autoficção

Diário da procrastinação

De novo são seis da manhã. Eu me pergunto o que fiquei fazendo todas essas horas

Mario Levrero
Hoje descobri que talvez não me barbeie porque não me lembro de ter tido a barba tão comprida, ou pelo menos tão branca, e pensei que gostaria que tirassem uma foto minha com ela
Hoje descobri que talvez não me barbeie porque não me lembro de ter tido a barba tão comprida, ou pelo menos tão branca, e pensei que gostaria que tirassem uma foto minha com ela CRÉDITOS: AGÊNCIA LITERÁRIA CBQ

Ouruguaio Mario Levrero recebeu, em 2000, uma bolsa da Fundação Guggenheim para terminar de escrever O Romance Luminoso. Ele o iniciara dezesseis anos antes, quando trocou Montevidéu por Buenos Aires à procura de trabalho. No entanto, em vez de concluir o livro, o autor se lançou à redação febril de um diário. Tais escritos têm um pé no fantasioso e registram tanto a rotina monótona do bolsista quanto sua incapacidade de levar adiante a ficção que esboçara em 1984. O livro imaginado se converteu, assim, no próprio diário e acabou chancelando Levrero como um dos expoentes da literatura latino-americana contemporânea. Publicado em 2005, após a morte do escritor, O Romance Luminoso chega agora ao Brasil.

***

AGOSTO_SÁBADO, 5, 18h02_Hoje acordei com um grande entusiasmo por este diário, com muita vontade de escrever e pensando na quantidade de coisas que queria desenvolver aqui; porém, são seis da tarde e estou esperando um amigo, que vai tocar a campainha a qualquer momento, e até um minuto atrás eu não tinha escrito uma só palavra. Em vez disso, comecei a jogar no computador um joguinho de baralho chamado Golf. Acho que é a comida que sempre me desvia do caminho; hoje foi o café da manhã, mas ontem à noite me dei conta de que minhas fugas rumo à distração ficam muito fortes depois do jantar-almoço. Meu processo digestivo mal começa e meu eu consciente e voluntário se evapora e dá lugar a esse escapista desaforado que só quer entrar em transe com absolutamente qualquer coisa. Sim, à noite é mais grave; não tenho nenhuma defesa, e a coisa se prolonga até quase o amanhecer.

Hoje também acordei com a determinação de não reler o que escrevo neste diário, pelo menos não com frequência, para que o diário seja diário e não um romance; quero dizer, desprender-me da obrigação da continuidade. No mesmo instante me dei conta de que será igual a um romance, queira eu ou não, porque um romance, atualmente, é quase qualquer coisa que se ponha entre uma capa e uma contracapa.

Escuto o elevador. Agora a campainha. Meu amigo chegou.

 

SÁBADO, 5, 22h28_Meu amigo veio, meu amigo foi embora, joguei um Golf, almocei-jantei, e pela primeira vez me sentei para fazer a digestão numa das poltronas. Outras vezes tinha me sentado para experimentá-la e adormecera. Hoje estive prestes a adormecer, mas não dormi. Escutei alguns tangos massacrados por D’Arienzo na Radio Clarín, um pouco distante, porque ainda não organizei as coisas para ter o toca-discos na nova sala de ócio. Enquanto estava sentado ali, lembrei-me de um sonho desta manhã, e a lembrança do sonho me levou a fazer um telefonema que venho postergando insensatamente há cerca de um mês; trata-se do meu amigo Jorge, viúvo recente. Acho que é tão difícil fazer a ligação pela dor que sinto ao lembrar da minha amiga Elisa, a esposa morta, apesar de que tenho provas de que ela se encontra muito bem onde está; mas sabe-se que a dor que uma morte alheia nos causa se deve à referência implícita à nossa própria morte, e por que a ideia de que a própria morte nos espanta é algo que ainda não compreendo por completo. No meu caso, provavelmente se trata de medo do desconhecido, de me ver privado dos pontos de referência que são imprescindíveis para mim. Morrer deve ser como sair à rua, coisa que me é cada vez mais difícil, mas sem a esperança de voltar para casa. Talvez no meu inconsciente se forme a imagem de mim mesmo, morto, como uma espécie de fantasma errante e desconsolado que não encontra seu lugar, da mesma maneira que não o encontrei aqui em vida. É possível que a morte assuste porque é percebida como um novo nascimento, já que o não ser não tem nada de espanto-so porque não há com que se espantar; e diante da ideia de um novo nascimento, seguramos a cabeça e exclamamos: “Ó, não! De novo não!” Isso não quer dizer que eu tenha grandes queixas contra a vida; pelo contrário. Só lamento ter estado sempre tão angustiado pelo temor ao imprevisto, ao desconhecido, o tempo todo, inclusive em momentos nos quais não há maiores motivos para pensar em alguma interrupção desagradável.

 

DOMINGO, 6, 17h20_Maldita seja a total falta de vontade de escrever que tenho hoje. Levantei já meio desorientado, quer dizer, com essa tontura que tinha esquecido e que deveria estar relacionada, então, com a pressão arterial, porque a tontura havia desaparecido quando comecei a tomar remédio no mês passado. Não entendo por que reapareceu hoje, apesar do medicamento, a menos que seja consequência dos horários. Minha médica me disse que eu não podia tomar esses comprimidos de madrugada; o mais tardar, antes da meia-noite. Então não consigo espaçar a ingestão dos remédios de forma razoável, com doze horas de diferença. Planejei tomar a primeira às onze da manhã e a última às onze da noite. Mas às onze da manhã nunca estou acordado, e na verdade acabo tomando o primeiro comprimido às duas ou três da tarde. Passo o outro comprimido para as onze e meia da noite, ou meia-noite, mas aí o próximo remédio fica com um espaço de mais de doze horas: quinze ou dezesseis, e esse pode ser o motivo pelo qual não surte o mesmo efeito. Tentarei dormir mais cedo… é.

Bom, continuo tonto e sem vontade de escrever. Em pouco tempo, Chl chegará (uma história complicada que, como diz Rosa Chacel de tempos em tempos no seu diário, “não é para contar aqui”, e sempre me deixa curioso); vai me trazer um ensopado de ervilha que preparou na casa dela. Chl prepara ensopados maravilhosos, mas disse que esse não ficou bom; parece que as ervilhas estavam um pouco duras. Terei que comer de qualquer maneira, porque há muitos dias só como carne (e tomates com alho); esse regime não me incomoda, mas tanta carne me assusta um pouco.

 

TERÇA-FEIRA, 8, 23h42_Só para registrar que o Magro morreu. Acordei com o toque do telefone não sei bem que horas da manhã; a secretária eletrônica atendeu e ouviu-se a voz de Lilí, estridente como sempre, ou mais do que sempre, cobrando minha presença no telefone. É claro, não dei bola e continuei tentando dormir, mas não consegui, e também não consegui acordar. Não sei quanto tempo depois o telefone voltou a tocar, e voltei a ouvir a voz de Lilí, e aí sim peguei o telefone, porque já estava mais acordado e, além disso, podia perceber que era algo importante. Disse que tinha uma má notícia e eu pensei: “Ruben”, mas não, era o Magro. Totalmente inesperado.

