esquina

Edemar, o artista

Sua obra vai além da escultural falência do Banco Santos

Bruno Moreschi
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2008

Por quinze dias, um pano preto encobria algo corpulento no centro da praça Luís Carlos Paraná, esquina da avenida Faria Lima com a rua Amauri, em São Paulo. O mistério perdurou até o dia 18 de agosto, quando o pano foi retirado, revelando a nudez em bronze de duas raparigas de quase 3 metros. Muitos se perguntaram quem teria sido o criador das estátuas. José Bispo, manobrista do edifício comercial Hyde Park, ouvira, no dia da inaugu-ação, um nome de fácil memorização e, aos curiosos, explicou, de bate-pronto: “Edemar Cid Ferreira.” Dessa maneira, o ex-banqueiro, dono de valioso acervo artístico e responsável pelo calote de 2,5 bilhões de reais a 3 mil credores do Banco Santos, abandonou a alcunha de ex-presidiário para ser alçado ao posto de respeitado escultor.

Na pressa de atravessar as ruas movimentadas, quase ninguém se atenta a ler a pequenina placa que indica o nome do verdadeiro criador das duas estátuas, o artista italiano Galileo Emendabili, que veio à capital paulista na década de 20, onde se tornou o queridinho da buona gente abastada. Para intensificar seu anonimato, duas outras placas, bem maiores, relegam Emendabili a um ostracismo de bêbado de praça. Uma delas mostra o nome do Banco Luso Brasileiro, que patrocinou a base que suporta o monumento. A outra informa: “Prefeitura de São Paulo trabalhando por você.” Estranhamente, ela não estava ali antes da campanha eleitoral.

Os famintos da churrascaria Rubaiyat, a 200 metros da praça, comem carnes nobres fitando as moçoilas desavergonhadas. Carlos Pereira, o gerente do restaurante, não cansa de repetir que “gosta do traço suave e sereno desse fantástico artista chamado Edemar”. Admite, porém, ter ficado ressabiado quando ouviu os rumores de que surgiria por ali um monumento. Em sua mente lhe vieram as duas chapas metálicas avermelhadas e retorcidas do artista Franz Weissmann, expostas na praça da Sé, a meio caminho entre o trabalho e sua casa: “Olho, olho e aquela coisa não me diz nada.”

Para o alívio de Pereira, as estátuas são claramente identificadas como estátuas. A primeira, chamada Musa da Escultura, segura um martelo por entre os seios. Já a Musa da Engenharia, que porta uma engrenagem, sofre por estar lado a lado com a colega mais delgada. Acaba parecendo cheinha, num sobrepeso suave, quase renascentista.

No salão de beleza que fica na frente da praça, Jacenildo dos Santos, cabeleireiro responsável pelo tom acaju do topete do apresentador Silvio Santos, comemora a chegada das esculturas, pois “tudo que remete à fineza é bem-vindo”. E emenda na tentativa de provar que anda bem informado: “Não vejo nada demais um banqueiro com problemas na Justiça expor sua arte em praça pública. É preciso separar a obra da pessoa. Além disso, vi de relance outros trabalhos do Edemar e ele me pareceu um artista bastante diversificado.”

Se Cid Ferreira fosse mesmo autor das suas 11 mil obras avaliadas em 30 milhões de dólares, ele seria um ar-tista dos mais valiosos (e incoerentes) da história. De sua coleção fazia parte um Brecheret de 1 milhão de dólares e um colar yanomami de 900 mil, além de objetos de valor inestimável, como um sarcófago egípcio. Inquieto e polivalente, o artista Cid Ferreira ainda teria se aventurado pelo campo da fotografia, montando uma coleção de 420 imagens assinadas sob os heterônimos Man Ray, Henri Cartier-Bresson, Leni Riefenstahl e Pierre Verger. Diante dos ilustres, as musas da praça são bagatelas que não valem mais do que 30 mil reais.

Com algumas exceções como um Roy Lichtenstein (3,2 milhões de dólares), um Fernand Léger (2,5 milhões) e um Robert Rauschenberg (5 milhões), que escafederam antes, quase tudo que era da Cid Collection foi parar nos museus da cidade, em uma determinação de 6 de dezembro de 2006, assinada pelo juiz Fausto de Sanctis, titular da 6ª Vara Federal Criminal em São Paulo. Nesses quase dois anos, as estátuas das musas ficaram num canto do Museu da Casa Brasileira, especializado em mobiliário. Alertado pela filha do escultor (Emendabili, não Cid Ferreira), o juiz se deu conta da incompatibilidade estética e as mandou para aquela praça, até então mixuruca, que nem banco e coreto tem.

 

O merecido descanso das musas em praça pública sofre com as morosas decisões processuais. Corre na 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais um pedido para que elas e outras obras do banqueiro sejam leiloadas e o dinheiro entregue às pessoas prejudicadas pela falência do Banco Santos. Um caso semelhante mostra que a história deve ser longa. Desde 1999, litígio semelhante ronda as 431 obras que pertenciam a Adolfo Bloch, dono da falida TV Manchete. Por enquanto, a família ainda leva a melhor.

Um pedido recente do juiz De Sanctis pode criar um terceiro autor para as musas. Em poucas semanas, aparecerão duas placas, maiores que as que já estão lá, com os dizeres: “Esculturas apreendidas por determinação da Justiça.” Edemar, o artista, corre o risco de perder em popularidade para essa tal Justiça, a mesma que criou a famosa escultura de uma mulher de olhos vendados segurando uma balança.

Bruno Moreschi

Bruno Moreschi, jornalista e artista plástico, é coautor de 501 Grandes Artistas, da Sextante.

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