade de Beiji à capital do Iraque, Bagdá, assombra os dias e as noites de sua mulher Tereza, e de seus três filhos Rodrigo, Tatiana e Gustavo. Militares britânicos, que atuam na área do seqüestro, descartam a possibilidade de que Vasconcellos Júnior tenha escapado de seus raptores e fugido pelo deserto. Nas areias iraquianas, as temperaturas atingem 46 graus centígrados durante o dia, e a umidade não passa de 10%. À noite, o termômetro pode cair abaixo de zero. É freqüente o forte sopro do vento Shamal, que provoca tempestades de areia e inutiliza os aparelhos de GPS – Global Position System – essenciais à orientação na região.

Em São Paulo, no bairro de Vila Olímpia, o irmão do engenheiro, Luís Henrique Vasconcellos, diretor de um empreendimento imobiliário às margens do rio Pinheiros, fala sobre o seqüestro com cautela. Para abrir a conversa, ele pede cafés expressos à secretária, e de passagem nega qualquer divergência da família com o governo e com a Odebrecht. Diante de uma exposição sobre a viagem do chumaço de cabelo que pertenceria a seu irmão, pensa longamente antes de falar: “Essa reportagem não vai ajudar em nada”. Cala-se novamente, e pouco depois confirma a história. A história do dedo é mencionada. Luís Henrique passa as mãos abertas no rosto, aperta os olhos, empurra os óculos para a testa. Com vagar, baixa as mãos, ajeita os óculos confirma também o caso do dedo decepado e corrige o número de amostras: “Não foram cinco amostras, foram 12”. Nega ter ido a Dubai. Mas depois de alguns segundos em silêncio, confirma que, sim, esteve na maior cidade dos Emirados Árabes Unidos. Para buscar o corpo? “É”, responde.

Um grupo de funcionários da Odebrecht conhecido como “célula de inteligência” reúne-se periodicamente na sede da empresa, no Rio de Janeiro. Eles se recusam a dizer qualquer coisa sobre suas investigações a respeito do paradeiro de Vasconcellos. Um deles explica: a divulgação de informações, mesmo que irrelevantes, poderia “romper o tênue fio de interlocução” que pessoas ligadas à empreiteira mantêm com “um grupo extremista”, cujo nome não revela. Depois da entrevista frustrada, um dos integrantes da célula de inteligência esclarece, reservadamente, o significado das palavras tênue fio de interlocução: “Jamais se chegou a qualquer negociação concreta”.

 

Com vinte anos de Odebrecht, João José Vasconcellos Júnior é respeitado na empresa. Sua ligação estreita com a empreiteira é incompreendida por alguns de seus familiares. “Por que o João foi para uma região conflagrada, deixando para trás mulher, três filhos, seus pais e uma família unida, que já havia sofrido a perda prematura de um filho?”, indaga sua irmã Isabel Cristina. Cabelos negros compridos e gestos eloqüentes, ela atua, segundo sua própria definição, como a pedra no sapato da Odebrecht e do Ministério das Relações Exteriores, o Itamaraty. Na confortável casa do Vale do Ipê, bairro tradicional de Juiz de Fora, ela tenta organizar protestos contra o seqüestro. Ao longo da conversa, Isabel Cristina perde a convicção paulatinamente, até reconhecer: “Não tenho mais esperanças”. Casada com um libanês, conta que o marido conhece bem os costumes islâmicos e ressalta, entre eles, o de sempre se devolver o corpo de um adversário na guerra. “Os muçulmanos nunca enterram um inimigo”, diz Isabel Cristina. “Eles acreditam que, assim, enterrariam o inimigo no seio de sua família, e com ele, todas as suas maldições.”

Entre os parentes e amigos de Vasconcellos, variam as interpretações sobre a sua transferência para o Iraque, em plena insurgência contra a ocupação anglo-americana. Para uns, ele aceitou a missão para acelerar e melhorar a aposentadoria. Um engenheiro, em cargo de chefia numa grande obra, numa região conturbada, chega a ganhar US$ 70 mil mensais, além de um polpudo seguro de vida. Também adquire o direito a se aposentar mais cedo, e incorpora certas vantagens salariais. Para outros, o engenheiro, que tinha 50 anos quando desapareceu, apenas foi atrás do que sabia fazer –construir – já que em terras brasileiras pouco se constrói em sua área de especialização: estradas, aeroportos, barragens.