Agora posso resgatar, por sorte, os pensamentos anteriores ao choque. Quando estava nesse entressonho, vi que, de algum modo misterioso, durante o sono minha mente estava trabalhando e agora me entregava uma resposta. Apareceu na minha mente a frase “Chave número 1: a morte da minha mãe”. De fato, essa é com certeza uma das chaves que o garoto tinha jogado na areia naquele sonho de alguns dias atrás. Por muitas razões, essa morte foi muito dolorosa para mim; me encheu de culpas e terrores durante muito tempo, durante anos eu diria, embora não continuamente, e sim em rajadas. Num certo âmbito terapêutico, consegui, por sorte, resgatar a memória da minha mãe viva e de muitas boas qualidades suas. Me senti feliz, e disse ao terapeuta: “Minha mãe deixou de ser um monte de ossos para mim; sinto sua presença viva em mim.” Depois tive algumas recaídas, e durante uma delas pude falar do tema com Chl; no dia seguinte, minha mãe tinha desaparecido por completo dos meus pensamentos. Foi um grande alívio. De qualquer maneira, não foi um assunto que se fechou de verdade, e hoje algo me fez perceber isso. Então pensei na falta que minha mãe faz, ou uma mãe, porque durante muitos anos era ela que me permitia dar um reset; quando estava saturado por algum motivo, ou não encontrava saídas, ou tinha que ajeitar algo, ia visitá-la no balneário e lá ficava o tempo que fosse necessário, em geral uma semana. Começava indo direto dormir; se fosse no início da tarde, eu ia dormir mesmo assim, pelo menos por algumas horas. Atribuía minha necessidade de sono à viagem de ônibus, mas não era verdade; simplesmente descansava mal por dias e dias, e a presença protetora da minha mãe me relaxava e me permitia dormir profundamente. Dessas duas ou mais horas de sesta, eu saía como um drogado, com o cérebro de todo entorpecido, e logo, muito lentamente, começava a trocar notícias com minha mãe. Com frequência eu tinha que freá-la para que ela não me jogasse toda a informação de uma só vez. Nos dias seguintes, também dormia bastante, e depois chegava uma hora que eu queria voltar ao meu apartamento de Montevidéu e partia. Agora faz muitos anos que não tenho ninguém que cuide do meu sono. E não só do sono, como da provisão de alimentos; eu não tinha nada para fazer, nada com que me preocupar, só comer e dormir. Agora preciso exatamente disso. Faz muito tempo que preciso, mas só hoje percebo e sinto claramente: não há como dar um resetporque sempre tenho que me ocupar com algo. Bom, o ponto foi localizado: não descanso bem, há muitíssimo tempo não descanso bem. O relaxamento não funciona; não consigo controlar a mente. Não sei de onde posso tirar uma mãe, na minha idade, mas pelo menos poderia tentar; alguém que cuide do meu descanso e me alimente durante uns dias é exatamente o que eu preciso para esse “retorno a mim mesmo” que estou tentando.

De tarde fui fazer, ou tentar fazer, algumas compras, entre elas um par de mesinhas metálicas redondas, baixas, para pôr ao lado das poltronas. Não que eu esteja me tornando um viciado nesse tipo de compras para o lar; é uma necessidade, assim como uma luminária de chão que não achei hoje. Trata-se de montar o lugar para a leitura e o descanso, e preciso de uma fonte de luz apropriada para a leitura. As luminárias de chão que vendem são muito caras, mas também são muito baixas. Preciso de algo um pouco mais alto, porque tenho que usar uma luz muito forte e, se fica muito perto, aquece minha cabeça e me faz mal. Também não serve uma luz muito concentrada e branca sobre a folha de papel; afeta a vista. Preciso de algo muito parecido com uma iluminação zenital, mas um pouco mais próxima e menos difusa. Bom, isso não existe, então terei que inventar algo, como sempre; minhas soluções costumam ser eficazes, mas geralmente são antiestéticas e parecem uma forma de excentricidade. Não é isso; são as soluções práticas de um homem pobre que tem que se virar com o que possui.

E bom: não sinto nada, pela morte do Magro quero dizer, mas também em geral. Comecei a me preocupar, já faz algumas horas, pela falta de emoções ou de um mínimo sentimento: nada. Isso significa que voltei ao de sempre, afundar, enterrar bem fundo o que não me agrada, fazer de conta que não existe. O preço é muito alto. Mas não sei como convocar as emoções.

 

QUINTA-FEIRA, 17, 01h44_Dia complicado, com falta de tônus muscular, e à tarde uma câimbra espantosa no braço direito. Eu a atribuí aos remédios, mas minha médica nega. De acordo com ela, as causas prováveis são psíquicas + falta de exercício + má postura no computador (e trabalho excessivo com o braço estendido para mover o mouse). É possível que ela tenha razão, mas não fiquei 100% convencido. Em geral, qualquer remédio me gera reações estranhas, sobretudo se tomo como esses, de forma sistemática durante um tempo prolongado. Já virei definitivamente alérgico à aspirina, e estou quase, quase lá com os laxantes intestinais; tenho que tomá-los espaçadamente porque, se não, causam reações alérgicas. Sem dúvida há motivos psíquicos de peso para que eu esteja somatizando, em especial por causa de mortes recentes, a visita do meu amigo, ontem, e a conversa sobre doenças e morte.

Tudo começou quando acordei; tinha uma dor no lado esquerdo do quadril, talvez fruto da posição em que dormi, de lado, para a esquerda, de tal maneira que o osso do quadril aperta a carne contra o colchão, que é de espuma e por isso mesmo bastante duro; mas também podia ser uma dor que acho que chamam de “articular”, e essa ideia me levou a me exercitar um pouco na bicicleta ergométrica, abandonada há um tempo longo demais. Ao tentar isso, achei a bicicleta muito pesada (o que pode ser verdade, já que ficou muito mais intenso o ruído que faz ao frear com uma correia que regula a tensão e o peso aparente), mas também era difícil movimentar o guidom, que é naturalmente muito “pesado” (um sistema de êmbolos gera o “peso” mediante o ar que se comprime ao movê-lo). O fato é que não pude fazer muito exercício, pois rapidamente me senti cansado. Abandonei. A câimbra que tive horas depois também pode ser fruto do esforço com o guidom. Mas com certeza o que preocupa é minha falta de energia. Depois de tomar café da manhã, fui à farmácia para medirem minha pressão e estava razoavelmente boa; pelo menos não estava muito baixa, como eu achava. De toda maneira, à noite veio minha médica e, como ela achou a pressão bastante normal, me permitiu reduzir o remédio pela metade por alguns dias, para ver o que acontece. Antes tinha vindo minha professora de ioga; eu não quis ter aula, por falta de tônus muscular. E quando ela estava indo embora, depois de conversar um pouco, foi quando tive essa terrível câimbra, dolorosa e preocupante. Minha professora a atribuiu ao remédio que, segundo ela, consome muito potássio e é necessário tomar potássio adicional (minha médica diz que isso é mentira; os remédios atuais não têm esse efeito colateral). Minha professora estava indo embora quando comecei a me queixar e demonstrar preocupação; por sorte era o braço direito, pois se tivesse sido o esquerdo, o pânico teria sido incontrolável. Ela resolveu, então, fazer uma minissessão de reiki e aplicou suas mãos na zona dolorida. Não sei se foi efeito do reiki ou se essa espécie de câimbra encerrou seu ciclo por conta própria; o fato é que a dor foi diminuindo. Eu sentia como se fosse uma luta entre a professora de ioga e a dor. A dor queria avançar e parava, e depois ia embora, mas logo a seguir recuperava sua força; mas, enfim, foi cedendo, e quando queria voltar, não conseguia por completo; ficava só ameaçando. Enfim desapareceu por completo, embora tenha deixado essa zona dos bíceps machucada.

