esquina

Fala padrão

Impostação de voz para trans

Paula Scarpin
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2017

Um homem de jaleco branco e barba meticulosamente aparada entrou na saleta com um par de eletrodos nas mãos. “Preparada para levar uns choquinhos?”, perguntou o fonoaudiólogo João Lopes. A paciente respondeu com um olhar de esguelha, enquanto prendia a vasta cabeleira ondulada sobre a cabeça, expondo o pescoço. Era a sua oitava sessão no ambulatório da Universidade Veiga de Almeida, a UVA, na Zona Norte do Rio de Janeiro – mas até aquele momento a terapia tinha se resumido a massagens no pescoço e exercícios de projeção da voz. A novidade elétrica deixou-a desconfiada.

“Pode começar o humming”, orientou Lopes. Helena de Souza pôs-se imediatamente a produzir uma vibração de “hummm” nas profundezas da garganta. Enquanto isso, Lopes movia os eletrodos verticalmente, de baixo para cima, no perímetro da laringe. Era como se afinasse um instrumento. Aluna de medicina da UFRJ, Souza vinha procurando tratamento fonoaudiológico desde que começou sua transição de gênero, há dois anos. “A voz é 60% da imagem”, disse ela. “Se você vê alguém andrógino como eu, e fica na dúvida se é homem ou mulher, é a voz que dá o veredicto.”

O fonoaudiólogo, que, além de professor na graduação da UVA, ministra técnica vocal em cursos de teatro, está acostumado a treinar atores homens para papéis femininos, e vice-versa. Em meados de 2015, ao mencionar esse seu trabalho em sala de aula para futuros fonoaudiólogos, ouviu o comentário de uma aluna: “Isso deve ajudar bastante as pessoas trans, não é?”

Lopes jura que a ideia nunca lhe tinha passado pela cabeça. Mais tarde, com alguma pesquisa no Google, descobriu que a técnica já era usada por outros fonoaudiólogos no país – o que não existia ainda era um serviço gratuito que, de resto, podia ser vinculado à pesquisa acadêmica, ideia que o professor passou a perseguir. Montou, junto com um grupo de orientandos, um projeto que pudesse apresentar à reitoria da universidade. Poucos meses depois, no início de 2016, recebeu a autorização para montar o ambulatório.

“A gente começou com apenas três pacientes, todas profissionais do sexo”, contou o fonoaudiólogo, entre um atendimento e outro. “Hoje já são 24, das áreas mais diversas. Temos funcionários públicos, professores, atores.” Desses, no entanto, só quatro são homens transgênero – que nasceram com o sexo feminino. O professor explicou que, além da maior visibilidade das mulheres trans, existe ainda uma questão fisiológica importante: “Quando alguém quer transicionar de mulher para homem, ministra em si mesmo a testosterona. Esse hormônio está ligado ao aumento de massa muscular – e, como corda vocal é músculo, a voz tende a engrossar naturalmente”, disse. O estrogênio, hormônio feminino, em contrapartida, não tem o efeito inverso.

Para afinar vozes mais graves, o fonoaudiólogo utiliza técnicas para levantar a laringe – ou o gogó –, como a estimulação manual ou por impulso elétrico. Era o caso da paciente Helena de Souza. Ele conta que existe ainda a possibilidade de estirar as cordas vocais cirurgicamente – mas, além de caro, o procedimento tem grandes chances de provocar lesões irreversíveis nos músculos.

Quem prefere o tratamento mais lento e progressivo da fonoaudiologia precisa dominar também a técnica de ressonância das cavidades do corpo humano: regulando a respiração, projetando a voz para o fundo ou para a frente da boca. Acostumado a treinar artistas, João Lopes se ocupa ainda da “questão performática” da fala, desde a pronúncia até o gestual. “Muitas mulheres trans tentam disfarçar a voz grave anasalando e prolongando as vogais”, disse o professor, emulando o estilo que reprovava. “Em vez de ficar feminino, fica com voz de travesti, caricata.” Esse não era o caso da paciente daquela tarde – que, segundo ele, tinha chegado “quase pronta”. A futura médica sorriu envergonhada com o elogio.

 

Segundo Lopes, o objetivo do ambulatório é “oferecer uma ferramenta de cidadania para essas pessoas que já são tão estigmatizadas”. O fonoaudiólogo contabilizou o sucesso: “Já tivemos duas que arrumaram emprego, outro que conseguiu uma promoção… e até uma que arrumou um namorado!” Enquanto rumava para atender o último paciente do dia, João Lopes parou para supervisionar o trabalho de uma dupla de estagiárias, que aplicavam um exercício com o objetivo de engrossar a voz de um homem trans. Kaíque Theodoro toma testosterona há dois anos e já fez a dupla mastectomia, mas só recentemente voltou a atender ao telefone em casa. “Eu tenho muita vergonha da minha voz fina”, disse. “Quando era adolescente, tentava de tudo pra engrossar: gritava, chupava gelo para ver se ficava rouco e disfarçava um pouco.”

Theodoro contou que vários de seus amigos de militância chegaram a se manifestar contra o fato de ele tentar “normalizar” a própria voz. Ator e cantor, ouviu deles o argumento de que outros artistas, como Ney Matogrosso e Filipe Catto, tinham se beneficiado justamente do timbre feminino. A questão, argumentou Theodoro, é que os dois cantores já nasceram homens: “Eu preciso me aceitar como eu sou antes de ousar assim.”

Também engajada na militância trans, a estudante de medicina Helena de Souza ponderou que é lamentável as pessoas precisarem se encaixar nos padrões tradicionais do que significa ser homem ou mulher – inclusive quanto à voz – para serem aceitas. No entanto, apesar de defender que cada um expresse seu gênero como quiser, ela acredita que “quase toda trans é um pouquinho transfóbica” – e se incluiu na crítica: “Se eu não fosse, não ia querer passar despercebida, como alguém que nasceu mulher.”

Paula Scarpin

Paula Scarpin é repórter da piauí desde 2007. Também é responsável pelos podcasts no site da revista

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