Seu irmão, também engenheiro, acha que ele embarcou na aventura iraquiana por crer que os Estados Unidos dariam conta da fatura bélica e política em poucos meses. “Quando João partiu, não havia a onda de atentados terroristas a que assistimos diariamente”, diz Luís Henrique. “Ele não mergulhou num caos, com probabilidade mínima de voltar, o cenário era outro, muito mais favorável.” Antonio Caiado, diretor-geral da Odebrecht nos Emirados Árabes Unidos em Abu Dhabi, tido pela família como um irmão de João, foi testemunha do entusiasmo com que o amigo encarou a transferência. “João estava no Equador, fazendo os trabalhos preliminares para a construção do aeroporto de Quito, quando recebeu o convite para dirigir as obras no Iraque”, lembra. “Conversamos sobre o assunto. Eu achava uma loucura, mas nada pude fazer. O João parecia uma criança convidada para ir à Disney.”

Em dezembro passado, o “tênue fio de interlocução” entre extremistas e a empreiteira registrou uma novidade: em troca de dinheiro, o corpo do engenheiro poderia ser devolvido. As conversações seriam iniciadas em Dubai. Marcelo Odebrecht, presidente da empreiteira, voou para Brasília, ao encontro do chanceler Celso Amorim, para expor a situação. O ministro lhe disse que a empresa deveria assumir o risco de pagar pelo resgate. “É melhor vocês darem o dinheiro para tentar obter o corpo; se for do João, tudo bem, se não for, paciência”, disse Amorim na conversa, presenciada por dois familiares do engenheiro.

 

Isabel Cristina conta que a empreiteira colocou à disposição do irmão US$ 1 milhão, para pagar o resgate nos Emirados Árabes. “Antes de Luís Henrique partir para Dubai, foi acertada uma série de providências”, diz ela. “O corpo seria entregue ao responsável pela embaixada do Brasil em Bagdá, o único funcionário a permanecer na região conflagrada.” Segundo ela, definiu-se até o tipo de avião que resgataria o cadáver: “Tinha de ser um avião que pudesse aterrissar no aeroporto de Juiz de Fora, sem criar alarde”. Nada disso aconteceu. O corpo não foi devolvido, nem qualquer interlocutor apareceu. Luís Henrique regressou e fez com que o milhão de dólares voltasse a quem de direito. Desde então, a família parece ter perdido qualquer esperança. Em todas as conversas, em algum momento, cada um deles deixa escapar: “Para mim, o João está morto”.

O dedo trazido do Iraque não serviu para nada. As amostras não eram compatíveis com o DNA dos pais do engenheiro. Maria de Lourdes, sua mãe, completou 80 anos, recentemente, na maior tristeza. “A cada dia sem notícias, morro mais um pouco”, diz ela, “Por que não dizem logo que o João morreu?”, pergunta o pai, choroso. Em agosto, a Interpol iniciou a “divulgação amarela” – um alerta geral para todas as suas agências, com amostras de sangue dos filhos e dos pais do engenheiro, além de um modelo da sua arcada dentária. A posição oficial da Odebrecht é a de aguardar alguma iniciativa dos raptores. Mas na célula de inteligência, que mantém contatos com o Itamaraty e empresas de segurança da Inglaterra e dos Estados Unidos, além dos serviços secretos de países da região, os olhares desalentados mostram que as esperanças são inexistentes.

Antonio Caiado diz que continua mantendo o nome do amigo em sua lista de endereços virtuais do MSN, tanto no computador de mesa como no laptop. “Ainda não sei por que faço isso, pois no fundo não acredito mais que ele volte, que esteja vivo”, diz. Caiado aponta para a realidade no Iraque como justificativa para o seu pessimismo: “São mais de 30 mortos diariamente, muitos seqüestrados. Acho muito, mas muito difícil mesmo, que se consiga resgatar uma prova do corpo, e muito mais difícil que esteja vivo”.

João Vasconcellos Júnior liderava um consórcio da Odebrecht com a firma americana Austin para a reconstrução de uma termoelétrica, bombardeada pela aviação americana no início da invasão. O contrato, no valor de US$ 64 milhões, fora assinado com o Corpo de Engenheiros do Exército americano. Um relatório dos militares resume a necessidade da obra: “Com a aproximação de março, a temperatura no Iraque sobe e a necessidade de energia aumenta”. Tratava-se de conseguir cerca de 270 megawatts – o suficiente para abastecer uma cidade com 200 mil casas – para reforçar a energia de Bagdá. Vasconcellos e sua equipe se empenhavam em reconstruir duas turbinas, de 135 megawatts cada, e construir duas linhas de transmissão.