Não, não fiz a barba.

 

SÁBADO, 19, 04h27_Cansado, sem vontade de escrever. Visita de Julia à tarde; grandes emoções. Chl, à noite. O mesmo. Fiquei muito empolgado jogando computador e depois respondi a uma longa entrevista, muito bem-feita, de um leitor argentino que pensa em publicá-la. Hoje prossegui com a sociabilidade intensa; primeiro Felipe, que me trouxe uns livros, depois Gabriel, para discutir literatura e vida, e finalmente Chl, para comer. Dia muito ativo, além disso, com algumas mudanças na casa, como se estivesse voltando lentamente o impulso de mudança que tinha se paralisado há mais de um ano, quando Chl viajou. Terei que desenvolver isso, porque às vezes me esqueço da incidência fatídica dessa viagem. Mas não hoje; estou cansado, só anotando coisas não sei por quê, mas devo fazê-lo. Quero ler este diário. Porém continuo resistindo. É claro, ainda não fiz a barba. Mas mandei consertar dois pares de sandálias, tarefa adiada há mais de um ano (quando a viagem fatídica etc.). É possível que o antidepressivo para deixar de fumar, que não me fez parar de fumar, esteja me fazendo bem, esteja me dinamizando um pouco.

Também quero anotar, antes que me esqueça de novo, e para quando for ler este diário, a necessidade de desenvolver o tema da pornografia. Uma vez escrevi que detestava, e era verdade; agora tenho certa coleção de fotos pornográficas, e para ser honesto deveria explicar isso (mudei de opinião? Tenha paciência, leitor; hoje não posso desenvolver nenhum tema de maneira eficaz. Só anotações, anotações).

Chl me acordou, me tirou de um sono profundo por volta do meio-dia, justo para me contar um sonho, que deixou gravado na secretária eletrônica porque não tive forças para atender. Talvez tenha sido por ciúmes telepáticos que me ligou, já que me acordou de um sonho em que eu me sentia muito apaixonado por uma mulher. Era uma mulher extraordinariamente atraente, embora não chamativa; uma dona de casa de aspecto comum, mas algo em sua forma a tornava terrivelmente atraente para mim. Eu estava na casa dela, que morava com o marido, um sujeito bastante agradável, porém distante, não controlador nem comunicativo. Quando me dava conta do amor intolerável que sentia por essa mulher, o marido estava do lado de fora, nos fundos da casa, e eu me aproximava dela e dizia: “Preciso falar uma coisa. Eu te admiro…”; ela me interrompia: “E me ama”, antecipando minhas palavras. Tomava isso com naturalidade, não via transcendência naquilo. Nesse momento, o som do telefone me acorda e tento manter o sentimento, tão necessário, tão imensamente necessário. Há tempos que não sinto nada, e essa pequena dor do sentimento amoroso é como um tesouro e queria guardá-lo, guardá-lo, mas notava que ele ia se dissolvendo, e não podia recuperar a imagem ou a presença psíquica dessa mulher tão extraordinária, e finalmente tudo se perdeu, exceto a lembrança desse pequeno fragmento de um sonho que era muitíssimo mais longo.

 

DOMINGO, 20, 00h55_Neste momento, Chl está dormindo na minha cama; há muitos meses isso não acontecia. Estou esperando a digestão da minha última refeição para me deitar, porque ela não perde a noção do tempo mesmo dormindo, e se eu não estiver ao seu lado numa hora razoável, ela se sente mal, e essa é talvez uma das razões pelas quais parou de dormir aqui em casa. Ou seja, não devo demorar muito aqui; ainda é uma hora razoável, mas logo deixará de ser. Não haverá sexo, é claro, mas sim essa agradável sensação de não estar sozinho, e de estar na melhor companhia possível; por sorte, na minha idade as urgências sexuais são bastante relativas, e a renúncia não me é tão difícil.

Ela já tinha adormecido quando foi acordada pelo toque do telefone; eu atendi, não sei bem por quê, pois jamais atendo quando tenho visitas, mas o fiz. É bastante provável que Chl tenha se incomodado porque fechei a porta para falar; vai pensar que eu não queria que ela escutasse, e de certo modo eu não queria mesmo, mas não fechei por esse motivo, e sim para não incomodá-la com a conversa, se é que haveria conversa. E houve; tratava-se de ninguém menos que Julia, preocupada porque temia ter deixado uma má impressão na sua última visita, na qual me questionou severamente sobre meu modo de ser atual. Ela tinha me chamado, entre outras coisas, de robô. Tem toda a razão, e deixei isso claro para ela, e não me incomodou que dissesse essas coisas, porque de certo modo é uma confirmação dos meus próprios pontos de vista, e dialogar sobre o assunto com outra pessoa, bem-intencionada como Julia é, me ajuda bastante. Fica cada vez mais óbvio que, se eu não conseguir um mínimo regresso a quem eu era, o romance não se completará.

Ontem à noite, e hoje, ao me levantar, digo, imediatamente depois de me levantar, sem tomar café da manhã, sem sequer me vestir, fiz um (uma?) macro no Word que me permite – como sempre, apertando um botão – juntar todos os arquivos deste diário – qualquer quantidade que seja – em um só arquivo (chamado “documento mestre”, ou master). A criação desse procedimento está indicando que tenho cada vez mais interesse em ler o que tenho escrito e que estou me preparando para imprimi-lo, assim evito ler na tela, que machuca a vista e não oferece o mesmo nível de leitura que as letras sobre o papel branco.

Por que comi tanto? A digestão está aí, agindo como sempre, com muito trabalho e muito lentamente. Espero que esta não seja uma má experiência para Chl, que não tire sua vontade de voltar a dormir na minha casa.

