O editor (à esq.) com Millôr Fernandes. “Em dezembro de 68 joguei fora 6 mil páginas traduzidas. Tinha, por exemplo, escritos de Engels, o que era forte para a época”, relembrou Zahar
Ver dados da foto O editor (à esq.) com Millôr Fernandes. “Em dezembro de 68 joguei fora 6 mil páginas traduzidas. Tinha, por exemplo, escritos de Engels, o que era forte para a época”, relembrou Zahar FOTO: ACERVO JORGE ZAHAR

Edições perigosas

Jorge Zahar e a ditadura
Paulo Roberto Pires
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O editor (à esq.) com Millôr Fernandes. “Em dezembro de 68 joguei fora 6 mil páginas traduzidas. Tinha, por exemplo, escritos de Engels, o que era forte para a época”, relembrou Zahar FOTO: ACERVO JORGE ZAHAR

“Bebia-se bem lá em casa”, lembra Cristina Zahar ao evocar o clima do apartamento de Copacabana que, na década de 60, era uma espécie de extensão do escritório da rua México, sede da editora de seu pai. Toda semana, às vezes mais de uma vez por semana, gente, como Ênio Silveira, Millôr Fernandes, o diretor de teatro Flávio Rangel, o poeta Moacyr Félix, Paulo Francis, os críticos Mário da Silva Brito e Franklin de Oliveira, o general-tradutor Octavio Alves Velho e o jornalista Moacir Werneck de Castro, aparecia sem convite ou aviso para longas conversas que varavam a noite, pontuadas por música e declamações de poesia. Havia sempre comida e bebida, esta em fartura que aos convivas parecia infinita.

Poucos deles imaginariam que até os 35 anos Jorge Zahar não bebia nada de álcool. A abstinência, resultado da escassez financeira e de austeridade auto-imposta pelas obrigações familiares e profissionais dos primeiros tempos, jamais voltaria depois que a vida entrou nos trilhos – e sobretudo nas eventuais descarriladas. Para conversa fiada, festa e fossa, o uísque era a primeira opção. Cada momento da vida correspondia a uma marca: houve um tempo de Chivas e outro de Bell’s. Dimple tornou-se um clássico atemporal e, a partir dos anos 70, o predomínio foi de seu preferidíssimo Cutty Sark – garrafa verde e rótulo amarelo estampando o veleiro escocês que lhe dava nome e ficara famoso pelo transporte de um inocente chá. A devoção era tamanha que, nos anos 70, chegou a visitar a própria embarcação transformada em museu em Greenwich.

Mais do que hábito ou vício, a bebida era um importante componente geracional daquela elite intelectual carioca, gregária e boêmia, que fazia de festas, bares, restaurantes e boates a extensão de redações, salas de aula, teatros e estúdios de rádio e televisão. Tomar umas e outras fazia parte de um espírito do tempo tão bem plasmado por Paulo Mendes Campos, assíduo da casa, na crônica-pergunta “Por que bebemos tanto assim?”: “O homem bebe para disfarçar a humilhação terrestre, para ser consolado; para driblar a si mesmo. O homem bebe como o poeta escreve seus versos, o compositor faz uma sonata, o místico sai arrebatado pela janela do claustro, a adolescente adora cinema, o fiel se confessa, o neurótico busca o analista.”

Mendes Campos acabaria sofrendo duramente com os excessos do álcool, mas naqueles anos o uísque parecia apenas um catalisador da euforia e de um de seus avessos, a melancolia, que em geral se instalava alta madrugada, quando ele e Zahar acabavam falando de suas respectivas mães, ambas chamadas Maria: Zahar, apesar de todas as turbulências, derramava-se em admiração; Mendes Campos remoía a mágoa de ter sido mandado para um colégio interno. Beber também era, por fim, uma espécie de atributo profissional. Mesmo em meados dos anos 80, quando o mundo editorial já era outro, Zahar irritava-se com a sobriedade de um de seus amigos mais recentes e mais íntimos, Luiz Schwarcz. De vez em quando dava um pito no fundador da Companhia das Letras: “Cara chato, que não fica bêbado, você nunca vai ser um grande editor.”

Millôr Fernandes era outro que pouco bebia. Só que ninguém percebia. Além do notório talento para a conversa, disfarçava muito bem com água e gelo as poucas doses que o acompanhavam por uma noite inteira, num caso raro, raríssimo, de boêmio quase abstêmio. Era tão presente na vida de Jorge Zahar, que na memória de Cristina fora sagrado, ao lado de Ênio Silveira e Paulo Francis, “Cavaleiro da Távola Redonda” familiar. No círculo mais íntimo de Zahar, era uma espécie de quarto mosqueteiro, com quem ele falava muito ao telefone e, em seus últimos anos, mantinha almoços regulares.

“Fale ou fax”, dizia Millôr no recado da secretária eletrônica de seu estúdio em Ipanema. Zahar gostava de ambas as opções, mas em janeiro de 1993, saudoso e com dificuldades de encontrá-lo, decidiu enviar uma carta mesmo, em sua melhor forma galhofeira: “Despediu a secretária eletrônica? Posso compreender que um desempregado tome medidas de economia, mas não a tal ponto. E almoçar, também não almoça mais?” Meses antes Millôr tinha acabado de deixar o Jornal do Brasil, onde mantivera por quase oito anos a coluna diária conhecida como “quadrado”, e de encerrar também suas colaborações para a IstoÉ. “Se não tiver cortado os gastos com impulsos telefônicos, combine com o Gravatá para almoçarmos um dia desses, num restaurante barato”, continuava ele, referindo-se a Luiz Gravatá, amigo de Millôr e naquela época presença assídua à mesa. “Entrarei na vaquinha para financiar.”

Os preparativos para esses encontros eram caprichados. Zahar sempre levava a Millôr alguns dos livros que acabara de publicar, os seus favoritos, e também exemplares estrangeiros que, tinha certeza, provocariam a onívora curiosidade do amigo. “Foi um exemplo raríssimo, quase único, de dignidade profissional, compromisso”, disse Millôr ao comentar sua morte. “Como pessoa era alguém de quem era impossível não gostar. Era um exemplo de comportamento humanístico. Morreu sem errar.”

Presença assídua nas noitadas, a amiga Marlene de Castro Correia muitas vezes sentia-se um pouco deslocada naquele ninho de cobras. Não porque todo mundo ali fosse notório, intelectual de esquerda ou quisesse mudar o Brasil, mas porque quase todo mundo ali era homem. As mulheres apareciam de vez em quando como acompanhantes de namorado, marido ou, bem ao gosto da época, “amante”. Não era incomum que, nas rodas de conversa, elas ficassem para um lado, eles para outro. A professora da Faculdade de Letras sempre chegava lá sozinha e, acompanhada de seu copo de uísque, ficava do lado “deles”. Por isso, numa noite de acalorada discussão, como o foram quase todas logo depois do golpe de 1964, não teve o menor pudor de confrontar Paulo Francis, apontando a ingenuidade da tese ali defendida por ele: a ditadura recém-instalada terminaria em pouco tempo, era iminente a reação dos setores progressistas e da população.

