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Deu chabu

O impeachment na cidade mais pobre do país
Paula Scarpin
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ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2016

Em outubro de 2014, às vésperas do segundo turno das últimas eleições presidenciais, o agricultor Antonio Donato de Andrade comprou duas caixas de rojões. Como queria assistir sozinho à apuração dos votos, despachou toda a família para a casa da filha, Piedade, logo ao lado, e colou a cadeira de balanço em frente à pequena televisão. Confuso com a enxurrada de números e de comentários políticos, teve a confirmação da reeleição de Dilma Rousseff não pela Globo, mas pela gritaria na rua. Nem por um segundo lhe ocorreu que a comemoração pudesse se referir à vitória do oponente Aécio Neves. “Aqui em Belágua dá quase para contar nos dedos quem não vota em Dilma”, disse no mês passado, balançando-se na mesma cadeira da qual pulou há um ano e meio. “O seu Manuel do comercinho, por exemplo, não vota. Eu falo que quem sustenta ele é a bolsa do pobre, mas ele gosta de dar uma de rico.” Naquela noite de 2014, o lavrador só não estourou todo o estoque de rojões porque Piedade, segurando seu caçula de 3 meses aos berros, implorou para o pai interromper a comemoração.

No dia 17 de abril, o domingo em que a Câmara dos Deputados decidiria se iria abrir o processo de impeachment contra Dilma, Andrade repetiu o ritual do segundo turno. Colocou-se diante da tevê já às onze da manhã. “Só levanto depois do último voto. Se ela ficar, termino de queimar os rojões que tenho aqui”, avisou, apontando para a caixa em que guardava os foguetes remanescentes de 2014. Na sala acanhada, com piso rústico de cimento, havia apenas quatro cadeiras voltadas para um imenso rack, que acentuava a pequenez da televisão. O único adorno era um pôster do papa Francisco. “Não frequento muito a igreja, mas gosto dele porque é colado com Lula e Dilma”, explicou o agricultor.

Localizada no norte do Maranhão, a minúscula Belágua ganhou notoriedade nacional em 2010, quando o último censo a apontou como o município mais pobre do país, com renda mensal per capita de 146,70 reais. No mesmo levantamento, Niterói (RJ), o mais rico, exibia renda per capita de 2 031,18 reais. Quatro anos depois, Belágua voltou à mídia, dessa vez porque o Tribunal Superior Eleitoral a indicou como a cidade brasileira que mais votou em Dilma – 92,3% dos eleitores no primeiro turno; 93,9% no segundo. A fidelidade dos munícipes ao governo federal fez Andrade acreditar que a presidente viria prestigiar o lugarejo perdido entre as duas principais atrações turísticas maranhenses: a capital, São Luís, e o Parque Nacional dos Lençóis. Só que Dilma jamais apareceu. “Queria mesmo era gastar o resto dos foguetes na visita dela, mas eu entendo, ela é muito ocupada…”, conformou-se o lavrador.

O prefeito Adalberto Rodrigues, do PT, demonstrou menos compreensão. Ele, que também nutriu a esperança de algum reconhecimento por parte da presidente, chegou a reclamar da mandatária numa reportagem do jornal O Estado de S. Paulo: “Nunca nos visitou nem fui convocado para uma audiência com ela. A presidente nunca sequer disse o nome de Belágua.” No “domingo do impeachment”, o prefeito não preparou nenhum evento de apoio à correligionária. Alegou que o gasto imprevisto com o conserto de uma bomba d’água havia minado os planos de montar um telão para o povo acompanhar a sessão da Câmara. Ele próprio assistiria à votação em São Luís – de onde pouco sai nesse fim de segundo mandato, conforme queixas frequentes dos belaguaenses.

Se instalado, o telão ficaria na única rua asfaltada do município, a do Sol, ou em suas imediações. Esse miolo urbano, sem coreto, pracinha ou igreja, concentra apenas uma pequena parcela dos 7 191 habitantes que se espalham pelos quase 500 quilômetros quadrados da cidade predominantemente rural. Na estação chuvosa, as estradinhas de terra alagam e várias comunidades se tornam pouquíssimo acessíveis. “A gente vai de moto, com água pela cintura”, contou o agente de saúde José Rocha. Mesmo a rodovia que liga Belágua a São Luís se encontra tão malconservada que é impossível percorrer seus 280 quilômetros em menos de cinco horas.

 

Andrade e a mulher, Nazaré, vivem no povoado de Pau Ferrado II, um dos mais próximos do Centro. As enchentes não costumam afetar a ruazinha de terra batida onde fica a casa deles, construída com adobe, um tijolo grande de argila, às vezes acrescido de capim ou palha. Ali, diferentemente do que acontece em outros povoados de Belágua, são raros os que habitam moradias de taipa, bem menos resistentes. Aos 71 anos, o agricultor grisalho e de bigode aparenta dez mais pelo rosto queimado de sol e vinte menos pelo corpo ágil talhado na enxada desde que se entende por gente, à semelhança de seus cinco filhos, netos, genro e praticamente todos os belaguaenses.

Atualmente, o lavrador e Nazaré estão aposentados. Juntos, recebem da Previdência Social dois salários mínimos, o que lhes permite ajudar o resto da família. Antes da aposentadoria, porém, sobreviviam somente do cultivo de milho, quiabo, maxixe, melancia e mandioca-brava, além da pesca e criação de frango. Apesar de sempre terem comida à mesa, os parcos excedentes da produção doméstica não rendiam o suficiente para “luxos” como biscoitos, sabonetes ou mesmo um guarda-roupa. Até hoje os cônjuges penduram os poucos trajes de que dispõem em três cordas de varal estendidas no único quarto do casebre. O banheiro, também único, se encontra do lado de fora. À custa de alguma economia, ambos conseguiram erguer uma residência idêntica à deles para Piedade. Os outros quatro filhos do casal, todos homens, não moram em Belágua.