Nesta tarde, saímos para caminhar, apesar da ameaça de tempestade; um dia muito quente, como os de verão (e a zeladora acendeu a calefação de todo jeito; e agora, mesmo estando apagada, o apartamento continua asquerosa-mente quente). Não fomos muito longe porque era cansativo caminhar, mas chegamos a ver duas exposições, uma delas totalmente lamentável no SUBTE municipal; a outra, no MAC, tinha várias coisas interessantes e uma delas espetacular: um desenho a carvão com algo de cor, que representa uma escada que desce (entendo que as escadas nem sobem nem descem, e sim que são usadas para subir ou descer; mas, nesse desenho, a escada desce). O autor, Espínola Gómez. E quando estávamos indo embora, nós o vimos, Espínola, conversando com uma moça. Tive vontade de cumprimentá-lo, de expressar de alguma maneira minha admiração por esse desenho, mas a timidez me impediu. Acho que as timidezes unidas me impediram, a minha e a de Chl; acho que, se estivesse sozinho, teria me animado, como me animo ultimamente com muitas dessas coisas. Mas Chl é muito tímida, arisca, eu diria, e é possível que ela se sentisse incômoda se eu tentasse me comunicar com o mestre, ou pelo menos foi o que temi, e vacilei, e fomos embora calados.

Nem preciso dizer que hoje também não fiz a barba.

 

SEGUNDA-FEIRA, 21, 04h47_Aqui, às cinco da madrugada de segunda-feira, estou terminando o domingo. Sempre o mesmo vício notívago. Sempre sem fazer a barba. Mas hoje descobri que talvez não me barbeie porque não lembro de algum dia ter tido a barba tão comprida, ou pelo menos tão branca, e pensei que gostaria que, antes de fazer a barba, tirassem uma foto minha com ela. Então pelo menos agora tenho uma desculpa para não me barbear: estou esperando que Juan Ignacio venha e tire uma foto (já falei essa noite com a mãe dele, ou seja, minha médica, que, por sinal, achou minha pressão perfeitamente normal, catorze por oito, apesar de eu ter reduzido o anti-hipertensivo pela metade e de estar usando um pouco de sal no tomate; espero que ela tenha medido direito minha pressão). Dizia que tenho uma desculpa, mas não está muito claro diante de quem devo exprimir essa desculpa, já que a maioria das pessoas que conheço acha que eu fico muito bem de barba e que não deveria cortá-la; as mulheres são unânimes a respeito disso. A desculpa deve ser para mim mesmo. Talvez também para os leitores deste diário. Envergonho-me de ter decidido me barbear e não fazer isso. E decidi me barbear porque a barba me incomoda, e os bigodes me incomodam, pois entram dentro da boca quando como. Também quando tomo iogurte. A barba fica jorrando iogurte. E notei que as pessoas que não me conhecem me olham com um certo desgosto, já que é uma barba desleixada. E, como não tenho o costume de me vestir bem, minhas roupas estão um pouco gastas e sujas, parece que, de modo geral, apresento a imagem de um velho mendigo. Achei divertido comprar as poltronas, por exemplo, já que, a princípio, os vendedores não estavam muito entusiasmados. Eu parecia mais um mendigo que queria se sentar comodamente por um tempo com a desculpa de experimentar as poltronas. Seja como for, o fato de que decidi me barbear e não o fiz me causa uma desagradável sensação de impotência, a mesma que tenho com essas noites maldormidas e meu vício com coisas de computador. Por outro lado, jamais decidi deixar a barba; simplesmente fui adiando o corte, pelas mesmas razões de abulia ou seja lá o que for, ou porque sempre tenho algo mais interessante para fazer. É uma barba indesejada, não cultivada, descuidada. E, além disso, me agarrei ao tique de revirar os pelos da barba com os dedos; se estou conversando com uma pessoa, por exemplo, fico o tempo todo com os dedos para lá e para cá entre os pelos. É muito agradável, pois causa a mesma impressão de estar acariciando um púbis feminino. Mas que esse púbis feminino esteja no meu queixo torna esse tique bastante suspeito, pelo menos para mim. Será que é por isso que não faço a barba? Será uma forma de autoerotismo? O fato de que os pelos não tenham sensibilidade ajuda, então a sensação de acariciar algo que não é de alguém serve um pouco de desculpa. Seria uma forma de autoerotismo mais de contrabando. Deveria meditar mais profundamente acerca desse tema. Mas não farei isso.

Hoje a comunicação com Chl foi apenas por telefone. Ela ficou em casa, deprimida e com dores musculares, na cama, lendo. Quando falamos por telefone, caímos nesses longos silêncios que eu chamo de “estar ensimesmado”. Não acho nada divertido, mas é difícil para mim me despedir e desligar porque sinto que ela precisa dessa forma de comunicação; embora não fale, ela está me comunicando seu mal-estar, compartilhando-o através desses silêncios. Procuro ter paciência. Fico enternecido. Quando ela está deprimida, percebo que fica muito frágil, e de certo modo me faz bem que ela me ligue, mesmo que seja para comunicar seu silêncio, que precise compartilhar comigo seus abismos.

Estive limpando um pouco os arquivos do computador, especialmente os programas de e-mail. Agora ficaram rápidos, abrem e fecham em pouco tempo. Mas tenho que continuar limpando o disco rígido; há muito, muito lixo.

 

SEGUNDA-FEIRA, 21, 21h15_Esperando Chl, embora eu não tenha certeza de que ela virá. Está caindo uma tempestade. Vejo relâmpagos pela janela. Lembrei que há alguns dias percebi que Chl me olhava de um jeito estranho; parecia que me odiava, como às vezes acontece quando está deprimida. Não é que me odeie pessoalmente, e sim que é um ódio genérico ao mundo em geral e aos seres humanos em particular. Com frequência, nesse estado, ela fica calada e notoriamente guarda para si coisas que deveria dizer; algumas vezes consegui fazer com que falasse, embora não seja frequente, e então se descobre que guarda alguns rancores injustificados. Eu lhe mostro que são injustificados, que ela interpretou mal alguma palavra ou atitude, e então ela ri, relaxa e se sente melhor. Desta vez não estava especialmente deprimida, mas sim calada, e com esse olhar estranho, e com toda a atitude de ter algo para dizer e não dizer. Perguntei se esse olhar era de ódio.

– Não – respondeu, com muita segurança. E depois de uma pausa, acrescentou – É um olhar de cálculo. Estava pensando se você era conveniente.

 

SEGUNDA-FEIRA, 21, 22h28_Interrompi porque Chl chegou. Ela já foi embora. Chama-me poderosamente a atenção o fato de que comecei a escrever sabendo que talvez fosse interrompido. Não lembro de ter feito algo parecido em muitos, muitos anos. Seria muito bom que minha fobia a interrupções estivesse passando, pois isso me levou a adiar e, enfim, a não realizar romances inteiros. Considerei um bom augúrio, ou pelo menos um importante precedente.

Então, Chl tinha me dito: “É um olhar de cálculo. Estava pensando se você era conveniente”, e eu dei uma gargalhada. Claro que não sou conveniente para ela, e acho bom que ela esteja se dando conta disso. Penso que é um dos resultados da terapia.