Francis ficou furioso no que via como uma impertinência, e Correia, no dia seguinte, decidiu por via das dúvidas reforçar as compras e estocar comida, à espera da tal resistência. E se o colunista da Última Hora, tão arguto em suas análises, estivesse certo? Pouco mais de dez anos depois, certamente sem se lembrar daquela noite como de tantas outras turvadas pelo álcool, Francis escreveria: “Pertenço a um grupo geracional de rara ingenuidade. Acreditávamos que seria possível fazer um país novo, decente, justo. Do nada. Isso é importante. Reconhecíamos o imenso atraso e a ofensiva pobreza do Brasil. É, paradoxalmente, um dos charmes de se nascer e viver numa nação marginal.”

 

O interesse do Departamento de Ordem Política e Social por Jorge Zahar vinha de longe. A editora não existia, e ele, aos 30 anos, estava longe de ser uma personalidade pública quando o Dops abriu em seu nome o prontuário 44 663. O Brasil de 1950 preparava-se para as eleições diretas que reconduziriam ao poder um Getúlio Vargas em nova versão, o ditador reencarnado em democrata. O governo do general Eurico Gaspar Dutra, que ali se encerrava, foi marcado por um ciclo de violentas ações anticomunistas que culminaram, em 1947, na proscrição do PCB – e no rompimento das relações diplomáticas com a União Soviética. Só naquele ano, aliás, o Ministério do Trabalho interveio em 143 sindicatos e, até o final do mandato do general, tinha dispensado o mesmo tratamento a quase 400 das 944 organizações sindicais em atividade. Por manifestar-se publicamente contra essa política de Estado, Zahar foi “prontuariado” a partir de documentos não especificados, que teriam sido apreendidos em 8 de junho de 1950. A acusação: “Ser signatário de um abaixo-assinado, enviado ao Exmo. Sr. Presidente da República, protestando contra a minoria reacionária que afasta o povo do governo, mediante uma série de medidas antidemocráticas, proibindo a realização de comícios e exercendo coação policial aos seus líderes, ameaçando a imprensa etc.”

Além de exercer o básico direito de manifestar sua opinião a respeito do que o Dops descreve como “medidas tomadas contra adeptos do credo vermelho”, Zahar passou a ostentar em sua ficha corrida a suposta falta, esta involuntária e irremediável, de ser irmão de Ernesto Zahar, que segundo o documento “registra neste setor vastos antecedentes comunistas”. Então convocado a “prestar esclarecimentos” no Departamento Federal de Segurança Pública, o futuro editor jamais deu as caras. Ainda assim, suas faltas não foram consideradas graves o bastante para impedir que, em 1951, obtivesse um “nada consta” ao requisitar “atestado negativo de ideologias para fim de prova na embaixada dos Estados Unidos da América do Norte”. Como uma espécie de pecado original, esse primeiro registro no Dops voltaria a assombrá-lo cada vez que, depois de plenamente instalada a ditadura, era obrigado a requisitar um “atestado de antecedentes” para viajar aos Estados Unidos ou à Europa.

Cerca de seis meses antes do golpe, em outubro de 1963, Jorge Zahar acrescentaria mais uma entrada a seu prontuário. Numa edição de sábado do Correio da Manhã, figurava como signatário de primeira hora do Comando dos Trabalhadores Intelectuais, que se anunciava com matéria paga publicada ali e nos mais importantes jornais. Menos uma entidade do que um movimento que visava “apoiar as reivindicações específicas de cada setor da cultura brasileira”, o CTI tinha suas diretrizes formuladas por um grupo de notórios intelectuais progressistas, incluindo Jorge Amado, Oscar Niemeyer, Barbosa Lima Sobrinho e, como não poderia deixar de ser, o editor da Civilização Brasileira, Ênio Silveira. O CTI deveria se juntar “às demais forças populares agrupadas contra as tentativas de golpe da direita e em defesa das liberdades democráticas”, na convicção de que “os intelectuais não podem deixar de constituir um ativo setor de luta dessas correntes progressistas”. Quatorze áreas, da ciência ao jornalismo, eram representadas nessa primeira convocação, e os organizadores esperavam muitas outras adesões em listas de assinaturas que distribuíram por três livrarias cariocas, a São José, a Civilização Brasileira e a Ler – todas elas pontos de encontro de potenciais aliados.

Num relatório de junho de 1964, o Dops minimiza a importância efetiva do CTI, considerando “difícil” que se tenha estabelecido para valer um pretendido “entrosamento” com o Comando Geral dos Trabalhadores, o CGT, para “a arrancada final na transformação do regime vigente no país numa república de caráter socialista”. Reconhecendo que a entidade, logo dissolvida, não esteve envolvida em “qualquer ato de subversão”, o documento sublinha a presença, entre os signatários, de defensores da “política esposada pelo PCB” que, no entanto, “não eram filiados ao partido como membros ativos, […] militando, sempre, à margem do mesmo”. Descrevia-se assim com exatidão a postura de Jorge Zahar, que pelo mesmo motivo ganharia novo apontamento em sua ficha: “Figura como um dos fundadores do Comando dos Trabalhadores Intelectuais, no setor ‘editores’, entidade essa de caráter comunista.”

 

As chamadas “grandes causas”, que mobilizavam intensas paixões políticas, logo se tornariam para Jorge Zahar delicadas questões pessoais do ponto de vista profissional e afetivo. Em maio de 1965, seu nome voltava a figurar no topo de um longo abaixo-assinado que ocupava meia página de jornal. Sob o título “Intelectuais e artistas pela liberdade”, um texto curto e grosso resumia a causa que congregava, entre mais de mil nomes, Sérgio Buarque de Holanda e Clementina de Jesus, Nara Leão e Sérgio Bernardes, Di Cavalcanti e Fernanda Montenegro. E que por muitos motivos falava a ele bem de perto: “Os intelectuais e artistas brasileiros abaixo-assinados pedem a imediata libertação do editor Ênio Silveira, preso por delito de opinião. Não entramos no mérito das opiniões políticas de Ênio Silveira, mas defendemos seu direito de expressá-las livremente, direito garantido pelo artigo 141, parágrafo oitavo, da Constituição do país: ‘Por motivo de convicção religiosa, filosófica ou política, ninguém será privado de nenhum de seus direitos.’”

