esquina

Estado inexistente

Piauienses, vamos curar essa crise de auto-estima!

Consuelo Dieguez
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2007

O mapa não mente. O Piauí é uma das 27 unidades federativas do Brasil e está localizado na região Nordeste. É limitado, ao norte, pelo Oceano Atlântico; a leste, pelo Ceará e por Pernambuco; ao sul, pela Bahia; a sudoeste, pelo Tocantins, e, a oeste, pelo Maranhão.

Mas não adiantou. A edição 2007 do Guia Quatro Rodas, a principal publicação de turismo brasileira, ignorou o estado na sua seção Roteiro de Viagens, a mais nobre do guia. Das dezoito páginas dedicadas ao Nordeste – todas com fotos grandiosas, mapas minuciosos e dicas imperdíveis –, oito são gastas com as praias e as chapadas da Bahia. Duas falam de Sergipe e Alagoas, “gigantes no turismo”. Pernambuco surge como o estado que abriga “algumas das praias mais bonitas do país”. A Paraíba e o Rio Grande do Norte “têm atrações para todos os gostos”. No Ceará, “a vida é boa”. Até aí, tudo bem. Mas justo na hora de cruzar a fronteira e entrar no Piauí, o guia dá um salto e aterrissa, sem escalas, no Maranhão. Os 251 529 quilômetros quadrados de área (pouco maior que uma Grã-Bretanha), os 66 quilômetros de praias, as 223 cidades e os 3 milhões de habitantes simplesmente evaporaram.

Os piauienses sentiram o golpe. Há anos eles têm a sensação de não existir. Já se tornou tristemente célebre o episódio de 1998, quando um livro didático de geografia, editado no Paraná, simplesmente elidiu o estado. Não deixou nem uma nesga de solo piauiense para contar história. O traçado revelava um gigantesco Maranhão colado à Bahia e ao Ceará. O pobre piauiensezinho que se dispusesse a achar o seu torrão natal se descobriria um desterrado. Sem estado, sem naturalidade e até sem o rio Parnaíba – o que, no mesmo golpe, ainda transformou Torquato Neto, o famoso poeta piauiense morto em 1972, num dedicado discípulo do surrealismo: “Ê, São João, ê Pacatuba/ rua do Barrocão/ Parnaíba passando/Separando a minha rua/Das outras do Maranhão”.

Os piauienses não se conformam de serem sempre ignorados quando o assunto é turismo. Faz pouco tempo, a Globo fez uma enorme reportagem sobre as atrações nordestinas. Neca de Piauí. “Essa sensação de exclusão é muito dolorosa. É muito comum esquecerem de nós. Tanto nos livros escolares como nos roteiros turísticos”, suspira Sílvio Leite, o secretário de Turismo do estado. ”

Só lembram quando o assunto é fome ou miséria.”

 

L

eite não tem dúvida de que esse descaso nacional afetou a psique dos cidadãos: “O piauiense sofre de baixa auto-estima”. É um diagnóstico inescapável. “Enquanto os outros estados nordestinos divulgam suas maravilhas, no Piauí, o turista, quando chega, é imediatamente levado para comer sanduíche do McDonald’s no shopping”, lamenta. “E olha que aqui nós temos uma culinária original, que inclui buchada de bode, panelada e galinha caipira.” O estado também conta com a escola cujos alunos obtiveram a maior nota no Enem de todo o país, mas nem isso serviu para mitigar a dor. Segundo pensa, o sentimento de rejeição é tão forte que os próprios piauienses acabam convencidos de que o estado é sem graça. O caso é sério. Tanto assim, que o estado resolveu lançar uma grande campanha para levantar o astral da população. O lema é direto: “Piauí: é feliz quem vive aqui”. Sílvio Leite acredita que o piauiense haverá de reagir e desfraldará o seu orgulho: “Precisamos gritar para o mundo que o Piauí existe”.

A direção do Guia Quatro Rodas afirma que há um mal-entendido. “Todo ano nós renovamos os roteiros de sugestões de viagens. Não é demérito nenhum o Piauí ter ficado de fora. Outros estados também ficaram e em nenhum deles houve essa celeuma”, argumenta José Eduardo Camargo, editor da publicação. O diretor do Quatro Rodas, Caco de Paula, aproveita para fazer um afago no estado: “No guia, nós citamos inúmeras atrações locais. Eles só ficaram de fora do Roteiro de Viagens. Adoramos o Piauí e os piauienses. Eles moram, de pijaminha, no nosso coração”, diz ele. Estará sendo irônico?

Nem tudo são flores no Piauí, reconheça-se. Pelos dados do IBGE, a renda per capita dos piauienses só ganha dos maranhenses, dona da pior marca entre as 27 unidades da Federação. “Já faz um tempinho que o Piauí ocupa lugar de destaque no anedotário nacional”, reclama o professor de português e produtor cultural Cinéas Santos, de Teresina, estudioso da história piauiense. “Além de arrastarmos a nossa auto-estima na palmilha do sapato, nossos representantes no Congresso são áulicos bisonhos. Assim, vamos ficando à margem de tudo, seja de um guia, seja de um livro didático.” Santos reclama que “a face luminosa do Piauí” – a cultura que se produz ali – nunca é mostrada. “Que nos deixem de fora de um guia turístico, dói um pouco. Mas o que dói de verdade é a deliberada ignorância sobre o que fomos e o que somos”. Ele desafia: “Alguém sabe que a Batalha do Jenipapo foi travada aqui?”.

Nós não sabíamos. Mas fomos nos informar. Eis algumas sugestões espetaculares de viagem. No litoral, na fronteira com o Maranhão, não deixe de conhecer o Delta do Parnaíba, o único em mar aberto das Américas. O Parque Nacional de Sete Cidades, em Piracuruca, próximo à divisa com o Ceará, é outra atração de dar gosto; nesta, que é uma das mais belas concentrações rochosas do Brasil, o turista se deleitará não só com a paisagem em geral, mas também com a fauna e a flora bem preservadas. Mais ao sul, visite o Parque Nacional da Serra da Capivara – patrimônio cultural da humanidade –, em São Raimundo Nonato, e o Parque Nacional da Serra das Confusões, em Caracol, que vale a pena só pelo nome. O Piauí existe e é legal.

Consuelo Dieguez

Consuelo Dieguez, repórter da piauí desde 2007, é autora da coletânea de perfis Bilhões e Lágrimas, da Companhia das Letras

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