Quando nossa relação começou, eu dava por certo que seria breve. Da sua parte, ela tinha me advertido que sempre aconteceu, em relacionamentos anteriores, que um dia ela acordava e sentia que a relação era de todo estranha a ela, e então a cortava radicalmente. Eu me preparei para isso. Mas não me preparei para o que de fato aconteceu, esse progressivo esfriamento da relação apenas na parte sexual, e nada mais; continuamos nos vendo com muita frequência, nos telefonando várias vezes por dia, e sempre que estamos juntos eu continuo percebendo seu enorme carinho por mim. É estranho, muito estranho, e não sei como lidar com isso. Às vezes me desespero e penso: “Acabou; não podemos continuar assim”, mas são surtos momentâneos dos quais me arrependo em poucos minutos. Eu me dou conta de que sentiria muita falta dela, de que tudo seria mais difícil sem esse carinho, sem essa presença em geral alegre e vivaz que tantas e tantas vezes transforma um dia ruim num dia feliz. De toda maneira, as coisas avançam rumo a uma separação; continuarão avançando à medida que a terapia dê bons resultados. Mas não quero continuar me preparando para um futuro que, de acordo com a experiência, jamais se mostra como uma pessoa calcula. Deixemos as coisas acontecerem.

 

QUARTA-FEIRA, 23, 06h12_Não sei se algum leitor se interessa pela indicação da data e hora que serve de título para cada capitulozinho deste diário; quando eu leio diários alheios, em geral é como se essas indicações não existissem. O caso é que, nesta página em particular, a hora indica que está prestes a amanhecer, ou amanhecendo. Voltei a ligar o computador, que tinha desligado alguns minutos atrás, depois de jogar e jogar como um abobado esse jogo estúpido que é Pipe Dream, até ficar com câimbra no braço e na mão. Mas não queria me deitar sem anotar os pensamentos que me invadiram assim que desliguei o computador e me arrastei até a cozinha para esquentar um café, passo anterior inescapável cada vez que vou me deitar; porque me ocorre que talvez eu estivesse fugindo justo desses pensamentos, e por isso fiquei jogando.

Sei que não tem nenhuma validade científica, mas esse tipo de coisa, como a que vou contar, me soa convincente, especialmente quando é mais a regra geral do que a exceção; essas coisas me acontecem com muita, muita frequência e, embora eu não queira, deve me provocar alguma inquietação profunda.

Acontece que a aluna que veio hoje trouxe um trabalho que tentava realizar com a tarefa que eu havia proposto na quinzena anterior. Essa tarefa pedia para que ela anotasse um sonho, de maneira simples e sem pretensões literárias e, depois, numa segunda etapa, tentasse criar um conto baseado nesse sonho, apagando os indícios de que se tratava de um sonho e apresentando-o ao leitor como uma história verossímil. Mais do que verossímil, coerente; pode ser um conto fantástico, caso ele se atenha às regras do fantástico. Não precisa, também, narrar todo o enredo do sonho; inclusive, pode-se criar um conto a partir de associações produzidas pelo sonho, partindo de uma imagem ou cena, mas, acima de tudo, tentando recriar o clima do sonho, o vivencial mais do que o argumental.

Eis que minha aluna me traz o relato de um sonho, não muito recente, mas também não muito antigo, e logo tenta narrar de acordo com o que a tarefa pedia; não consegue, já que fica muito presa ao argumento; simplesmente o narra com uma quantidade maior de detalhes; muito bem narrado, mas sem apagar as marcas do sonho. Isso, não obstante, não importa para o que eu quero contar agora. No sonho da minha aluna, ela passava por um cemitério, entrava numa casa, via certas coisas e logo voltava para casa. Lá encontrava sua família reunida, falando dela; falando mal dela. Logo nota que tinham desarrumado sua biblioteca e fica indignada. Vai furiosa até onde estão seus familiares e os repreende, grita com eles, inclusive agarra seu irmão pelo colarinho e o sacode. Ninguém responde; todos a ignoram; parecem sonâmbulos. A última frase diz que não pôde tolerar a situação e “desapareci”.

Fiz com que notasse o óbvio, que nesse sonho ela estava morta, era um fantasma. Não tinha se dado conta; àquela altura, nem sequer sua terapeuta tinha interpretado o sonho dessa maneira. Expliquei à minha aluna a coincidência com o sonho que eu tinha lembrado e anotado hoje, o do meu velório, e propus que ela transformasse o relato num conto de fantasmas, narrado pelo fantasma. Não é uma proposta nova; já foi feito, e suponho que mais vezes do que as que conheço, mas neste caso me parece que essa é a forma mais autêntica de contar a história. Ela ficou muito impressionada. Eu também.

Como sempre nesses casos, eu me pergunto: hoje me lembrei desse sonho (do meu velório) por uma autêntica associação com o sonho da manhã, ou será que captei telepaticamente a essência do conto da minha aluna? Mas, nesse último caso, trata-se de uma associação mais direta, mais forte. Tenho quase certeza de que não se trata disso. Não posso demonstrá-lo, porém, como dizia, essas coisas acontecem de vez em quando; a ponto de que nunca posso saber se o que estou pensando, ou o que me ocorre, surgiu da minha mente, por um processo meu, ou se vem de fora, de outra mente. E volto a pensar no tema dos limites do eu, e o tema da tangibilidade do que chamamos indivíduo. Lembro-me de uma citação que li faz um tempo, atribuída a Einstein (cito de memória, claro): “Que nos percebamos como indivíduos separados não passa de uma ilusão de ótica.”

 

QUINTA-FEIRA, 24, 03h43_Hoje deixei uma mensagem para Pablo e ele me ligou depois da minha aula de ioga. Ele me contou boa parte da sua experiência no México, por causa do enterro do Magro. Fiquei sabendo de coisas que eu não suspeitava, como o fato de o Magro ser um sentimental (palavra do seu filho) que guardava cuidadosamente numa grande caixa todas as cartas e todas as lembranças dos seus filhos, inclusive cadernos escolares e essas coisas; e tudo em perfeita ordem, ou seja, além de sentimental, era organizado. Não parecia, de modo algum. Também tem minhas cartas guardadas (quais? Não me lembro de ter escrito a ele no México; ou talvez sim, uma vez) e cópias das cartas que ele me enviou (de novo: quais? Será possível que minha memória tenha devorado isso também? Mas tenho quase certeza de que não houve mais de uma carta sua em todos esses anos que ele passou lá). Pablo também me deu uma versão mais detalhada da morte, uma morte anunciada, além de tudo, já que por um lado seu instinto de médico não se enganava, e por outro parece que houve certa decisão bastante consciente de dar sua vida por encerrada, da mesma forma que no caso da minha amiga. O fato é que pouco tempo antes ele pusera alguns assuntos em ordem, como aumentar o prêmio do seguro para os seus filhos mexicanos; além disso, avisou que ia morrer. E parece que nessa noite não se deitou, como tinham me contado, e sim se sentou numa poltrona. Disse à vizinha que ia ter um ataque cardíaco, pois sentia um formigamento na mão esquerda, e não valia a pena chamar a emergência; preferia ficar conversando com ela, ou melhor, escutando-a falar. Foi na poltrona, e não na cama como tinham me dito, que tomou sua tacinha de brandy, e ali ficou. Foi muito bom que Pablo e seus irmãos resolvessem viajar ao México no mesmo instante em que ficaram sabendo da morte; disse a Pablo que é o tipo de coisa que eu não faço nunca e depois pago um preço atroz por isso. Viveram a experiência de um enterro com mariachiscantando. Viram as alunas do pai chorar a ponto de soluçar e, em resumo, voltaram a Montevidéu com uma imagem muito mais positiva do pai. De toda maneira, Pablo está sofrendo, e surpreso. Lembrei-me da morte do meu pai, que ocorreu mais ou menos quando eu tinha a idade de Pablo, e recordo que o espanto foi muito maior do que a tristeza. A tristeza diante da morte alheia é algo que não entendo muito bem, ou sim, entendo que é a tristeza por nós mesmos e não pelo morto, por quem não é preciso lamentar – tristeza pela falta que ele faz, pelo que faltou lhe dizer e fazer, pela culpa real ou imaginária. E o espanto – conforme me dispus a explicar a Pablo, na crença de que talvez seja bom que pense um pouco nisso – porque, enquanto meu pai vivia, de uma maneira mágica era como se fosse uma couraça contra minha própria morte. Quem tinha que se ver com a morte era ele, não eu. E, no mesmo momento em que ele se tornou ausente, fui eu que tive que enfrentar, cara a cara, essa boa senhora. Sem couraça.