Silveira fora então protagonista do que ficou conhecido como o “IPM da Feijoada”, detido depois de promover em casa um almoço para Miguel Arraes. O ex-governador de Pernambuco estava preso desde abril de 1964 e desfrutava no Rio, graças a um habeas corpus, de um breve momento de liberdade antes de ser forçado, dias depois daquele almoço, a pedir asilo na embaixada da Argélia. “Sobre a feijoada em si eu nada pude dizer, porque não a comi por estar adoentado”, declarou Álvaro Lins, um dos convidados, depois de prestar depoimento no inquérito. Na mesma página do Jornal do Brasil em que o crítico literário ironiza o interrogatório, Arraes aparece numa fotografia ao lado da mulher, Madalena, sentado nos jardins da embaixada argelina e tendo na mão um exemplar do recém-lançado O Golpe Começou em Washington. Seu autor, o jornalista Edmar Morel, foi cassado em 1964 pelo Ato Institucional nº 1 e encontraria na Civilização Brasileira o destemor necessário para publicar um livro que pretendia descrever os movimentos enviesados que resultaram na deposição de Jango Goulart. Definitivamente, uma feijoada estava longe de ser o maior problema de Ênio Silveira naqueles tempos.

“Por que a prisão do Ênio? Só para depor?”, indignou-se o ditador Humberto Castello Branco em bilhete dirigido a seu chefe do gabinete militar, o futuro ditador Ernesto Geisel. “A repercussão é contrária a nós, em grande escala”, avaliava ele, reclamando ainda de apreensões ilegais de livros como a que aconteceria logo depois com o próprio O Golpe Começou em Washington, em pouco tempo desaparecido das livrarias. “Nunca se fez isso no Brasil. Só de alguns (alguns!) livros imorais. Os resultados são os piores possíveis contra nós. É mesmo um terror cultural”, concluía o marechal, sugerindo que a truculência do regime dava razão a Alceu Amoroso Lima, que em maio de 1964 publicara uma coluna no Jornal do Brasil com o título “Terrorismo cultural”.

A expressão do doutor Alceu ganharia brutal concretude em 1968, com a imagem icônica da livraria Civilização Brasileira, no Centro do Rio, destruída por uma explosão. Na fotografia, um policial militar e dois bombeiros guardam a loja diante de um civil que passa, de costas para a câmera, olhando a cena. Retorcida pelas bombas lançadas na madrugada do dia 14 de outubro, a porta de metal que protegia a vitrine está pichada com a clássica palavra de ordem “Abaixo a ditadura”. Ao lado dela lê-se, num cartaz, o slogan “A peça que abre novos caminhos ao teatro brasileiro”, propaganda da edição de Doutor Getúlio: Sua Vida e Sua Glória, peça de Dias Gomes e Ferreira Gullar que o grupo Opinião vinha encenando até dois dias antes do atentado. Dominando a metade superior da imagem, como se a ela desse título, lê-se parte do lema adotado pela livraria: “Quem não lê, mal fala, mal ouve, mal vê.”

Entre os editores de livros, Silveira foi a vítima preferencial da ditadura: sete prisões, quatro processos por crimes contra a segurança nacional, incontáveis apreensões de livros, pressões para que gráficas não prestassem serviços para a Civilização, sufocamento financeiro por todos os lados. A cada ameaça ou intimidação explícita, ele reagia um tom acima. Pouco antes da prisão de 1965, Silveira havia lançado a Revista Civilização Brasileira, um dos mais inteligentes fóruns da oposição, e no terceiro número assinou a temerária primeira epístola ao marechal Castello Branco, carta aberta demonstrando que, para ele, a melhor defesa era o ataque: “O chamado ‘delito de opinião’, sr. Marechal, é o crime que devemos todos praticar diariamente, sejam quais forem os riscos. Se deixarmos de ser ‘criminosos’, nesse campo, seremos inocentes… e carneiros.” Sempre preocupado com o desassombro do amigo, Zahar desabafava com as pessoas próximas: “O Ênio é um suicida!”

 

Por temperamento e estratégia editorial, Jorge Zahar tocava sua vida pública e construía seu catálogo algumas oitavas abaixo da estridência de Ênio Silveira e da Civilização. “Eu, que na Inglaterra seria talvez um liberal, ou na França um homme de gauche, partidário de Mitterrand, num endurecimento maior do regime brasileiro seria considerado comunista, da mesma forma que na União Soviética seria direitista ou revisionista e despachado para a Sibéria”, brincaria ele em meados dos anos 70. Ainda que eventualmente beneficiado pelo sucesso de um rumoroso instant book como Cuba: Anatomia de uma Revolução, mantinha-se fiel à ideia de uma “editora universitária”. Nela, mais importante que o sucesso imediato era a venda contínua.

“Eu não faço livros que tenham uma vida curta, que deixem de ser lidos ao longo do tempo. O pensamento básico é fazer livros de interesse permanente”, refletiria ele na década de 90, num diagnóstico claro, ainda que tisnado pela modéstia quase obsessiva. “Eu me colocaria como um editor clássico, se um editor universitário significa clássico. […] Creio, de qualquer maneira, que a ação da Zahar deve ter tido algum resultado ao longo dos anos. Não deixou de marcar seu lugar e, portanto, de cumprir sua tarefa.”

O equilíbrio que sugere seu raciocínio não se confunde com tibieza editorial: entre o golpe e 1968, ano que termina sob a vigência, em dezembro, do quinto e mais truculento Ato Institucional, a Zahar se mostrou uma presa no mínimo apetitosa para a fome anticomunista dos militares. Publicados em 1964, livrinhos introdutórios como Três Táticas Marxistas, de Stanley Moore; Problemas Agrícolas dos Países Socialistas, de Lord Walston, e Socialismo Evolucionário, de Eduard Bernstein – todos na coleção Divulgação Cultural – abordavam impasses prático-teóricos do socialismo, enquanto as coletâneas de artigos Militarismo e Política na América Latina e Perspectivas da América Latina iluminavam, ainda que indiretamente, o noticiário político. De Karl Marx, um dos nomes detonadores da paranoia dos generais, a editora publicou seletas traduzidas do inglês: Octavio Ianni organizou a edição de A Ideologia Alemã (versão em português de Waltensir Dutra, revisada por Florestan Fernandes) e foram “importadas” a antologia Escritos Econômicos de Marx, de Robert Freedman, e a clássica edição resumida de O Capital em um volume, assinada pelo prussiano Julian Borchardt.

