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Espectadores, uni-vos!

A glória da TVT num dia de revés político

Roberto Kaz
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2018

Um rapaz bateu a claquete e deu início à fala de Luiz Augusto Souza. “Boa tarde, estamos gravando mais um Melhor e Mais Justo, como toda quinta-feira à tarde”, disse o apresentador, com naturalidade, a quem o assistia ao vivo pelo Facebook. “O programa também vai ao ar às nove da noite na TVT, televisão aberta, digital, canal 44.1 na Grande São Paulo.” Explicou que a emissora não tinha dinheiro para comprar espaço em operadoras de televisão a cabo e aproveitou a deixa para pedir ajuda aos espectadores. “A cada semana a gente tem mostrado um episódio da websérie O Povo Pode, que faz parte de um longa-metragem inspirado na caravana do ex-presidente Lula pelo Nordeste. Lembro a vocês que há uma vaquinha virtual – um crowdfunding – para terminar a websérie e o longa-metragem.” Mandou rodar um trecho da série, em que moradores de uma comunidade do Recife exaltavam as melhorias ocorridas durante os dois mandatos do ex-presidente petista.

Naquela quinta-feira, 19 de abril, fazia doze dias que Luiz Inácio Lula da Silva se entregara à Polícia Federal para cumprir a pena a que fora condenado na Operação Lava Jato. Fazia doze dias, também, que a TVT havia tido a maior exposição de sua história. Por essas ironias do destino, a fama repentina fora provocada por uma derrota política – o discurso derradeiro de Lula no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC –, acrescida de uma improvável parceria midiática – a retransmissão do sinal ao vivo pela GloboNews, canal noticioso do grupo de mídia demonizado pelos militantes do PT.

A TVT – sigla para TV dos Trabalhadores – é uma emissora nanica sediada num edifício de três andares em São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo. Surgiu em 1984, como uma produtora de vídeo do próprio Sindicato dos Metalúrgicos. “Na greve dos anos 80, isso aqui era uma praça de guerra, mas os jornais mostravam como se estivesse tudo lindo, funcionando perfeitamente”, relembrou o responsável pela programação, Antônio Jordão Pacheco. “Entendemos que era necessário produzir conteúdo próprio para fazer um contraponto.”

O início foi bem artesanal. “A gente cobria a atividade dos diretores e dos movimentos sindicais”, contou Jordão. “Depois fazia cópia em VHS e distribuía para umas 3 mil pessoas.” À medida que cresciam o Partido dos Trabalhadores e o sindicato (que havia sido presidido por Lula entre 1975 e 1981), aumentou também o poder de fogo da produtora. Em 1993, a TVT comprou espaço para apresentar o programa Olhar Brasileiro na rede Record. “Chegou a ser chamado de ‘O Fantástico da esquerda’”, disse Jordão, nostálgico. Dez anos depois, outro programa, o TV CUT, estreou na RedeTV!.

 

Aos 63 anos, Antônio Jordão Pacheco é um homem alto e magro que usa camisa de seda, óculos de aro moderno e tênis jovial de couro, daqueles vendidos na Osklen. Trabalha há mais de vinte anos com a emissora dos metalúrgicos, mas nem por isso perdeu certo ar de surfista coroa de novela do Manoel Carlos. “Me formei em cinema na FAAP”, contou, referindo-se a uma universidade particular frequentada pela juventude abastada de São Paulo. “Em 1976 comecei a trabalhar na TV Tupi. Depois passei pela Band e pelo SBT.” Na emissora de Silvio Santos, chegou a ser chefe de programação (“Era um cargo abaixo do diretor”). Também coordenou a equipe que foi para a Copa do Mundo nos Estados Unidos, em 1994.

Dez anos antes, em 1984, Jordão fora apresentado por um amigo à tv dos Trabalhadores. “Comecei a ajudar por militância”, disse. “O primeiro vídeo que fiz falava de capitalismo e mais-valia.” Como o seguro morreu de velho, achou prudente continuar trabalhando em outras emissoras para poder se bancar. “Também fiz vídeo institucional para Nestlé, Unilever e outras empresas privadas.”

Em 2009, a TVT ganhou a concessão para se tornar um canal aberto, de sinal UHF, na região de Mogi das Cruzes. Jordão foi incumbido de apresentar uma proposta de programação. Decidiu que vinte horas por dia seriam dedicadas a retransmitir programas da TV Brasil; as quatro horas restantes, ocupadas por conteúdo próprio. Assim foi até dezembro de 2015, quando a emissora mudou da água pro vinho e passou a ser transmitida de São Paulo, em sinal digital. “Quiseram nos dar o canal 45, que não aceitamos, por motivos óbvios”, contou Jordão, aludindo ao número do PSDB, arquirrival do PT. A TVT passou então a ocupar o 44.1, que chega a 37 municípios do estado. “Nosso noticiário já marcou 0,9 ponto no Ibope”, contou, com orgulho – o índice equivale a quase 65 mil lares sintonizados na Grande São Paulo. Jordão soube disso por amigos que trabalham em outras emissoras e têm acesso aos números do Ibope. “A gente não tem dinheiro para contratar o serviço”, explicou.

Um mês de operação da TVT chega a custar 1 milhão de reais – dinheiro que vem de três sindicatos que representam os metalúrgicos, bancários e professores paulistas. Programas da TV Brasil ainda ocupam dois terços da grade, mas a TV dos Trabalhadores tem investido cada vez mais em atrações próprias. Além do Melhor e Mais Justo – programa em que dois convidados discutem política –, há o Entre Vistas, capitaneado pelo jornalista Juca Kfouri, também voltado à discussão política. “O Juca ganha o cachê padrão na casa, o mesmo de qualquer apresentador”, explicou Jordão, sem entrar em números. “Mas aqui ele tem liberdade para expor opiniões que em outros lugares não pode, por limites editoriais.”

 

A transmissão do discurso do ex-presidente Lula no começo do mês passado – o momento de maior glória da TVT – foi uma verdadeira operação de guerra, na avaliação de Jordão. “Tínhamos quatro câmeras dentro do sindicato, onde ocorreria o discurso. Mas era tanta gente que a direção do PT resolveu mudar para o lado de fora.” Uma câmera permaneceu no interior do edifício, apontada para o carro de som onde estava Lula. Outra foi levada para o terraço de uma casa vizinha. A terceira ficou no chão, entre os militantes, e a quarta, suspensa no ar, presa por uma corda. Durante a transmissão, Jordão foi informado de que o sinal estava sendo retransmitido ao vivo pela GloboNews.

“Como a Globo ficou com medo de vir, eles acabaram usando o nosso sinal”, explicou. Houve quem defendesse processar a concorrente, por ter retransmitido a imagem sem um pedido formal. Jordão se opôs. “Somos uma tevê educativa, temos compromisso com o público. E, além do mais, quem sou eu para entrar em litígio com a Globo?” Entre mortos e feridos, a situação acabou por alegrá-lo. Em primeiro lugar, porque a emissora dos Marinho foi obrigada a mostrar um cartaz, preso ao carro de som, em que era chamada de golpista. Em segundo, porque o logotipo da TVT ficou exposto no canal por mais de uma hora (fora as aparições posteriores no Jornal Nacional e em outros programas). “Nossa marca deve ter sido vista por uns 20 milhões de pessoas naquele dia.”

Roberto Kaz

Roberto Kaz, repórter da piauí, é autor do Livro dos Bichos, pela Companhia das Letras

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