 

SEXTA-FEIRA, 25, 06h20_E, como estava previsto, daqui a pouco será sete da manhã, assim de repente. A oficina. Oficina o dia todo. Foi gratificante; meus alunos são geniais. Mas me deixa agitado, me deixa agitado e fico horas e horas sem querer dormir. Pelo menos não fiquei de bobeira jogando; trabalhei intensamente numa macro no Word, melhorando consideravelmente o que fiz no outro dia, para montar um documento mestre com este diário. Além disso, anteriormente imprimi o que escrevi até ontem, de modo que tenho a firme intenção de ler o diário. Mas ainda não li. Tenho curiosidade. Quero saber se há algo de interessante, algo que possa interessar um leitor que não eu mesmo. Para quê? Não é como se eu quisesse passar gato por lebre para a Fundação Guggenheim, dando este diário em vez do projeto; por outro lado, a Fundação não quer, expressamente dito por eles, que eu lhes entregue nada. Só se interessam em saber no que eu gastei seu dinheiro ao final do ano. E, por outro lado ainda, eu QUERO realizar o projeto; só que não consegui chegar lá, e me falta muito, acho, para isso; mas, quando chegar lá, e com certeza chegarei, farei rapidamente e direito. Tenho confiança. Apenas não devo continuar adiando a questão de enfrentar e transcender a angústia difusa e chegar ao ócio; é tudo assim tão simples. Tão simples e tão doloroso. Amigo leitor: não pense em entrelaçar sua vida com a literatura. Ou melhor, sim; você sofrerá, mas dará algo de si mesmo, que definitivamente é a única coisa que importa. Não me interesso pelos autores que criam trabalhosamente seus romanções de 400 páginas a partir de fichas e de uma imaginação disciplinada; só transmitem uma informação vazia, triste, deprimente. E mentirosa, sob esse disfarce de naturalismo. Como o famoso Flaubert. Blé.

Fico impressionado que este país não esteja infestado de escritores. Muitos dos meus alunos escrevem bem melhor do que eu, porém não mantêm uma produção constante, não fazem livros, não se interessam por publicar, não querem ser escritores. Conformam-se em compartilhar suas vivências com os colegas de oficina, através da leitura dos seus textos. Todos trabalham com outras coisas. Ninguém quer passar fome ou ser miserável. Provavelmente têm razão. É uma pena que as coisas não possam ser diferentes, que não se possa sobreviver dignamente como escritor. E, enquanto isso, meu projeto editorial continua parado. Não entendo qual é o obstáculo, a coisa simplesmente não avança. Teria que me ocupar pessoalmente disso, mas não quero, não quero ter mais uma só complicação. Pelo menos, não neste ano da bolsa. Teria que atingir um ócio full time, o que não arrisco, mas terei que fazê-lo. E agora teria que dormir, porque não restam muitas horas antes da visita da minha amiga que mora em Chicago. E também virá Chl, que garante ter preparado bifes à milanesa.

 

SÁBADO, 26, 07h24_Veja você que horas são. Vou dormir agora mesmo. Depois eu conto.

 

DOMINGO, 27, 05h51_Pedi a Chl que lesse o que escrevi neste diário. Eu o imprimi numa outra noite e o li parcialmente, e me entediou bastante, porque é muito recente e tudo o que diz ali eu já conheço muito bem; queria uma opinião que não a minha, para ver se vale a pena continuar com isso. É verdade que ela também está envolvida, como personagem deste diário, e seu critério não pode ser muito objetivo, mas ela é uma boa leitora e muito equilibrada nos seus julgamentos, de modo que imaginei que se esforçaria para alcançar certa objetividade. E é completamente franca; jamais distorceria uma opinião para me agradar, porque sabe que essas coisas não dão certo. Em resumo, ela leu e achou interessante; ouvi como ria em algumas partes, o que é um bom sinal. Sua opinião me estimula a continuar e a deixar em suspenso minha própria opinião para mais adiante, quando puder ler com maior distanciamento, quando tiver me esquecido um pouco do que está escrito.

Tinha que registrar pelo menos algumas das histórias da minha amiga de Chicago (o carrapato envenenado, os negócios imobiliários), mas perderia a graça, pois não sei contar essas anedotas como ela, e a graça está, acima de tudo, no jeito que ela conta. Em todo caso, eu tenho minha própria graça, mas para as minhas coisas. Sinto bastante inveja de um escritor como W. Somerset Maugham, de quem estou lendo nestes dias O Fio da Navalha. É capaz de narrar com todos os detalhes histórias que escutou, inclusive a ponto de imaginar esses detalhes, inventá-los, a partir de um relato esboçado por algum amigo. É um excelente escritor, por algum motivo menosprezado. Eu mesmo o menosprezava, talvez porque teve muito sucesso, e porque sua forma narrativa é bastante humilde. Lembro-me de que na minha casa havia vários livros dele, que estava na moda quando eu era criança ou bem jovem, e inclusive passaram pelas minhas mãos vários exemplares desses mesmos livros quando eu era livreiro, e nunca cheguei a lê-los. É muito provável que, se tivesse lido, naquela época, não me interessariam nem um pouco. Quando se é jovem e inexperiente, procura-se nos livros enredos chamativos, assim como nos filmes. Com o passar do tempo, a pessoa vai descobrindo que o argumento não tem grande importância; o estilo, a forma de narrar, é tudo. Assim, posso assistir ao mesmo filme ou ler o mesmo livro inúmeras vezes, inclusive um romance policial cuja resolução eu me lembro de cabeça. De Maugham, eu só tinha lido O Agente Britânico, pela primeira vez quando estava em Buenos Aires e como consequência do meu interesse pelos romances de espionagem – interesse que tinha me despertado especialmente Graham Greene. O livro me pareceu divertido, porém muito inferior aos de Greene. Depois voltei a lê-lo alguns anos atrás, não muitos, e me interessou um pouco mais. E agora o reli há pouco e gostei mais ainda. E me provocou o interesse em conhecer outros livros de Maugham. Agora estou desfrutando enormemente O Fio da Navalha, tão menosprezado, com tanta injustiça, durante tantos anos. Suponho que o mesmo deve ocorrer com uma infinidade de coisas. É difícil descobrir os próprios preconceitos, que se grudam na mente acompanhados de uma espécie de soberba, não sei explicar de que estranha maneira isso ocorre. Esses anões se instalam ali como ditadores absurdos, e os aceitamos como verdades reveladas. Muito de vez em quando, e por algum acidente ou acaso, a pessoa se sente obrigada a rever um preconceito, discutir consigo mesma, erguer o véu, olhar através dele e vislumbrar como é a realidade das coisas. Nesses casos, é possível desarraigá-lo. Mas todos os demais continuam de pé, dissimulados, nos levando de forma desatinada por caminhos errados.