O simples fato de ter em casa um livro da Zahar era informação considerada relevante para a repressão. São incontáveis as menções à editora em autos de apreensão de livros; e, numa bizarra biblioteca montada pela polícia política do Rio de Janeiro só com livros confiscados, a Zahar ocupa o terceiro lugar, com trinta exemplares, ficando atrás apenas da Civilização Brasileira, com sessenta, e da Paz & Terra, fundada por Ênio Silveira e depois tocada por Fernando Gasparian, com 51 títulos. “Nunca fui preso ou perseguido, mas a autocensura pesou, foi muito desagradável”, reconhecia Zahar. “Em dezembro de 68 joguei fora 6 mil páginas traduzidas. Tinha, por exemplo, escritos de Engels, o que era muito forte para a época. Não abri mão de minha linha, mas também não ia abusar.”

Dois dos filósofos mais comentados daquele momento, Herbert Marcuse e Louis Althusser, tiveram seus livros traduzidos pela Zahar. Em 1967, menos de dois anos depois de lançado na França (e dois anos antes de sair em inglês), o influente Pour Marx, em que Althusser lia o autor do Capital a partir de conceitos do estruturalismo e da psicanálise, ganhou o título explicativo, bem ao gosto do editor: Análise Crítica da Teoria Marxista. Na segunda edição, doze anos mais tarde, foi rebatizado com a versão literal, A Favor de Marx, seguida do título original em francês, pois assim se consagrara aqui. Marcuse, pensador alemão que caíra nas graças dos movimentos contestatórios então alastrados pelo mundo, chegou ao Brasil em dose dupla e justamente no crucial 1968 das revoltas. Só naquele ano, a Zahar tirou quatro edições de Eros e Civilização e três de Ideologia da Sociedade Industrial.

Um dos mais curiosos críticos do papel da Zahar na formação de um público universitário é um anônimo funcionário da ditadura. Em “Considerações sobre editoras brasileiras”, relatório elaborado em 1971 pela Divisão de Segurança e Informações do Ministério da Educação, um breve comentário sobre a Vozes, a Herder e a Civilização Brasileira precede o detalhado panorama da Zahar. O pressuposto é de que todas elas, por difundirem temáticas e autores identificados com a esquerda, pautam-se por uma “ação ideológica antidemocrática”. É uma lógica irretocável, com os sinais trocados: os que afrontam uma ditadura militar pacificamente, no campo das ideias, são inimigos da democracia, estando a esquerda demonizada como sinônimo do socialismo de matriz soviética. A Zahar em especial, afiança o documento, diz a que veio ao imprimir o moto “A cultura a serviço do progresso social” em tudo o que publica: “Progresso social entendido de modo diverso por aqueles realmente democratas.”

O diligente parecerista comenta o catálogo tão pontualmente quanto acha necessário para provar a seus pares que cada página impressa pela editora é calculada para conduzir o país ao socialismo. Em sua avaliação, Capitalismo Monopolista, de Baran e Sweezy, e O Capital, de Marx, são, no campo da economia, “obras de orientação suspeita”. Sob a rubrica “sociologia”, afirma o documento, a editora “oferece aos mestres e alunos livros que divulgam e justificam o marxismo”, sendo exemplo dessa suposta estratégia a antologia Textos Dialéticos, reunião de ensaios de Hegel traduzidos e prefaciados por Djacir Menezes. Breve História do Socialismo, de Norman Mackenzie, seria, por sua vez, uma prova de como “em ciência política a Zahar também se preocupou em difundir o socialismo”. A coletânea Problemas e Perspectivas do Socialismo merece atenção especial pela presença, entre seus autores, de Isaac Deutscher, o biógrafo de Trotsky, inimigo inequívoco que, em outro livro da editora, Revolução e Repressão, afirmava: “Ainda acredito que a luta de classes é a força motora da história.” A Zahar, lembra o relatório, é a responsável por trazer ao Brasil os livros de Marcuse, “que tanta agitação provocaram em países do mundo inteiro”. Para o severo analista, A Revolução Sexual – publicado em 1969, diga-se, 33 anos depois de lançado por Wilhelm Reich – seria parte da “linha revolucionária que pretende atingir os seus objetivos de conquista através da dissolução de costumes”.

“De vez em quando, porém, a Zahar edita livros isentos de propaganda filocomunista (talvez forçada pelas circunstâncias políticas do Brasil atual)”, concede o leitor a serviço do regime. A Opinião Pública, de Robert Lane e David O. Sears, é recomendado “não só em geral, como, principalmente, aos que militam no campo das comunicações de massa, sejam profissionais, estudantes ou professores, e ainda aos que trabalham em órgãos de informações”. A conclusão é perversamente elogiosa: “Examinamos mais detalhadamente as edições da Zahar porque são as mais procuradas pelos estudantes (de modo especial, universitários), pois as mesmas procuram se enquadrar em matérias como sociologia, ciências sociais, história, economia, administração, psicologia etc.” Até a repressão entendia, ainda que de forma arrevesada, aquele projeto editorial.

 

Otávio Guilherme, Moacir e Antonio Roberto tinham 20 e poucos anos e estavam terminando a universidade quando, no final de 1964, chegaram à rua México para uma reunião editorial com Jorge Zahar. Otávio marcara o encontro. Dos três, era o único que, apesar de jovem, já conhecia o editor de longa data: seu pai, Octavio Alves Velho, além de fiel tradutor da casa, tinha em Zahar um amigo próximo, que frequentava sua família. Como a esmagadora maioria dos alunos de ciências sociais, todos eram leitores assíduos dos livros com a marca do Z. E, por isso mesmo, achavam que poderiam aproveitar o acesso direto ao editor para colaborar com o catálogo. Sempre atento a potenciais interlocutores, Zahar identificou no trio uma possibilidade concreta de, pouco mais de cinco anos depois de lançar a editora, aproximá-la da universidade de forma mais efetiva: não apenas editando importantes títulos de referência, mas alimentando-se também da produção de seus professores e pesquisadores. Nascia assim a coleção Textos Básicos de Ciências Sociais.

Moacir Palmeira e Otávio Guilherme Velho se conheceram em 1961 na Escola de Sociologia e Política da Pontifícia Universidade Católica (PUC) carioca. Aluno da Universidade Federal de Minas Gerais, Antonio Roberto Bertelli era militante do Partido Comunista e, logo depois do golpe, foi preso em Belo Horizonte. Conheceu os dois ao chegar ao Rio, solto depois dos apelos públicos de seu pai, e foi ficando na cidade, a princípio numa espécie de semiclandestinidade. Viviam os três o que Palmeira definiria, ao escrever sobre a época, como “aqueles anos de semimarginalidade profissional que costumavam se seguir à graduação em sociologia”.

