esquina

A dinastia de Tieta

A cachorrada ilustre de Brasília

Carol Pires
Andrés Sandoval_2018

Quem é convidado para jantar na casa do deputado piauiense Heráclito Fortes, no Lago Sul, em Brasília, invariavelmente espera pelo anfitrião, sempre atrasado por causa  dos compromissos na Câmara. Enquanto isso, quem faz sala é Tieta, uma cadela da raça jack russell terrier. Na presença de estranhos, Tieta se apressa em sentar na poltrona preferida de Fortes, de estilo barroco e em couro marrom, comprada em Miami. Dali não arreda a pata até que o titular chegue para ocupá-la.

Simpática e vigilante, Tieta é branquinha com as orelhas pretas e não tem mais que 30 centímetros de altura. Costuma mordiscar canelas à mostra. Ciumenta, ataca mulheres de saia, mas não as que vestem calça. Na hora do jantar, se aquieta à espera que o dono – escondido de Mariana, sua mulher – lhe dê algum petisco. Sentada embaixo da mesa, em seus 3 anos de vida a cadelinha acompanhou os principais bastidores da política brasiliense. “Tieta é uma dama”, disse Fortes à piauí. “Me ajuda. Participa das rodas. Foi testemunha ocular do impeachment.” (Na hora do voto, porém, o deputado dedicou o “sim” à mulher, às filhas e aos netos – Tieta não foi lembrada.)

Derrotado na tentativa de reeleger-se senador pelo DEM em 2010, quando o ex-presidente Lula o escolheu como desafeto prioritário a ser abatido nas urnas, Fortes voltou para Teresina e passou um tempo expatriado da política brasiliense. Na mesma época perdeu seu cachorro de longa data, o maltês Lilito. “Fica um vazio, né?”, ele comentou.

Tieta, hoje conhecida como “a mascote do impeachment”, é o símbolo da volta por cima de Fortes. Acompanhou o dono quando ele regressou a Brasília em 2014 – ano de reeleição de Dilma Rousseff –, eleito pelo PSB. Enquanto o deputado se articulava para retomar seu lugar no olimpo da oposição, ela namorou Xavier, outro jack russell de Fortes, e teve filhotes, um dos quais hoje mora no Palácio do Jaburu. Oferecido a Michelzinho, filho do presidente Temer, o primogênito de Tieta é o primeiro-cão Picoly.

O canil pode dizer muito sobre os ocupantes de um palácio. Os Obama tinham Bo e Sunny, cães d’água portugueses simpáticos e cheios de energia, enquanto Donald Trump é o primeiro presidente norte-americano em 150 anos a não criar um cachorro na Casa Branca. Já Vladimir Putin se vale das mascotes para endossar sua política externa agressiva: em 2007, o presidente russo levou sua cadela Koni, um portentoso labrador preto, a uma reunião com a chanceler alemã Angela Merkel, que não esconde seu medo de cães. E, no Palácio de Windsor, o canil vem passando por uma debacle: em abril morreu Willow, o último dos trinta cachorros corgi da rainha – ele desfilou na Olimpíada de Londres e até saiu na capa da Vanity Fair, clicado pela fotógrafa-celebridade Annie Leibovitz.

Na Venezuela, Hugo Chávez tinha um cachorro mucuchí, única raça nativa do país, de nome Nevado. Como símbolo do legado bolivariano, o irmão de Chávez presenteou Cristina Kirchner com um filhote que ela batizou de Simón. E, se o ex-presidente colombiano Álvaro Uribe, um representante da alta sociedade, anda acompanhado de seu pug, o uruguaio José Mujica, conhecido como “o presidente mais pobre do mundo”, cuida de Manuela, uma vira-lata perneta.

Já em Brasília, um dos cães mais conhecidos da cidade foi Nego. Labrador do ex-todo-poderoso José Dirceu até o dono cair no escândalo do mensalão, acabou nas mãos de Dilma Rousseff, que também herdou de Dirceu o cargo na Casa Civil, a residência oficial e o posto de sucessora de Lula. Nego ficou famoso ao aparecer na primeira campanha de Dilma caminhando com ela pela orla do lago Paranoá. Com a eleição da dona, foi morar no Palácio da Alvorada, onde corria atrás das emas que vivem por lá. Terminou exilado na Granja do Torto. No segundo mandato de Dilma, Nego adoeceu e, tal qual a crise política, entrou em fase acelerada da doença em dezembro de 2015. Diagnosticado com mielopatia degenerativa canina, ele estava cansado – fazia catorze anos que vivia no centro do poder. Sucumbiu durante o processo de impeachment.

Foi no ocaso de Nego que nasceu Tieta, a jack russell de Heráclito Fortes. Não muito comum no Brasil, a raça, de origem inglesa, é muito usada na caça à raposa ou no pastoreio de ovelhas. No léxico brasiliense, dir-se-ia que ela articula a maioria. “Eles usam desse cachorro pra organizar o rebanho. É uma coisa muito engraçada, ele pula, corre atrás, morde a canela do carneiro”, diverte-se o deputado.