O fato é que eu gostaria de escrever com o sereno prazer com o qual escreve Maugham.

 

SEGUNDA-FEIRA, 28, 05h56_Ainda acordado. Daqui a pouco são seis da manhã. Pelo menos cortei as unhas (das mãos) e lavei os pratos, que tinham formado uma montanha asquerosa. Dia de chuva, como sempre. Chl não veio, embora se notasse na sua voz, ao telefone, que ela mantinha o bom humor, apesar da chuva. Estive pensando em muitas coisas que eu quero escrever neste diário, mas não escrevi. Eu me distraí o dia todo com o computador. Programa novo que baixei da internet; algo que eu procurara por meses, sem encontrar, e esse que achei é muito bom. No e-mail, nada, exceto um par de exercícios dos alunos. Claro, não escrevo a ninguém. Dezenas de e-mails sem resposta. Hoje começou a semana de ócio, mas não houve ócio; nota-se que estou me desviando da angústia difusa. Na sexta-feira, minha amiga de Chicago tirou fotos minhas; se saírem, ficarão horríveis, com flash. Ontem, Chl me demonstrou que minha barba esteve mais comprida e tão branca quanto agora, e me mandou uma revista que tinha publicado essas fotos. Mas eu estava muito mais gordo. Não é a mesma coisa, um gordo de barba e um magro de barba. Seja como for, não fiz a barba, apesar das fotos e da demonstração de Chl. Minhas costas doem.

 

TERÇA-FEIRA, 29, 05h58_Sim, de novo são seis da manhã. Mas pelo menos não entrei na internet. Eu me pergunto o que fiquei fazendo todas essas horas.

 

QUARTA-FEIRA, 30, 23h30_Onze e meia da noite e estou com sono. Não vou me deitar porque estou com o estômago cheio. É provável que o estômago cheio seja a causa do sono; tem me ocorrido ultimamente que sinto sono depois do almoço-janta. Deveria fazer mais refeições durante o dia, e mais leves. Também é possível que hoje eu me sinta especialmente sonolento porque tive aula de ioga; na verdade, não foi bem uma aula de ioga, pois se misturou com umas bruxarias. Minha professora de ioga às vezes age como algo semelhante a uma curandeira; desta vez, foi porque ficou preocupada com minha informação sobre a loucura dos meus horários de sono. Ontem, quer dizer, hoje, dormi às dez da manhã. É um disparate, uma completa aberração. Fiquei lendo até o final do último, ou acho que é o último, romance protagonizado pelo dr. Hannibal Lecter. Acho curioso que tal personagem seja para mim uma espécie de herói. Deve ser porque come as pessoas muito ruins, que o leitor vai odiando durante todo o decorrer do romance. Quando aparecem esses indivíduos, em geral burocratas soberbos, corruptos e canalhas, penso: “Tomara que seja comido pelo dr. Lecter”, e nunca erro. Também acho estranho que eu leia com tanta tranquilidade um material tão carregado de cenas mórbidas e truculentas, que costumam ferir profundamente minha sensibilidade; por exemplo, não pude digerir Ellroy. Me causou tamanho mal-estar físico, estomacal, além de psíquico, durante vários dias, que jurei não voltar a lê-lo. É uma pena, porque Ellroy escreve muito bem e é muito talentoso; pena que seja um autêntico psicopata, e que aproveite seu talento para transmitir sua horrível doença. Consumir um romance seu é como engolir um balde cheio de merda. Não obstante, Harris, o criador do dr. Lecter, não produz em mim um efeito parecido. As cenas são mórbidas, mas menos críveis, menos vívidas; tudo tem um tom quase divertido, como os desenhos de Tom e Jerry. Jerry pode explodir o gato em pedaços com um foguete, mas a gente ri, não sente dor. Com os romances de Harris não acontece exatamente a mesma coisa, mas quase; a irrealidade é explícita demais.

E, antes disso, estive navegando na internet em busca de mais material, uma descoberta recente muito interessante. Há páginas dedicadas a mulheres com peitos especialmente desenvolvidos, e o melhor é que oferecem vídeos bastante longos, de vários megabytes. Não quero gastar dinheiro demais em telefone, mas este mês fui muito moderado. Desenvolvi um programa que cada vez que entro na internet mostra o que gastei até então, e uma projeção de gastos para todo o mês, e consegui me manter nos últimos meses dentro do limite que me propus. Como estamos nos últimos dias do mês, posso intensificar o gasto sem que modifique demais a projeção, e ontem me aproveitei disso. De toda maneira, não baixo vídeos mais longos, procuro os mais moderados. Em geral, as amostras grátis de vídeos pornô têm menos de 200 kbytes, o que significa poucos segundos de exibição. Mas aqui vem outra descoberta recente: nessas páginas de grandes bustos encontrei a propaganda de um programa que permite editar vídeos, e ontem, além de navegar na internet, e antes de me dedicar ao dr. Lecter, estive usando o programa para juntar vídeos pequenos, fragmentários, e conseguir, assim, vídeos mais longos. Também, com o mesmo programa, modifiquei alguns vídeos, fazendo minha própria montagem; eliminei algumas partes e troquei outras de lugar, de maneira que obtive melhores resultados do ponto de vista artístico e, por que não, erótico. Ao longo desses ajustes fiquei meio apaixonado por uma stripper muito bonita, que não apenas tem peitos razoavelmente amplos, como belas feições e um olhar inteligente. Destaco essas virtudes porque as mulheres de busto generoso, pelo menos as que consegui baixar da internet, na maioria dos casos são verdadeiros monstros; os peitos são monstruosamente grandes, beirando o desagradável ou inclusive o risível, e as caras são bem feias, e nos seus olhos não há o menor brilho de inteligência. Apesar da abundância de vídeos, não me interessei por baixar muitos, e inclusive entre os que baixei, não há muita beleza, e os baixei mais por curiosidade. Mas essa stripper é outra coisa. Me desperta uma grande simpatia. Poderia dizer que eu a amo.