A despeito das sucessivas edições do Manual de Sociologia, de Jay Rumney e Joseph Maier – o primeiro título da casa –, ou de títulos importantes cada vez mais publicados pela Zahar e outras editoras, os professores e estudantes passavam a ter novas demandas, oriundas de seus estudos e pesquisas, e buscavam leituras cada vez mais atualizadas. Ensaios tidos como fundamentais para diversas disciplinas muitas vezes só circulavam em outras línguas que não o português, ou eram simplesmente inacessíveis. Do curso de ciências sociais da UFMG, por exemplo, vinham coletâneas mimeografadas disputadas por alunos de todo o Brasil que foram uma das principais inspirações do trio para a coleção.

Minucioso, o trabalho dos jovens diretores de coleção envolvia muitas frentes. Começava pela eleição de temas e dos organizadores – também prefaciadores – dos volumes. Os textos, em sua grande maioria estrangeiros, eram discutidos com eles e, uma vez aprovados em reuniões com Jorge Zahar, entravam em processo de produção – ou seja, providenciavam-se os direitos de publicação e as traduções. Pelo menos na área estritamente acadêmica, a tradução ainda era um problema a ser depurado pela Zahar: detectavam-se versões inadequadas de conceitos ou termos técnicos e, muitas vezes, até “saltos” – omissões de palavras, parágrafos ou frases. Estabeleceu-se a partir de então uma rede de jovens pesquisadores que, indicados por colegas e professores, atuavam como revisores técnicos de livros da coleção – e fora dela.

Em setembro de 1966, uma página inteira do Suplemento do Livro, publicação mensal do Jornal do Brasil, trazia um anúncio: a Zahar lançava os quatro primeiros títulos da coleção Textos Básicos de Ciências Sociais (TBCS), buscando, como sempre, atrair também leitores não especializados ao publicar livros graficamente simples e diretos, a capa elaborada por Érico Monterosa a partir de uma figura geométrica, com destaque para os autores ali reunidos. “Um dos fatos mais importantes ocorridos no Brasil nos últimos anos foi a tomada de consciência de nosso estado de subdesenvolvimento e da necessidade e possibilidade de superá-lo”, diz o texto que, iniciado por uma citação, era em tudo e por tudo pouco usual para uma peça de propaganda. “Partindo dessa premissa básica, os organizadores destes Textos Básicos – Antonio Roberto Bertelli, Moacir Palmeira e Otávio Guilherme Velho – se propõem a: primeiro, permitir aos que estudam as várias disciplinas das ciências sociais o acesso fácil a textos fundamentais nos respectivos campos; e, segundo, selecionar esses textos exclusivamente com base em sua importância e representatividade, independentemente da corrente científica, filosófica ou política a que se filiem seus autores. Por seu caráter didático”, prossegue o longo arrazoado, “os Textos Básicos de Ciências Sociais são leitura obrigatória para todo interessado em melhor conhecer e analisar a realidade brasileira.”

 

Na primeira leva, os três assinam a organização de Estrutura de Classes e Estratificação Social, que se tornaria um dos volumes mais vendidos da coleção. Sociologia e Política foi organizado por Amaury de Souza, e Edmundo Campos Coelho assinou Sociologia da Burocracia. Completando os lançamentos de 1966, o primeiro tomo de Sociologia da Arte (ainda se seguiriam outros três) marca o início da longa colaboração que se estabeleceu entre a Zahar e Gilberto Velho, irmão mais jovem de Otávio, numa parceria que só terminou com a morte do caçula em 2012. “Para os que não têm acesso às edições estrangeiras, esta nova coleção da Zahar é um trailer que deixa o leitor excitado pelo conhecimento mais íntimo dos autores focalizados e/ou citados”, escreve Sérgio Augusto no Jornal do Brasil, um mês depois do lançamento. Comentando alguns dos autores ali reunidos, como Ernst Fischer, Lucien Goldmann e Alain Robbe-Grillet, o crítico de cinema dá ainda um diagnóstico do ambiente editorial da época, destacando que a coleção “poderá ser uma plataforma de lançamento de autores fundamentais para uma melhor compreensão da arte, como Roland Barthes, Umberto Eco, Walter Benjamin, Merleau-Ponty, Hans Magnus Enzensberger, todos inéditos no Brasil”.

Se não alavancou imediatamente os autores sonhados por Sérgio Augusto, a Zahar, para usar uma expressão tão cara ao período, preencheu pelo menos uma importante lacuna a partir das relações que se estabeleceram com a coleção. Numa das muitas visitas à editora, em que o trabalho se misturava a uma concorrida roda de conversa nos fins de tarde, devidamente abastecida a uísque, Moacir Palmeira levou para Zahar seu volume de From Max Weber, a canônica antologia do sociólogo alemão traduzida para o inglês e organizada por H. H. Gerth e C. Wright Mills em 1946. Ele tinha um forte argumento para a publicação: no Brasil, Weber só estava disponível em livros importados, traduzidos para o espanhol. Decidiram também convidar um acadêmico de peso para revisar o livro e, assim, facilitar sua difusão aqui. Confiada a Waltensir Dutra, constante colaborador da casa, assim como Álvaro Cabral, a tradução de Ensaios de Sociologia, como o livro foi batizado, teve revisão técnica de um jovem professor de 36 anos, Fernando Henrique Cardoso, que em 1970 escolheria a Zahar para lançar seu primeiro livro de grande repercussão, Dependência e Desenvolvimento na América Latina. Escrito em Santiago, em parceria com o chileno Enzo Faletto, o livro fora publicado no México no ano anterior e se tornaria obrigatório nos estudos da chamada “teoria da dependência”.

Abria-se então, na editora, o caminho para trabalhos originais de professores brasileiros, jovens ou consagrados. Em 1968, Florestan Fernandes levou para a Zahar Sociedade de Classes e Subdesenvolvimento, e na década seguinte ainda publicaria na casa Capitalismo Dependente e Classes Sociais na América Latina (1973) e A Revolução Burguesa no Brasil (1975). A economista Maria da Conceição Tavares também estreou em livro na editora: Da Substituição de Importações ao Capitalismo Financeiro foi lançado em 1972 e teve sucessivas reimpressões. Os primeiros trabalhos autorais de fôlego dos irmãos Velho, suas respectivas dissertações de mestrado, também seriam publicados ali: Frentes de Expansão e Estrutura Agrária, de Otávio Guilherme, saiu em 1972; A Utopia Urbana, de Gilberto, no ano seguinte.

