questões cinematográficas

Diário de uma Busca

Uma crônica do exílio feita de memórias de família

Eduardo Escorel
“Pensar no meu pai era pensar em sua morte. É como se a morte dele tivesse apagado sua história e parte da minha vida”
“Pensar no meu pai era pensar em sua morte. É como se a morte dele tivesse apagado sua história e parte da minha vida” ILUSTRAÇÃO: CAIO BORGES

Para fazer justiça a Diário de uma Busca*[1] é preciso não reduzir o documentário dirigido por Flavia Castro à tentativa de elucidar as circunstâncias da morte do seu pai, Celso Afonso Gay de Castro. O episódio, no qual também morreu Nestor Herédia, amigo dele, preserva sua importância, mas acaba não sendo o principal objetivo da viagem ao passado feita ao longo das gravações e durante a montagem.

Ao interromper a primeira frase da narração dizendo não saber se a palavra misteriosa é a mais apropriada para definir a tragédia ocorrida em 1984, Flavia indica que o foco central da narrativa deixou de ser o enigma que envolve os acontecimentos daquele dia. Mesmo tendo sido a motivação inicial para fazer o documentário, e continuando a ser um dos fios condutores, Diário de uma Busca não se restringe a esse evento deflagrador, adquirindo maior abrangência por entrelaçar a autobiografia de Flavia com a crônica da diáspora dos exilados do período da ditadura (1964-85).

Ainda no prólogo, Flavia revela que durante muito tempo pensar no pai “significava pensar na sua morte”, que “por seu enigma e pela sua violência” teria apagado a história dele e parte da vida dela. Recuperando a trajetória de Celso Castro – marcada por derrotas e desilusões –, Flavia parece ter se livrado desse estigma mórbido.

Diário de uma Busca pertence à categoria de documentários singulares que ninguém mais poderia fazer, a não ser seus próprios realizadores – narrados na primeira pessoa, tratam de experiências particulares, protegidas da observação pública. Revelando a força necessária para ir em busca dos seus anos de formação, Flavia revolve afetos e conflitos atiçando a memória de parentes, amigos, jornalistas e policiais.

Alguns dos entrevistados lidam melhor com a rememoração induzida pelas gravações. “Meu Deus, como é que a gente aguentou tanta coisa, tanto rompimento?”, pergunta a avó paterna de Flavia, cujas feridas parecem ter cicatrizado bem.

Sandra Macedo – mãe de Flavia – aparenta certa frieza ao se referir à época de militância e ao exílio. Mesmo se dizendo culpada em relação a Celso por ter se dado melhor, e perguntando a si mesma se o pedido de pensão teria influído na morte dele, mantém-se senhora das próprias emoções.

Entre os integrantes da família, os mais afetados pelas gravações são o irmão mais moço de Flavia – João Paulo, o Joca – e a meia-irmã deles – a venezuelana Maria Cavalli Castro. Ela veio ao Brasil para se informar sobre o pai que mal conheceu e chora ao ouvir a leitura, feita por Flavia, de uma carta em que Celso diz se sentir “um idiota” no táxi coletivo que tomou em Caracas, levando no colo um moisés de palha para a filha que ia nascer.

Joca, por sua vez, tem dificuldade em lidar com a morte do pai e admite evitar o assunto por ter sentido vergonha do que ocorreu em circunstâncias que são, de fato, estranhas. Embora demonstre incômodo com “a parte da investigação” que, em suas palavras, estaria falha por falta de “elementos para elaborar uma interpretação do fato”, ele acompanha Flavia em algumas gravações.

A tensão entre Flavia e seu irmão provém da surpreendente incompreensão revelada por Joca, sendo ele antropólogo, da diferença entre fazer um documentário e comprovar fatos. “O que leva uma pessoa de 41 anos a fazer uma ação dessas?”, pergunta.