Quem vive nos povoados que se espalham pela zona rural dificilmente vai ao Centro. Não há muito o que fazer por lá. Mas as poucas opções de lazer revelam-se o menor problema da cidade. Como quase nenhuma habitação do município possui saneamento básico, o esgoto corre a céu aberto. Cerca de 40% da população é analfabeta, incluindo Andrade. Embora não existam hospitais em Belágua, o posto de saúde costuma ficar às moscas por falta de material e profissionais. No domingo em que os parlamentares votaram o impeachment, o segurança da unidade via sozinho a TV Câmara na recepção. Seu único colega de plantão era o motorista que cochilava dentro da ambulância. Caso um paciente chegasse, a dupla tinha a orientação de encaminhá-lo para a vizinha Urbano Santos, quase cinco vezes maior.

Além de responder por todas as emergências médicas e até mesmo partos de Belágua, a cidade assiste a um verdadeiro êxodo de belaguaenses no fim de cada mês. O município contíguo, que se emancipou de Urbano Santos em 1994, não dispõe de bancos ou agências de correio, e sua pequena lotérica é insuficiente para atender aos que desejam sacar aposentadorias ou outros tipos de benefícios. Só no Programa Bolsa Família há 1 912 residências cadastradas. Quase a totalidade da população recebe alguma ajuda financeira do governo federal. As exceções são os funcionários públicos (professores, agentes de saúde, assessores da prefeitura) e os pouquíssimos comerciantes cuja renda familiar mensal ultrapassa os 150 reais per capita. Curiosamente, sete cidades com as maiores taxas de analfabetismo no país e seis que estão no top 10 do ranking de mortalidade infantil são municípios maranhenses emancipados na base da canetada em 1994, sem qualquer planejamento ou demanda popular. Belágua figura entre eles.

 

Enquanto cozinhava espigas de milho para os parentes beliscarem durante a votação em Brasília, Piedade listou o que conseguiu realizar com os benefícios do governo Dilma. Pais de seis filhos, ela e o marido, Ivanilson, ganham 514 reais por mês de Bolsa Família. Como parte de sua alimentação deriva da pesca, ainda são agraciados pelo seguro-defeso – salário mínimo que recebem nos cinco meses de reprodução dos peixes, quando a atividade pesqueira é paralisada. Com o primeiro montante que economizou, o casal construiu um poço artesiano no quintal para não usar a água turva e de qualidade duvidosa do riozinho próximo – a mesma que, outrora bela, teria inspirado o nome do município. Depois, graças à nova poupança, os dois ergueram um pequeno banheiro com fossa na parte externa da casa e instalaram uma bomba para levar a água do poço até um chuveiro. Também reforçaram com cimento a base da moradia, que, construída às pressas, sem alicerce, começava a rachar. Só então se permitiram comprar uma geladeira, uma televisão e um ventilador. O próximo plano é fazer uma horta. “A agente de saúde falou que as crianças precisam comer salada”, explicou Piedade.

Da sala, Ivanilson arrematou, apreensivo: “Isso se a Dilma continuar…” Ele acariciava melancolicamente a cabeça de um dos filhos, que se lambuzava com meia melancia, quando uma moto estacionou à frente do casebre. Sua irmã Graciane e o cunhado Auberi, recém-convertidos à Igreja Adventista, vinham convidá-lo para um círculo de oração a que pretendiam comparecer no horário da votação. “A gente está rezando muito. Vai dar certo! Ninguém vai tirar Dilma”, disseram. O otimismo de ambos pareceu incomodar Ivanilson. “Obrigado, mas prefiro acompanhar tudo pela televisão”, esquivou-se.

Durante os intermináveis discursos dos líderes partidários que precederam os votos, a família recordou com saudades a eleição de 2014. “Eu fiquei feliz demais quando soube que Belágua foi a cidade que mais apoiou ela”, comentou Andrade. “Quem é que ia querer votar em Aécio, que é neto de Tronquero Neves, da época em que se escravizavam as pessoas?” Um vizinho que o escutava tratou de corrigi-lo: “Não, seu Antonio! Tancredo não tem nada a ver com a escravidão!” O agricultor deu de ombros: “O que importa é que não pode tirar ela para botar essa gente, eles vão cortar o salário dos pobres na mesma hora.” O vizinho assentiu com a cabeça.

Pouco mais tarde, os cunhados de Piedade acompanhavam a votação já arrumados e perfumados para o culto. O placar contra Dilma se alargava. Enquanto o caçula de Graciane secava disfarçadamente uma lágrima, a mãe o abraçava falando da era Lula como um episódio bonito do passado e confundindo feitos do petista com os de outros políticos: “Seu primo conseguiu bolsa numa faculdade da capital, minha mãe se aposentou, construíram uma estrada boa para Urbano Santos.” Quando a bancada de São Paulo começou a votar, ela chiou: “Ih, esses aí detestam os pobres.” O “não” de paulistas, como o deputado Ivan Valente, do PSOL, só não a espantou mais do que o “sim” de maranhenses como o peemedebista Alberto Filho.

Embora atrasados, Graciane e o marido decidiram seguir para o culto. Chegaram quase na hora da oração final, enquanto o pastor fazia uma pregação que lembrava o teórico absolutista Jacques Bossuet: “Nossos governantes, quando são eleitos, é porque Deus concede que eles tenham esse poder.” Assim que deixaram a igreja, passaram na casa de Andrade, que cochilava na cadeira de balanço. Ninguém falou em rojão.

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