Autora de um livro sobre o sumiço do irmão – Do outro lado do seqüestro, inédito – Isabel Cristina levanta questões surgidas da leitura do relatório feito pela Janusian, empresa britânica de segurança que trabalha para a Odebrecht. Ela e João conversavam diariamente por meio do Skype, o telefone via internet. Em 15 de janeiro de 2005, três dias antes do seu desaparecimento, ele parecia tenso. “João me explicou que o nervosismo era o normal na véspera de entregar uma grande obra, mas que a tensão se agravara porque o seu laptop havia sido roubado do canteiro de obras, em Beiji”, conta. Todas as informações financeiras da termoelétrica estavam no computador portátil. “Ele só não entrou em pânico porque tinha todos os dados armazenados em outro computador, mas mesmo assim, ficou extremamente nervoso”, diz sua irmã.

No dia seguinte, 48 horas antes do seqüestro, Isabel ligou novamente para o irmão, e ele respondeu: “Agora, não posso”. À noite, João chamou-a, e brincou: “Que irmã doida é essa que eu tenho? Eu digo que não posso atender, e ela responde ótimo“. “É porque assim sei que você está vivo”, devolveu Isabel. O engenheiro contou que, depois de entregar a obra, queria “apanhar as malas e voar para o Brasil, e dessa vez é para valer, Isabel”. Na última viagem a Juiz de Fora, Vasconcellos dera à mulher, a psicóloga Tereza, um relógio com dois mostradores, um com a hora do Brasil e outro com a de Bagdá. “Assim você vai poder ficar contando as horas”, brincou.

 

No dia 18 janeiro, Isabel tentou falar com o irmão “20 vezes”. Sem êxito. “Considerando o fuso horário, cinco horas a mais no Iraque, acho que ele já estava nas mãos dos guerrilheiros, ou morto”, acredita. Logo que foi informada do desaparecimento de seu funcionário, a diretoria da Odebrecht mandou um funcionário a Juiz de Fora para informar os pais dele. Simultaneamente, no Rio, um outro diretor, Enio Silva, providenciou o embarque para Miami da mulher Tereza e dos seus filhos. Os diretores da empreiteira acreditavam que, em Miami, a família poderia acompanhar melhor o desdobramento do atentado, pois é o escritório da Odebrecht na Flórida que controla a obra no Iraque. Todas as informações sobre o seqüestro seriam concentradas lá. Ainda em estado de choque, Tereza embarcou para Miami e foi instalada num hotel luxuoso. Seus filhos acharam que o pai não gostaria que se hospedassem num hotel caro, e a família toda se mudou para um outro, mais barato. “Papai era do tipo informal, que nas férias queria andar de bermudas e chinelo”, explica Rodrigo, o filho mais velho.

O embaixador do Brasil na Tunísia, Sergio Telles, soube do seqüestro pela televisão, depois de jantar com a mulher e os três filhos na sua casa, em Tunis. Consternado, saiu até o jardim para fumar. Minutos depois, voltou e, no escritório, escreveu um telegrama para o chanceler Celso Amorim, se oferecendo para participar da missão de resgate. Telles havia sido embaixador em Beirute por quase cinco anos. Conhecia bem generais que comandavam o serviço secreto libanês, tido como eficiente. Duas semanas se passaram antes do diplomata receber a autorização do Itamaraty. Pegou então a mala, que já estava arrumada, e partiu para Beirute, onde se encontrou com ministros, generais do serviço secreto e com o presidente do país, Émile Lahoud. Dos generais amigos ouviu a seguinte recomendação: siga todas as pistas possíveis. Do presidente Lahoud, quando se despediam, escutou um apelo: “Embaixador, não se deixe seqüestrar, por favor”.