À imagem dos cargos no governo, os frutos das duas ninhadas de Tieta foram distribuídos entre os aliados do dono. Ela é mãe da cachorrada mais ilustre de Brasília. Bom emedebista, Temer foi o primeiro a reclamar seu quinhão. Já presidente interino, em uma visita a Fortes ele viu os rebentos e perguntou se “já estavam todos comprometidos”. Thor, seu golden retriever, era muito grande para brincar com Michelzinho, então com 7 anos. Tão logo Temer voltou da primeira viagem como presidente empossado, um filhote de Tieta foi morar no Jaburu.

Picoly – nome dado por Michelzinho – andou agitando a vida no palácio. Recentemente, o cãozinho quase se afogou no lago Paranoá ao perseguir um pato. Diante da inércia dos agentes que faziam sua segurança, a primeira-dama não hesitou em se jogar na água para salvar o animal. Não tardou para que o jornalista Ricardo Noblat revelasse nas redes sociais que a imprensa também tinha sido contemplada na partilha dos filhotes de Tieta: o cachorro dele é irmão de ninhada de Picoly e ganhou o nome de Uber.

Outro filhote de Tieta, um ano mais novo que Picoly e Uber, é Google, que Fortes deu a outro aliado, o ministro de Minas e Energia, Moreira Franco. Ganhou esse nome porque “é uma coisa nova, moderna, útil”. No caso dele, nem tão útil por enquanto: tem sido visto com um adestrador, contratado para atenuar sua elevada autoestima (avança em cachorros muito maiores que ele).

“Ofereci um para o Moreira porque ele é um invejoso”, contou Fortes. “Viu que eu tinha dado um a Michel e ficou cobiçando.” A princípio o ministro lhe disse que o filhote era para o neto, que é filho de Rodrigo Maia, presidente da Câmara. “Mas ele está com o cachorro até hoje. Procure saber.”

Procurado, Moreira Franco negou a alegação. “Pensei que ele tinha me dado porque somos amigos há décadas”, protestou. “Mas, agora que eu sei que o Noblat também ganhou um, entendi que ele está fazendo política com aquela cachorra.”

Carol Pires

Carol Pires é colaboradora do New York Times en Español e redatora do Greg News, na HBO. Foi repórter da piauí de 2012 a 2016

Leia também

Últimas Mais Lidas

No submundo do marketing político

Como funciona o mercado ilegal de santinhos virtuais via zap

Bolsonaro traz o futuro prometido

O Brasil será o primeiro do mundo a entrar na hiper-história

Subordinação e rebeldia

Nem todos irão bater continência para o capitão

Exclusão de perfil irregular no WhatsApp não bloqueia rede de desinformação

Mesmo que aplicativo suspenda contas com acesso indevido a bases de usuários, grupos continuam ativos

Eleição explode no YouTube após 1º turno

Volume de vídeos produzidos sobre Bolsonaro e Haddad em uma semana após a votação supera os três meses anteriores; petista é maior alvo

Tempos assombrosos

O que assusta mais: o futuro político do país ou um ente sobrenatural?

Pelo porto de Santos, duas décadas de propinas

Relatório da Polícia Federal revela como Temer, um coronel aposentado, um arquiteto e um economista forjaram um esquema de desvios milionários que começou em 1995

Sergei Loznitsa – decadência e degradação onipresentes

A Rússia filmada pelo cineasta ucraniano mostra ao resto do mundo qual caminho não seguir

Deu no celular

Fim do lulismo, campanha via smartphone e a era da desinformação

No Brasil, passeata passa antes pela escola

Pesquisa da Pew Research mostra que 29% dos brasileiros mais escolarizados dizem participar de protestos, contra 8% dos que têm menos anos de estudo – a maior diferença entre 14 países

Mais textos
1

Os formadores da onda

SuperPop, comunismo e Lava Jato: sete eleitores de uma mesma família no Rio de Janeiro enumeram as razões por que votam em Bolsonaro

2

O candidato do colapso

Poder de Bolsonaro nasceu da devastação social e dela dependerá

3

E se o Brasil sair do Acordo de Paris?

O que Bolsonaro precisa fazer para abandonar o tratado climático, e como o recuo ameaça a parceria comercial bilionária com a União Europeia

4

Vivi na pele o que aprendi nos livros

Um encontro com o patrimonialismo brasileiro*

5

A imprensa precisa fazer autocrítica

Foram anos tratando o inaceitável como controverso ou mesmo engraçado

6

Dois empresários paulistas contam por que estimulam Bolsonaro

Fundador da Tecnisa e dono de empresa de monitoramento de mídia marcam encontros entre pré-candidato e comunidade judaica de São Paulo. “Apoio quem seja contra a esquerda”, resume incorporador

7

O fiador

A trajetória e as polêmicas do economista Paulo Guedes, o ultraliberal que se casou por conveniência com Jair Bolsonaro

8

Deu no celular

Fim do lulismo, campanha via smartphone e a era da desinformação

9

Pelo porto de Santos, duas décadas de propinas

Relatório da Polícia Federal revela como Temer, um coronel aposentado, um arquiteto e um economista forjaram um esquema de desvios milionários que começou em 1995

10

Correndo riscos

Eficiente na campanha, o medo não serve a Bolsonaro para governar o país