 

SETEMBRO_SÁBADO, 2, 02h19_Estimado sr. Guggenheim, acho que o senhor gastou mal seu dinheiro nesta bolsa que me concedeu com tanta generosidade. Minha intenção era boa, mas a verdade é que não sei o que aconteceu com ela. Já se passaram dois meses: julho e agosto, e a única coisa que fiz até agora foi comprar essas poltronas (que não estou usando) e consertar o chuveiro (que também não estou usando). Passei o resto do tempo jogando no computador. Nem sequer posso entregar como equivalente este diário da bolsa; o senhor deve ter notado como deixo assuntos em suspenso e depois não consigo voltar a eles. Bom, só queria lhe dizer essas coisas. Muitas saudações, e mande lembranças à sra. Guggenheim.

O dia de hoje foi péssimo. Eu me levantei muito tarde; terminei o desjejum às seis da tarde. Estava com dor de cabeça e mau humor. Não saí à rua. Acho que o ensopado de Chl está me atacando o fígado; talvez tenha muito azeite. Hoje refoguei o ensopado e comi um bife à milanesa, que também tem azeite, mas até agora não sinto que me caiu mal. Chl veio aqui e comeu um prato de ensopado. Íamos à Feira do Livro; hoje é o primeiro dia da sua liquidação anual, e embora esteja decaindo ano após ano, sempre conservo a esperança de que voltem aos bons tempos. Mas ficou tarde e não fomos. Chl estava belíssima. Sempre está muito bela, mas hoje irradiava luminosidade, como nos seus melhores momentos, apesar de estar aborrecida com certas coisas que lhe aconteceram, pelas quais andou chorando. Depois que partiu, entrei na internet e baixei alguns filmes com falsas lésbicas.

 

TERÇA-FEIRA, 5, 04h45_Prezado sr. Guggenheim, espero que esteja consciente dos esforços, registrados neste diário, para melhorar meus maus hábitos, pelo menos alguns deles, ao menos na medida em que me impedem de me dedicar plenamente ao projeto de escrever esse romance que o senhor tão generosamente financiou. O senhor pode ver que faço tudo o que está humanamente ao meu alcance, mas tropeço de vez em quando contra esse monte de escombros que eu mesmo, certa vez, derrubei no meu caminho. É necessário remover totalmente esses escombros para poder continuar andando; digo isso porque me conheço e sei, ainda por cima, que não consigo atingir a inspiração de outra maneira. Porque a inspiração que preciso para este romance não é qualquer uma, mas uma inspiração determinada, ligada a acontecimentos que jazem na minha memória e que devo reviver, à força, para que essa continuação do romance seja uma verdadeira continuação e não um simulacro. Não quero usar meu ofício. Não quero imitar a mim mesmo. Não quero retomar o romance a partir de onde o larguei há dezesseis anos e continuá-lo como se não tivesse acontecido nada. Eu mudei. Meus pontos de vista mudaram. Minha memória mudou, e com certeza alterou os fatos. Lembro-me muito bem, diria quase perfeitamente, para além de pequenas variações inevitáveis – porque a memória é dinâmica e criativa; como já disse muitas vezes, ela põe e tira várias coisas por conta própria –, lembro-me muito bem, como dizia, dos fatos que quero narrar. Inclusive tenho algumas páginas que foram escritas com muito trabalho. Eu as escrevi no ano passado, quando ainda não sabia se o senhor iria me conceder esta bolsa. Estão aí os fatos, mas não estão vivos. Escrevo o que recordo, o que penso me lembrar, mas é pura informação armazenada na parte da memória que armazena informação. Ao escrever, meus sentimentos não apareciam em lugar algum. Não tinha isso que chamam de “vivências”. Não tinha inspiração. Portanto, não tinha estilo. Portanto, essas páginas são uma fraude. Pode ser que eu as utilize, conforme o caso, porque de toda maneira são poucas páginas e não tocam o âmago do que quero narrar; talvez não seja possível, quero dizer, eu não consiga, narrá-las melhor. Mas não quero continuar assim. Quero sentir, quero ver as cenas que estou narrando. E para isso, sr. Guggenheim, é necessário que, a partir deste diário íntimo, eu procure o caminho dos meus sentimentos revivendo fatos mais recentes, diria que quase frescos. Só que faço um monte de rodeios e não consigo fazer isso. Como também não consigo me deitar mais cedo ou me levantar mais cedo. O senhor me dirá: use parte do dinheiro da bolsa para encarar uma psicoterapia. Tem razão; tentei uma vez, de fato tentei, e acho que já narrei isso neste diário; só que não me dei bem com o terapeuta indicado. Mas o senhor tem razão; talvez deva insistir. Na minha experiência, as terapias acabam bloqueando o impulso literário, pelo menos no início. Pode ser um longo caminho. Talvez não haja outro. Para começar, eu teria que conseguir um terapeuta que aceite me atender à noite. Depois, teria que pagar; pagar um valor exagerado, porque a psicoterapia é um luxo. Deveria renunciar a certas compras que desejo fazer com seu dinheiro, sr. Guggenheim, como aparelhos de ar-condicionado, para não passar outro verão como esse último; esse verão acabou me afundando de vez nos maus hábitos. Queria quase morrer. Os verões sempre foram difíceis para mim e a cada ano é pior; ao envelhecer, com certeza minha sensibilidade ao clima fica maior porque tenho menos defesas e, como o senhor deve ter percebido, cada ano o clima fica, objetivamente, um pouco menos tolerável. A terra se aquece e se aquece, e um dia vai explodir. Tenho certeza de que os números oficiais estão adulterados; acho que o processo de aquecimento é muito mais rápido do que afirmam. Os aparelhos de ar-condicionado não contribuem para melhorar as coisas; tenho certeza de que contribuem para piorar o clima. Mas essa é a situação, cada um pensa em si mesmo, e a Terra, o futuro, eles que se virem. O cidadão comum e ordinário não pode fazer nada quanto a esses assuntos. Tem que se segurar. Provavelmente meus netos vão fritar como batatas na frigideira com azeite fervendo, mas eu não posso fazer nada para evitar isso, e comprarei esses aparelhos que me permitirão um verão menos desgraçado. Ou isso, ou a psicoterapia. O senhor, no meu lugar, o que faria? Embora eu imagine que será difícil se pôr no meu lugar, não por falta de boa vontade, e sim por razões culturais. O senhor provavelmente não imagina o que é viver nessas condições de subdesenvolvimento. Certas coisas podem ser simplesmente inconcebíveis.

Bom; não vou incomodá-lo mais com essa tagarelice. Só queria informá-lo de  que não esqueci nem por um segundo do compromisso que firmei com o senhor, e que estou fazendo tudo ao meu alcance para atingi-lo.

Saudações à sra. Guggenheim.

Trecho do livro O Romance Luminoso, que será publicado em abril pela Companhia das Letras.

Mario Levrero

Mario Levrero é escritor, fotógrafo, editor e humorista uruguaio. Autor de inúmeros contos e romances, publicou no Brasil Deixa Comigo.

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