Telles partiu em seguida para Bagdá, fazendo escala em Amã. Na capital iraquiana, foi recebido por um representante da empreiteira brasileira. Já no caminho para a casa da Odebrecht, no chamado setor verde, onde se localizam as embaixadas e escritórios das Forças Armadas americanas, o embaixador ouviu histórias pavorosas. Um representante da Janusian, que o acompanhava, aconselhou-o a andar com escolta permanente. Preço da segurança: US$ 50 mil. O Itamaraty ordenou que não aceitasse a proposta. O embaixador se abrigou na casa da Odebrecht, um misto de bunker e escritório. “Parecia um acampamento de fuzileiros, igual ao que se vê em filmes”, lembra. Na sala, curdos fortíssimos, com metralhadoras de último tipo ao alcance das mãos, faziam exercícios em aparelhos de ginástica.

O representante brasileiro entrou em contato com monsenhor Audi, o chefe da igreja greco-ortodoxa no Iraque, considerado um negociador hábil. O monsenhor ouviu a história de Telles sem interrompê-lo. Disse-lhe que iria manter abertos seus canais próprios para agir nessas circunstâncias. E recomendou que o governo brasileiro patrocinasse algumas inserções na programação das televisões árabes, pedindo a libertação de Vasconcellos. Sugeriu-lhe até o tom a ser usado nessas mensagens: “Não pode ser muito súplice, tampouco arrogante”. A Odebrecht custeou as inserções publicitárias.

Telles procurou os embaixadores da França, Itália, Japão, Líbano e China, que também tiveram cidadãos seqüestrados. Todos se mostraram preocupados. Acharam que era mau sinal os guerrilheiros só terem enviado à empresa uma carteirinha de mergulhador de Vasconcellos Júnior e algumas cédulas de reais. O embaixador francês estranhou que os seqüestradores não tivessem passado para o segundo ato: o pedido de resgate, acompanhado do envio de uma fita de vídeo com o seqüestrado pedindo clemência. Com a tarimba de quem havia, recentemente, contribuído para resgatar três compatriotas, o embaixador japonês interrompeu o brasileiro com um eufemismo, quando ele disse que os seqüestradores não haviam entrado em contato: “Isso quer dizer que o seqüestrado não está mais disponível”. Em outras palavras, Vasconcellos Júnior estava morto.

 

Passado um ano e meio do seqüestro, o embaixador Telles mora em São Paulo. Ele se aposentou e, na cozinha de sua casa, que está em obras, considera que o ataque na estrada de Beiji a Bagdá não visava o engenheiro brasileiro. Mexe com as pontas dos dedos as pedras de gelo de seu uísque e conta que, depois de tudo que apurou, acredita que o atentado buscava sabotar a obra da hidrelétrica, pois, em poucos dias, ela levaria 270 megawatts a mais de eletricidade a Bagdá. “A tensão política carregava a atmosfera naqueles dias”, diz. Ele recorda o seu encontro com o xeque Ha-Ridth al-Dhari, chefe supremo dos sunitas, na principal mesquita de Bagdá. “Com um pesado colete à prova de bala sob o paletó, saí da casa da Odebrecht para entrar no carro blindado e me encontrar com o xeque. Qual não foi minha surpresa, quando ouvi o chefe dos guarda-costas falar: ‘Lá nós não vamos’. Não tem problema, respondi, vou de táxi. ‘O senhor vai se arriscar nos cinco quilômetros mais perigosos do planeta? Isso é loucura’, me disse o motorista iraquiano. Quando viram minha disposição de ir de qualquer forma, dois deles resolveram me acompanhar.”

Ao chefe espiritual dos sunitas, facção do islã à qual pertence Saddam Hussein, o embaixador disse que Brasília não tinha qualquer contencioso com nenhum país árabe. Enfatizou que o Brasil sempre recebera árabes de todos os países com a mesma hospitalidade. O xeque al-Dhari balançou a cabeça, concordando – e não fez qualquer promessa concreta. Telles falou com políticos que formariam dentro em pouco o atual governo iraquiano. Eles acreditavam ter havido um erro: Vasconcellos não seria o alvo.

“As propostas que recebi foram as mais disparatadas possíveis”, recorda o embaixador. Foi procurado por um cidadão que lhe pediu US$ 20 mil para resolver a questão. Perguntado como o faria, explicou que compraria 70 carneiros, daria uma imensa festa para os chefes de clãs. “Enquanto comem, vou circular, conversando com todos”, disse. “Garanto-lhe que, no final da festa, terei o segredo desvendado.” O embaixador considera que o seu inimigo principal, em Bagdá, foi a incerteza. “Como costuma ocorrer no Oriente, tudo era absolutamente verdade, e tudo era absolutamente falso.”

