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Diga weee por um mundo melhor

Operador do Playcenter não se intimida com Sailor Moon
Emilio Fraia
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ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2007

Naruto Uzumaki – em cujo corpo está aprisionado o espírito da raposa de nove caudas – é onipresente. Ele espera a vez na fila do Splash, faz manobras arriscadas no carrinho bate-bate e grita na montanha-russa. Sua roupa laranja pode ser vista por toda parte. É uma das mais populares entre os participantes do primeiro Anime Play, festival realizado no Playcenter, em São Paulo, num fim de semana de maio. Naruto é um personagem fictício, protagonista do mangá homônimo. (“Mangá”, para os totalmente desinformados, são as histórias em quadrinho japonesas.) Suas aventuras começaram a ser publicadas em 1999, no Japão, e viraram febre; já conquistaram legiões no Brasil. “Quando o espírito da raposa move uma determinada cauda, por exemplo”, conta o Naruto Marcos Fujioka, 16 anos, ajeitando a bandana ninja, “ele gera tsunamis e achata montanhas”.

Perto dali, de peruca rosa, Sumomo acaba de ver o mundo de cabeça para baixo. Na saída do Evolution, brinquedo que lembra um liquidificador humano, a robô do anime Chobits se apresenta: Milena dos Santos, 17 anos, da cidade paulista de Itatiba. (“Anime”, para os novamente desinformados, são os desenhos animados japoneses.) “Adoro a Sumomo, ela tem 20 centímetros, é uma robozinha de estimação muito atrapalhada e…”. Milena larga a frase pela metade quando vê, no meio de um exército de Pokemons, as irmãs gêmeas Chii e Freya, também personagens de Chobits. Elisabeth Eguchi (Chii), 18 anos, e Tamara Yumi (Freya), 15 anos, medem 1 metro e meio de altura. Vestem saias curtas, têm longos cabelos loiros e orelhinhas de gato. “É fácil ver Chii ou Freya nos eventos, mas quase nunca as duas juntas”, orgulha-se Tamara.

Elisabeth tem planos de aprender a costurar para fazer as próprias fantasias. “Hoje eu gasto em média uns 100 reais por roupa”, diz. “Quero economizar e usar o dinheiro para comprar mais mangás.” Antes de ir para outro lado, Sumomo tira fotos com as gêmeas. As três se abraçam e, animadas, gritam weee umas para as outras (Gritar weee, para os ainda desinformados, ‘é tudo de bom’. Significa “Bom augúrio!”, “Bons ventos te levem!”. Algo assim.).

Vestir-se como personagem de anime ou mangá é a diversão da maioria dos freqüentadores de eventos como o Anime Play. “Eles são cosplayers”, explica Philipe Monteiro, 23 anos, um dos organizadores (a palavra vem de costume e play.) Mas eles não podem só se fantasiar. Precisam encarnar o jeitão do seu herói preferido, as poses, o modo de falar e até as coreografias. Quem for mais bem possuído pelo personagem derrota os adversários.

O Brasil, atual campeão mundial, é uma nação emergente na geopolítica do cosplay. No ano passado, os irmãos Mônica e Maurício Olivas venceram o World Cosplay Summit, disputado no Japão, com os personagens Rosiel e Alexiel, do anime Angel Sanctuary. Este ano o verde-amarelo será representado pelos noivos Thaís “Yuki” Jussin e Marcelo “Vingaard” Fernandes, que venceram a etapa brasileira com os personagens Sesshoumaru e InuYasha. A final mundial acontecerá em Nagóia, no dia 5 de agosto.

No palco do Playcenter, as bandas Tofu Attack e Tsubasa se revezam, tocando temas dos seriados Jaspion e Changeman. A pequena multidão canta junto – “Pela liberdade, sou Jaspion! Pela igualdade, sou Jaspion!” – e vai ao delírio.

Do outro lado do parque, uma gangue de Sailor Moon toma o barco viking. Quando o brinquedo ameaça parar, as meninas berram, contrariadíssimas. Recusam-se a descer. Uma delas desafia o operador: “Sou uma guerreira com roupa de marinheiro e vou punir você em nome da Lua!”. Ele olha e dá uma ajeitada no boné.

 

O momento mais esperado do Anime Play é o concurso de cosplay. Inscreveram-se 120 participantes, em três categorias: feminino, masculino e grupo. “Palmas para os Chobits!”, conclama o apresentador: a disputa começou. King of Fighters, Ranma 1/2, Final Fantasy, Sailor Moon, Cavaleiros do Zodíaco. Os personagens entram e saem do palco, apresentando cenas de luta e coreografias.

Nos bastidores, Maria Elisa, 17 anos, e Debora Ferreira, 15, estão nervosas. É a primeira vez que a dupla participa do evento. Vestidas a caráter, prepararam uma coreografia em homenagem ao “melhor anime de todos os tempos”: Sailor Moon – a Graciosa Guerreira Marinheira da Lua.

O apresentador anuncia os vencedores: Prince of Tennis, no feminino, e Anakin Skywalker, no masculino. As mãos de Maria Elisa tremem, mas ela está quieta. Quando se ouve que as marinheiras da Lua são eleitas o melhor grupo da noite, as duas se abraçam, choram de alegria, sobem ao palco e recebem as medalhas em soluços. “Ficamos um mês ensaiando”, diz Maria. “Elas mereceram”, avalia o jurado Bruno Lazzarini. “Quase ninguém faz botas como as delas. Ficaram incríveis.”

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