É legítima a dúvida sobre o motivo de Celso Castro e seu amigo Nestor Herédia – armados e vestindo uniformes da companhia telefônica – terem invadido o apartamento de um imigrante alemão, residente no Brasil desde 1922. Mas cada um convive com a perplexidade à sua maneira. Joca adota a explicação que parece fantasiosa, envolvendo um suposto ex-oficial nazista. Flavia faz um documentário tentando decifrar a realidade.

Ao dizer a Joca que não está “fazendo uma investigação policial, está fazendo um filme”, Flavia indica ter se libertado do compromisso de obter provas, consciente de que essa responsabilidade não é sua. Como documentarista, o que lhe cabe é registrar o processo orquestrado por ela mesma, no qual interessa o que ocorre diante da câmera. Mesmo se referindo a eventos do passado, Diário de uma Busca, como outros documentários semelhantes, é sobre o tempo presente.

 

Dois paradoxos se evidenciam em Diário de uma Busca. O primeiro diz respeito a Joca, que – apesar de relutante – está mais à vontade diante da câmera do que a irmã, e ainda colabora emprestando sua voz para a leitura em off, em tom adequado, dos textos de Celso. Flavia, por sua vez, parece tensa, raramente dando a impressão de estar confortável no duplo papel de diretora e protagonista. O acentuado contraste com a serenidade do tom da sua voz narrando o documentário enfatiza seu constrangimento quando está em cena. E a essas facetas divergentes de personalidade se soma a da Flavia adolescente, segura de si e cheia de certezas aos 14 anos, na entrevista dada em Paris pouco antes de voltar do exílio para o Brasil.

O segundo paradoxo é caber ao ex-delegado do Departamento de Ordem Política e Social, o Dops, que esteve à frente da ação policial que levou à morte Celso de Castro e Nestor Herédia, explicitar a dificuldade de se apurar a verdade. Ainda que fale em interesse próprio, sua sucessão de esquivas forma um conjunto impressionante, indo de “parece que” a “não posso afirmar”, passando por “essa é a versão que temos”, “o que ficou apurado foi isso”, “acredito que”, “é difícil distinguir entre boato e realidade”, “não lembro”, “não sei” – conjunto coroado pela afirmação de que “muitas vezes você não tem como provar nada e fica no terreno das hipóteses”. Uma advertência para quem pretende reconstituir o passado através de depoimentos.

Ainda que Flavia evite afirmações peremptórias, sabendo que a verdade é fugidia, Diário de uma Busca demonstra de forma clara a inconsistência da versão oficial para as mortes de Celso Castro e Nestor Herédia – segundo a polícia, teriam se suicidado ao serem encurralados.

Em Diário de uma Busca Flavia recupera a memória de um homem amoroso – militante solidário e bem-
humorado, capaz de empenhar a vida por uma causa – que ao voltar para o Brasil depois da anistia não consegue se adaptar e se torna amargo. Um homem cuja vida foi marcada por partidas e abandonos, desde quando fugiu com Sandra para o Chile, em 1969, para não serem presos e torturados – deixando Flavia, de 4 anos, e seu irmão caçula com os avós – até sua morte, em 1984, vivida por Joca como outro abandono.

Dois meses antes de morrer, Celso Castro escreveu: “Não tenho mais aquele empurre de antes. Não me passa mais pela cabeça formar um grupo político. Não consigo imaginar que eu possa ter uma ação política mais ativa, mais combativa, com a criação de um grupo de esquerda radical dentro de um dos partidos existentes. Não vou conseguir. Pra mim, não foi possível.”

Diário de uma Busca refaz o atribulado percurso que levou ao desfecho trágico.


[1]*Diário de uma Busca é coproduzido e distribuído pela VideoFilmes, empresa da qual o editor e redator de piauí João Moreira Salles é sócio. Flavia Castro, por sua vez, colaborou comigo escrevendo o roteiro de uma série de documentários atualmente em finalização. De minha parte, assisti a Diário de uma Busca mais de uma vez enquanto estava sendo montado.

Eduardo Escorel

Eduardo Escorel, cineasta, diretor de Imagens do Estado Novo 1937-45

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