Aluno da PUC em meados da década de 60, o sociólogo Sergio Miceli lembraria como as antologias da Zahar “aferventaram” sua cabeça e as de seus colegas. Para ele, ao confiar o trabalho de edição a recém-formados, Jorge Zahar permitiu que eles realizassem “uma leitura pessoal de tradições estrangeiras, mesclando correntes doutrinárias e modelos explicativos, confrontando tradições intelectuais contrastantes, abrindo horizontes de provação intelectual até então inexplorados, enfim, despertando em seus jovens leitores as disposições suscitadas por tais apetites”. No prefácio ao livro-depoimento Jorge Zahar da série Editando o Editor, da Edusp, Miceli destaca ainda a sintonia da editora com um “momento particularmente estratégico de expansão das agências federais e estaduais de fomento, das instituições de pesquisa e dos programas de pós-graduação nas principais universidades do país, impulsionando um desenvolvimento institucional sem paralelo da comunidade de cientistas sociais. Jorge Zahar foi um dos protagonistas estratégicos dessa trama”.

Entre 1966 e 1975, a coleção tbcs publicou 28 inéditos, muitos deles reimpressos ao longo dos anos, graças à constante adoção em cursos universitários. Otávio Guilherme Velho defendeu sua dissertação em 1970 e partiu para a Inglaterra num doutorado que se mostrou providencial: militante do pcb, seu nome começara a aparecer em interrogatórios de companheiros. Também em 1970, Gilberto Velho deixou o Rio para uma temporada de dois anos na Universidade do Texas, em Austin. Tão lentamente quanto foi se difundindo e alastrando, a coleção ficou mais nítida no radar da repressão. Naquele mesmo relatório de 1971 em que as publicações da Zahar são analisadas em detalhe, os quatro volumes de Sociologia da Juventude, organizados por Sulamita de Britto e Pierre Furter, ganharam destaque. Os livros seriam uma forma estratégica de dirigir-se “diretamente à juventude, para conquistá-la ao socialismo”. Num momento de humor involuntário, o parecerista confunde o sociólogo Albert K. Cohen – criminologista que trabalhou com Talcott Parsons e tem ensaio no volume 3 – com Daniel Cohn-Bendit: “O anarquista Cohen [sic], participante dos movimentos rebeldes da juventude francesa.”

Numa nota sinistra à efervescência intelectual e editorial que refletia e também alimentava, Jorge Zahar encontra em sua mesa de trabalho, em agosto de 1972, o bilhete datilografado de um funcionário:

Sr. Jorge

OTÁVIO GUILHERME e GILBERTO VELHO

A Polícia do Exército (à paisana) esteve aqui para colher informações dos irmãos.

Mostrei um dos livros da col. Textos Básicos, onde consta o Otavio como “organizador”. Na orelha traseira aparece o nome do Gilberto como “organizador” de Sociologia da Arte.

Perguntaram se sabia o local de trabalho do Gilberto, o que ignoro.

 

No início da década de 70, Jorge Zahar começou a jogar sozinho longas partidas de sinuca. A mesa oficial era, pelo menos para ele, uma das principais atrações de Secretário. No lugarejo da região serrana, a cerca de 100 quilômetros do Rio, ele e a mulher, Ani, começaram a construir aos poucos, em meados dos anos 50, um refúgio fora da cidade. No terreno amplo, a ocupação começou com uma casa pequena, depois aumentada, e muitas árvores frutíferas plantadas por ele. Mais tarde veio a piscina em que jamais entrava, preferindo frequentar seu entorno para conversar e beber. No sítio, onde passava todos os fins de semana, o casal era o anfitrião de sempre para os amigos e vizinhos. Na verdade, estes eram bem mais do que vizinhos, formavam uma verdadeira família eletiva com a qual dividiam os momentos mais íntimos e importantes. Zahar também aproveitava a tranquilidade para tentar diminuir o perpétuo atraso dos editores em suas leituras – além de se submeter à terapia de “limpar a cuca na sinuca e com um pilequinho”. O peculiar tratamento seria intensificado naquele 1971: as partidas imaginárias com Paulo Francis eram uma das formas de mitigar a sofrida distância do amigo, que decidira se mudar para Nova York, onde viveria até 1997, quando morreu vítima de um ataque cardíaco. Desde o ano anterior, Jorge Zahar vinha sendo duramente golpeado pela ditadura: em março de 1970, Ana Maria, Aninha, a filha mais velha, fora presa sob suspeita de envolvimento com “grupos subversivos”; meses depois, era a filha Ana Cristina quem partia para um autoexílio que duraria sete anos.

“Me prendiam uma vez por semestre entre 1968 e 1970”, lembrava Francis, que chegou a ser ameaçado de tortura por suposto e infundado envolvimento com o sequestro, em 1969, do embaixador americano Charles Burke Elbrick. Antes de chegar ao constrangimento físico, a perseguição deu-se em níveis variados de truculência, como consequência insidiosa da autocensura de parte da imprensa – “Em 1964, nenhum jornal me queria” –, e no sumário veto para a publicação de seus textos. Graças a Ênio Silveira, Francis lançou em 1966 seu primeiro livro, Opinião Pessoal, e garantiu um ganha-pão como editor da Civilização Brasileira, onde ficou responsável pela Biblioteca Universal Popular, coleção de livros de bolso que publicava de tudo, e pela preparação de títulos que lhe falavam de perto, como a biografia de Trotsky em três volumes – O Profeta Armado, O Profeta Desarmado e O Profeta Banido – escrita por Isaac Deutscher. Colaborações para a Visão, revista que vivia um de seus melhores períodos, o reaproximariam do jornalismo, e em 1967 Francis foi contratado pelo Correio da Manhã. No jornal que definiria como “economicamente decadente, mas indômito no seu liberalismo e contrário ao regime militar que ajudara a criar”, editou o Quarto Caderno, combativo suplemento dominical, e manteve a verve de sempre, como se vê por essa coluna de 1968: “Desde 1o de abril de 1964 os golpistas nos golpeiam e se golpeiam, e, entretanto, historicamente continuamos retrógrados, uma sub-república latino-americana, primando pelo tamanho e o sassarico, um dos países menos levados a sério na face da Terra.”

A criação do Pasquim foi, para Francis, remédio e veneno. O jornal abria em pleno 1969 um clarão de inteligência e inovação na imprensa, mas também faria de seus colaboradores alvos mais destacados para a repressão. Oito deles, suas maiores estrelas, foram presos em finais de 1970, depois que o jornal publicou uma montagem do quadro O Grito do Ipiranga, de Pedro Américo, em que da boca de dom Pedro I saía o brado retumbante: “Eu quero mocotó!” Dos dois meses que passaram juntos na Vila Militar, Ziraldo, Jaguar, o fotógrafo Paulo Garcez, Sérgio Cabral, Luiz Carlos Maciel, Flávio Rangel e Fortuna trouxeram um vasto anedotário que inclui o diálogo impagável entre Francis e um de seus interrogadores. “O senhor assinou uma monção em favor do editor Ênio Silveira?”, perguntou o militar. Francis negava, o militar insistia com a monção, mostrava provas. Até que Francis perdeu a paciência: “Coronel, eu nunca assinei uma monção porque monção é um fenômeno pluviométrico, e por isso não posso assinar.”