No dia seguinte ao seqüestro, Isabel Cristina lembra que conversava com Rodrigo quando uma voz entrou na linha, e perguntou, em inglês, o nome do pai do engenheiro, da mãe, e onde ele nascera. “Depois de responder, aproveitei para avisar que João tomava remédio para tireóide.” O intruso saiu da linha dizendo: “Já sabemos tudo o que precisamos saber”. Na época, Isabel conversou com o ex-presidente Itamar Franco, então embaixador do Brasil em Roma. Engenheiro, ex-prefeito de Juiz de Fora e velho amigo da família Vasconcellos, Itamar prontificou-se a entrar em contato com o serviço secreto italiano, que tivera êxito em libertar a jornalista Giuliana Sgrena. Ressalvou que só poderia atuar se fosse autorizado pelo Itamaraty. Itamar disse a amigos, posteriormente, que não recebeu autorização da chancelaria. Mesmo assim, pediu à família do engenheiro que lhe enviasse documentos e preenchesse um questionário, preparado pelo serviço secreto italiano, com informações sobre o seqüestrado.

Houve uma ocasião em que a Odebrecht procurou a família Vasconcellos para obter sua concordância em relação a um projeto específico: a contratação de uma equipe de resgate, que tentaria libertar o engenheiro. Porta-vozes da empresa disseram então que nem a equipe de resgate nem a empresa teriam qualquer responsabilidade. O seqüestrado poderia ser resgatado vivo, ou morrer durante a operação. A família respondeu que esse era um problema exclusivo da empresa. O engenheiro assinara um contrato com a Odebrecht e, portanto, cabia a ela decidir. Um diretor da empresa explica que a proposta de resgate à força foi apresentada pela Janusian, a empresa britânica de segurança que trabalha para a Odebrecht ao preço de US$ 1 milhão ao ano. Ela não deu qualquer detalhe do plano ou indício do local onde o engenheiro estaria. Pelo sim, pelo não, a Odebrecht resolveu repassar a proposta à família, para depois não ser acusada de não ter feito tudo que era possível.

A versão mais aceita do que aconteceu na estrada de Beiji a Bagdá está num relatório da Janusian. O relatório informa que os veículos usados pela Odebrecht viajavam num comboio. No único posto de gasolina da estrada, uma enorme fila de carros aguardava o abastecimento. Ela era tão grande que bloqueava uma pista da estrada. Os carros dos funcionários da empreiteira contornaram o posto pela contramão e superaram o engarrafamento. Quinze quilômetros adiante, foram atacados. Os dois primeiros automóveis do comboio já haviam ultrapassado os atacantes quando os tiros espocaram. O terceiro carro era um BMW blindado, com vidros escurecidos por insulfilm, no qual viajava Vasconcellos. Como todos, ele vestia um colete à prova de bala. O BMW e o quarto veículo receberam fogo pesado. Os dois seguranças que viajavam com o engenheiro, um iraquiano e um britânico, tombaram mortos. A Janusian acredita que os atacantes eram combatentes (“mujahedin”) ligados à Al-Qaeda, a rede terrorista liderada por Osama bin Laden.

O embaixador brasileiro, com informações obtidas junto a diversos serviços secretos, contradiz em parte o relatório da firma inglesa. “O comboio tinha quatro carros”, diz. “Quando o primeiro carro passou, os terroristas o isolaram do comboio com uma caminhonete. O segundo carro foi separado do BMW não-blindado onde viajava João Júnior, por um caminhão. Sobre o carro de João e o último do comboio convergiu um enxame de balas das armas pesadas dos terroristas que, por sua violência, não deveriam estar interessados em deixar ninguém vivo.”

 

Apesar do tiroteio, não foi encontrada nenhuma mancha de sangue no estofamento do carro em que estava o engenheiro. Há a hipótese de que os passageiros tenham conseguido sair do carro junto com os seguranças, que buscariam uma melhor posição para responder aos disparos, enquanto aguardavam reforços. O relatório da Janusian, corroborando a hipótese, afirma que seus guardas sustentaram o tiroteio com o inimigo durante 20 minutos. “Só se fossem Rambos”, comenta ironicamente Isabel Cristina, apontando, na única foto que possui, para o tamanho dos rombos feitos no automóvel. “João pode ter saído do carro, ou ter sido feito prisioneiro, ou fuzilado ali mesmo”, deduz.

