Ver dados da foto ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2007

Estalos lítero-policiais

Um nome vale mais do que mil prisões
Paula Scarpin
Tamanho da letra
A- A+ A
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2007

Navalha, desvio de recursos públicos federais. Hurricane, jogo ilegal. Oráculo, fraudes em concursos públicos e vestibulares. Ctrl+Alt+Del, roubo de senhas bancárias pela internet. Eros, venda de remédio ilegal para correção da disfunção erétil. Toupeira, construção de um túnel para roubar bancos. Sanguessuga, fraudes em licitações na área da saúde. Narciso, sonegação fiscal da Daslu.

Desde 2002, o nome das operações da Polícia Federal se tornou uma ferramenta de combate ao crime organizado. Indubitavelmente, ganharam personalidade. Maledicentes podem insinuar que se trata de mera estratégia de marketing. Afinal, num país desanimado com a morosidade da Justiça, pode ser mais fácil chamar a atenção dos contribuintes cutucando a curiosidade deles sobre que raio de nome é esse do que torcendo para que eles acompanhem os desdobramentos legais das investigações, que, como se sabe, são quase nenhum.

É possível que essa criatividade nominativa tenha dado o ar de sua graça em dezembro de 2002, quando a Polícia Federal desarticulou o jogo do bicho em Mato Grosso. O nome da operação, Arca de Noé, era de fato um achado. Além da alusão à passagem bíblica cheia de bichinhos, a palavra “arca” ainda remetia ao principal envolvido no caso: João Arcanjo Ribeiro, o Comendador Arcanjo. Mais tarde, em fevereiro de 2005, a operação Big Brother prendeu cinco pessoas envolvidas num esquema que fraudava documentos para obter o pagamento de títulos da dívida pública da Petrobras e da Eletrobrás. Bingo: as fraudes estavam relacionadas ao Banco do Brasil, que compartilha suas iniciais com o reality show da Globo. Mais um grande nome.

Pergunte-se a qualquer pessoa na PF e todas dirão, oficialmente, que o órgão não dispõe de um funcionário de cujas atribuições faça parte o dom do batismo. Bobagem. Se alguém suspeitava da existência de tal pessoa, aqui vai a notícia: ela existe. Chama-se Zulmar Pimentel, tem 56 anos e é diretor-executivo da Polícia Federal. Traz no currículo desde a investigação do caso PC Farias até a implantação das grandes operações da PF. “Estávamos numa fase em que a PF andava muito burocrática. Minha experiência era de fazer muito inquérito, mas o processo é demorado e a população não fica sabendo do resultado.” Pimentel estudou a legislação vigente e percebeu que era possível atacar na base da tocaia e do bote. “A lei nos permite fazer essas operações que surpreendem o crime organizado. Até hoje os criminosos não conseguiram desenvolver um mecanismo para evitar o elemento surpresa.”

De fato. A recente operação Navalha, que, entre ex-governadores, lobistas, políticos, funcionários públicos e empreiteiros, já levou mais de 48 pessoas à cadeia, deu um bote no próprio Pimentel. A investigação, desdobramento da operação Octopus (ligações tentaculares entre policiais federais e um grupo de empresários na Bahia), foi conduzida pela contra-inteligência da Polícia Federal. O diretor-executivo foi acusado de vazar informações sigilosas para colegas suspeitos de envolvimento com contrabando e corrupção, comprometendo as investigações. Pimentel, forte candidato ao posto de diretor-geral da PF, rebate dizendo que “não é a primeira vez que pessoas interessadas no cargo tentam comprometer meu nome”. O número 1 da PF, Paulo Lacerda, defendeu-o. O destino de Pimentel agora está nas mãos do Superior Tribunal de Justiça. Não por acaso, o nome da operação – alusão ao instrumento que se fecha em si mesmo e corta “na própria carne” – não foi criação dele.

Foi uma exceção, já que Pimentel, nas horas vagas, dedica-se a batizar os frutos de seu labor. Ele custa a admitir que as alcunhas partam dele. Avesso a entrevistas, prefere pôr a instituição em primeiro plano. Na assessoria de imprensa da PF, informa-se que os próprios delegados é que batizam as operações que comandam. De fato, alguns deles ultimamente já chegam a Pimentel com sugestões criativas, mas a palavra final é do diretor-executivo. No começo de maio, na Paraíba, o delegado responsável pela operação 274 havia sugerido um nome que não lhe soou conveniente. “Agora eu não me recordo qual era”, alega Pimentel, talvez para não expor o gosto duvidoso do colega. O nome afinal escolhido alude ao preço da gasolina na região metropolitana de João Pessoa, 2,74 reais.

Pimentel fez escola. Há subordinados seus que já pegaram a manha, como o delegado que batizou de Isaías a operação de combate à extração ilegal de madeira no Amapá. Inspirou-se na passagem bíblica em que o profeta adverte: “Restarão tão poucas árvores em sua floresta, que um menino poderá contá-las”. Esperto, o delegado foi na certa. Sabia que o chefe não se oporia. Pimentel é evangélico. As grandes operações da PF estão coalhadas de referências às Sagradas Escrituras: Anjo da Guarda (pedofilia), Monte Éden (sonegação fiscal), Babilônia (tráfico de seres humanos) e Galiléia (fraudes licitatórias nas docas do Pará).

 

Na sede da PF em Brasília, duas jovens secretárias, Maura e Elma, se revezam em turnos de seis horas para cobrir as doze do expediente do “doutor Zulmar”. Numa tarde de maio, elas davam retaguarda à reunião do chefe com membros da equipe. Quem chegava atrasado entrava sem ser anunciado, mas não sem antes cumprimentar Elma com beijos e abraços. O clima é de grande informalidade. Um rapaz espeta a cabeça na ante-sala e pergunta à secretária se o doutor vai engraxar os sapatos hoje. Elma abre a porta do chefe – na plaquinha, em vez do nome de Pimentel, lê-se “Jesus é meu pastor” – e volta com a resposta: “Ele disse que está numa reunião importante, que fica chato ficar descalço agora. Perguntou se você pode voltar depois”.

A sala de Pimentel é enorme. Sua mesa de trabalho é abarrotada de pastas, livros e papéis. Na parede, pende a sorridente foto oficial do presidente da República. Pelo chão e nas prateleiras, disputando espaço com livros, há uma infinidade de vasos e potes. Os menores são de origem marajoara, adquiridos por Pimentel para decorar o escritório.

Zulmar Pimentel prestou concurso para a PF em 1975. Nascido no Amazonas e casado com uma paraense, já tinha quatro filhos quando iniciou seu périplo pelo Brasil. Morou em Recife, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Ponta Porã e agora, Brasília. Nunca se esqueceu do Norte. Além dos nomes bíblicos, as operações da PF também sofrem uma forte influência da cultura amazônica, como atestam a Curupira (extração ilegal de madeira), a Matinta Perera (corrupção de auditores fiscais) e a Buritis (corrupção na Polícia Rodoviária Federal).

Duas filhas de Pimentel são advogadas, mas, segundo ele, nenhuma delas pretende entrar para a polícia. Ele também garante que, em casa, a PF não é o assunto predominante. A família só toma conhecimento das operações pela TV. “Sabem que eu viajo em toda operação. No outro dia, quando vêem no noticiário o que está acontecendo, fazem a relação. São apenas espectadoras.”

Pimentel não revela os nomes dos filhos nem da esposa.

ASSINANTE PIAUÍ

Use o mesmo e-mail e senha cadastrados no site da Ed. Abril no ato da assinatura. Esqueceu a senha ou o e-mail ?