Apesar de relativamente amena, a última de suas quatro prisões foi, segundo ele, a gota d’água para que decidisse deixar o Brasil. Uma bolsa da Fundação Ford e colaborações para o próprio Pasquim e para a Visão mal garantiram o sustento nos primeiros tempos, quando teve de contar ainda com a ajuda financeira de amigos, Jorge Zahar entre eles. “Saí. Aos 40 anos, a alternativa era viver cozinhando a frustração dolorosa de quem não pode reagir. […] Precisava ampliar perspectivas, sair do passional imediato ao histórico”, escreveria ele, que dizia ter passado alcoolizado todo o primeiro ano de Nova York.

 

Desde 1969, Jorge Zahar não conseguia mais ver a diferença entre o tal “passional imediato” e o “histórico”. Por uma questão de princípios, sempre tinha estimulado a autonomia intelectual dos filhos. Na casa dos Zahar, os choques geracionais, comuns a qualquer época e especialmente naqueles anos, tendiam por isso a ser mais intensos. Até porque todos pareciam seguir a regra de ouro de que a mentira era a única interdição familiar. Foi de forma direta, sem rodeios, que Zahar se deu conta de que a ativa militância de Cristina no grêmio do Colégio de Aplicação, a escola altamente intelectualizada e politizada ligada à Faculdade Nacional de Filosofia, FNFi, tornava-se mais robusta como reação aos golpes desferidos pelo governo nos movimentos estudantis. “A única coisa inteligente a fazer, no momento, é recuar, depois de haver tentado usar um direito que normalmente deveria ser estimulado, e não combatido”, escreve ele ao comentar com Cristina a determinação legal de punir professores que incentivassem concorridas atividades extracurriculares incluindo música e, claro, debates políticos. “Tal recuo não deve envergonhar a você e seus companheiros, mas sim aos que converteram num crime o uso desse direito.”

No movimento secundarista, os tais grupos de estudo, que invariavelmente começavam pela leitura da História da Riqueza do Homem, de Leo Huberman – o grande best-seller da Zahar –, transformaram-se num sensível polo de radicalização política para além dos muros da escola. Recém-integrante de um grupo de bandeirantes quando entrou no cap, aos 12 anos, Cristina abandonaria a versão feminina do escotismo à medida que amadurecia intelectualmente. Zahar, que nunca tinha visto com bons olhos o grupo de meninas uniformizadas, tampouco achou graça na notícia de que, aos 16 anos, sua filha cogitava parar de estudar para dedicar-se integralmente à militância. “Quero afirmar antes de [mais] nada achar melhor que você se sinta inserida no mundo em que vive, embora sofrendo as dores dessa participação, do que ficar à margem dele”, escreve Jorge Zahar numa troca de cartas que logo revela os rumos do engajamento da filha. “No momento em que vivemos hoje, as pessoas que se resolvem a cumprir um ideal político comunista da forma como eu o concebo (sem uma ‘redemocratização’ ou pelos ‘meios pacíficos’) são obrigadas a ter uma disposição total (de tempo e de alma) para o cumprimento de seu trabalho”, argumenta ela. “Tanto eu como Aninha sempre achamos que esse tipo de educação nos deu todas as condições para enfrentarmos a vida sem necessitar de ‘muletas’, pois trazia bastante carinho e incentivava também uma independência. Grande parte do que sou hoje é fruto dessa educação […] e eu gosto do que sou hoje.” O conflito é de tal intensidade que Zahar propõe emancipá-la para que tocasse a vida como melhor entendesse. O casamento com o namorado no civil, aos 17 anos, evitou o recurso jurídico, mas terminou acelerando outro processo.

Em março de 1970, Aninha, ano e meio mais velha, preparava-se para ir estudar com a irmã e uma amiga quando foi levada de casa pela polícia. Sua mãe teve o sangue-frio de entregar aos policiais radiografias comprovando que a filha estava na fase mais aguda de uma grave tuberculose – o que era em parte verdade, porque ela estava em final de tratamento. Sua prisão sucedia-se à de seu namorado e futuro marido, Cristiano Penido. Na casa em que ele vivia com os irmãos foram encontrados livros e folhetos considerados “subversivos”, um uniforme do Exército e um revólver. Ele, assim como Sérgio Pinho, recém-casado com Cristina, eram acusados de integrar a Vanguarda Armada Revolucionária Palmares, a VAR-Palmares, grupo que preconizava a luta armada e vinha ganhando cada vez mais adeptos egressos do movimento estudantil. Em poucos dias, e depois de interrogatórios violentos e kafkianos – confundiram-na com uma jovem, também loura, que estaria assaltando bancos com seu parceiro, ligada a grupos terroristas –, Aninha voltaria para a casa dos pais, mas lá seria mantida por uns bons dois meses em prisão domiciliar. Logo as irmãs foram chamadas a depor sobre as atividades dos respectivos companheiros, que em julho de 1970 eram enquadrados na Lei de Segurança Nacional por atividade subversiva e tiveram prisão decretada pela Segunda Auditoria da Marinha. Tudo era oficial, ilegal e mentiroso: quando a notícia da condenação é publicada nos jornais, Cristiano Penido já estava preso havia quatro meses e Sérgio Pinho, até então clandestino, encontrava-se a caminho de Paris, onde encontraria Cristina.

Os ares parisienses eram bem pouco românticos para os exilados, e a adaptação seria difícil. Já em meados de 1971, os dois partem para o Chile, que desde o ano anterior, com a posse do governo socialista de Salvador Allende, virara um polo de atração para outros latino-americanos exilados. No caminho, fazem uma escala em Nova York para encontrar Ani e Jorge Zahar, que passavam um mês nos Estados Unidos, em viagem oficial, visitando editoras universitárias. Mesmo contrariado pelo fato de os dois perderem a oportunidade de cursar uma faculdade em Paris ou em outra capital europeia, Zahar os faz portadores de uma carta a Darcy Ribeiro, então assessor especial da Presidência chilena, pedindo ajuda para que o casal conseguisse estudar ou trabalhar. Três meses depois, descrente de qualquer militância e com o casamento terminado, Cristina volta ao Brasil. O clima, no entanto, era irrespirável – e, para ela, representava um risco real. Com vários ex-companheiros presos, seu nome já começava a aparecer como importante articuladora do movimento em depoimentos conseguidos sabe-se lá a que custo nos quartéis. Antes do final do ano decide partir. Vai encontrar na Inglaterra um amigo querido, Vicente Ribeiro, que estudava economia na Universidade de Reading, cidade a 60 quilômetros de Londres. Lá os dois casam e seguem a vida universitária, ela matriculada no Departamento de Tipografia e Comunicação Gráfica. O roteiro anual de viagens de Jorge Zahar, centrado em Frankfurt (para a famosa feira do livro) e em Paris, ganhava assim uma nova escala. As idas à Inglaterra se intensificariam depois de janeiro de 1973, quando nasce Mariana, a primeira das duas netas – Clarice, filha de Jorginho, nasceria em 1975. A vida do casal, concentrado nos estudos e na criança, parecia assumir uma normalidade longe das refregas políticas. Mas novas turbulências viriam quando, nas férias escolares daquele ano, eles decidem visitar Brasil.