Passados mais de 500 dias do seqüestro, Rodrigo Vasconcellos, de 27 anos, camisa de seda de mangas compridas, fartos cabelos penteados para trás, come um hambúrguer em São Conrado, no Rio. Ele não acredita que seu pai estivesse no Iraque em busca de uma boa aposentadoria. “Onde tinha obra, papai estava lá”, diz. Rodrigo conta que a família acompanhou o pai em obras até na Patagônia. Os filhos estudaram em Buenos Aires quando o engenheiro se encontrava à frente de obras na Argentina e no Uruguai. Depois do Iraque, recorda Rodrigo, o plano do pai era trabalhar em Portugal. A ida ao Iraque foi uma coincidência. Vasconcellos desenvolvera um projeto de casas pré-fabricadas que foi apresentado ao Exército americano. O projeto foi elogiado e começaram as tratativas para a empresa desenvolvê-lo no Iraque. Atuando nos Estados Unidos há 15 anos, a Odebrecht recebeu uma permissão especial para participar da reconstrução do país, privilégio que só as empresas dos países que participam militarmente da invasão têm direito. No meio do caminho, tornou-se prioritária a reconstrução da termoelétrica que havia sido bombardeada.

A família Vasconcellos estava habituada às longas ausências do engenheiro. Ele virava então um pai virtual. “Quando estava do outro lado do mundo, ele era o namorado virtual de minha mãe”, diz Rodrigo. Ele conta que o pai comprou webcams para a família e para si próprio. Assim, poderiam se ver a qualquer hora. O engenheiro controlava os fusos horários e telefonava durante o jantar. “Aí, ele aparecia na tela do computador e nos contava o que havia feito durante o dia, perguntava o que tínhamos feito”, lembra Rodrigo. Sempre que vinha ao Brasil, era para estadias curtas. Ele logo avisava: “Só não quero saber de carne de carneiro”, o prato de resistência da culinária iraquiana. Ele levava de volta para o Iraque camisas da seleção brasileira, com o número de Ronaldo. Disse que os iraquianos sabiam que o Brasil era contra a guerra, e sempre fora tratado com amabilidade. Mesmo assim, Isabel Cristina insistia para que ele usasse uma camiseta da seleção brasileira por baixo da camisa. “Isabel, você acha que vou pagar um mico desses?” – perguntou o irmão recusando a idéia.

Rodrigo se formará em Informática no fim do ano. Ele administra o salário do pai, pago pela empreiteira com pontualidade, como se o engenheiro ainda trabalhasse. Paga as despesas de casa, dá para a mãe, psicóloga, o que ela pede, e mesadas aos irmãos. Sua irmã, Tatiana, formou-se em Odontologia e começará a clinicar em breve. Seu irmão Gustavo começou um cursinho pré-vestibular. “Eu e meu irmão nos aproximamos muito com a crise”, diz Rodrigo. “Converso com ele diariamente, trato de afastar seus medos e consolá-lo. Lá em casa, dividimos as tarefas. Tatiana paga as contas pela internet, Gustavo rastreia informações nos sítios árabes, e mamãe, ainda se restabelecendo do choque, recomeçou seu trabalho no consultório.”

Para deixar aberto noite e dia um canal de informações sobre o paradeiro do pai, Rodrigo mantém um blog. No dia em que o seqüestro completou um ano, ele recebeu 7.600 mensagens de solidariedade. “É um número expressivo que se iguala ao acesso de um sítio comercial”, avalia.

Ele diz que a família tem dificuldade em aceitar a idéia de que seu pai morreu. “Não podemos ficar sem saber nada, sem termos um fim para a trágica história de meu pai”, raciocina. “Se o governo e a empresa acreditam que meu pai não está vivo, cabe a eles tomar providências para que a morte seja declarada jurídica e oficialmente. Enquanto isso não for feito, continuamos a achar que há uma esperança.” No último réveillon em liberdade, Vasconcellos pediu aos filhos que apontassem a webcam em direção aos fogos, no Rio. Enquanto os rojões explodiam, iluminando o céu e a multidão em Copacabana, o engenheiro nada falou. Depois do show, com a voz comovida, disse: “Esta noite estou para lá de Bagdá”.

Silvio Ferraz

Silvio Ferraz é jornalista, autor de Antes do título.

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