Ferrante cria conflitos romanescos que incham como bexigas até o ponto de tensão máxima, mas no fim não estouram: desinflam de modo anticlimático, numa recusa dos artifícios literários
Ver dados da foto Ferrante cria conflitos romanescos que incham como bexigas até o ponto de tensão máxima, mas no fim não estouram: desinflam de modo anticlimático, numa recusa dos artifícios literários FOTO: MARIO CATTANEO_© MUSEO DI FOTOGRAFIA CONTEMPORANEA

À espera dos bárbaros

O que os personagens masculinos de Elena Ferrante têm a nos dizer?
Alejandro Chacoff
Tamanho da letra
A- A+ A
Ferrante cria conflitos romanescos que incham como bexigas até o ponto de tensão máxima, mas no fim não estouram: desinflam de modo anticlimático, numa recusa dos artifícios literários FOTO: MARIO CATTANEO_© MUSEO DI FOTOGRAFIA CONTEMPORANEA

Exclusivo para assinantes

Para assinar, clique aqui 

Nos livros de Elena Ferrante, todo mundo apanha. Um menino joga uma pedra na cabeça de sua colega de escola, e o sangue jorra; uma mãe enche a filha de tapas, e depois ameaça quebrar as suas pernas; um pai joga a filha pela janela e o vidro estilhaça. Um mafioso, muito apaixonado, dá um murro na cara de sua amada durante um funeral, e a deixa estirada no chão, cuspindo dentes. “Vivíamos em um mundo em que crianças e adultos frequentemente se feriam”, diz Elena Greco, a Lenu, narradora e protagonista dos livros que formam a saga napolitana de Ferrante. “Sangue escorria das chagas, que depois supuravam e às vezes se acabava morrendo.” Nas memórias de Lenu, a Nápoles do pós-guerra, essa Nápoles de sua infância, era um lugar perigoso, “cheio de palavras que matavam: crupe, tétano, tifo exantemático, gás, guerra”. “Também se podia morrer de coisas que pareciam normais”, como ingerir cerejas sem cuspir o caroço ou engolir chicletes por distração. Antes do fim, contudo, fosse ele provocado por doença, crime ou asfixia, imperava a brutalidade. “A vida era assim e ponto final, crescíamos com a obrigação de torná-la difícil aos outros antes que os outros a tornassem difícil para nós.”

A tetralogia napolitana – formada pelos romances A Amiga GenialHistória do Novo SobrenomeHistória de Quem Foge e de Quem Fica e História da Menina Perdida – tem mais de 1 500 páginas, muitos personagens e reviravoltas, mas a sua trama central é simples. Lenu – brilhante, intensa, boa aluna na escola – quer escapar dessa barbárie, fugir de seu bairro para a civilização, embora esse desejo seja sempre difuso e mal articulado: nunca é claro no que consistiria a fuga e de que modo ela se daria. Raffaella Cerullo, a Lila, é a sua melhor (e, muitas vezes, pior) amiga. Lila também é intensa e brilhante como Lenu, mas o seu brilhantismo é anárquico, autodidata. Ela rejeita os estímulos de professores e caçoa das promessas de uma futura felicidade burguesa em algum lugar mais civilizado. É uma menina prodígio niilista, cética diante das instituições e dos intelectuais grã-finos. O fio narrativo que conduz os livros é a amizade turbulenta entre essas duas personagens, contada desde a primeira infância até a velhice.

SÓ PARA ASSINANTES.

Os direitos autorais de todo o material apresentado neste site, inclusive imagens, logotipos, fotografias e podcasts, são de propriedade da revista piauí ou de seu criador original. A reprodução, adaptação, modificação ou utilização do conteúdo aqui disponibilizado, parcial ou integralmente, é expressamente proibida sem a permissão prévia da revista ou do titular dos direitos autorais.

ASSINANTE PIAUÍ

Use o mesmo e-mail e senha cadastrados no site da Ed. Abril no ato da assinatura. Esqueceu a senha ou o e-mail ?