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Escola partida

Tensões políticas no colégio público mais tradicional do país
Tiago Coelho
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ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2016

Os portões do Colégio Pedro II, no Humaitá, bairro da Zona Sul carioca, abriram-se pontualmente às oito da manhã, no último dia 20 de novembro. Embora fosse domingo, uma pequena multidão de pais e filhos se formava do lado de fora, diante de uma das unidades da mais tradicional escola pública brasileira. As crianças, entre 10 e 12 anos, estavam ali para participar de uma prova concorrida: a que selecionaria novos alunos do ensino fundamental. Aos poucos, a meninada se dirigia às salas de aula com expressões ora ansiosas, ora sonolentas.

Uma faixa estendida logo na entrada anunciava que o colégio se encontrava ocupado por estudantes. Os revoltosos, porém, haviam deliberado não atrapalhar o processo de escolha dos seus futuros colegas. Deixaram momentaneamente as salas para a realização das provas e se reuniram no ginásio de esportes. Iriam se manter em silêncio enquanto durassem os exames.

Cerca de uma hora mais tarde, os primeiros candidatos começaram a sair. Um garoto magricela chorava: “Eu não entendi…” Os pais quiseram saber qual era a questão que parecia ter traumatizado a criança. O menino explicou que se confundira com o enunciado da prova de redação. Os pais se entreolharam apreensivos. Uma senhora elegantemente vestida acenou quando avistou o neto no portão. Apertando as bochechas do garoto, disse, sorrindo: “Seu pai e seus tios estudaram aqui. Você vai ser o próximo.”

Do outro lado da rua, moradores da Comunidade do Horto, não muito distante dali, também haviam trazido os filhos para o exame. Liriam Abrão usava uma camiseta em que se lia “Horto Fica”. Ela e os vizinhos travam há anos uma batalha judicial para permanecer no enclave de casas simples onde vivem – bem no meio de um bairro rico. Abrão lamentou que o filho não tivesse desfrutado do “ambiente ideal” para estudar, em decorrência de toda a tensão provocada por recentes remoções de moradores. “Era um tal de bomba, barulhos, gritos, choros… Não faço pressão para ele passar. Ele já vem sofrendo o bastante”, disse a mãe. Por sua vez, Juliana Sestalo, vizinha de Abrão, não escondia a expectativa. “Todo mundo quer um lugar no Pedro II, escola pública de excelência. Torço muito.”

Em 2016, foram oferecidas 174 vagas para o 6º ano. Mais de 8 mil crianças se candidataram. Como apenas metade de todas as vagas do colégio é reservada a estudantes da rede pública – outra forma de acesso, no início do ensino fundamental, é feita por sorteio – o Pedro II acaba atraindo um universo bastante plural de alunos, sob o viés socioeconômico. O colégio nasceu no Império, em 1837, quando o monarca que lhe empresta o nome era, ele próprio, ainda um menino. O dicionarista Aurélio Buarque de Holanda Ferreira lecionou português por lá. O poeta Manuel Bandeira ensinou literatura, e o compositor Heitor Villa-Lobos, música. Uma lista de chamada que reunisse várias gerações de ex-alunos resultaria num eloquente retrato do Brasil. Nela, poderiam figurar o dramaturgo Dias Gomes, a atriz Fernanda Montenegro, o jurista Luiz Fux, a apresentadora Fátima Bernardes, o escritor Lima Barreto, o sambista Noel Rosa, o político Joaquim Nabuco, o ator Mário Lago e o funkeiro Mr. Catra.

 

Desde o final de outubro, as oito unidades do Pedro II na capital fluminense estão ocupadas por estudantes. Eles se mobilizaram em reação a três questões: a proposta do governo Temer de impor limites à evolução dos gastos públicos; a medida provisória que reforma o ensino médio; e os projetos de lei apoiados pelo movimento Escola sem Partido, que pretendem restringir o que professores dizem em sala de aula.

O debate sobre o que deve ser o Pedro II – e o ensino público – divide o colégio. A maioria dos pais é contrária às greves de professores e às ocupações estudantis. Argumentam que as interrupções atrapalham o aprendizado. Já uma parte considerável dos alunos, uma fração não desprezível dos pais e o conjunto dos servidores da escola avaliam que as mobilizações ajudarão a melhorar a educação brasileira.

A situação se tornou ainda mais tensa quando, no início de novembro, o Ministério Público Federal pediu à Justiça a retirada imediata dos estudantes rebelados. Carla Henaut, advogada e mãe de um aluno, considerou truculenta qualquer tentativa de retirar os adolescentes à força e questionou na Justiça o pedido do MPF. “Os meninos querem conversar, discutir”, explicou Henaut, que no domingo levou a filha mais nova para a prova de seleção. “Acho importante o diálogo, nesse momento em que ninguém se ouve no país.” A petição assinada pela advogada deixa claro que não é sua intenção defender “a pauta das ocupações, mas sim a integridade física e psicológica dos alunos”.

Na unidade do Humaitá, no final de novembro, alguns estudantes preparavam macarrão ao curry na cozinha. Seguiam ali, aparentemente tranquilos, porque o juiz responsável por analisar o pedido de retirada havia determinado que, “por ora, a desocupação do Colégio Pedro II não deve ser realizada como quer o Ministério Público, por meio do uso de força policial, tendo em vista que os meios ordinários de convencimento ainda não foram esgotados”.

Carla Henaut vem conversando com os jovens. Disse-lhes que, cedo ou tarde, eles terão de negociar uma solução e pôr fim às ocupações. “Expliquei que derrubar o projeto sobre as despesas governamentais ou mudar a reforma do ensino médio são decisões que não cabem ao reitor do Pedro II. Mas que é possível negociar alguns pontos naquilo que estiver ao alcance da escola.”

 

Já se aproximava a hora do almoço quando, no domingo da seleção, o filho de Liriam Abrão terminou a prova. O menino parecia cansado. O grupo do Horto ainda precisou esperar algum tempo na porta do colégio até que o filho de Daniel Alves, também morador da comunidade, deixasse o prédio.  O pai lhe acariciou a cabeça. Perguntou como tinha sido o exame. O menino girou a mão esticada: “Mais ou menos.” “Vai dar tudo certo”, garantiu o pai.

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