 

Ao chegarem ao Rio, em julho de 1973, Cristina e Vicente Ribeiro estão despreocupados. Por ainda assinar Ana Cristina Pinho, nome de casada que constava no passaporte, era improvável, quase impossível, que ela figurasse numa lista de procurados, apesar das muitas menções a “Ana Cristina Zahar” em depoimentos e processos. Ribeiro, por sua vez, nem sequer fazia ideia de que o haviam citado marginalmente em pelo menos um processo, como participante eventual de um dos tais grupos de estudo organizados por grêmios estudantis. A temporada corre sem sobressaltos até que ele tem negado o visto de saída do Brasil. Cristina e a filha embarcam imediatamente, logo seguidas por Ani, que passaria uma temporada em Reading para ajudá-la. Obedecendo a exigências oficiais, Vicente Ribeiro comparece ao Dops acompanhado, por via das dúvidas, pelo pai e um irmão. Dali é recolhido ao temido quartel do Exército na rua Barão de Mesquita, sede do DOI-Codi e conhecido centro de tortura, onde é interrogado por dois dias e liberado. Nesse meio tempo, amigos de sua família intercedem em seu favor no Exército, onde garantem que tudo não passa de um procedimento de rotina. Tendo finalmente o visto na mão, Ribeiro faz o check-in no aeroporto do Galeão, se encaminha ao portão indicado, mas não embarca: é sequestrado por dois homens entre o controle de documentos e a porta do avião. Depois de mais de dez dias incomunicável, submetido a interrogatórios exaustivos, é levado para o Recife, onde o embarcam num voo para Lisboa sem maiores explicações.

“Estou convencido de que Vicente esteve a um passo do desaparecimento sumário, não por sua importância pessoal, claro, pois ele não passou de um mero joguete no grande jogo do poder, ou melhor, do poder dentro do poder”, escreve um Zahar preocupadíssimo e convencido de que o sequestro teria sido uma reação dos setores mais truculentos da repressão ao apelo feito pela família do genro. “Está claro que vários fatores contribuíram para que o Vicente saísse com vida da terrível situação em que se viu envolvido, e a maior parte desses fatores nunca será conhecida. No entanto, asseguro que um fato contribuiu decisivamente: o comandante do I Exército [general Edgard Bonnecaze Ribeiro], em uma reunião com os subcomandos da Guanabara, haver declarado que ‘É preciso que esse rapaz apareça, aqui ou fora daqui, que não procuraremos investigar o que houve, é preciso apenas que ele apareça’. Ou seja, a capitulação do poder ostensivo ante o poder oculto, dando a este a satisfação da vitória.” Apesar da determinação e do pragmatismo costumeiros, quem escrevia era um homem amargo com o que o país vinha passando: “Rapazes e moças do tipo dele e da Cristina são indesejados aqui, são pessoas infectadas de um mal que ‘eles’ (os das camadas inferiores do poder) têm pavor de vê-los de volta e contaminar os ‘puros’ que estão agora sendo formados, livres de sua influência nefasta. Enquanto depender ‘deles’, procurarão impedir que alimentem ilusões no que diz respeito a organizar uma vida normal aqui.”

Com o término de seus cursos acadêmicos em 1976, Cristina e Vicente Ribeiro decidem voltar definitivamente ao Brasil, mas não conseguem revalidar seus passaportes na embaixada em Londres – embora já o tivessem feito várias vezes antes. Por intermediação de Octavio Alves Velho, Jorge Zahar inicia uma série de gestões que incluem reuniões com o general Leônidas Pires Gonçalves, então chefe do Estado-Maior do I Exército, e com Golbery do Couto e Silva, ministro da Casa Civil do governo Ernesto Geisel. Ambos garantiram estar acompanhando o caso, mas não abriam mão da “sistemática”, assim relatada por Zahar na carta, de acordo com a descrição de Pires Gonçalves: “Vocês seriam conduzidos presos para o I Exército, seriam ouvidos e liberados para irem para casa. Na hipótese (bastante provável) de outros órgãos quererem ouvi-los, seriam marcados dia e hora para se apresentarem. Aí é que ele não pode assegurar se vocês permaneceriam presos ou não.” Em conversas com o pai de uma militante recém-repatriada, Jorge Zahar descobre que no momento o principal interesse dos militares é naqueles que têm contato com brasileiros recentemente banidos do Chile ou da Argentina – o que era improvável de acontecer em Reading. “Segundo informação adicional do ministro Golbery, as acusações ‘são de pouca monta, tanto as de sua filha como as de seu segundo marido’, quote him”, escreve Zahar. “Não creio que em qualquer momento tenha passado pela cabeça de vocês que o passado estaria ‘enterrado’”, lembra ele. “Se não enterraram o meu, que é muito mais passado e muito menos ativo.” Questões burocráticas atrasam a liberação dos documentos de viagem e, finalmente, em 1977, a família volta ao Brasil. Para serem liberados, Cristina e o marido são submetidos a um interrogatório, sempre intimidativo e constrangedor.

Cristina passa imediatamente a ser assistente editorial da Zahar, onde o irmão Jorginho já trabalha desde 1971. Aninha trocara o Rio por Salvador, e lá se instalou definitivamente, longe do mundo editorial. “Estou de completo acordo com o que você diz a respeito de nossos filhos: se têm nos dado preocupações – e como –, também nos dão muito prazer e, honestamente, prefiro que sejam como são”, escreveu Zahar a Ani no meio do furacão. Depois de relatar o encontro que teve com uma família amiga, convencional e tida e havida como perfeita, comenta: “Tudo muito direitinho, muito quadradinho, muito mediocrezinho. Prefiro a nossa esculhambaçãozinha.”

Capítulo do livro A Marca do Z – A Vida e os Tempos do Editor Jorge Zahar, que será lançado pela Zahar em novembro.

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