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Dom Quixote nos Andes

O clássico de Cervantes em quíchua
Lucas Iberico Lozada
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ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2017

Embora já não enxergue direito e esteja praticamente surdo, o professor Demetrio Túpac-Yupanqui suporta a idade avançada sem reclamar. Dá aulas regulares de quíchua, o mais popular dos idiomas andinos, e se mostra sempre solícito com os alunos e familiares que transitam pela casa de três pavimentos onde mora, no bairro de La Perla, em Callao, cidade portuária do Peru. Há duas décadas, o senhor de 92 anos e cabelos ainda fartos leva adiante um projeto tão notável quanto solitário: traduzir Dom Quixote de la Mancha para a língua indígena. Cerca de 8 milhões de pessoas a falam cotidianamente em partes da Bolívia, do Equador, da Argentina, da Colômbia e do próprio Peru. No entanto, quase ninguém a lê ou escreve, pois não existe um consenso em torno das regras gramaticais e ortográficas que deveriam norteá-la. O quíchua sobrevive principalmente graças à tradição oral. Há, inclusive, quem não o considere um idioma, mas uma família de 46 línguas e dialetos semelhantes. O de Cusco, por exemplo, se diferencia daquele que se ouve na região peruana de Ancash.

Curiosamente, Yupanqui não figura entre os fãs ardorosos de Dom Quixote, o anti-herói desvairado que protagoniza o romance do espanhol Miguel de Cervantes, dividido em dois volumes: um de 1605 e outro de 1615. O tradutor resolveu se debruçar sobre o livro menos por amor às desventuras do cavaleiro andante e mais pelo desejo de colocar o quíchua nas salas de aula. “Nenhum idioma gera espontaneamente sua escrita. Se você sabe ler e escrever, é porque alguém ensinou”, disse o professor na casa de La Perla, enquanto mostrava um exemplar de Yachay Sapa Wiraqucha Dun Qvixote Manchamantan. O título em quíchua preserva o nome original da saga, depois simplificado: O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de La Mancha.

Se dependesse de Yupanqui, a tradução chegaria à maioria das escolas andinas e serviria de base para o aprendizado formal da língua. “Só que tudo saiu errado…”, lamentou. Em 2005, após dez anos de muito suor, o peruano publicou o primeiro volume do romance, mas com tiragem minúscula e preço exorbitante, por se tratar de uma edição luxuosa, que festejava o quadricentenário da narrativa. Cada um dos 400 exemplares custava o equivalente hoje a 245 reais. Claro que a obra virou item de colecionador. Como o acordo de Yupanqui com a editora El Comercio o privava dos direitos sobre a tradução, ele se viu impossibilitado de fazer uma versão popular.

Tempos depois de lançar o primeiro volume, o professor recebeu um convite para proferir uma palestra a respeito do trabalho e notou que havia perdido sua única cópia de Yachay Sapa Wiraqucha Dun Qvixote Manchamantan. Procurou a El Comercio e explicou o que se passara, na esperança de conseguir outro livro. “Azar o seu”, esquivou-se o editor. Resultado: Yupanqui teve que pagar mais de 100 dólares por um exemplar usado de sua própria tradução.

 

Os incas – que, a partir do Peru, constituíram o maior império da América pré-colombiana – se comunicavam em quíchua. Era por meio da língua que compartilhavam seus mitos e tradições, mas sempre oralmente. Quando precisavam disseminar leis, decretos e informações contábeis, utilizavam o quipo, conjunto de cordões repletos de nós e às vezes enfeitados por ossos ou penas. A disposição ou a cor de cada nó transmitia uma mensagem específica.

No período colonial, padres e cronistas espanhóis que conviviam com os incas se interessaram pelo quíchua e tentaram codificá-lo. Veio à tona, assim, um dos primeiros livros no idioma, publicado em 1583. Tratava-se de um texto religioso, também editado em castelhano e aimará, outra língua dos Andes. Seu título não economizava palavras: Doctrina Cristiana y Catecismo para la Instrucción de los Indios y de las Demás Personas, que Han de Ser Enseñadas en Nuestra Santa Fé.  No século XVIII, porém, os colonizadores proibiram o quíchua em documentos, repartições públicas e cerimônias sacras da América hispânica. O veto desestimulou sua difusão por escrito.

A independência do Peru, em 1821, não alterou muito a situação. Esforços para introduzir uma educação bilíngue no país falharam e o idioma ancestral seguiu praticamente restrito à oralidade. Daí o empenho de Túpac-Yupanqui em sistematizá-lo. Rindo, o professor se refere ao espanhol como “a língua do invasor” e reconhece que há algo de quixotesco na busca por “um quíchua oficial”. Ele se dedica à empreitada desde a juventude, quase sem nenhum apoio ou financiamento institucional.

 

Nascido no povoado de San Jerónimo, onde aprendeu o idioma dos incas, o tradutor saiu de lá ainda criança para ingressar numa escola franciscana de Cusco. Acabou se tornando jornalista e atuou tanto no rádio como em publicações impressas. Também formou um grupo de música folclórica e se aproximou do escritor José María Arguedas, cujos livros misturam o espanhol com um quíchua muito próprio. “Ele mesmo admitia não saber a língua”, contou Yupanqui. “Mas os críticos literários tampouco a conheciam. Por isso, achavam a prosa de Arguedas maravilhosa.” O romancista, na verdade, criou uma espécie de dialeto que lembra o quíchua e o fundiu ao castelhano.

Viajando pelo Peru, Yupanqui percebeu que não havia pesquisas consistentes sobre a língua de seus antepassados. Começou, então, a escrever uma das primeiras gramáticas do idioma. Durante a década de 70, seu pioneirismo lhe rendeu uma bolsa para estudar linguística na Universidade Cornell, nos Estados Unidos. Quando retornou, nos anos 80, fundou sua própria academia de quíchua na casa de La Perla. Foi ali que Miguel de la Quadra-Salcedo, jornalista e aventureiro madrilenho, admirador de Cervantes, lhe sugeriu: “Por que você não traduz Dom Quixote?”

Em junho de 2015, Yupanqui finalmente concluiu a tarefa. O segundo volume do célebre livro já dispõe de uma versão em quíchua – que, no entanto, permanece inédita. Todas as tentativas de publicá-la naufragaram. O futuro do Quixote andino é incerto.

 

Tais preocupações, contudo, pareciam bem distantes de Túpac-Yupanqui numa tarde nublada de terça-feira, quando ele orientava um pequeno grupo de estudantes. A aula, sobre o uso do possessivo em quíchua, terminou com música – uma cançãozinha popular bem-humorada, que questionava a paternidade de um bebê concebido no Carnaval.

Enquanto os alunos se preparavam para sair, o professor recordou-se de uma história longínqua. Recém-casado, decidira brincar o Carnaval num vilarejo, em companhia do sogro. Às tantas, uma moça lançou olhares cobiçosos para Yupanqui. Estava bêbada de chicha, fermentado à base de milho, e se mostrou tão insistente que o rapaz fugiu dela montando um cavalo roubado. Os estudantes, apesar de já terem arrumado suas coisas, não arredaram pé da academia, fascinados pelo relato – mescla perfeita de bufonaria, mal-entendidos linguísticos, imaginação fértil e nobreza fora do lugar.

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